PSD, de Kassab, indica apoio a Haddad dois dias após eleição

Quando fundou o PSD, o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, disse que o partido não seria “nem de direita, nem de esquerda, nem de centro.” Nesta terça-feira 30, o partido fez jus à ideia do seu criador. Sua bancada de sete vereadores, que apoiou José Serra (PSDB) nas eleições, deixou claro o apoio ao prefeito eleito da cidade, Fernando Haddad (PT). Os vereadores fizeram isso ao anunciar a manutenção da parceria com o PSB, que apoiou a candidatura de Haddad e apoiará o petista como prefeito.

Pouco importa se até hoje os vereadores apoiem a administração de Kassab, que também fez campanha por Serra. A partir de janeiro, dizem, irão trabalhar para o petista. O apoio do PSD garante a Haddad a maioria da Câmara Municipal, necessária para eleger o presidente da Casa e aprovar de projetos prometidos, como a criação do bilhete único mensal e o fim da taxa de inspeção veicular.

Durante o processo eleitoral, Kassab não apenas apoiou o tucano José Serra como indicou o seu vice, Alexandre Schneider. Nesta terça, após encontrar o novo prefeito da cidade, o atual prefeito disse que “São Paulo com certeza estará em ótimas mãos”. Ele disse, porém, que não sabia qual seria a postura dos vereadores do seu partido.

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Kassab decidiu apoiar o PSDB nas eleições depois que Serra, seu padrinho político, anunciou a candidatura. Antes disso, Kassab vinha sendo cortejado pelo PT. Sua administração foi alvo de duras críticas dos petistas durante toda a campanha eleitoral. Entre as críticas, Haddad chegou a dizer que faltava “comando e transparência” na administração e que Serra escondia Kassab devido à sua baixa popularidade.

Abaixo, a íntegra da nota distribuída pela bancada do PSD na Câmara:

Os vereadores do bloco parlamentar PSB-PSD na Câmara Municipal de São Paulo decidiram, nesta data, manter sua atuação conjunta no Parlamento da cidade, através da qual têm procurado melhor defender os interesses da população de São Paulo. Nesse sentido, esperam contribuir para que a nova administração possa dar continuidade à busca de soluções para os complexos problemas de nossa metrópole.

Dilma pretende enxugar Base Aliada e exigir mais fidelidade

 

A presidenta Dilma Rousseff, o ex-presidente Lula e o secretário geral da Presidência, Gilberto Carvalho, estão determinados a fazer um expurgo nos partidos da Base Aliada, para que ela se torne “mais administrável e fiel”.

A expressão é do ex-presidente que transferiu para Gilberto Carvalho (hoje o homem forte do governo) parte do “assessoramento que dava à presidenta. Além disso, em função de sua doença, ele não poderá mais fazer o “meio de campo”, aquelas longas conversas com políticos de todos os partidos, coisa que ele fazia com prazer e que para Dilma é um grande sacrifício.

Independente dessas circunstâncias, eles concluíram que a Base Governista é ampla demais e está fora de controle. A “folgada maioria” do Governo no Congresso é ilusão que se esvai nas votações mais importantes.

Entretanto, o “enxugamento” só ocorrerá depois de Junho, quando já estiverem definidas as candidaturas e respectivos apoios dos candidatos às prefeituras das principais capitais, sobretudo São Paulo, tratada obsessivamente como altamente estratégica. Até lá, os ministérios continuam sendo moeda de troca para a composição de alianças.

A idéia é criar um “núcleo governista” mais coeso e compacto reunindo PT, PMDB, PSB, o PSD do Kassab e o PCdoB que já não é considerado um partido nanico e tende a crescer. Entra na lista, também, o PRB do bispo Macedo, que tem poucos parlamentares, mas tem a TV Record e uma razoável capacidade de apascentar a ouriçada bancada evangélica.

Todas essas siglas seriam contempladas com fatias maiores dos ministérios e estatais. Fatias estas subtraídas aos partidos mais problemáticos: PDT, PR, PP e PTB.

As conspirações e as intrigas, bem como as discrepâncias ideologias não seriam totalmente eliminadas, é claro. Mas, pelo menos se colocaria um pouco de ordem na casa e, na soma total, a diminuiçãode candeiras da Base Governista seria pequena, até porque os partidos excluídos também tem suas divisões internas.

De qualquer modo, não faz sentido dividir o Poder com um partido como o PP, por exemplo, que abriga um Jair Bolsonaro, oposicionista permanente e feroz ao Governo. O mesmo vale para o PTB de Roberto Jefferson (um serrista convicto) e para o PR de Antony Garotinho que recentemente estimulou a greve das PMs.

E, da mesma forma, o PDT do Paulinho da Força. Este sempre que pode cria embaraços para o Planalto e acaba de fazer acordo com o esquema tucano justamente em torno das eleições em São Paulo.

No caso específico do PDT, note-se que o partido já estava desgastado e praticamente ficou acéfalo com a desmoralização de seu presidente, o incrível Carlos Lupi. Parece, no entanto, que a presidenta Dilma está empenha em dar atenção pessoal a alguns líderes pedetistas que tem peso político ou aos quais ela estima.

E o caso, por exemplo, do ex-governador gaucho Alceu Colares ou dos deputados fluminenses Miro Teixeira e Brizola Neto.

Seja como for, a presidenta está resignada a conversar mais com os parlamentares aliados. No caso do PMDB e no âmbito do Senado, houve ali uma fragmentação de lideranças. No tempo do presidente Lula, bastava conversa com o Sarney (AP) e o Renan Calheiros (AL) que as coisas ficavam sob controle. Agora será preciso ampliar o leque de interlocutores.

Quanto à Câmara, aconselhada pelo vice Michel Temer, Dilma parece propensa a receber periodicamente um grupo de deputados de um mesmo partido. A ministra Ideli Salvatti, das Relações Institucionais, ficaria encarregada de organizar, digamos quinzenalmente, pequenas caravanas de deputados.

Lula e Marta: o vento que venta aqui é o mesmo que venta lá

Por Renato Rovai

A ex-prefeita Marta Suplicy registrou hoje que o partido errou ao dialogar com Kassab. Se fosse mais aguda deveria afirmar que Lula errou. Foi ele quem iniciou essa conversa. Mas como Lula é hoje um quase santo no PT (muito em decorrência dos seus méritos) quem crítica a tentativa de aliança com o PSD evita citar o nome dele. Fala em erro do partido.

Foi Lula quem iniciou as conversas e foi ele quem estimulou alguns de seus principais aliados internos a manter o diálogo aberto com o alcaide da capital do estado. Mesmo contra a posição da maioria dos dirigentes partidários tanto em nível municipal, quanto nacional.

Outro fato é que Fernando Haddad em nenhum momento deu declarações muito confortáveis sobre a coligação. Como diria a presidenta Dilma, em todos os momentos que foi confrontado com a possibilidade da aliança em entrevistas, tergiversou. Pessoas próximas a ele garantem que, no íntimo, Haddad torcia para que Kassab tomasse outro rumo. Garantem há algum tempo. Não apenas agora.

Outro fato concreto é que Kassab foi à festa de 32 anos do PT e tomou uma vaia homérica, histórica. E de lideranças partidárias, como registrei aqui. Mesmo com a vaia no ouvido, o ex-prefeito não passou recibo. E continuou dizendo que apoiaria Haddad.

Ou seja, Kassab achava Haddad o melhor candidato. Só ponderava que se Serra saísse não teria como não apoiá-lo. Por compromissos anteriores.

Sendo assim, que moral Serra terá para dizer que saiu candidato pelo risco que a vitória de Haddad significava para São Paulo? Se significava um grande risco porque Kassab queria tanto apoiá-lo?

Os que ficam perguntando como o PT vai explicar o “namorico” com Kassab, poderiam também se perguntar como Serra vai explicar que um de seus principais aliados tenha corrido por dois meses atrás do candidato do PT como a grande solução para São Paulo.

O vento que venta aqui é o mesmo que venta lá. É mais fácil pra Haddad mandar Serra perguntar pra Kassab por que ele queria tanto apoiá-lo. Do que Serra tentar perguntar por que o PT discutiu aliança com o prefeito que não é de centro, de direita e nem de esquerda.

Renato Rovai é editor da Revista Fórum

PT define tática na maioria das grandes cidades e deve crescer em todo país

Rui Falcão lidera a reunião da Comissão Eleitoral. (Foto Mário Agra – PT)

A avaliação é da Comissão Eleitoral do Partido, que já conta com definição tática em 78 grandes cidades.

Com a tática eleitoral definida em dois terços das maiores cidades do país (capitais e municípios com mais de 150 mil eleitores), o PT está bem posicionado para crescer em números de governos locais em todos os Estados, segundo avaliou a Comissão de Acompanhamento Eleitoral do partido, ocorrida nesta segunda-feira (27) na sede do Diretório Nacional em São Paulo.

“A avaliação é bastante positiva”, resumiu o presidente nacional do PT, deputado Rui Falcão, durante coletiva de imprensa. Mas o partido, de acordo com Rui, não irá estabelecer metas percentuais de crescimento.

O quadro atual, a nove meses das eleições, mostra que, das 118 cidades nessa condição, o PT já definiu sua tática em 78 (ou 66%): terá candidato próprio em 68 e apoiará nomes da base aliada do governo Dilma nas outras 10. Nos demais municípios, as conversas continuam, já que o prazo final para definição de alianças é junho.

Segundo Rui, entre as pendências, a Comissão está dando atenção especial a três capitais: Belo Horizonte, Fortaleza e Recife.

Em BH, o PT ainda não decidiu se apoiará a reeleição de Márcio Lacerda (PSB) ou lançará candidato próprio; na capital cearense, o PT tem cinco pré-candidatos a prefeito e ainda não definiu se fará a escolha por prévias ou encontro; e, no Recife, a direção nacional se reunirá com o prefeito João da Costa, entre final e março e começo de abril, para avaliar se o quadro é favorável ou não à sua candidatura à reeleição.
São Paulo

Na coletiva de imprensa, os jornalistas priorizaram a disputa paulistana em suas perguntas, devido à decisão do tucano José Serra, candidato derrotado à presidência da República em 2010, de disputar as prévias em seu partido.

“Serra não foi assunto da reunião. Discutimos muito mais outros Estados. Em São Paulo, a campanha está sendo muito bem conduzida pelo Diretório Municipal”, afirmou Rui.

Ele avaliou, porém, que a entrada do ex-governador em cena não muda as estratégias e o cronograma da pré-campanha de Fernando Haddad.

“Não foi nenhuma surpresa. Para nós, parecia claro que ele seria candidato. O PT continua fazendo o que já vinha fazendo. Começamos a construir nosso programa de governo, com agenda nos bairros, e continuamos dialogando com partidos da base para eventuais alianças”, explicou.

Na opinião de Rui, partidos como PSB e PR devem estar juntos com o PT já no primeiro turno. E PCdoB e PMDB, que hoje tem candidaturas próprias, poderão somar num eventual segundo turno.

“Com o nome que escolheu (Haddad), com a força do PT, com a aprovação do governo Dilma e com o prestígio do presidente Lula, nossa possibilidade de atrair aliados é muito grande, bem como de vencer as eleições em SP”, disse.

Segundo o presidente do PT, Haddad vai apresentar à população de São Paulo um programa de mudanças. Ele citou como problemas a serem enfrentados a questão da mobilidade urbana, a falta de vagas em creches, as carências no setor de saúde e a política higienista da atual administração.

Ele rebateu a tese, levantada por alguns jornalistas, de que a proposta se dê por conta do apoio declarado do prefeito Gilberto Kassab (PSD) à possível candidatura José Serra.

“Em nenhum momento o Haddad deixou de dizer que quer um programa de mudanças para a cidade. E a crítica à administração Kassab sempre foi feita pela nossa bancada de vereadores, em defesa dos interesses da cidade”.

Ele lembrou que entre o PT e Kassab nunca houve conversas formais a propósito de uma possível aliança em São Paulo.

“O PSD dialoga conosco em várias cidades de vários Estados, mas aqui (em SP), isso nunca ocorreu”.
(João Paulo Soares – assessoria PT-SP)

O preço de Kassab

Autor(es): Maria Cristina Fernandes
Valor Econômico – 17/02/2012

São Paulo elegeu sete prefeitos desde a redemocratização. Destes, quatro conquistaram o posto com alianças encabeçadas pela direita (Jânio, Maluf, Pitta e Kassab), dois o fizeram pela esquerda (Erundina e Marta) e apenas um pelo centro (Serra).

Preferências mudam, mas o eleitorado de São Paulo tem se mostrado razoavelmente estável ao longo das últimas duas décadas. Essa estabilidade se reproduz geográfica e socialmente com considerável coerência.

A direita, quando capaz de montar alianças capazes de abocanhar um naco das áreas e dos eleitores de centro e esquerda, tem sido a força eleitoral mais competitiva da maior cidade do país.

Some-se à força da história eleitoral a taxa de sucesso de prefeitos que buscam fazer seus sucessores. Em São Paulo, desde 88, apenas dois o fizeram – Maluf e Serra -, elegendo sucessores oriundos da direita partidária, Pitta e Kassab.

Foge, portanto, do campo da elocubração ou torcida a constatação da força eleitoral do prefeito Gilberto Kassab. Ainda que a fotografia do momento revele uma administração mal avaliada, o histórico do comportamento eleitoral paulistano, somado à boa saúde financeira do município neste último ano de mandato, dá ao prefeito capital suficiente para lhe assegurar a condição de pivô de sua sucessão.

Ao criar o PSD Kassab montou a estratégia com a qual pretende ampliar a abrangência desse capital político da esfera municipal para a nacional. Aliando-se a um partido com nítidas ambições de chegar ao Palácio do Planalto, o PSB, Kassab deixou claro que entrou no jogo para ir além do espaço de fiel da balança entre petistas e tucanos hoje ocupado pelo PMDB.

Foi em busca desse capital ampliado que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez a minuta de aproximação entre o PT e Kassab, que culminou com a ida do prefeito ao palanque do aniversário petista.

Valeu-se dos mapas eleitorais das duas vitórias petistas na cidade. Luiza Erundina foi beneficiária de um voto útil de última hora numa campanha em que o esvaziamento do centro resultou na sua polarização com os malufistas. Tivesse havido segundo turno, o centro e a direita somados teriam votos de sobra para derrotar Erundina.

Doze anos depois, Mario Covas mostrou como a força de alguns personagens pode mudar cartas marcadas. Governador do Estado quando seu candidato a prefeito da capital, Geraldo Alckmin, perdeu a vaga no segundo turno de 2000 para Paulo Maluf por oito mil votos, Covas subiu no palanque petista arrastando o centro para eleger Marta Suplicy.

O mapa daquela votação mostrou que Marta ganhara na cidade inteira, à exceção das seções eleitorais com maior perfil de renda, lideradas pelo candidato do PSDB.

Enquanto Maluf foi forte, os tucanos não encontraram seu lugar na cidade. Foi preciso uma hecatombe das proporções da administração Celso Pitta para desgastar o capital político do malufismo e dar lugar, em 2004, à primeira vitória do PSDB no seu berço político com a eleição de José Serra.

A sobrevivência do malufismo na capital explica em grande parte por que o PSDB, governando o Estado de São Paulo desde 1994, só ganharia a eleição paulistana dez anos depois.

No Estado o PSDB ocupou os espaços do PMDB de Orestes Quércia, cuja força eleitoral declinou enquanto a do malufismo ascendia. Quando Paulo Maluf elegeu-se prefeito da capital (1992), Luiz Antônio Fleury Filho já se preparava para encerrar em desgraça a derradeira gestão pemedebista no Estado.

A ascensão de Serra à prefeitura em 2004 e a eleição de Kassab quatro anos depois se dariam com a herança de zonas eleitorais do centro expandido de tradição malufista e marcadamente antipetista. As franjas da cidade continuariam com o PT mas, na sua derradeira tentativa de voltar, Marta mostrou não ser capaz de ultrapassá-las.

Nem o perfil classe média de Dilma foi capaz de romper a muralha erguida em São Paulo contra o PT. Nas cinco eleições presidenciais – e outras cinco estaduais – que disputou o partido, só venceu uma única vez na capital paulista, quando Luiz Inácio Lula da Silva derrotou Serra em 2002, numa contenda marcada pelo desemprego crescente do final do governo Fernando Henrique Cardoso.

As dificuldades eleitorais petistas no mais importante centro urbano do país desmontam uma tese em voga nas esquerdas durante muito tempo, de que os eleitores inclinam-se por candidatos conservadores por falta de esclarecimento.

O microcomerciante de Santana, tradicional reduto malufista da zona norte da cidade, apesar de ter prosperado nos governos Lula/Dilma, só enxerga taxas municipais quando pensa que o PT voltaria à prefeitura. Foi a perspectiva de conquistar esse eleitor que fundamentou os argumentos pró-aliança com o PSD.

Kassab já estava precificado no PT quando a candidatura Serra tomou forma. Os petistas avaliam que Kassab lhes ajudaria a vencer em São Paulo e minar as chances de o PSD vir a se aliar aos tucanos em 2014. Os tucanos também estão chegando à conclusão não podem prescindir dele na disputa paulistana, além de temerem o isolamento a que podem vir a ser submetidos pela aliança PT-PSD.

Petistas, pelo poder de contemplar o PSD neacionalmente, parecem ter mais poder de barganha, mas pesa a favor do PSDB maior afinidade das bases eleitorais de ambos os partidos. O que está em jogo é mais do que um ministério ali ou uma candidatura acolá. É a máquina de fazer política em que se transformou o PSD. Com o aumento da procura, o preço do prefeito subiu. E o pregão mal começou.

Maria Cristina Fernandes é editora de Política. Escreve às sextas-feiras

Serra e Kassab estão fazendo o PT de bobo?

Se, e quando, for confirmada a candidatura de José Serra a prefeito de São Paulo, o PT deveria promover um encontro para pedir desculpas à senadora Marta Suplicy. Nos últimos quatro meses, ela foi a principal liderança petista a não se deixar levar pelas partículas de candidatos e alianças que permaneceram em suspensão no horizonte político da cidade. Enquanto o partido mergulhava na nuvem de poluição causada pela inversão térmica eleitoral, Marta registrava sua discordância e sinalizava o risco. Primeiro, pediu para evitar uma escolha antecipada do candidato do PT, mas foi atropelada. Depois, alertou para o feitiço da aliança com o PSD do prefeito Gilberto Kassab — e só não foi totalmente ignorada porque parte da militância petista ainda cobra um mínimo de coerência política.

Kassab na festa do PT: aliança em potencial ou jogo de dissimulação?

Marta terminou sendo posta à margem porque o PT precisava se renovar, enquanto ela nunca escondeu o desejo de tentar o cargo pela quarta oportunidade. Mas, por isso mesmo, o partido deveria tê-la ouvido: após passar quatro anos na prefeitura e perder duas eleições, uma para Serra e outra para Kassab, era Marta quem, no PT, mais tinha condições de interpretá-los. Teria sido, no mínimo, por respeito a uma tradicional regra da política: ninguém conhece melhor você do que o seu inimigo.

Quando perdeu a convenção do PSDB para Aécio Neves, em maio do ano passado, Serra sabia que seu projeto presidencial só seria retomado em duas hipóteses. Na primeira, ele atuaria de coadjuvante, capaz de ser promovido a protagonista por falta de nomes. Assim, a candidatura de 2014 teria de lhe cair no colo, com Aécio voltando para Minas Gerais e Geraldo Alckmin tentando a reeleição paulista. Para que pudesse ter um mínimo de autonomia sobre seu destino, no entanto, a Serra só restava uma candidatura a prefeito de São Paulo (leia, na coluna Análise de 28 de maio do ano passado, os motivos para isso).

Durante nove meses, portanto, Serra pareceu estar morto. No lugar de se apresentar como viúva, Kassab criou o PSD e vestiu-o de noiva, tentando ser vice-governador na eventual reeleição de Geraldo Alckmin ou ocupando, com seus parlamentares, ministérios no governo Dilma Rousseff. No projeto ideal de Serra, sua candidatura a prefeito permaneceria congelada, para despertar apenas no final do semestre – por questões legais, ele é o único nome forte capaz de ser oficializado no último minuto da convenção partidária. Mas a proximidade das prévias internas do PSDB para a escolha do candidato a prefeito, marcada para depois do carnaval, tirou-o da hibernação. Marta Suplicy teria direito igual, mas seu partido já saiu às ruas com a candidatura do ex-ministro Fernando Haddad.

Em outubro, quando a eleição chegar ao final, a história de Serra e Kassab será reescrita com base no resultado e o que até hoje era apresentado como desejo sincero provavelmente será interpretado como um jogo de dissimulação. Houve um momento em que Serra gostaria de não correr o risco da disputa em São Paulo e de ter se mantido à tona como presidente do PSDB. E Kassab preferia uma aproximação com o poder federal do PT.

Ao submergir, Serra recuperou a liderança política. E teria também reduzido a taxa de rejeição porque deixou todos brigando contra todos enquanto assistia tudo à distância. Isso é importante porque, desde a adoção do segundo turno, a maioria em São Paulo é formada em torno do nome do adversário de quem o eleitor não quer eleger – e não em torno do nome favorito. Essa decisão racional, baseada na rejeição a um candidato ou partido, e não na paixão pelo outro, garantiu os mandatos de Pitta, Marta, Serra e Kassab.

O atual prefeito agora dificilmente mudará de destino porque as resistências de Dilma Rousseff e de Geraldo Alckmin em aceitar suas condições para um acordo acabaram por criar um processo simbiótico com Serra. O fracasso de ambos desenhou o caminho que se trilha neste momento na capital paulista. Para que o PSD permaneça como um projeto viável de poder, Kassab depende de Serra na prefeitura. Afinal, se partidos com mais de 20 anos de história, como o PSDB, desidratam por estar na oposição, a sobrevivência de uma legenda recém-criada não acontecerá sem uma máquina com o peso da de São Paulo.

Para Serra, a confirmação da aliança com Kassab e um eventual retorno à prefeitura oferecem o que seu partido lhe recusou no encontro de maio do ano passado – estrutura para retomar o projeto presidencial. E, além de tudo, também serve de bóia partidária caso os tucanos o abandonem no meio da última chance que lhe resta de fazer a travessia para o Planalto.

Foi essa dependência mútua entre Serra e Kassab que Marta Suplicy vislumbrou como um jogo que acabaria por engabelar, além do PT, o governador Alckmin e os quatro pré-candidatos do PSDB. No caso do PT, o pedido de desculpas a Marta se fará necessário não apenas porque o partido precisa de sua experiência na campanha de Haddad, mas sobretudo como autocrítica. Afinal, não foi a nuvem de candidatos e alianças que turvou a visão das lideranças petistas, mas a mistura de poluentes eleitorais ainda mais básicos: arrogância, ambição, precipitação e desejo de vingança.

Kassab é apresentado como representante da “base aliada” e recebe vaias no aniversário do PT

Bruno Boghossian, do estadão.com.br, com informações da Agência Esta

O prefeito de São Paulo e fundador do PSD, Gilberto Kassab, foi vaiado ao ser apresentado como representante da “base aliada” durante a festa de aniversário de 32 anos do PT, em Brasília. As autoridades e lideranças petistas aplaudiram, mas parte do público presente vaiou o prefeito, ex-integrante do DEM.

Kassab foi chamado pelos locutores do evento durante a apresentação dos “representantes dos partidos que compõem a nossa base aliada”. Ele, no entanto, sempre afirmou que o PSD é uma legenda “independente” – apesar de acompanhar o governo Dilma Rousseff com frequência no Congresso.

Sem demonstrar nenhum constrangimento, Kassab sentou-se na segunda fila da mesa de convidados, entre ministros de estado, ex-presidentes do PT e o presidente nacional do PCdoB, Renato Rabelo.

A presidente Dilma Rousseff e o ex-ministro José Dirceu foram os mais festejados pela militância durante a comemoração. Dilma se sentou ao lado do presidente do partido, Rui Falcão, e do presidente da Câmara, Marco Maia (PT-RS). Maia entrou recentemente em rota de colisão com o Palácio do Planalto devido ao não nomeação de um afilhado político para cargo no Banco do Brasil.

Para tentar desfazer o clima de animosidade com o Planalto, o presidente da Câmara fez um discurso enfático, recheado de elogios a presidente Dilma Rousseff. Ela manteve-se, no entanto, impávida, sem demonstrar nenhum entusiasmo com as palavras de Maia.

Impedido de ir ao encontro por recomendação médica, o ex-presidente Lula mandou uma carta lida pelo presidente Rui Falcão. Lula lamentou não estar presente ao encontro.

A senadora Marta Suplicy, que criticou as negociações entre o PT e Kassab para a formação de uma aliança para as eleições para a Prefeitura de São Paulo, não compareceu ao evento. Ela enviou uma carta em que parabeniza o partido e pede que a sigla se mantenha fiel a seus princípios.

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