PT vai à guerra (?)

Posted by eduguim

Sob a liderança de Lula e com a concordância da presidente Dilma, o Partido dos Trabalhadores parece finalmente ter entendido que estava sendo tramado um golpe eleitoral contra si. A direita midiática pretendia usar o julgamento do inquérito do mensalão pelo Supremo Tribunal Federal neste semestre ou, no máximo, no próximo – em pleno processo eleitoral – para vitaminar a oposição e debilitar o PT.

Eis que cai no colo do partido o escândalo envolvendo Carlinhos Cachoeira e expoentes da oposição demo-tucana como a vestal-mor da República, o senador Demóstenes Torres (ex-DEM-GO), e o acusador de Lula de ter tomado conhecimento do “mensalão”, o governador de Goiás, Marconi Perillo.

Aturdida, a mídia passa a tentar se desvincular de Demóstenes e cai de pau em cima dele afetando indignação e se dizendo “traída”. Parceira de Cachoeira, que lhe fundamentou a maioria dos ataques ao PT – inclusive durante eleições presidenciais – na década passada e que acabara de ser flagrada em centenas de contatos diretos com o bicheiro, tenta reagir à ameaça de investigação por suas relações com o crime organizado e desencadeia uma campanha em que ameaça o partido do governo com um “efeito bumerangue” contra si e o governo Dilma caso a investigação prossiga.

Poucos dias após dizer que Lula e Dilma apoiavam a criação da CPI, agora a mídia diz que a presidente e “setores do PT” estariam “com medo” da investigação. Além disso, atende à estridência do senador tucano do Paraná, Álvaro Dias, que vinha afirmando que o vazamento de escutas seria seletivo, e começa a noticiar cobranças ao ministro da Justiça, José Eduardo Cardoso, sobre os vazamentos e a tal “seletividade” cobrada pela oposição.

O PT reage com vídeo de seu presidente, Rui Falcão, em que denuncia que a mídia quer abafar o escândalo de Cachoeira e impedir a CPI, e cobra empenho do partido e de aliados pela instalação da investigação e posterior desmascaramento da “farsa do mensalão”.

Em seguida, o partido divulga em seu site resolução política em que repete a exortação de seu presidente e também denuncia uma “Operação abafa em torno do envolvimento do senador Demóstenes Torres (DEM-Goiás) com a organização criminosa comandada pelo notório Carlos, alcunhado de Carlinhos  Cachoeira”.

Por fim, nesta sexta-feira 13, no Jornal Folha de São Paulo, uma prévia daquilo em que deverá se transformar a CPI que a mídia tenta convencer o PT a não levar adiante ou, se levar, que ao menos não leve a sério, sob ameaça de transformá-la em uma CPI contra si mesmo. Ciente do envolvimento da Editora Abril, que edita a Veja, e possivelmente de outros meios de comunicação nas investigações, o jornal dá outro passo para o inevitável.

Em primeiro lugar, publica artigo de Rui Falcão que desanca a oposição e a mídia e as acusa de envolvimento com o crime organizado. Abaixo, reproduzo o texto.

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FOLHA DE SÃO PAULO

13 de abril de 2012

Tendências / Debates

Página A3

CPI na falsa Vestal

Por Rui Falcão

Mais do que uma “vendetta” contra o fanfarrão, a CPI pode explicar o que existia além da ligação de patrão e empregado entre Cachoeira e Demóstenes

O episódio que revelou a escandalosa participação do senador Demóstenes Torres (ex-DEM) em uma organização criminosa merece algumas reflexões e, olhando para o futuro, uma ação imediata.

Desde que foi constatada a cumplicidade do senador com uma gama infindável de crimes, assistimos a uma tentativa (às vezes ridícula)de explicação para o logro em que alguns caíram.

Como justificar que o arauto da moralidade, crítico feroz dos governos Lula e Dilma, trabalhava e traficava informações, obtidas pelo uso indevido do mandato, para um conhecido contraventor?

Até a psicanálise foi fonte de argumentos na tentativa vã de entender as ligações do senador com o contrabando, o jogo ilegal, a escuta clandestina e a espionagem. todas práticas tipificadas no Código Penal.

O certo, porém, é que a veneração que setores da mídia nutriam por Demóstenes refletia uma espécie de gratidão pela incansável luta, essa sim verdadeira, do parlamentar contra todos os avanços sociais obtidos pelos governos petistas.

Ressalte-se, aliás, que mesmo depois de flagrado na participação ativa em organização criminosa, o ainda senador, fingindo ignorar o mundo real, arvora-se a analisar, sob o crivo crítico dos tempos de falsa vestal, ações do governo Dilma.

Mais do que uma “vendetta” contra o fanfarrão, porém, o Congresso está diante de uma oportunidade única de desvendar um esquema que, pelo que foi divulgado até agora, não se resume à ligação de empregado e patrão entre Demóstenes e o contraventor Carlinhos Cachoeira.

A morosidade do inquérito em algumas de suas fases e as ligações pessoais do promotor de carreira Demóstenes Torres com membros do Judiciário precisam ser investigadas. O mesmo se exige na apuração de vínculos obscuros do senador com altos mandatários de seu Estado, Goiás, bem como de sua quadrilha com veículos de comunicação. Que não se permita a operação abafa em andamento. Que se apure tudo, até para dissipar suspeitas.

O único caminho para o esclarecimento passa por uma CPI no Congresso, onde alguns parlamentares também foram ludibriados pelo falso paladino das causas morais.

Cabe à Câmara e ao Senado, sem nenhum espírito de corpo, aproveitar a oportunidade única de desmascarar a farsa até o fim.

Talvez, no caminho da investigação, descubramos outros pregadores da moralidade que também se beneficiem do esquema que se abastecia das informações colhidas e transmitidas ao chefe pelo senador Demóstenes Torres.

A história brasileira registra outros episódios em que a pregação das vestais serviu para embalar a defesa de interesses sempre contrários aos da maioria da população. O falso moralismo udenista não está tão distante.

Se a forma do engodo não é nova, cabe ao Congresso provar, com a CPI, que o país está disposto a dar um basta a esquemas de banditismo. O Partido dos Trabalhadores defende a instalação de CPI no Congresso e conclama a sociedade organizada a se mobilizar em defesa da mais ampla apuração do esquema corrupto desvendado pela Polícia Federal na Operação Monte Carlo.

Rui Falcão é deputado estadual (SP) e presidente nacional do PT

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Na mesma edição, na página A7, o jornal, finalmente, materializa quase que por completo a assunção inevitável de um assunto que já dá de barato que virá à pauta por força da CPI, caso o PT continue se mantendo disposto a ir à guerra contra a inversão de uma investigação que surpreenderá o país ao expor as relações incestuosas entre imprensa, oposição e crime organizado.

Abaixo, a “reportagem” que pretende responder ao texto do presidente do PT publicado quatro páginas antes.

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FOLHA DE SÃO PAULO

13 de abril de 2012

Tendências / Debates

Página A7

Catia Seabra / Márcio Falcão, de Brasília

PT associa “setor da mídia” a criminosos e defende regulação

Partido afirma que relações reveladas pelo caso Cachoeira comprovam “urgência” de medidas de controle da imprensa

Em evento ontem no Planalto, no entanto, a presidente Dilma Rousseff defendeu a liberdade de imprensa

BRASÍLIA – O PT vai usar a instalação da CPI do Cachoeira para voltar a investir contra a mídia. A disposição está expressa em documento divulgado ontem pela cúpula do partido.

Redigido pelo comando petista, o texto cita a investigação do esquema de Carlos Cachoeira, acusado de exploração do jogo ilegal, a pretexto de voltar a cobrar a fixação de um marco regulatório para os meios de comunicação.

“Agora mesmo, ficou evidente a associação de um setor da mídia com a organização criminosa da dupla Cachoeira-Demóstenes, a comprovar a urgência de uma regulação que, preservada a liberdade de imprensa e livre expressão de pensamento, amplie o direito social à informação”, diz a nota.

Mesmo sem dar nomes, o alvo primário do PT é a revista “Veja”. Em grampos já divulgados do caso, um jornalista da publicação tem o nome citado por membros do grupo do empresário.

A revista já publicou texto informando que Cachoeira era fonte de jornalistas, inclusive do chefe da sucursal de Brasília, Policarpo Júnior, e que não há impropriedades éticas nas conversas.

Integrantes da Executiva do PT e congressistas do partido defendiam que a “Veja” fosse investigada na CPI.

O cálculo político petista inclui o raciocínio segundo o qual o bombardeio sobre mídia e oposição poderá concorrer na opinião pública com o julgamento do mensalão -o esquema de compra de apoio político ao governo Lula descoberto em 2005, que deve ser apreciado pelo Supremo Tribunal Federal neste ano.

O próprio presidente petista, Rui Falcão, falou que a CPI deve investigar “os autores da farsa do mensalão”.

Há a intenção de questionar reportagens sobre o mensalão usadas como prova judicial. A estratégia é tentar comparar a produção de reportagens investigativas, que naturalmente envolvem contato de jornalistas com fontes de informação de várias matizes, a práticas criminosas.

Para tanto, segundo a Folha apurou, réus do mensalão como o ex-ministro José Dirceu instruíram advogados a buscar menções à revista e à mídia nas apurações da PF sobre o caso Cachoeira. Dirceu vai a evento no final de semana sobre regulamentação da mídia em Fortaleza.

O movimento do PT contrasta com discurso da presidente Dilma Rousseff. Ontem, em cerimônia do Minha Casa, Minha Vida, ela defendeu a liberdade de imprensa.

“Somos um país que convive com a liberdade de imprensa, somos um país que convive com a multiplicidade de opiniões, somos um país que convive com a crítica.”

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Como se vê, o jornal termina o texto como que recorrendo a Dilma.

E como disse acima, a matéria escancarou quase tudo. Faltou informar ao distinto público que o que houve entre a Veja e Cachoeira não foi “Produção de reportagens investigativas, que naturalmente envolvem contato de jornalistas com fontes de informação de várias matizes”, mas centenas de ligações telefônicas, encontros e declarações comprometedoras da quadrilha que afirmam que Cachoeira foi o autor intelectual de “todos” os ataques da Veja ao PT.

A única coisa que se espera do partido, portanto, é que não aceite uma negociata que envolva recuo da direita midiática no uso político do julgamento do mensalão, talvez até com postergação desse julgamento, em troca de a CPI não fazer tudo o que prometem o presidente do PT e o próprio em vídeo e textos supra reproduzidos.

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MPF move 31 ações contra 39 prefeitos e ex-prefeitos por irregularidades na contratação de shows com verbas do Turismo

Ex-deputado federal Vadão Gomes e 43 intermediadores de shows também foram acionados; prejuízo à União pode ter sido de quase R$ 14 milhões somente em 81 convênios na região noroeste do Estado

O Ministério Público Federal em Jales (601 km a noroeste de São Paulo) ajuizou 31 ações de improbidade administrativa contra 83 pessoas, sendo 39 prefeitos e/ou ex-prefeitos de cidades da região noroeste do Estado de São Paulo, um ex-deputado federal e 43 intermediadores de shows que  violaram as regras para a contratação de artistas para shows musicais em festas promovidas com recursos federais obtidos por meio de convênio com o Ministério do Turismo (MTur).

Apenas com os 31 municípios objeto das ações de improbidade a União fechou 81 convênios, no valor total de R$ 13.961.248,00, para a realização de diversas festas, desde eventos de grande porte, como a 40ª Feira Agrícola, Comercial, Industrial e Pecuária de Jales, realizada em 2009, com dotação de R$ 717 mil, até eventos com dotação de R$ 50 mil. Cada ação versa sobre os convênios de um município. Somente na cidade de Jales, por exemplo, foram investigados sete contratos.

O principal problema detectado pelo MPF, que analisou mais de 15 mil folhas de documentos para propor as ações, está na forma como foram contratadas as atrações musicais das feiras e festas de interior. Em todos os casos analisados pelo MPF os artistas foram contratados por intermediários (na sua maioria, pequenos empresários do ramo de produção artística), que detinham “exclusividade” na comercialização dos artistas somente nas datas em que estes tinham shows nas cidades, conforme cartas de exclusividade acertadas com os reais empresários dos artistas.

Tal irregularidade já foi reconhecida pelo Tribunal de Contas da União que, inclusive, recomendou atenção ao MTur para combater este artifício de contratar intermediários. A lei de licitações prevê em seu artigo 25 que pode haver dispensa de licitação na contratação de artistas, mas desde que seja inviável a competição, ou seja, desde que eles tenham empresário exclusivo ou sejam consagrados pela crítica especializada ou pela opinião pública.

“O que ficou provado nas investigações feitas pelo Ministério Público Federal é que as contratações não aconteceram de acordo com a lei, pois as ‘cartas de exclusividade’ apresentadas pelos produtores de shows contratados pelas prefeituras revelam justamente o contrário, que estas pessoas não são os reais empresários exclusivos dos artistas, mas intermediários que fecham shows nos dias das feiras e festas realizadas nos municípios da região”, afirma o procurador da República Thiago Lacerda Nobre, autor das ações de improbidade.

USO POLÍTICO – O ex-deputado federal Etivaldo Vadão Gomes é um dos demandados pelo MPF a dar explicações na ação de improbidade contra o município, pois a Polícia Federal e o MPF detectaram que foi feita promoção ilegal da imagem do então deputado na 41ª Feira Agrícola, Comercial, Industrial e Pecuária de Jales – FACIP 2010, que ocorreu a menos de seis meses das eleições.

O MPF juntou à ação o vídeo oficial da FACIP. No referido vídeo consta, dentre outras passagens, o instante em que o então deputado é anunciado pelo locutor e chamado à arena de rodeio. Enquanto entra no local, toca o jingle da campanha do político, apresentado como “o amigo de Jales” e “nosso deputado federal”. O apresentador ainda acrescenta: “não é segredo pra ninguém que a FACIP 2010 veio ser viabilizada através de uma verba que Vadão lutou e conseguiu pra nós juntamente (sic) em Brasília”.

Segundo a prefeitura de Jales disse ao MPF, tal momento não foi promoção, mas apenas uma “homenagem” ao ex-deputado.  A entrada em cena de vadão contou ainda com o uso do telão da arena no qual foi projetado um vídeo institucional sobre a construção da Ferrovia Norte-Sul, bem como o momento em que o então parlamentar profere um discurso a respeito do progresso e desenvolvimento que a referida obra proporcionará, ressaltando, ainda, “outras conquistas” dele para a região, como a construção do Hospital do Câncer na cidade de Jales.

Em 2010, o MPF havia recomendado ao prefeito de Jales, entre outras medidas relativas aos convênios para a realização de festas, que estava vedada a utilização de nomes, símbolos ou imagens que poderiam caracterizar a promoção pessoal de autoridades ou servidores públicos, cuidado que deve sempre permear a vida do agente público, especialmente em ano onde ocorreriam eleições.

Além disso, o artigo 8° da Portaria n° 153 do MTur, vigente à época dos fatos, foi categórica ao vedar tais condutas promocionais durante a execução do convênio. A “homenagem” também desrespeitou o artigo 37, parágrafo 1º, da Constituição, que prevê que “a publicidade dos atos, programas, obras, serviços e campanhas dos órgãos públicos deverá ter caráter educativo, informativo ou de orientação social, dela não podendo constar nomes, símbolos ou imagens que caracterizem promoção pessoal de autoridades ou servidores públicos”.

PUBLICIDADE – Na ação contra a prefeitura de Meridiano, na qual o MPF aponta irregularidades em quatro convênios firmados entre aquela cidade e o Ministério do Turismo, o MPF chama a atenção para os gastos com publicidade do “3º Rodeio Show de Meridiano com 20ª Festa do Peão de Boiadeiro”, que recebeu R$ 402 mil de subvenção do Mtur, por meio do convênio n° 703575/2009.

Desse total, R$ 96 mil, quase 25% do total, segundo a prestação de contas feita pelo município, foram gastos com publicidade para o evento, que também contou com shows contratados irregularmente. Os gastos com publicidade previam confecção de cartazes, veiculação em televisão, caminhão de som com trio elétrico, mídia impressa (jornal), rádio e outdoor.

Para Nobre, o gasto com a divulgação é injustificado, ainda mais quando confrontado com as informações juntadas pela prefeitura no inquérito, que não trazem, por exemplo, comprovação dos serviços de publicidade executados. Não há nos autos “fotografias do trio elétrico, DVD ou relatório de divulgação do evento através de veiculação em rádio e televisão, bem como amostras de jornais contendo a referida publicidade”.

Em Estrela D´Oeste aconteceu algo semelhante. Dos R$ 550 mil recebidos do MTur, por meio do convênio 704329/2009, para a 7ª Expo-Estrela – Exposição Agropecuária de Estrela D’ Oeste/SP, R$ 136,5 mil (quase 25% do valor da subvenção) foram destinados à empresa contratada para a publicidade do evento, que deveria fazer cartazes e providenciar veiculação em televisão, caminhão de som com trio elétrico, mídia impressa (jornal), rádio e outdoor.

Apesar de toda essa lista de serviços, a nota fiscal apresentada pela prefeitura sequer descrimina os serviços realizados.

MAIS CARO QUE O MERCADO – Além da contratação irregular de artistas, há casos em que os empresários contratados pelas prefeituras para trazer artistas às festas receberam mais do que os artistas. É o caso da empresa de Marcos Avena, contratada pela prefeitura de São João de Iracema, para trazer três duplas sertanejas à 13ª Festa do Peão de Boiadeiro de 2009, que recebeu R$ 70 mil para contratar os artistas, que receberam ao todo apenas R$ 55 mil. O empresário de uma das duplas, Jad´s e Jadson, recebeu R$ 20 mil pelo show na festa, mas Avena informou à prefeitura que pagaria R$ 30 mil pela apresentação.

O caso acima foi descoberto pela Controladoria Geral da União durante uma fiscalização por sorteio, realizada em todos os contratos da cidade com a União. Na mesma festa do Peão foi detectada outra contratação sem a devida exigência de licitação.

Além dos shows das duplas, a prefeitura contratou uma empresa para montar as estruturas tubulares para a festa por R$ 35 mil sem licitação. Segundo parecer jurídico do município, analisado pela CGU, como o convênio com a União havia sido publicado em 4 de dezembro e a festa era no dia 9, a tradição do evento e o pouco tempo até a data de sua realização autorizavam a contratação sem licitação, pois confirmariam o caráter emergencial da contratação. O argumento não convenceu a CGU que entende que não houve licitação por falta de planejamento do município.

Esta semana, após o ajuizamento das ações, o MPF encaminhou ofício ao Ministério do Turismo para que sejam analisados detidamente todos os 81 convênios citados nas ações. No documento, o MPF requer que os convênios cujas contas tenham sido aprovadas, as prestações sejam reabertas e instauradas tomadas de contas especiais.

Nas 31 ações, o MPF requer a condenação dos réus nas penas previstas da lei de improbidade administrativa, que prevê, entre outras punições, devolução dos recursos empregados indevidamente, proibição de contratar com o poder público, perda da função pública, suspensão dos direitos políticos e pagamento de multa.

Confira AQUI  com o resumo e link para as ações civis sa tabela obre as irregularidades em festas nos municípios de: Aparecida d´Oeste, Auriflama, Dirce Reis, Estrela d´Oeste, Fernandópolis, General Salgado, Gulozândia, Ilha Solteira, Indiaporã, Jales, Macedônia, Marinópolis, Meridiano, Mira Estrela, Nova Castilho, Ouroeste, Palmeira d´Oeste, Paranapuã, Pereira Barreto, Pontalinda, Populina, Rubinéia, São João das Duas Pontes, São João de Iracema, Santa Albertina, Santa Fé do Sul, Santa Rita d´Oeste, Santa Salete, Três Fronteiras, Turmalina e Urânia.

Assessoria de Comunicação
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Mais informações à imprensa: Marcelo Oliveira
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PT volta a crescer na capital paulista e reforça expectativa de eleição em 2012

Presidente do Diretório Municipal do PT, Antônio Donato analisa resultado das eleições de 2010 em São Paulo e afirma que o partido volta a ter condições de disputar a hegemonia na cidade.

Por Leandro Rodrigues – PT – SP

Com o resultado das eleições de 2010, o PT volta a ter condições de disputar a hegemonia na cidade São Paulo, segundo avalia o presidente do Diretório Municipal do partido, vereador Antônio Donato. Em entrevista ao portal, Donato explica que o partido seguia em curva decrescente de votação na capital desde 2004, mas que o processo foi revertido neste ano com a ampliação do eleitorado e os 46,4% (2.961.897) de votos paulistanos em Dilma Rousseff. “Existe a perspectiva real do PT se colocar na disputa de 2012 retomando um diálogo com os setores médios”, afirma.

“Em 2002, foi a única vez que vencemos os tucanos num confronto direto na capital. Lula teve 51% dos votos, contra 49% de Serra. O cenário era favorável, estávamos na prefeitura [com Marta Suplicy] e foi a primeira vitória de Lula como presidente”, conta Donato, que em seguida fala da queda do PT nos pleitos consecutivos: “Em 2004, Serra teve 55% e Marta 45%; em 2006, foi 54,5% para Alckmin e 45,5% para Lula; 2009 tivemos 60,5% para o Kassab e 39,5% para Marta. Ou seja, a gente veio de 51% e fomos para esses 39,5%. Mas revertemos esse quadro neste ano, saímos dessa curva decrescente e voltamos aos 46,5%”.

Donato explica que o reflexo do Governo Lula fez com que o eleitorado do PT aumentasse entre a população mais carente da cidade e, em contrapartida, encontrasse mais resistência nas regiões mais abastadas. “Isso é apenas uma questão ideológica. Historicamente, um partido de esquerda vai sempre ter essa resistência num determinado setor da sociedade. Eles, que enxergam o PT como o partido que de alguma forma enfrenta seus interesses, são minoritários, porém, bem articulados e podem irradiar sua ideologia por toda a cidade”, alerta o petista.

Mas o vereador também ressalta que o êxito de Lula foi fundamental para a reaproximação entre o PT e os setores médios da capital. “O Governo Lula permite que esses setores voltem a ter uma disposição de conversar e de votar na gente, mas é evidente que teremos que aprofundar isso do ponto de vista político. Para 2012, é necessária a construção de um programa que dialogue efetivamente com os setores médios, valorizando questões como transito, segurança e carga tributária”, disse Donato.

Dilma venceu Lula

Durante a conversa com a reportagem do PT-SP, que ocorreu nesta terça-feira (30) em seu gabinete, Antônio Donato observa que Dilma obteve mais votos do que Lula em várias regiões. “Por exemplo, em 2002, a maior votação de Lula em São Paulo foi em São Mateus, com 67%. Já em 2010, o melhor resultado de Dilma foi em Parelheiros, com mais de 75%”.

O dirigente credita esse fenômeno à mudança de critério na reflexão para a escolha, que antes era pautada na personalidade política de Lula e agora passa a ser a personificação do projeto e o modo de governar petista. “Nesta eleição, o voto em São Paulo foi de adesão política a um projeto muito claro. Então, quando você tem um setor que vota na Dilma, ele está aderindo ao projeto de governo iniciado pelo presidente Lula. É a aprovação do governo dele”, conclui.

ttp://blogdofavre.ig.com.br/2010/12/pt-volta-a-crescer-na-capital-e-reforca-expectativa-de-eleicao-em-2012/

O que a Folha quer com a ficha da Dilma ?

 

Na foto, o que a Folha quer fazer da Dilma

 
A Folha (*) comemora na primeira página: STM concede à Folha o direito de examinar o processo da Dilma no regime militar.

Navalha

Primeiro, o que a Folha (*) queria ?

A Folha queria abrir o passado da Dilma durante a campanha presidencial e ajudar o Serra e o índio a pendurar nas costas da Dilma o estigma de matar adultos, além de matar criancinhas.

O capítulo das criancinhas foi aberto pela Grande Estadista chileno-brasileira Mônica Serra.

O STM não deixou a Folha ajudar o Serra nesse aspecto.

Com a surra que a Dilma aplicou no Serra – 56% a 44% – o que a Folha agora quer ?

Primeiro, ir à forra da ficha falsa.

A Folha publicou uma ficha falsa da Dilma, que se tornou uma das notáveis “barrigas” da Imprensa Mundial.

A Folha vai tentar demonstrar que a ficha falsa é verdadeira.

Segundo, a Folha quer pegar a Dilma na mentira.

A Dilma e inúmeros colegas de militância asseguram que a Dilma não participou de nenhuma ação armada.

A Folha vai querer mostrar que a Dilma pegou em armas, roubou o cofre do Ademar, matou criancinhas, e derrubou as Torres Gêmeas.

Terceiro, a Folha quer desmoralizar a Dilma e reproduzir declarações e situações nascidas no processo de tortura.

Quarto, a Folha quer dar legitimidade a uma máquina repressiva e judicial construída no regime militar.

Quinto, a Folha quer re-instalar o regime militar e seus mecanismos no regime democrático que a Dilma respeitou e no qual se tornou vitoriosa.

Sexto, a Folha quer reestabelecer a legitimidade das práticas do regime militar a que ela, a Folha, serviu com devoção e fidelidade.

Serviu de diversas maneiras.

Serviu quando cedeu os carros de reportagem para transportar torturadores e vítimas de torturadores.

Serviu ao transformar seus jornais em instrumentos da repressão e da ocultação de crimes hediondos.

Sétimo, a Folha quer constranger a Dilma.

A Folha quer fazer o que o senador Agripino Maia não conseguiu: transformar o Regime Militar num regime constitucional inglês e a Dilma numa terrorista.

Oitavo, a Folha avisa à presidente eleita que a combaterá sem tréguas.

Nono, a Folha quer impedir que a Dilma faça uma Ley de Medios.

Décimo, para a Folha, a Dilma é o Marighella, que será abatido num cruzamento dos Jardins, entre a Avenida Paulista e a Rua Estados Unidos.

Paulo Henrique Amorim

(*) Folha é um jornal que não se deve deixar a avó ler, porque publica palavrões. Além disso, Folha é aquele jornal que entrevista Daniel Dantas DEPOIS de condenado e pergunta o que ele achou da investigação; da “ditabranda”; da ficha falsa da Dilma; que veste FHC com o manto de “bom caráter”, porque, depois de 18 anos, reconheceu um filho; que matou o Tuma e depois o ressuscitou; e que é o que é,  porque o dono é o que é; nos anos militares, a Folha emprestava carros de reportagem aos torturadores.

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Marta Suplicy: “Dilma sabe escuchar, pero es muy exigente”

7/11/2010, Página 12
Buenos Aires 

Suplicy revela detalles sobre la personalidad de la presidenta entrante y del presidente saliente, analiza el debate sobre el aborto y la agenda del próximo gobierno y se alinea con firmeza detrás de Dilma: “Quiero ser su mano derecha”.

 Por Santiago O’Donnell

Desde San Pablo

Con el debido respeto, y sin ánimo de ofender a nadie, podría decirse que por belleza, inteligencia y calidez, Marta Suplicy es una política sexy. Senadora nacional electa por el Partido de los Trabajadores, el partido de Dilma y Lula, para representar al principal distrito electoral del país, ex alcaldesa de una de las ciudades más grandes del mundo, diputada, sexóloga, feminista, Suplicy es un símbolo brasileño de izquierda chic con compromiso social.

Nos recibe en su casa de Jardín Europa, el mejor barrio de San Pablo, en un living ecléctico y recargado, con sillones rojo furioso, chimenea y candelabros de plata, biombo chino, máscaras africanas, esculturas de Amazonia, almohadones hindúes y grandes cuadros abstractos y figurativos. Experta en el arte de decir sin decir lo que no quiere decir, Suplicy revela detalles sobre la personalidad de la presidenta entrante y del presidente saliente, analiza el debate sobre el aborto y la agenda del próximo gobierno, pero al mismo tiempo oculta cualquier crítica o diferencia de opinión que pudiera haber tenido en el pasado, para alinearse firme detrás de Dilma: “Quiero ser su mano derecha”.

Su nombre suena fuerte para ocupar un puesto en el futuro gabinete y Suplicy no lo descarta. Pero avisa que no está dispuesta a sacrificar su lucha en favor de la despenalización del aborto y el matrimonio gay. La entrevista duró una hora y no tuvo mucho desperdicio, por eso se editan las preguntas y el análisis de una campaña electoral que Suplicy tildó de “farisea”, “ridícula” y “muy poco politizada,” según ella de los dos lados, pero sobre todo por culpa de la oposición.

Diferencias entre el futuro gobierno de Dilma y el de Lula

 

–Son personalidades completamente diferentes con formaciones políticas y culturales completamente muy diversas, con respectivas consecuencias de virtudes y defectos diferentes. Ella tiene la personalidad más dura que Lula, entonces podrá enfrentar, tal vez, las reformas que hasta ahora no fueron hechas. La reforma tributaria y la reforma política, principalmente.

Lula es una persona que decide, pero demora para decidir. Ella creo que es más impetuosa a pesar de que escucha mucho, que tiene capacidad de diálogo, a pesar de lo que dicen. Yo conviví con ella. Escucha, pero es muy exigente, implacable con sus subordinados, con los ministros, con todos, en la excelencia de trabajo. Creo que su exigencia muchas veces puede haber creado ciertas aristas. Como ministra, probablemente. Pero como presidenta es más fácil hacerlo. Como mujer, si una mujer es muy dulce, hacen papel picado de ella. Yo fui alcaldesa de San Pablo, yo sé. Entonces creo que parte de su personalidad es así, pero parte tiene que ver con el ejercicio de poder siendo mujer…

Dilma es una persona muy reservada. Yo estuve muchas veces con ella en la campaña. No habla de las personas, no le gustan los chismes. Puede ser irónica, graciosa, pero no se abre nunca. Es lo opuesto de Lula. Lula habla mucho. Si usted conversa con Lula siempre sale con impresiones de muchas cosas porque habla de todo con muy poca reserva. Muchas veces lo hace para encaminar lo que quiere. Ella no.

Las mujeres y el poder

–Yo creo que en este siglo vivimos un liderazgo femenino muy diferente al siglo pasado, cuando los grandes liderazgos femeninos eran mujeres travestidas de hombre: Thatcher, Indira Gandhi, Golda Meir, y este siglo tenemos mujeres que son mucho más femeninas como Cristina Kirchner, Angela Merkel, Michelle Bachelet, y esto es muy bueno para nosotras. Al mismo tiempo, estas mujeres son mujeres que saben ser firmes, porque si no eres firme no puedes ejercer el cargo. Es un cargo que no tiene que ver con la cuestión de género, sino con una personalidad fuerte. Y se puede ser fuerte siendo femenina. Yo creo que Dilma en esta campaña fue más femenina de lo que jamás lo fue en su vida, porque no es una persona dedicada a la moda o la belleza. Y descubrió, ella no tenía la virtud de tener un peinado lindo o un maquillaje que la favoreciera, no era de su interés, y creo que cambió un poco. No tanto (se ríe), pero un poco.

Aborto, Iglesia e Igualdad de género

 

–La principal cuestión de la desigualdad de género no pasa por la descriminalización del aborto. Tiene que ver con la frase que dijo Dilma, que se vea con naturalidad la presencia de la mujer en el poder. Entonces, me parece muy importante que ella promueva a las mujeres y que tenga un gabinete con el mayor número posible de mujeres. Es muy difícil, porque no tenemos muchas mujeres fuertes en los cuadros partidarios y los partidos generalmente son los que nombran a los funcionarios, entonces va a ser imposible tener un gabinete como el de Bachelet: mitad mujeres, mitad hombres. Si fuera posible lo haría, y estoy segura de que va a hacer el máximo esfuerzo, pero no va a poder.

En cuanto al aborto, ella va a respetar su promesa de no llevar el tema al Congreso. Creo que va a depender del Congreso organizar el debate. Este es un tema difícil para la mayoría de los políticos, que tienen mucho miedo de la contestación de los religiosos. Yo no había pensado tener como tema principal las dos cuestiones que había trabajado mucho como diputada, que son descriminalización del aborto y matrimonio gay. Mi prioridad es ser la mano derecha de Dilma en la implementación de programas sociales para erradicar la indigencia. Pero en virtud de lo que pasó en la campaña (dominada por un debate amañado y electoralista sobre el aborto) creo que voy a tener que retomar mis temas más pronto de lo que pensaba. No sé si tendré que esperar hasta después del tratamiento de las reformas tributaria y política, que seguramente tendrán la atención de los senadores y también la mía, pero no podemos dejar que de aquí a cuatro años tengamos que tratar el tema nuevamente en la próxima campaña presidencial.

La Iglesia hace mucho que no habla de profilácticos y anticonceptivos en Brasil. La Iglesia no toca esos temas, aunque siga las directivas del Papa, porque directamente no da. Se metió con lo del aborto porque Serra lo usó. En Brasil estaba siendo respetada la laicidad del país. Claro, si esto llega al Congreso, la Iglesia se va a manifestar, pero en un momento adecuado. Era un debate en el Congreso, no una campaña electoral. Si esos temas vuelven, creo que la Iglesia y los evangélicos también se van a posicionar de una manera muy dura, por eso no va a ser fácil.

Lula, Dilma y el PT

–Los dos ganaron con Dilma, tanto Lula como el PT. Hoy Lula es mucho más que el PT, pero el PT es el que fue reelecto. Lula propició la reelección, pero la reelección del PT, que sigue en el poder. Hoy Lula trasciende Brasil. Con el abrazo de Lula, Dilma tiene el respeto de todos; no fue cuestionada en ningún momento por el partido. Por su competencia y lealtad al gobierno de Lula después del “mensalao”, y por ser la persona que ayudó a Lula a planear Brasil y ejecutar sus ideas en estos ocho años. Va a ser como siempre fue. El PT siempre presiona. Presionó a Lula, va a presionarla a ella, porque los movimientos sociales no se pueden quedar quietos. Su función es justamente la de presionar para no quedar en una situación desfavorable. Ella sabe eso. Al contrario de Serra, que no tiene capacidad de diálogo y manda a la policía a reprimir a los profesores.

Hace algunos años, Lula me dice: “Marta, la próxima presidenta va a ser mujer”, y yo pensé que iba a ser Marina, Dilma o yo. Con el tiempo me di cuenta de que Marina no iba a ser, entonces pensé Dilma o yo. Después percibí que iba a ser Dilma y me quedé tranquila, porque percibí que Dilma era la persona que estaba allá todo el tiempo con él, y que estaba bien que sea así. Vestí la camiseta de Dilma y me puse a trabajar desde el primer momento que él dijo “Dilma”, y ella percibió eso. En situaciones normales siempre es mejor hacer una cosa más natural, pero cuando se tiene a un líder como Lula, nadie pensaría en nombrar a un candidato sin pasar por su anuencia y lo normal sería escucharlo. Lula planeó muy bien la estrategia. Eso no es diferente en otros partidos. ¿Cómo fue la candidatura de Serra? No hubo elecciones internas. Fernando Henrique se posicionó a favor de Serra, fue determinante. Es lo mismo.

El futuro de Lula y Dilma

–Lula va a hacer exactamente lo que dice: se va a dedicar a unificar los movimientos sociales de América latina y a ayudar a los países menos desarrollados de Africa, donde puede hacer una gran diferencia. No va a asumir un cargo en un organismo internacional, él dice que esos cargos diluyen liderazgos. En Brasil va a ayudar, pero creo que se va a dedicar a esas tareas y a liberar el terreno para Dilma. Ella fue electa por Lula, sin Lula nunca hubiera sida electa. Pero Lula nunca la hubiera elegido si ella no fuera competente. Por eso la jefa política es ella. Ella es mucho más brillante y capaz de lo que la gente tiene idea. Cuando la conozcan, verán que es mucho mejor que en los debates. Es una persona brillante.

sodonnell@pagina12.com.ar

AS ELEIÇÕES E A CRUZADA MORAL DE CATÓLICOS E EVANGÉLICOS

Evangélicos e católicos entram na disputa das eleições presidenciais deste ano. Dentro dessas duas formas de religiosidade cristã, há quem defenda Dilma e há quem defenda Serra. “Edir Macedo e Silas Malafaia acabaram por protagonizar cenas de verdadeiro pugilato verbal no segundo turno, por conta de seus divergentes engajamentos eleitorais, tornando ambos os caciques religiosos adversários contumazes”, contou o professor Ricardo Mariano durante a entrevista que concedeu, por e-mail, à IHU On-Line.

Mariano falou sobre a força que o voto evangélico pode ter no segundo turno e como a importância da opção desse grupo cresceu nessas eleições. Sobre os temas que estiveram no centro dessa discussão religiosa, o professor destacou que é preciso “considerar que a maioria das centenas de milhares de abortos no país é realizada por católicos e evangélicos. Da mesma forma, a esmagadora maioria de homossexuais brasileiros é composta por católicos e evangélicos. E, boa parte deles, certamente gostaria de ter o direito à união civil e também ao casamento civil e tornar seus direitos equitativos aos de heterossexuais”.

Ricardo Mariano é graduado em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo, onde também realizou o mestrado e doutorado em Sociologia. Hoje, é professor na PUCRS. Entre suas obras, citamos Neopentecostais: Sociologia do novo pentecostalismo no Brasil (São Paulo: Edições Loyola, 2005).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Os evangélicos estão sendo apontados como os grandes responsáveis por levar esta eleição para o segundo turno. Essa influência no mundo da política mostra algum tipo (e que tipo é esse) de força que nem mesmo os evangélicos sabiam que tinham?

Ricardo Mariano – O eleitorado evangélico colaborou apenas parcialmente para levar as eleições presidenciais ao segundo turno. Entre 26 de agosto e 23 de setembro, Dilma Rousseff perdeu votos dos evangélicos, caindo de 49% para 42%, e teve sua rejeição ampliada de 17% para 28% nesse segmento do eleitorado, segundo o Ibope. No mesmo período, José Serra subiu de 21% para 31%, enquanto Marina Silva saltou de 13% para 18% entre os evangélicos. Os candidatos oposicionistas, portanto, conquistaram parte dos votos perdidos pela candidata governista.

O problema é que os sete pontos percentuais perdidos por Dilma entre os evangélicos representam apenas 1,4% do total do eleitorado brasileiro. Caso a intenção de voto desses religiosos tenha se confirmado nas urnas no primeiro turno, tal fatia do eleitorado evangélico deu uma contribuição numérica muito modesta para levar as eleições ao segundo turno. Cabe observar que parte dos evangélicos e católicos foi instada por dirigentes religiosos a não votar em Dilma e a votar em Marina ou em Serra por motivos religiosos e morais. Tal orientação surtiu algum efeito, conforme a primeira pesquisa Ibope realizada no segundo turno, mas foi pequeno em virtude do tamanho total do eleitorado nacional.

Respondendo à segunda parte da questão, muitos líderes pentecostais creem ter muito poder político e eleitoral. E, em função das barganhas e alianças que efetuam com candidatos, partidos e governantes de todas as colorações ideológicas, vários líderes pentecostais procuram a cada pleito transformar seus rebanhos religiosos em rebanhos eleitorais, confrontando abertamente a legislação eleitoral vigente, que proíbe tal comportamento. O problema aí é que a filiação pentecostal não gera lealdades políticas ou eleitorais automáticas. Há muita mistificação na ideia de que a cada eleição esse rebanho religioso converte-se automaticamente em rebanho eleitoral de acordo com as conveniências e ordens de seus dirigentes pastorais.

Apesar disso, o fato é que atualmente a força política desses religiosos, além de permitir a formação de bancadas evangélicas nos legislativos (que terá 63 deputados federais no Congresso Nacional na próxima legislatura), pode decidir eleições majoritárias. Por isso, suas demandas têm sido crescentemente levadas em consideração por candidatos e partidos em geral. Já as igrejas protestantes históricas ou tradicionais tendem a rejeitar a mistura de religião e política. De modo geral, não orientam o voto de seus seguidores.

IHU On-Line – Silas Malafaia tem apoiado abertamente Serra, assim como Edir Macedo declarou sua simpatia por Dilma. O que esses diferentes posicionamentos políticos dizem sobre a relação entre diferentes igrejas pentecostais?

Ricardo Mariano – A Igreja Universal do Reino de Deus, liderada por Edir Macedo, mantém uma aliança política com Lula e o PT desde o segundo turno das eleições presidenciais de 2002. Cumpre observar, porém, que seus dirigentes passaram o final dos anos 1980 e toda a década de 1990 demonizando radicalmente o Partido dos Trabalhadores e seu candidato à presidência e apoiando enfaticamente o voto em seus adversários Fernando Collor e, em seguida, Fernando Henrique Cardoso.

O assembleiano Silas Malafaia, por sua vez, apoiou o candidato Lula em 2002. Na eleição presidencial atual, retirou o apoio eleitoral a Marina Silva, dado inicialmente, acusando-a de tergiversar em matérias como aborto e união civil de homossexuais. Em seguida, passou a apoiar Serra, inclusive no programa eleitoral na tevê.

Grosso modo, as diferentes alianças políticas e opções eleitorais de dirigentes da Igreja Universal e da Assembleia de Deus nada significam em termos de sua relação, que é eminentemente concorrencial no plano religioso. Até porque a parte majoritária da Assembleia de Deus, representada pela Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil (CGADB), apoia Serra, enquanto a Convenção Nacional das Assembleias de Deus (Conamad) é liderada por bispo que é o articulador político entre os evangélicos da candidata governista.

“As diferentes alianças políticas e opções eleitorais de dirigentes da Igreja Universal e da Assembleia de Deus nada significam em termos de sua relação, que é eminentemente concorrencial no plano religioso”

Até mesmo as principais denominações que se nomeiam de Assembleia de Deus no Brasil estão em campos políticos opostos. E, como vimos, os dirigentes da Universal mudaram sua orientação política a partir de 2002, sem que isso tivesse qualquer ligação com as relações que estabelece com outras denominações evangélicas. Cumpre observar que, nas eleições atuais, Edir Macedo e Silas Malafaia acabaram por protagonizar cenas de verdadeiro pugilato verbal no segundo turno, por conta de seus divergentes engajamentos eleitorais, tornando ambos os caciques religiosos adversários contumazes.

IHU On-Line – As questões moralistas, presentes nessa fase do pleito, podem mesmo mudar o voto dos evangélicos que optaram por Dilma no primeiro turno?

Ricardo Mariano – Nas semanas derradeiras do primeiro turno, foi realizada forte campanha de oposição à candidatura de Dilma na internet e mesmo em templos religiosos conduzida por leigos e lideranças católicas e evangélicas. Acusaram a candidata governista de apoiar a descriminalização do aborto, o casamento gay e outras medidas contrárias à moralidade cristã, incluindo o PL 122/2006, que está em tramitação no Senado Federal. Essa campanha teve algum efeito na intenção de voto de parte do eleitorado evangélico e mesmo de parte do eleitorado católico mais conservador. Daí a perda de votos de Dilma nesse eleitorado no primeiro turno.

“A maior parte dos evangélicos que votou em Marina optou por apoiar Serra no segundo turno”

Na primeira pesquisa efetuada pelo Ibope no segundo turno, Dilma manteve os 41% no segmento evangélico que tinha no final de setembro. Já o candidato da oposição obteve 52% de votos no eleitorado evangélico. Isso significa que a maior parte dos evangélicos que votou em Marina optou por apoiar Serra no segundo turno. No caso dos pentecostais, parte dessa opção eleitoral pode se dever a motivações estritamente religiosas. Pois, ao considerarmos sua posição de classe, isto é, suas renda e escolaridade inferiores à média brasileira, esses religiosos deveriam acompanhar o restante do eleitorado nacional com o mesmo perfil, tendendo, assim, a optar majoritariamente pela candidatura governista.

Mas não é isso que vem ocorrendo, como revelam pesquisas do Ibope e do Datafolha. Explicação mais provável para isso são motivações de ordem religiosa e moral, insufladas pela campanha sistemática efetuada por pastores e leigos em sua maioria contra Dilma e a favor de seu adversário.

IHU On-Line – E qual sua opinião sobre o posicionamento dos candidatos perante os evangélicos nesse segundo turno?

Ricardo Mariano – A estratégia de aproximação de Dilma Rousseff com católicos e evangélicos começou quase dois anos atrás. Desde que foi indicada por Lula para sucedê-lo, Dilma passou a realizar verdadeira peregrinação religiosa para tentar estreitar relações com líderes católicos e evangélicos, visando superar preconceitos relativos ao seu passado político como militante de esquerda, marxista e guerrilheira. Em 2009 e 2010, ela participou de vários eventos e cultos religiosos pelo país, chegando a discursar em púlpitos católicos e pentecostais e a citar a Bíblia. Estrategicamente, Dilma também reformulou radicalmente o discurso sobre sua fé religiosa. Em 2007, em entrevista, na função de ministra e sem a expectativa de candidatar-se a qualquer cargo político, revelou-se cética a respeito da existência de Deus. Isto é, assumiu uma posição tipicamente agnóstica.

Em fevereiro de 2010, como pré-candidata, disse não ter uma religião específica, mas acreditar “numa força maior que a gente”. Posteriormente, disse ser “antes de tudo, cristã”. Em 14 de maio, com a acentuação da pressão eleitoral, durante missa realizada em Brasília, rezou, ajoelhou-se e cumprimentou bispos, orientada por Gilberto Carvalho, chefe do gabinete da Presidência da República, católico de carteirinha e mediador das relações do governo Lula com a Igreja Católica. Após a cerimônia, questionada por repórteres, Dilma afirmou ser católica. Em suma, por motivos eleitorais, assumiu uma fé cristã e católica. Posteriormente, a marcação cerrada da imprensa mostrou que a candidata governista não sabia nem fazer o sinal da cruz, atrapalhando-se completamente durante uma missa na tentativa, vã, de persignar-se.

Os estrategistas e marqueteiros da campanha governista perceberam tardiamente os estragos eleitorais causados pela oposição católica e evangélica à candidatura de Dilma, que, em entrevistas pré-eleitorais, defendera em mais de uma oportunidade, a descriminalização do aborto. E, por este e outros motivos, estava sendo achincalhada por bispos católicos e pastores pentecostais por isso. Para tentar reverter o problema, nos últimos dias do primeiro turno e no início do segundo turno, Dilma realizou maratona de encontros com líderes religiosos, lançou mensagem comprometendo-se a não tomar a iniciativa de “propor alterações de pontos que tratem da legislação do aborto e de outros temas concernentes à família e à livre expressão de qualquer religião no país”. Além disso, sua campanha publicou um jornal informativo intitulado “Ao povo de Deus” para os eleitores evangélicos.

“Dilma procurou, sobretudo, evitar que seu ‘déficit religioso’ e que a oposição religiosa de católicos e de pentecostais, disseminada em boatos por meios e de tipos os mais variados, prejudicasse sua candidatura”

Nas primeiras duas semanas do segundo turno, questões relativas ao aborto, à união civil de homossexuais e ao III Plano Nacional de Direitos Humanos agendaram fortemente a campanha eleitoral de Dilma Rousseff e de José Serra. Esses temas tornaram-se destaque na imprensa, nos meios de comunicação e na campanha eleitoral em rádio e tevê. Ambos redobraram esforços nesse período para manipular e instrumentalizar eleitoralmente o discurso religioso, a moralidade cristã e os eleitores católicos e pentecostais mais tradicionalistas no plano moral. Na campanha eleitoral na tevê e noutras manifestações públicas, incluindo missas no santuário de Aparecida na véspera e no dia da Padroeira, estrategicamente, cada qual procurou se mostrar mais carola, mais católico e mais comprometido com uma moralidade cristã conservadora que o adversário. Dilma procurou, sobretudo, evitar que seu “déficit religioso” e que a oposição religiosa de católicos e de pentecostais, disseminada em boatos por meios e de tipos os mais variados, prejudicasse sua candidatura.

Já Serra vestiu a carapuça de católico conservador e apelou intensamente ao eleitorado cristão moralmente tradicionalista no segundo turno, opôs-se à descriminalização e a qualquer mudança na legislação do aborto e manipulou uma retórica religiosa maniqueísta do bem contra o mal. E, tal como Dilma, apoiou a união civil de homossexuais, provavelmente considerando que cerca de metade dos brasileiros apoia tal medida. Serra socorreu-se ainda do pastor assembleiano Silas Malafaia, que tornou-se, por alguns dias, um dos protagonistas de sua campanha eleitoral na tevê.

IHU On-Line – Discutir o aborto e a união civil homossexual significa o que para os evangélicos? Por que esse grupo religioso pode optar por um candidato que não vá mexer na questão do aborto, por exemplo, mas possa afetar a vida econômica do país?

Ricardo Mariano – Muitos líderes católicos e evangélicos falam abertamente em nome de uma “maioria moral” cristã. Muitos deles querem impor sua moralidade estrita ao conjunto da sociedade brasileira pela via política, já que a via religiosa se mostra relativamente limitada para tanto. Quanto a isso, basta considerar que a maioria das centenas de milhares de abortos no país é realizada por católicos e evangélicos. Da mesma forma, a esmagadora maioria de homossexuais brasileiros é composta por católicos e evangélicos. E, boa parte deles, certamente gostaria de ter o direito à união civil e também ao casamento civil e tornar seus direitos equitativos aos de heterossexuais.

Dirigentes católicos e evangélicos engajados nessa cruzada moral não têm o menor apreço pelos direitos sexuais e reprodutivos defendidos por feministas e homossexuais. Preferem ignorar a pluralidade e os direitos das minorias, no caso da união civil de homossexuais, e os direitos de autonomia sobre o próprio corpo no caso das mulheres que optam por interromper uma gravidez indesejada por motivos diversos.

Para tentar assegurar sua moralidade tradicionalista e estrita para o conjunto da sociedade, católicos e evangélicos procuram pressionar candidatos, partidos e governantes em momentos eleitorais para que assumam compromissos morais e políticos estabelecidos por esses religiosos. Isso revela que dirigentes católicos e pentecostais têm grande presença, influência e poder na esfera pública brasileira. Caso contrário, os candidatos não obedeceriam como cordeirinhos, como fizeram Dilma e Serra, às ordens e exigências destes religiosos.

Outra forma de tentar fazer valer sua moralidade para todos consiste em eleger representantes religiosos para o Congresso Nacional, como têm feito evangélicos e católicos, sobretudo os da ala carismática. Outra estratégia empregada com esse fim é o uso sistemático da mídia religiosa, especialmente a eletrônica, para opor-se ao aborto, à união civil de homossexuais e defender uma moral cristã. Tais campanhas impedem que tais questões, sobretudo a do aborto, sejam debatidas a partir de perspectivas seculares da área da saúde pública, da medicina, dos direitos reprodutivos. Isto é, criam sérios obstáculos à secularização desse debate e ao tratamento racional e humanitário dado a este grave problema de saúde pública.

Quanto à segunda parte da questão, não tenho a menor dúvida de que os eleitores evangélicos estão levando em consideração em sua opção eleitoral temas de ordem econômica, isto é, seu bolso.

IHU On-Line – Católicos também se envolveram no debate, mas foram os evangélicos os principais atores apontados pela grande mídia. Em termos sociológicos, o que isso significa para o país?

Ricardo Mariano – Bispos católicos, a Regional Sul 1 da CNBB e padres carismáticos fizeram oposição acirrada contra Dilma. Por outro lado, católicos famosos também empenharam seu prestígio político e religioso a favor de Dilma, como Frei Betto, entre outros. Os evangélicos também se dividiram entre Dilma e Serra, mas penderam mais para o candidato tucano no segundo turno. Nesse episódio, pode-se observar novamente uma crescente instrumentalização mútua entre política e religião no Brasil.

Como já afirmei noutras ocasiões, no caso das lideranças pentecostais, a cada nova eleição seu apoio eleitoral e de seu rebanho religioso é requerido, barganhado e disputado por candidatos a cargos legislativos e executivos. Isso tem como efeito incrementar e legitimar a participação, a influência, o poder de pressão e de barganha desses religiosos na esfera pública. Sua participação crescente na política partidária e na esfera pública, portanto, não conta somente com a disposição de líderes pentecostais para ampliar sua participação política e seu poder políticos. Resulta também do empenho de candidatos e partidos, em busca de voto e de apoio político, para enredá-los no jogo político-partidário.

Com isso, a laicidade do Estado brasileiro enfrenta crescente pressão por parte de grupos evangélicos e católicos. Os últimos preferem recorrer ao lobby, à atuação parlamentar, não obstante grupos carismáticos venham elegendo crescente número de parlamentares que politizam justamente sua identidade religiosa para cabalar votos, numa estratégia semelhante à empregada por pentecostais.

IHU On-Line – O voto dos evangélicos pode ser considerado conservador?

Ricardo Mariano – Os evangélicos não defendem o neoliberalismo econômico e nem são inclinados necessariamente à direita no espectro político partidário. Não demandam um Estado menor ou que intervenha menos na economia, por exemplo. Longe disso. Sabe-se que, com raras exceções, os evangélicos apoiaram a ditadura militar por temor do comunismo e de uma eventual perseguição religiosa conduzida por um governo comunista.

Na última década, isso mudou. Sua orientação ideológica mudou, em parte, pelo fato de que o PT e seus representantes rumaram para o centro, pelo fato de que invocar o bicho-papão do comunismo tornou-se um anacronismo dos mais despropositados, pelo fato de que o Partido dos Trabalhadores, seus candidatos e governantes passaram a cortejar sistematicamente parte dos dirigentes pentecostais e pelo fato de que esses pastores foram recalibrando seu ativismo político e, revendo seus apoios e alianças conforme os retornos obtidos, foram aprendendo com os erros (o apoio maciço dado a Collor em nome de Deus, por exemplo) e foram percebendo que os ventos políticos rumavam a favor da oposição política em 2002. E, claro, perceberam que podiam ganhar algo com isso: poder político, recursos etc.

Desde então, diversas lideranças pentecostais passaram a apoiar candidaturas de centro-esquerda, o que demonstra que eles não são intrinsecamente conservadores no plano político. Mas, se esse segmento religioso não tem uma inclinação necessariamente à direita, apresenta forte tradicionalismo moral. Opõe-se radicalmente ao aborto, com exceção da Igreja Universal, e à união civil de homossexuais. Aliás, a maioria dos evangélicos considera a homossexualidade antibíblica, pecaminosa, imoral e patológica, conforme aponta pesquisa do ESEB de 2002, cujos dados foram analisados por Simone Bohn, que revelou que os evangélicos compõem o grupo religioso mais homofóbico do país. Não é à toa que vários psiquiatras e psicólogos evangélicos oferecem tratamento para reverter a homossexualidade, tratando-a como patologia, o que contraria as diretrizes da Organização Mundial de Saúde.

O fato é que, desde a Constituinte, baseada no lema “irmão vota em irmão”, a bancada evangélica assumiu a tarefa de defender a moral cristã, a família e os bons costumes em oposição aos pleitos de feministas e homossexuais por direitos sexuais e reprodutivos. Nessa tarefa, frequentemente a Frente Parlamentar Evangélica, criada em 2003, faz dobradinha com parlamentares católicos também tradicionalistas no plano moral. [i]

http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=37713

500 anos esta noite – de Pedro Tierra

Com este poema de Pedro Tierra, peço seu voto para o Brasil continuar mudando:

Dilma, 13, Presidente!
 
 
500 anos esta noite
De onde vem essa mulher
que bate à nossa porta 500 anos depois?
Reconheço esse rosto estampado
em pano e bandeiras e lhes digo:
vem da madrugada que acendemos
no coração da noite.
De onde vem essa mulher
que bate às portas do país dos patriarcas
em nome dos que estavam famintos
e agora têm pão e trabalho?
Reconheço esse rosto e lhes digo:
vem dos rios subterrâneos da esperança,
que fecundaram o trigo e fermentaram o pão.
De onde vem essa mulher
que apedrejam, mas não se detém,
protegida pelas mãos aflitas dos pobres
que invadiram os espaços de mando?
Reconheço esse rosto e lhes digo:
vem do lado esquerdo do peito.
Por minha boca de clamores e silêncios
ecoe a voz da geração insubmissa
para contar sob sol da praça
aos que nasceram e aos que nascerão
de onde vem essa mulher.
Que rosto tem, que sonhos traz?
Não me falte agora a palavra que retive
ou que iludiu a fúria dos carrascos
durante o tempo sombrio
que nos coube combater.
Filha do espanto e da indignação,
filha da liberdade e da coragem,
recortado o rosto e o riso como centelha:
metal e flor, madeira e memória.
No continente de esporas de prata
e rebenque,
o sonho dissolve a treva espessa,
recolhe os cambaus, a brutalidade, o pelourinho,
afasta a força que sufoca e silencia
séculos de alcova, estupro e tirania
e lança luz sobre o rosto dessa mulher
que bate às portas do nosso coração.
As mãos do metalúrgico,
as mãos da multidão inumerável
moldaram na doçura do barro
e no metal oculto dos sonhos
a vontade e a têmpera
para disputar o país.
Dilma se aparta da luz
que esculpiu seu rosto
ante os olhos da multidão
para disputar o país,
para governar o país.
 
Pedro Tierra

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