Uma nova classe trabalhadora

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Em artigo para livro ’10 anos de governos pós-neoliberais no Brasil: Lula e Dilma’ (Boitempo, 2013), a filósofa Marilena Chauí afirma que uma nova classe trabalhadora se constituiu no país num momento em que políticas econômicas e sociais avançaram em direção à democracia, mas as condições impostas pela economia neoliberal determinaram a difusão da ideologia da competência e da racionalidade do mercado. Com isso, ela se tornou propensa a aderir ao individualismo competitivo e agressivo difundido pela classe média.

  • 1. Surpresas

Alguém que, nos anos 1950 e 1960, conhecesse as terríveis condições de vida e de trabalho das classes populares brasileiras e, naquela época, tivesse viajado por uns tempos pela Europa, seria duplamente surpreendido. Primeira surpresa: veria operários dirigindo pequenos carros (na França, o famoso “dois cavalos” da Renault; na Inglaterra, o “biriba” da Morris; na Itália, o Cinquecento da Fiat), passando as férias com a família (em geral em alguma praia), fazendo compras em lojas de departamento populares (na França, o Prixunic; na Inglaterra, o Woolworths e a C&A), enviando os filhos a creches públicas e, quando maiores, à escola pública de primeiro e segundo graus, às escolas técnicas e mesmo às universidades. Também veria que os trabalhadores tinham direito, assim como suas famílias, a hospitais públicos e medicamentos gratuitos e, evidentemente, possuíam casa própria. Era a Europa do período fordista do capitalismo industrial, portanto da linha de montagem e fabricação em série de produtos cujo custo barateado permitia o consumo de massa. Mas era, sobretudo, a Europa da economia keynesiana, quando as lutas anteriores dos trabalhadores organizados haviam levado à eleição de governantes de centro ou de esquerda e ao surgimento do Estado do Bem-Estar Social, no qual uma parte considerável do fundo público era destinada, sob a forma de salário indireto, aos direitos sociais, reivindicados e, agora, conquistados pelas lutas dos trabalhadores. Segunda surpresa: a diferença profunda entre, por exemplo, a situação dos trabalhadores suecos – desde os salários e direitos sociais até os direitos culturais – e a dos espanhóis, portugueses e gregos, ainda submetidos a ditaduras fascistas e forçados a emigrar para o restante da Europa em busca de melhores condições de vida e de trabalho.

Entretanto, não passaria pela cabeça de ninguém dizer que os trabalhadores europeus haviam ascendido à classe média. Curiosamente, é o que se diz hoje dos trabalhadores brasileiros, após dez anos de políticas contrárias ao neoliberalismo.

2. A catástrofe neoliberal

Diante da classe trabalhadora que descrevemos acima, não foi por acaso, em meados dos anos 1970, quando o déficit fiscal do Estado e a estagflação abriram uma crise no capitalismo, que os ideólogos conservadores ofereceram uma suposta explicação para ela: a crise, disseram eles, foi causada pelo poder excessivo dos sindicatos e dos movimentos operários, que pressionaram por aumentos salariais e exigiram o aumento dos encargos sociais do Estado. Teriam, dessa maneira, destruído os níveis de lucro requeridos pelas empresas, desencadeado processos inflacionários incontroláveis e provocado o aumento colossal da dívida pública.

Feito o diagnóstico, também ofereceram o remédio: um Estado forte para quebrar o poder dos sindicatos e movimentos populares, controlar o dinheiro público e cortar drasticamente os encargos sociais e os investimentos na economia, tendo como meta principal a estabilidade monetária por meio da contenção dos gastos sociais e do aumento da taxa de desemprego para formar um exército industrial de reserva que acabasse com o poderio das organizações trabalhadoras. Tratava-se, portanto, de um Estado que realizasse uma reforma fiscal para incentivar os investimentos privados, reduzindo os impostos sobre o capital e as fortunas e aumentando os impostos sobre a renda individual e, assim, sobre o trabalho, o consumo e o comércio. Finalmente, um Estado que se afastasse da regulação da economia, privatizando as empresas públicas e deixando que o próprio mercado operasse a desregulação, ou, traduzindo em miúdos, a abolição dos investimentos estatais na produção e do controle estatal sobre o fluxo financeiro, a drástica legislação antigreve e o vasto programa de privatização. Pinochet, no Chile, Thatcher, na Grã-Bretanha, e Reagan, nos Estados unidos, tornaram-se a ponta de lança política desse programa.

Com o encolhimento do espaço público dos direitos e a ampliação do espaço privado dos interesses de mercado, nascia o neoliberalismo, cujos traços principais podem ser assim resumidos:

1. A desativação do modelo industrial de tipo fordista, baseado no planejamento, na funcionalidade e no longo prazo do trabalho industrial, com a centralização e verticalização das plantas industriais, grandes linhas de montagens concentradas num único espaço, formação de grandes estoques orientados pelas ideias de qualidade e durabilidade dos produtos, e numa política salarial articulada ao Estado (o salário direto articulado ao salário indireto, isto é, aos benefícios sociais assegurados pelo Estado). Em contrapartida, no neoliberalismo, a produção opera por fragmentação e dispersão de todas as esferas e etapas do trabalho produtivo, com a compra e venda de serviços no mundo inteiro, isto é, com a terceirização e precarização do trabalho. Desarticulam-se as formas consolidadas de negociação salarial e se desfazem os referenciais que permitiam à classe trabalhadora perceber-se como classe e lutar como classe social, enfraquecendo-se ao se dispersar nas pequenas unidades terceirizadas, de prestação de serviços, no trabalho precarizado e na informalidade, que se espalharam pelo planeta. Desponta uma nova classe trabalhadora cuja composição e definição ainda estão longe de ser compreendidas.

2. O desemprego torna-se estrutural, deixando de ser acidental ou expressão de uma crise conjuntural, porque a forma contemporânea do capitalismo, ao contrário de sua forma clássica, não opera por inclusão de toda a sociedade no mercado de trabalho e de consumo, mas por exclusão, que se realiza não só pela introdução ilimitada de tecnologias de automação, mas também pela velocidade da rotatividade da mão de obra, que se torna desqualificada e obsoleta muito rapidamente em decorrência da velocidade das mudanças tecnológicas. Como consequência, tem-se a perda de poder dos sindicatos, das organizações e movimentos populares e o aumento da pobreza absoluta.

3. O deslocamento do poder de decisão do capital industrial para o capital financeiro, que se torna o coração e o centro nervoso do capitalismo, ampliando a desvalorização do trabalho produtivo e privilegiando a mais abstrata e fetichizada das mercadorias, o dinheiro, porém não como mercadoria equivalente para todas as mercadorias, mas como moeda ou expressão monetária da relação entre credores e devedores, provocando, assim, a passagem da economia ao monetarismo. Essa abstração transforma a economia no movimento fantasmagórico das bolsas de valores, dos bancos e financeiras – fantasmagórico porque não operam com a materialidade produtiva e sim com signos, sinais e imagens do movimento vertiginoso das moedas.

4. No Estado do Bem-Estar Social, a presença do fundo público sob a forma do salário indireto (os direitos econômicos e sociais) desatou o laço que prendia o capital à força de trabalho (ou ao salário direto). Esse laço era o que, tradicionalmente, forçava a inovação técnica pelo capital a ser uma reação ao aumento real de salário1 e, ao ser desatado, três consequências se impuseram: a) o impulso à inovação tecnológica tornou-se praticamente ilimitado, provocando expansão dos investimentos e agigantamento das forças produtivas cuja liquidez é impressionante, mas cujo lucro não é suficiente para concretizar todas as possibilidades tecnológicas, exigindo o financiamento estatal; b) o desemprego passou a ser estrutural não só pela introdução ilimitada de tecnologias de automação, mas também pela velocidade da rotatividade da mão de obra, que se torna desqualificada e obsoleta muito rapidamente em decorrência da velocidade das mudanças tecnológicas, ampliando a fragmentação da classe trabalhadora e diminuindo o poder de suas organizações; c) o aumento do setor de serviços também se torna estrutural, deixando de ser um suplemento à produção, visto que, agora, sob a designação de tecnociência, a ciência e a tecnologia tornaram-se forças produtivas, deixando de ser mero suporte do capital para se converter em agentes de sua acumulação; com isso, mudou o modo de inserção social do conhecimento científico e técnico, de maneira que cientistas e técnicos se tornaram agentes econômicos diretos. A força e o poder capitalistas encontram-se no monopólio dos conhecimentos e da informação.

5. A transnacionalização da economia reduz a importância da figura do Estado nacional como enclave territorial para o capital e dispensa as formas clássicas do imperialismo – colonialismo político-militar, geopolítica de áreas de influência etc. –, de sorte que o centro econômico, jurídico e político planetário encontra-se no Fundo Monetário Internacional (FMI) e no Banco Mundial, que operam com um único dogma: estabilidade monetária e corte do déficit público.

6. A distinção entre países de Primeiro e terceiro Mundo tende a ser acrescida com a existência, em cada país, de uma divisão entre bolsões de riqueza absoluta e de miséria absoluta, isto é, a polarização de classes surge como polarização entre a opulência absoluta e a indigência absoluta.

3. A mudança a caminho

Em política, há ações e acontecimentos com força para se tornar simbólicos. é assim que podemos contrapor dois momentos simbólicos que marcaram a política brasileira entre 1990 e 2002: o primeiro nos leva de volta ao “bolo de noiva”, que inaugurou a era Collor; o segundo, à pergunta singela feita pelo recém-eleito presidente da república aos âncoras do Jornal nacional da Rede Globo, na noite de 28 de outubro de 2002.
No final da campanha presidencial de 1989 e na fase de transição entre novembro de 1989 e janeiro de 1990, um fato novo marcou a política brasileira: em primeiro plano, tanto nos discursos como nos debates e na prática, veio a economista Zélia Cardoso de Melo com sua equipe técnica. As decisões fundamentais partiam desse grupo, que se reunia em Brasília num edifício apelidado “bolo de noiva” e de lá vieram medidas econômicas que definiram o governo de Fernando Collor, no qual o discurso político foi suplantado pelo técnico-econômico. Neste, surgia, imperial, uma nova figura: o mercado, cuja fantasmagoria só entraria em pleno funcionamento no período de 1994 a 2002, quando a população brasileira passou a ouvir curiosas expressões, tais como “os mercados estão nervosos”, “os mercados estão agitados”, “os mercados se acalmaram”, “os mercados não aprovaram”, como se “os mercados” fossem alguém!

Na noite de 28 de outubro de 2002, no final do Jornal nacional da Rede Globo de televisão, quando os âncoras falavam sobre as cotações das bolsas de valores, do dólar e do real, e sobre a agitação e calmaria dos “mercados”, o presidente da República eleito, Luiz Inácio Lula da Silva, que estava sendo entrevistado, perguntou com um sorriso levemente irônico: “Vocês não têm outros assuntos? Cadê a fome, o desemprego, a miséria, a desigualdade social?”. Essa indagação singela, unida ao pronunciamento feito algumas horas antes, anunciando a criação da Secretaria de Emergência Social, cuja prioridade era o combate à fome, demarcou simbolicamente o novo campo da política no Brasil: os direitos civis, econômicos e sociais são prioritários e comandam as ações técnico-econômicas, pois a democracia é a única forma política em cujo núcleo está a ideia de direitos, tanto de sua criação pela sociedade, como de sua garantia e conservação pelo Estado.

O “bolo de noiva” simbolizou a entrada do país no modelo neoliberal. O pronunciamento e a pergunta do novo presidente da república simbolizaram a decisão de sair desse modelo.

Entre esses dois momentos, intercalam-se os governos de Fernando Henrique Cardoso, que tornaram esse modelo hegemônico ao realizar a chamada reforma e modernização do Estado, isto é, a adoção do neoliberalismo como princípio definidor da ação estatal (privatização dos direitos sociais, convertidos em serviços vendidos e comprados no mercado, privatização das empresas públicas, direcionamento do fundo público para o capital financeiro etc.). Para legitimar essa decisão política, foram mobilizadas as duas grandes ideologias contemporâneas: a da competência e a da racionalidade do mercado.

A ideologia da competência afirma que aqueles que possuem determinados conhecimentos têm o direito natural de mandar e comandar os que supostamente são ignorantes, de tal maneira que a divisão social das classes aparece como divisão entre dirigentes competentes e executantes que apenas cumprem ordens. Essa ideologia, dando enorme destaque à figura do “técnico competente”, tem a peculiaridade de esquecer a essência mesma da democracia, qual seja, a ideia de que os cidadãos têm direito a todas as informações que lhes permitam tomar decisões políticas porque são todos politicamente competentes para opinar e deliberar, e que somente após a tomada de decisão política há de se recorrer aos técnicos, cuja função não é deliberar nem decidir, mas implementar da melhor maneira as decisões políticas tomadas pelos cidadãos e por seus representantes.

Por sua vez, a ideologia neoliberal afirma que o espaço público deve ser encolhido ao mínimo enquanto o espaço privado dos interesses de mercado deve ser alargado, pois considera o mercado portador de racionalidade para o funcionamento da sociedade. Ela se consolidou no Brasil com o discurso da modernização, no qual modernidade significava apenas três coisas: enxugar o Estado (entenda-se: redução dos gastos públicos com os direitos sociais), importar tecnologias de ponta e gerir os interesses da finança nacional e internacional.

Essa ideologia propagou-se pela vida cotidiana brasileira, bastando observar o que acontecia nos noticiários dos meios de comunicação. As cotações das bolsas de valores do mundo inteiro, assim como as das moedas, o comportamento do FMI, do Banco Mundial e dos bancos privados passaram para as primeiras páginas dos jornais, para o momento “nobre” dos noticiários de rádio e televisão, alguns canais chegando mesmo a manter na tela faixas com a variação das cotações das bolsas de valores e das moedas minuto por minuto. A subida ou descida do valor do dólar, do euro e do real, o “risco Brasil”, as falas dos dirigentes do FMI, do Banco Central norte-americano, dos economistas ingleses, franceses e alemães passaram a ocupar o lugar de honra e, nos noticiários matinais, a exibição cotidiana da abertura do pregão da bolsa de valores em Wall Street assumiu a aparência de uma oração ou de uma missa, rivalizando com o que, no mesmo horário, se passava nas rádios e canais de televisão propriamente religiosos.

Ora, o neoliberalismo não é, de maneira nenhuma, a crença na racionalidade do mercado e o enxugamento do Estado, e sim a decisão de cortar o fundo público no polo de financiamento dos bens e serviços públicos (isto é, dos direitos sociais) e maximizar o uso da riqueza pública nos investimentos exigidos pelo capital. A compreensão dessa verdade veio expressar-se na decisão dos eleitores de fazer valer a reivindicação por uma nova forma de gestão do fundo público, na qual a bússola é a defesa dos direitos sociais.

4. Uma nova classe trabalhadora brasileira

Estudos, pesquisas e análises mostram que houve uma mudança profunda na composição da sociedade brasileira, graças aos programas governamentais de transferência da renda, inclusão social e erradicação da pobreza, à política econômica de garantia do emprego e elevação do salário mínimo, à recuperação de parte dos direitos sociais das classes populares (sobretudo alimentação, saúde, educação e moradia), à articulação entre esses programas e o princípio do desenvolvimento sustentável e aos primeiros passos de uma reforma agrária que permita às populações do campo não recorrer à migração forçada em direção aos centros urbanos.

De modo geral, utilizando a classificação dos institutos de pesquisa de mercado e da sociologia, costuma-se organizar a sociedade numa pirâmide seccionada em classes designadas como A, B, C, D e E, tomando como critério a renda, a propriedade de bens imóveis e móveis, a escolaridade e a ocupação ou profissão. Por esse critério, chegou-se à conclusão de que, entre 2003 e 2011, as classes D e E diminuíram consideravelmente, passando de 96,2 milhões de pessoas a 63,5 milhões; já no topo da pirâmide houve crescimento das classes A e B, que passaram de 13,3 milhões de pessoas a 22,5 milhões. A expansão verdadeiramente espetacular, contudo, ocorreu na classe C, que passou de 65,8 milhões de pessoas a 105,4 milhões. Essa expansão tem levado à afirmação de que cresceu a classe média brasileira, ou melhor, de que teria surgido uma nova classe média no país.

Sabemos, entretanto, que há outra maneira de analisar a divisão social das classes, tomando como critério a forma da propriedade. No modo de produção capitalista, a classe dominante é proprietária privada dos meios sociais de produção (capital produtivo e capital financeiro); a classe trabalhadora, excluída desses meios de produção e neles incluída como força produtiva, é proprietária da força de trabalho, vendida e comprada sob a forma de salário. Marx falava em pequena burguesia para indicar uma classe social que não se situava nos dois polos da divisão social constituinte do modo de produção capitalista. A escolha dessa designação decorria de dois motivos principais em primeiro lugar, para afastar-se da noção inglesa de middle class, que indicava exatamente a burguesia, situada entre a nobreza e a massa trabalhadora; em segundo, para indicar, por um lado, sua proximidade social e ideológica com a burguesia, e não com os trabalhadores, e, por outro, indicar que, embora não fosse proprietária privada dos meios sociais de produção, poderia ser proprietária privada de bens móveis e imóveis. Numa palavra, encontrava-se fora do núcleo central do capitalismo: não era detentora do capital e dos meios sociais de produção e não era a força de trabalho que produz capital; situava-se nas chamadas profissões liberais, na burocracia estatal (ou nos serviços públicos) e empresarial (ou na administração e gerência), na pequena propriedade fundiária e no pequeno comércio.

É a sociologia, sobretudo a de inspiração estadunidense, que introduz a noção de classe média para designar esse setor socioeconômico, empregando, como dissemos acima, os critérios de renda, escolaridade, profissão e consumo, a pirâmide das classes A, B, C, D e E, e a célebre ideia de mobilidade social para descrever a passagem de um indivíduo de uma classe para outra.

Se abandonarmos a descrição sociológica, se ficarmos com a constituição das classes sociais no modo de produção capitalista (ainda que adotemos a expressão “classe média”), se considerarmos as pesquisas que mencionamos ao iniciar este texto e os números que elas apresentam relativos à diminuição e ao aumento do contingente nas três classes sociais, poderemos chegar a algumas conclusões:

1. Os projetos e programas de transferência de renda e garantia de direitos sociais (educação, saúde, moradia, alimentação) e econômicos (aumento do salário mínimo, políticas de garantia do emprego, salário-desemprego, reforma agrária, cooperativas da economia solidária etc.) indicam que o que cresceu no Brasil foi a classe trabalhadora, cuja composição é complexa, heterogênea e não se limita aos operários industriais e agrícolas.

2. O critério dos serviços como definidor da classe média não se mantém na forma atual do capitalismo porque a ciência e as técnicas (a chamada tecnociência) se tornaram forças produtivas e os serviços por elas realizados ou delas dependentes estão diretamente articulados à acumulação e reprodução do capital. Em outras palavras, o crescimento de assalariados no setor de serviços não é crescimento da classe média, e sim de uma nova classe trabalhadora heterogênea, definida pelas diferenças de escolaridade e pelas habilidades e competências determinadas pela tecnociência. De fato, no capitalismo industrial, as ciências, ainda que algumas delas fossem financiadas pelo capital, se realizavam, em sua maioria, em pesquisas autônomas cujos resultados poderiam levar a tecnologias aplicadas pelo capital na produção econômica. Essa situação significava que cientistas e técnicos pertenciam à classe média. Hoje, porém, as ciências e as técnicas tornaram-se parte essencial das forças produtivas e por isso cientistas e técnicos passaram da classe média à classe trabalhadora como produtores de bens e serviços articulados à relação entre capital e tecnociência. Dessa maneira, renda, propriedade e escolaridade não são critérios para distinguir entre os membros da classe trabalhadora e os da classe média.

3. O critério da profissão liberal também se tornou problemático para definir a classe média, uma vez que a nova forma do capital levou à formação de empresas de saúde, advocacia, educação, comunicação, alimentação etc., de maneira que seus componentes se dividem entre proprietários privados e assalariados, e estes devem ser colocados (mesmo que vociferem contra isso) na classe trabalhadora.

4. A figura da pequena propriedade familiar também não é critério para definir a classe média porque a economia neoliberal, ao desmontar o modelo fordista, fragmentar e terceirizar o trabalho produtivo em milhares de microempresas (grande parte delas, familiares) dependentes do capital transnacional, transformou esses pequenos empresários em força produtiva que, juntamente com os prestadores individuais de serviços (seja na condição de trabalhadores precários, seja na condição de trabalhadores informais), é dirigida e dominada pelos oligopólios multinacionais, em suma, os transformou numa parte da nova classe trabalhadora mundial.

Restaram, portanto, as burocracias estatal e empresarial, o serviço público, a pequena propriedade fundiária e o pequeno comércio não filiado às grandes redes de oligopólios transnacionais como espaços para alocar a classe média. No Brasil, esta se beneficiou com as políticas econômicas dos últimos dez anos, também cresceu e prosperou.

Assim, se retornarmos ao exemplo do viajante brasileiro na Europa dos anos 1950 e 1960, diremos que a nova classe trabalhadora brasileira começa, finalmente, a ter acesso aos direitos sociais e a se tornar participante ativa do consumo de massa. Como a tradição autoritária da sociedade brasileira não pode admitir a existência de uma classe trabalhadora que não seja constituída pelos miseráveis deserdados da terra, os pobres desnutridos, analfabetos e incompetentes, imediatamente passou-se a afirmar que surgiu uma nova classe média, pois isso é menos perigoso para a ordem estabelecida do que uma classe trabalhadora protagonista social e política.

Ao mesmo tempo, entretanto, quando dizemos que se trata de uma nova classe trabalhadora consideramos que a novidade não se encontra apenas nos efeitos das políticas sociais e econômicas, mas também nos dois elementos trazidos pelo neoliberalismo, quais sejam, de um lado, a fragmentação, terceirização e precarização do trabalho e, de outro, a incorporação à classe trabalhadora de segmentos sociais que, nas formas anteriores do capitalismo, teriam pertencido à classe média. Dessa nova classe trabalhadora pouco se sabe até o momento.

5. Classe média: como desatar o nó?

Uma classe social não é um dado fixo, definido apenas pelas determinações econômicas, mas um sujeito social, político, moral e cultural que age, se constitui, interpreta a si mesmo e se transforma por meio da luta de classes. Ela é uma práxis, ou como escreveu E. P. Thompson, um fazer-se histórico. Ora, se é nisso que reside a possibilidade transformadora da classe trabalhadora, é nisso também que reside a possibilidade de ocultamento de seu ser e o risco de sua absorção ideológica pela classe dominante, sendo

O primeiro sinal desse risco justamente a difusão de que há uma nova classe média no Brasil. E é também por isso que a classe média coloca uma questão política de enorme relevância.

Estando fora do núcleo econômico definidor do capitalismo, a classe média encontra-se também fora do núcleo do poder político: ela não detém o poder do Estado nem o poder social da classe trabalhadora organizada. Isso a coloca numa posição que a define menos por sua posição econômica e muito mais por seu lugar ideológico, e este tende a ser contraditório.

Por sua posição no sistema social, a classe média tende a ser fragmentada, raramente encontrando um interesse comum que a unifique. Todavia, certos setores, como é o caso dos estudantes, dos funcionários públicos, dos intelectuais e de lideranças religiosas, tendem a se organizar e a se opor à classe dominante em nome da justiça social, colocando-se na defesa dos interesses e direitos dos excluídos, dos espoliados, dos oprimidos; numa palavra, tendem para a esquerda e, via de regra, para a extrema esquerda e o voluntarismo. No entanto, essa configuração é contrabalançada por outra exatamente oposta. Fragmentada, perpassada pelo individualismo competitivo, desprovida de um referencial social e econômico sólido e claro, a classe média tende a alimentar o imaginário da ordem e da segurança porque, em decorrência de sua fragmentação e de sua instabilidade, seu imaginário é povoado por um sonho e por um pesadelo: seu sonho é tornar-se parte da classe dominante; seu pesadelo é tornar-se proletária. Para que o sonho se realize e o pesadelo não se concretize, é preciso ordem e segurança. Isso torna a classe média ideologicamente conservadora e reacionária, e seu papel social e político é o de assegurar a hegemonia ideológica da classe dominante, fazendo com que essa ideologia, por intermédio da escola, da religião, dos meios de comunicação, se naturalize e se espalhe pelo todo da sociedade. é sob essa perspectiva que se pode dizer que a classe média é a formadora da opinião social e política conservadora e reacionária.

Cabe ainda particularizar a classe média brasileira, que, além dos traços anteriores, é também determinada pela estrutura autoritária da sociedade brasileira. De fato, conservando as marcas da sociedade colonial escravista, a sociedade brasileira é marcada pelo predomínio do espaço privado sobre o público e, tendo o centro na hierarquia familiar, é fortemente hierarquizada em todos os seus aspectos: nela, as relações sociais e intersubjetivas são sempre realizadas como relação entre um superior, que manda, e um inferior, que obedece. As diferenças e assimetrias são sempre transformadas em desigualdades que reforçam a relação mando-obediência, e as desigualdades são naturalizadas. As relações entre os que se julgam iguais são de “parentesco”, isto é, de cumplicidade; e, entre aqueles que são vistos como desiguais, o relacionamento toma a forma do favor, da clientela, da tutela ou da cooptação, e, quando a desigualdade é muito marcada, assume a forma da opressão. A divisão social das classes é sobredeterminada pela polarização entre a carência (das classes populares) e o privilégio (da classe dominante), que é acentuada e reforçada pela adoção da economia neoliberal. Visto que uma carência é sempre particular, ela se distingue do interesse, que pode ser comum, e do direito, que é sempre universal. Visto que o privilégio é sempre particular, não pode unificar-se num interesse comum e jamais pode transformar-se num direito, pois, nesse caso, deixaria de ser privilégio. Compreende-se, portanto, a dificuldade para instituir no Brasil a democracia, que se define pela criação de novos direitos pela sociedade e sua garantia pelo Estado.

Parte constitutiva da sociedade brasileira, a classe média não só incorpora e propaga ideologicamente as formas autoritárias das relações sociais, como também incorpora e propaga a naturalização e valorização positiva da fragmentação e dispersão socioeconômica, trazidas pela economia neoliberal e defendidas ideologicamente pelo estímulo ao individualismo competitivo agressivo e ao sucesso a qualquer preço pela astúcia para operar com os procedimentos do mercado.

Ora, por mais que, no Brasil, as políticas econômicas e sociais tenham avançado em direção à democracia, as condições impostas pela economia neoliberal determinaram, como vimos, a difusão por toda a sociedade da ideologia da competência e da racionalidade do mercado como competição e promessa de sucesso. Uma vez que a nova classe trabalhadora brasileira se constituiu no interior desse momento do capitalismo, marcado pela fragmentação e dispersão do trabalho produtivo, de terceirização, precariedade e informalidade do trabalho, percebido como prestação de serviço de indivíduos independentes que se relacionam com outros indivíduos independentes na esfera do mercado de bens e serviços, ela se torna propensa a aderir ao individualismo competitivo e agressivo difundido pela classe média. Em outras palavras, o ser do social permanece oculto e por isso ela tende a aderir ao modo de aparecer do social como conjunto heterogêneo de indivíduos e interesses particulares em competição. E ela própria tende a acreditar que faz parte de uma nova classe média brasileira.

Essa crença é reforçada por sua entrada no consumo de massa.

De fato, do ponto de vista simbólico, a classe média substitui a falta de poder econômico e de poder político, que a definem, seja pela guinada ao voluntarismo de esquerda, seja voltando-se para a direita pela busca do prestígio e dos signos de prestígio, como os diplomas e os títulos vindos das profissões liberais, e pelo consumo de serviços e objetos indicadores de autoridade, riqueza, abundância, ascensão social – a casa no “bairro nobre” com quatro suítes, o carro importado, a roupa de marca etc. Em outras palavras, o consumo lhe aparece como ascensão social em direção à classe dominante e como distância intransponível entre ela e a classe trabalhadora. Esta, por sua vez, ao ter acesso ao consumo de massa tende a tomar esse imaginário por realidade e a aderir a ele.

Se, pelas condições atuais de sua formação, a nova classe trabalhadora brasileira está cercada por todos os lados pelos valores e símbolos neoliberais difundidos pela classe média, como desatar esse nó?

6. Para finalizar

Se a política democrática corresponde a uma sociedade democrática e se no Brasil a sociedade é autoritária, hierárquica, vertical, oligárquica, polarizada entre a carência e o privilégio, só será possível dar continuidade a uma política democrática enfrentando essa estrutura social. A ideia de inclusão social não é suficiente para derrubar essa polarização. Esta só pode ser enfrentada se o privilégio for enfrentado e este só será enfrentado por meio de quatro grandes ações políticas: uma reforma tributária que opere sobre a vergonhosa concentração da renda e faça o Estado passar da política de transferência de renda para a da distribuição e redistribuição da renda; uma reforma política, que dê uma dimensão republicana às instituições públicas; uma reforma social, que consolide o Estado do bem-estar social como política do Estado e não apenas como programa de governo; e uma política de cidadania cultural capaz de desmontar o imaginário autoritário, quebrando o monopólio da classe dominante sobre a esfera dos bens simbólicos e sua difusão e conservação por meio da classe média.

Mas a ação do Estado só pode ir até esse ponto. A continuidade da construção de uma sociedade democrática só pode ser a práxis da classe trabalhadora e por isso é fundamental que ela própria, como já o fez tantas outras vezes na história e tão claramente no Brasil, nos anos 1980 e 1990, encontre, em meio às adversidades impostas pelo modo de produção capitalista, caminhos novos de organização, crie suas formas de luta e de expressão autônoma, seja o sujeito de seu fazer.

Crônicas paulistanas

Era a manhã de uma quinta-feira, no “bairro nobre” de Higienópolis, em São Paulo. Pelas ruas, uma passeata, alguns folhetos e cartazes: os moradores de classe média “alta” do bairro puseram-se em movimento para impedir a construção de uma estação de metrô em sua vizinhança, alegando que a presença cotidiana de trabalhadores em trânsito traria violência, perigo, sujeira e crime, ameaçando a ordem e a segurança da região.

Era um sábado à noite. Nos aeroportos de Congonhas e Guarulhos, centenas de passageiros enfrentavam uma situação caótica: voos atrasados, alguns cancelados, outros transferidos de um setor para outro dos aeroportos, sem aviso prévio. Muita confusão. Uma parcela dos passageiros, com valises estampando griffes famosas para marcar sua posição de “alta” classe média, manifestou coletivamente seu profundo desagrado e, aqui e acolá, ouvia-se o mesmo refrão: “é isto o presente de grego deste governo. Entupiu os aeroportos com a gentalha que deveria estar nas estações rodoviárias, onde é o seu lugar!”.

Era um domingo à tarde. Precisei ir ao banco para fazer uma retirada de dinheiro

Para as despesas da semana. Meu genro me deu uma carona, mas ao chegar à agência bancária não lhe foi possível estacionar porque as três entradas para carros estavam obstruídas por um enorme automóvel prateado, cujos vidros escuros impediam-nos de saber se havia alguém ali. Desci no meio da rua e ao me dirigir ao banco voltei-me para o veículo prateado e indaguei em voz bem alta, pois não sabia se, além de escuros, impedindo a visão, os vidros também seriam blindados, impedindo a entrada de algum som:

– Há alguém aí? Vocês vão ao banco? Estão impedindo o estacionamento de outros carros!

Nenhuma resposta.

Entrei na agência bancária e ia começar uma operação quando uma moça, toda faceira, vestida, calçada e maquiada com todas as marcas grã-finas, se aproximou e gritou:

– Não tem educação, não? Vai gritando assim pela rua? Retruquei:

– Você ocupou todo o espaço disponível para o estacionamento dos carros e eu não sabia sequer se havia alguém no seu carro.

Nesse exato momento, entrou um homem (não tão moço quanto ela, mas também coberto de griffes da alta moda) e gritou:

– Você pensa que eu vou estacionar o meu Mercedes em qualquer lugar? Foi a conta. Do fundo das minhas entranhas veio o brado:

– Você é o típico representante da classe média paulistana! Fascista! Você é uma abominação política!

Por alguns segundos ele ficou sem ação, mas a moça não teve dúvidas: me bateu. Voltei-me para ela:

– Você vai passar da violência verbal para a violência física? Você é uma abominação ética!

Os dois se entreolharam perplexos e ele retomou a iniciativa:

– Você é uma velha feia!

Foi a sopa no mel. Repliquei:

– A minha idade é um fato da natureza, é um dado objetivo. Você não pode transformar um dado da natureza num xingamento. Você é uma abominação cognitiva!

Os dois ficaram imóveis por um momento e partiram sem dizer mais nada.

Na verdade, foram derrotados naquilo em que, certamente, são sempre vitoriosos: seu intento, típico de classe média, de fazer valer o “sabe com quem está falando?”. De fato, suas falas procuraram automática e imediatamente estabelecer uma relação de hierarquia, em que eles eram a parte superior e eu, a parte inferior do pedaço: não tenho educação, não sei o valor de um Mercedes, devo mesmo apanhar e sou uma velha feia diante de dois jovens (ele, nem tanto) elegantes e bonitos. O intento era me inferiorizar e me humilhar, isto é, me pôr no meu lugar. Afinal, o que é que estou pensando que sou?

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Na pesquisa Ibope: Serra cai, Haddad sobe e empata com Serra. E agora José?

by mariafro

Haddad tem crescido 1 ponto percentual por dia após o início da propaganda eleitoral, quanto mais conhecido, mais eleitores ganha, sua margem de crescimento ainda é alta. Seu índice de rejeição bem baixo.

Serra já era?

Por: *Wagner Iglecias, especial para o Maria Frô

 

As pesquisas de intenção de voto divulgadas nesta semana para a prefeitura de São Paulo trouxeram boas novidades para Celso Russomano (PRB), que parece ir se consolidando na liderança, e para Fernando Haddad, que vai crescendo à medida em que passa a ser mais conhecido do eleitorado e reconhecido como o candidato do PT. A José Serra, do PSDB, couberam péssimas notícias, de queda nas intenções de voto e de aumento vigoroso no índice de rejeição. Pergunta: como pode aquele que era considerado favorito na disputa, há algumas semanas, estar enfrentando este cenário, com chances de nem mesmo qualificar-se para o 2º turno?

As razões devem ser muitas. Uma delas, óbvia, é o apoio de Gilberto Kassab e a imediata associação que o eleitor faz de Serra com uma gestão que é avaliada pela maioria dos paulistanos como bastante ruim. De fato há em São Paulo neste momento uma aspiração por mudança, ainda que vaga. E, talvez indo mais além, pode estar se gestando um sentimento, ainda meio difuso, de percepção de esgotamento de material, relativo não apenas a Kassab e a Serra, mas ao consórcio que domina a cidade há quase uma década e que se encontra no comando do estado há quase vinte anos.

Mas a questão não é só essa. A questão é Serra, a forma como se relaciona com o meio político e a maneira como se apresenta à sociedade. Sobre o meio político é notória a quantidade de desafetos que colecionou. Em relação à forma como se apresenta a sociedade, lembremos que nos últimos dez anos Serra disputou simplesmente quatro das cinco eleições possíveis. Provavelmente seja um caso único num período tão curto de tempo. Foi candidato à presidência da república em 2002, à prefeitura de São Paulo em 2004, ao governo do estado em 2006 e novamente à presidência em 2010. E sempre com o velho mote da casinha pobre da Moóca, da banca de frutas do Mercado Municipal, do homem dos genéricos, do melhor ministro da saúde que este país já teve, do criador das escolas técnicas, do criador dos mutirões da saúde etc, etc, etc. Fez campanhas errantes – por vezes colocou-se claramente como o candidato anti-PT, como na eleição contra Marta Suplicy, em 2004. Por outras, tentou apresentar-se como o oposto disto. Quem não se lembra do ?Zé amigo do Lula?, ou do ?sai o Lula, entra o Zé?, de 2010? Por falar em 2010, carregou sua biografia e seu partido para geografias sociais e políticas relativamente ?exóticas? ao militante tucano mais tradicional, como quando aproximou-se de lideranças católicas conservadoras e pastores das mais variadas denominações evangélicas. Acabou com isto ou para isto levando para a campanha presidencial daquele ano uma agenda calcada em questões morais que fariam corar o antigo economista que um dia escreveu livros e artigos sobre a economia brasileira e sua inserção na ordem mundial.


Fonte: Ibope, Ifográfico: A/E

Nesta eleição à prefeitura de São Paulo Serra enfrenta um desafio adicional: é um homem de 70 anos, o mais velho entre todos os candidatos. A foto da tentativa mal-sucedida de subir num simples skate virou piada nas redes sociais. A estréia no horário eleitoral na televisão, vestindo jogging, andando de bicicleta e empinando pipa também não convenceu. Assim como já tinha soado artificial sua aparição pública para assistir aos jogos do Brasil na Copa do Mundo de 2010 e soou o recente passeio de metrô às 13hs, entre duas estações situadas numa das mais nobres regiões da cidade. Até o jingle da campanha, baseado no ?tchu, tcha?, de claro apelo popular, não pegou como se esperava. Embora toque na novela, seu timing já foi e muita gente não aguenta mais ouvir a grudenta e repetitiva melodia.

Tudo, ou quase tudo na campanha serrista soa pouco espontâneo. Sobretudo aos mais jovens, à garotada que vive online, uma geração para quem cargos, títulos ou autoridade já não convencem muito, e que só respeita mesmo duas coisas: autenticidade e bons argumentos. Não é a toa que, de acordo com o Datafolha desta semana, entre os jovens de 16 a 34 anos Serra conta com impressionantes 50% de rejeição. Tenho cá pra mim que se o recorte fosse entre os 16 e 24 anos, quando se é, efetivamente, jovem, este índice seria até maior.

Passa por Serra e pelos homens de sua campanha, porém, o futuro da eleição paulistana. Os números que as pesquisas estão trazendo são dramáticos para o tucano, mas ainda há tempo de campanha e o jogo está aberto. Embora a situação seja bastante delicada para Serra, talvez estejam demonstrando muito açodamento os que, de forma até eufórica, já o consideram carta fora do baralho. O que resta ao tucano é inevitavelmente partir para o ataque. Para sobreviver, no entanto, em quem Serra baterá? Em Russomano, para disputar a vaga do pólo conservador no 2o. turno, a partir da premissa de que Haddad vai garantir a outra vaga com os votos do pólo progressista da cidade? Ou vai bater em Haddad, a partir da premissa que a vaga de Russomano no 2o. turno já está garantida? Passa por Serra, mais do que nunca, o que será desta eleição em São Paulo. Quem poderia, semanas atrás, dizer que de favorito Serra passaria à condição de fiel da balança?

*Wagner Iglecias é doutor em Sociologia e professor da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP.

Notícias da Fundação Perseu Abramo

Notícias da Fundação Perseu Abramo
Boletim informativo quinzenal – nº 191 – de 16.08.2012 a 31.08.2012

Teoria e Debate
Na edição de agosto, artigos e análises sobre a situação brasileira e internacional
Leia este mês:Nota de Conjuntura VI, por Grupo de Conjuntura da Fundação Perseu Abramo
Ensino superior: avanços, impasses e riscos, por Sidney Jard da Silva e Giorgio Romano Schutte
Autonomia do Estado e revolução democrática, por Marcus Ianoni
Perspectivas da agenda para o segundo semestre, por Antônio Augusto de Queiroz
Apesar da crise…, por Jorge Mattoso
Opções da reindustrialização brasileira, por Wladimir Pomar
História bancária em movimento, Fernando Nogueira da Costa
Um ano de governo Humala no Peru, por Kjeld Jakobsen


Lançamento 1
Reconquistar a Cidade, livro de Marcio Pochmann, será lançado em Campinas
Capa_Livro_Reconquistar_a_CidadeO livro “Reconquistar a Cidade: o conhecimento como estratégia das mudanças”, de Marcio Pochmann, será lançado no dia 29/08 em Campinas.Editado pela EFPA, o livro reúne informações e análises que reafirmam o potencial inovador do conjunto de saberes e talentos que Campinas abriga e aponta os desafios para que a cidade retome sua vocação vanguardista.

O lançamento será na Livraria Cultura, no Shopping Center Iguatemi às 19h, com sessão de autógrafos e bate papo com  Pochmann. O livro está disponível na loja virtual.


Lançamento 2
Lançamentos da EFPA no Simpósio Internacional Esquerda na América Latina
A EFPA promoverá lançamento de dois livros durante o Simpósio Internacional Esquerda na América Latina, que acontece na USP: a reedição ampliada de “Marxismo na América Latina – Uma antologia de 1909 aos dias atuais”, de Michael Lowy (com a presença do autor) e “As esquerdas latino-americanas: Em tempo de criar”, de Nils Castro. Os lançamentos estão previstos para o dia 12/09 às 19h30, no prédio de História e Geografia da FFLCH.


Editora
EFPA sorteia livros no Facebook
Curta a página da Editora no Facebook e concorra a livros. Dois internautas já foram sorteados desde o início da campanha. Para isso basta clicar no botão CURTIR na página que pode ser acessada no endereçohttp://www.facebook.com/EditoraFundacaoPerseuAbramo

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Revista
Seminário “Crise do capitalismo e o desenvolvimento do Brasil” ganha publicação
Capa_Revista_Seminario_Crise_do_CapitalismoO seminário “A crise do capitalismo e o desenvolvimento do Brasil” ganhou publicação impressa. A revista registra os debates do encontro que teve a participação de economistas, dirigentes partidários e parlamentares. O evento foi realizado pelas Fundações Perseu Abramo (PT), Maurício Grabois (PCdoB), João Mangabeira (PSB) e Leonel Brizola-Alberto Pasqualini (PDT).A publicação traz as participações de Maria da Conceição Tavares, Marcio Pochmann, Carlos Lessa, Luiz Carlos Bresser-Pereira, Theotônio dos Santos, Arno Augustin, Ricardo Bielschowsky, Ricardo Carneiro, Tânia Bacelar, Wilson Cano e Nelson Barbosa, e pode ser baixada em formato PDF.


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Artigos

CUT apoia Venezuela no Mercosul e quer a pauta do trabalho no centro do processo de integração, por João Felício e Artur Henrique

A violência contra jovens negros no Brasil, por Paulo RamosOusar é preciso, por Amanda Lemes, Leopoldo Vieira e Joaquim Cartaxo

A nova batalha de Hugo Chávez, por Ignacio Ramonet

Lições do passado, por Wladimir Pomar

Política e desenvolvimento, por Samuel Pinheiro Guimarães

NotíciasEm decisão inédita, Tribunal de Justiça de São Paulo reconhece militar como torturador

Bolsa Família erradica miséria e ajuda Brasil a crescer

Balanço dos cursos para pré-candidatos/as às eleições de 2012
Lei Maria da Penha faz seis anos e combate à violência de gênero ganha mais visibilidade




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Boletim informativo quinzenal – nº 190 – de 01.08.2012 a 15.08.2012

Livros
O Brasil Privatizado – um desmonte do Estado chega à 13ª reimpressão
Capa_O_Brasil_Privatizado
Chega às livrarias neste mês a 13ª reimpressão do livro O Brasil Privatizado – um desmonte do Estado, do jornalista Aloysio Biondi.
A obra lidera o ranking  da EFPA, com mais de 140 mil exemplares vendidos. Biondi apresenta um dramático balanço – fartamente documentado – dos resultados que a política de privatização deixou para o país na área social e econômica.




Formação
Escola Nacional de Formação: modo petista de atuação parlamentar é tema de chat
A ENF (Escola Nacional de Formação) do PT promove um chat (conversa on-line) para filiados/as cadastrados/as no dia 02/08 ao meio-dia sobre o modo petista de atuação parlamentar, com José Cavalli Jr. Saiba mais clicando aqui.Combate ao racismo –  A Escola Nacional de Formação iniciará neste semestre a Jornada Nacional de Combate ao Racismo. Em breve, mais informações serão divulgadas.


Teoria e Debate
Leia os novos textos da edição de julho
Estão disponíveis para leitura novos textos da edição de julho de Teoria e Debate. Destaque para a seção Em debate, com artigos e área para discussão sobre os resultados da Rio+20. Confira ainda o que foi publicado sobre a economia brasileira e sobre a política nacional nos links abaixo:Em debate: o saldo da Rio+20

É preciso tirar o pé do acelerador, por Amir Khair

- O descaso do Legislativo pela vontade popular, por Marcelo Figueiredo

O PT e o Foro de São Paulo, por Valter Pomar

Resenha do livro:”Política de Comunicações: um Balanço dos Governos Lula (2003-2010)”




Internacional
Esquerda latino-americana se organiza para apoiar Chávez
Imagem_Banner_Brasil_esta_com_Chavez


Movimentos e partidos de esquerda da América Latina e do Caribe decidiram, durante o Encontro do Foro de São Paulo realizado em Caracas no início de julho, apoiar a reeleição de Hugo Chávez para a presidência da Venezuela.

Foram realizados atos de solidariedade em diversas cidades do mundo e inúmeras iniciativas estão sendo adotadas. No Brasil, foi criado o comitê “Brasil está com Chávez”, e todos/as os interessados/as podem participar assinando o manifesto e divulgando suas iniciativas nas redes sociais.

Blog: http://brasilcomchavez.wordpress.com
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O “mensalão” da mídia – Nota da Liderança do Partido dos Trabalhadores na Câmara dos Deputados

Mercosul torna-se a quinta economia mundial com entrada da Venezuela, destaca Dilma

Depois da Venezuela, Bolívia e Equador negociam integração ao Mercosul

Entidades manifestam apoio a Chávez e lançam comitê de solidariedade

Negociação e mobilizações de massa serão as bandeiras da CUT em seu mandato, afirma novo presidente
ArtigosO Mercosul na sua segunda geração, por Jeferson Miola

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Balanço do processo eleitoral de 2012 no México, por Xadeni Méndez Márquez

Juventude e socialismo: questões fundamentais, por Carlos Henrique Menegozzo


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Dizendo o nome da esquerda

Vladimir Safatle propõe a pulverização das instâncias decisórias, rebatendo as objeções que levantam o medo de chegarmos a um assembleísmo imobilista.

por Vinícius Justo (08/07/2012)
em Livros

“A esquerda que não teme dizer seu nome”, de Vladimir Safatle

1.

Se precisarmos definir o novo livro de Vladimir Safatle, diremos que se trata de um texto de intervenção. Preço acessível, simplificação da linguagem e dos problemas (que, não obstante, ainda surgem complexos como são), circunscrição bem clara e definida dos assuntos, todas são características de uma tentativa de ampliação do número de leitores, com a intenção de atingir uma intervenção decidida no campo político. Para isso, é vital reafirmar o ideal heideggeriano: “o pensamento age quando pensa”, retomado logo no início do livro e afirmado como a forma por excelência de definição do processo intelectual em meio à sociedade. Como toda intervenção, não se trata apenas de conseguir o público, mas de marcar a posição a partir da qual se fala e qual o objetivo da enunciação.

É possível dizer com clareza qual é o objetivo de Safatle com o livro: reafirmar o pensamento de esquerda, definindo-o e desenvolvendo suas implicações na realidade, buscando um diálogo principalmente com a própria esquerda – o que significa muitas vezes alienar interlocutores possíveis e importantes, risco bastante presente aqui – e caracterizando o que o autor chama de “decisão a respeito do que será visto como inegociável”, um termo bastante útil em dias de abandono de princípios em nome de governabilidades e outras utilidades mais ou menos necessárias do jogo político.

Entretanto, a boa definição dos objetivos ainda carece de igual marcação a respeito do lugar da enunciação. Apesar de o livro dar as indicações de praxe – trata-se de um filósofo da USP, colunista de jornal, além das referências bibliográficas espalhadas pelo texto, que indicam a filiação intelectual do autor –, ficamos sem saber de fato de onde surge o discurso que incita a uma “esquerda que não tema dizer seu nome”. Vem da Academia? De um partido político por vir (seja ele existente ou não hoje)? Da própria sociedade civil, cansada de falsas aporias contemporâneas? A pergunta não é ociosa, pois mesmo a defesa de princípios inegociáveis precisa estabelecer claramente seu chão histórico e social, sob pena de nascer irrelevante. Nesse sentido, a intencionada “cartografia inicial de questões” empreendida por Safatle deverá ser interpretada de acordo com o exemplário oferecido pelo autor como ilustração dos princípios e a partir de suas características objetivas, delineadas em boa medida pelo leitor.

Por esse motivo, é relevante que eu diga meu lugar de enunciação e meu objetivo. O primeiro está intrinsecamente ligado a Safatle, visto que ele é um forte representante do “prédio do meio” e eu sou um novo rebento do prédio ao lado (para quem não conhece a USP, os prédios da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas são três: o do meio é de Filosofia e Ciências Sociais, o do lado é o de Letras e no outro lado ficam História e Geografia). Em parte, falar sobre o autor de A esquerda que não teme dizer seu nome é falar sobre minha própria formação (em andamento) e sobre as relações decorrentes dela. Por outro lado, meu objetivo é discutir as questões apresentadas no livro não do ponto de vista de um representante da esquerda (mais sobre isso adiante), porém como interessado nos assuntos abordados e em como as correntes de esquerda têm elaborado suas visões de nossa realidade atual.

2.

Começando pela introdução do livro, já bastante sugestiva, somos apresentados pelo autor aos dois grupos de pensadores que, de alguma forma, assinalaram o esgotamento das alternativas à esquerda tanto no plano intelectual como no plano de intervenção social. Segundo o autor, o primeiro grupo é constituído por aqueles felizes pela derrota intelectual da esquerda, algo que lhes possibilitou afirmar sua vitória ideológica na esteira da queda do Muro de Berlim e do colapso soviético. O segundo grupo é o que se pode chamar de “ex-esquerda”, aqueles que desistiram de um ideário visto hoje como utópico e se submeteram à participação na ordem democrática liberal contemporânea, aceita como a “menos pior” das possibilidades.

Nesse contexto, Safatle encontra motivos suficientes para o questionamento desse diagnóstico a partir da volta ao paradigma “esquerda-direita”; para o autor, o pretenso apagamento das diferenças entre esses dois campos serve apenas aos grupos de cima e ignora as reais clivagens de visão de mundo que existem até hoje, capazes de estabelecer com clareza as filiações dos participantes na sociedade e na política.

E aqui cabe uma primeira ressalva: o embaralhar dos campos ideológicos se deve muito mais à dificuldade em estabelecer uma identidade inequívoca pautada por um eixo principal de análise. Ou seja, diferentemente do que o autor defende, presenciamos hoje uma dificuldade ímpar em associar completamente este ou aquele ator social a um campo ou outro, ainda que em alguns casos seja bastante fácil – penso logo em Francisco de Oliveira e Reinaldo Azevedo como exemplos “puros” de ambos os lados, lembrando que os dois de forma alguma se equivalem.

Este ponto me é especialmente caro por ser eu mesmo um defensor da ideia de que a antinomia “esquerda-direita”, embora ainda presente nos debates e nas considerações sobre política dos atores mais destacados, perdeu sua capacidade de descrever com fidelidade a miríade de posições e construções ideológicas, organizadas ou não, na sociedade contemporânea. Ainda que seja possível, grosso modo, perceber que algumas construções ideológicas orbitam mais claramente em um lado ou outro do antigo espectro, muitas outras se organizam ao centro ou mesmo à margem da divisão clássica, gerando inclusive dificuldades de compreensão do que verdadeiramente está em jogo nos debates públicos.

De todo modo, a introdução do livro busca estabelecer quais serão os pontos inegociáveis do discurso de esquerda na atualidade, para desenvolvê-los em seguida. São basicamente dois, acrescentando um terceiro de natureza diversa: defesa do igualitarismo e defesa da soberania popular (seguida pelo direito à resistência), por assim dizer temperados por uma compreensão mais complexa da experiência esquerdista do século passado. Desenvolveremos estes pontos em separado, assim como estão no livro.

3.

O igualitarismo, segundo Safatle, passa por reconhecer o “paradoxo” das sociedades capitalistas: a concentração de riquezas de um lado implicando a pauperização de camadas populares. A desigualdade de renda, inegável pelos dados, também leva à famosa “luta de classes”; o posicionamento da esquerda nesse quadro deve ser uma defesa radical de fórmulas criadas com o sentido de igualar mais os atores sociais em termos econômicos, e o principal exemplo citado foi a proposta de Jean-Luc Mélenchon na última eleição francesa: uma lei do “salário máximo”, impondo que uma empresa não pague mais do que vinte vezes mais do que as pessoas com o menor salário recebem.

A defesa do igualitarismo econômico, entretanto, soa muito normativa no livro. Uma sociedade pode até funcionar bem com tamanhas desigualdades (a ideologia é que dá conta disso, diriam marxistas), e não fica em nenhum momento claro porque deveríamos apoiar políticas radicais contra isso. A falta de coesão social, por exemplo, é algo causado diretamente pela desigualdade; mas o texto explora muito pouco fatores como esse e ficamos com a impressão de que mais igualdade econômica é boa em si, sem levar muito em conta seus efeitos posteriores, seus reais objetivos.

Mas o ponto nevrálgico do capítulo está no diálogo com a esquerda (outra esquerda?) por meio da defesa da “segunda perna” do igualitarismo: para além da defesa do fim das desigualdades econômicas, estaria a necessidade de pensar uma “indiferença às diferenças”. Ou seja, políticas calcadas na afirmação de “diferenças”, a maior parte delas culturais, mas também de raça, teriam de ser abandonadas em nome de um universalismo que estaria na base da esquerda desde sua fundação moderna.

O objetivo declarado de Safatle está em, ao constatar o esgotamento das políticas de diferença e sua “captação” por setores conservadores da sociedade, buscar uma maneira mais firme de superar o paradoxo de que “a organização discursiva do campo social das diferenças [seja] sempre solidária à exclusão de elementos que não poderão ser representados por esse campo” (p.29, grifo no original). O objetivo real da inclusão das diferenças na política seria atingir “condições [em que] a diversidade pode aparecer como a modulação de uma mesma universalidade em processo tenso de efetivação” (pp.29-30, grifo no original).

Trata-se da ideia mais polêmica de todo o livro, pois implica repensar uma série de pressupostos fortíssimos da esquerda na atual conjuntura. Além disso, é uma clara tomada de posição contrária ao multiculturalismo inspirado, entre outros, pela obra filosófica de multiculturalismo e sua afirmação da “différance”, a diferença marcada contra uma oposição linguística estabelecida (poderíamos traduzir por “diferensa”?). Mais sobre Derrida e Foucault adiante, lembrando que Safatle não cita os dois neste capítulo.

A discussão sobre como as diferenças podem participar da política e se devem ou não ceder a uma ideia de universalismo é uma discussão bastante ampla e perigosa. É inevitável pela própria natureza impessoal do Estado que se intente algum grau de universalismo; por outro lado, não há como negar certa dimensão opressiva da “indiferença às diferenças”. Caetano Veloso, em coluna de jornal, diz que o que incomoda no livro é exatamente essa “indiferença” que teria origem nos partidos comunistas de sua juventude, tão machistas e avessos a homossexuais quanto os reacionários que combatiam.

Quanto a isso, faço apenas duas provocações. A primeira é que curiosamente o reconhecimento da diferença passa, no limite, por uma aceitação de diversidades tão amplas dentro de um mesmo Estado que poderia, se radicalizada, levar ao reconhecimento pleno do indivíduo como célula indivisível do processo político. É quando Derrida pode encontrar o liberalismo (ou pelo menos algum liberalismo). Talvez isso possa ser mais bem trabalhado em próximas intervenções.

A segunda provocação é a constatação de que os exemplos usados para garantir a visão de que a defesa das diferenças foi capturada por conservadores são, enfim, exemplos muito ruins. A frase de Tony Blair sobre tolerância foi mal analisada e é muito mais ambígua e complexa do que o autor dá a entender. Mas o que mais incomoda é a citação ao Papa Bento XVI e seu diálogo recente com a escola de Frankfurt. Safatle considera um “impropério” Ratzinger “citar Adorno e Horkheimer em suas bulas, como se a crítica frankfurtiana […] levasse diretamente às suas pregações […]” (p.32). Bom, vejam por si sós se Ratzinger mobiliza realmente Adorno e Horkheimer para confirmar pregações católicas em sua encíclica Spe salvi. Meu diagnóstico é que o trato da diferença é ainda um processo mal resolvido pelo autor, talvez melhor explorado em seu livro recente Grande Hotel Abismo, enquanto aqui a defesa radical da “indiferença” tende a ser algo dogmática.

4.

O capítulo seguinte, sobre soberania popular, me parece o mais bem acabado dos três principais, embora suas propostas não sejam tão bem definidas. Ora, isso decorre da própria natureza dos assuntos tratados. Para falar da soberania popular, Safatle começa recorrendo a Lefort, Derrida, Calvino (pois é!) e outros para entendermos que nem tudo que não esteja previsto dentro do Estado de Direito é necessariamente ilegal. Além disso, essa ideia não leva inexoravelmente ao totalitarismo – ao contrário, a desobediência a um poder constituído “legalmente”, mas antipopular, é prevista em todo sistema democrático que preza por seu nome. Aqui, a citação me parece eloquente:

Mesmo a tradição liberal admite, ao menos desde John Locke, o direito que todo cidadão tem de se contrapor ao tirano, de lutar de todas as formas contra aquele que usurpa o poder e impõe um estado de terror, de censura, de suspensão das garantias de integridade social. (p.41)

O direito à resistência constitui-se, então, como o direito cidadão por excelência, ao impedir que a sociedade seja feita refém de políticas autoritárias. O próprio Direito, admitindo que sua circunscrição não pode prever todas as situações, compreenderia que há momentos em que sua jurisdição é insuficiente. O que nos faz lembrar imensos debates recentes sobre ações que poderiam ser classificadas como “ilegais”, em que os próprios limites da execução de determinadas leis estavam em questão em nome de princípios mais gerais. O caso do Pinheirinho me parece sob medida para essa discussão.

Nesse sentido, seria vital para a esquerda defender esse lugar além do direito em que a soberania popular se manifesta, sob pena de gestarmos uma sociedade que deseje “substituir a política pela polícia” (p.48). O que não implica sucumbir, segundo Safatle, à tentação de instituir plebiscitos para a resolução de questões centrais. Embora alguns plebiscitos sejam bem-vindos, há políticas e legislações que não podem ser resolvidas desta forma para evitar a “ditadura da maioria”, conceito não usado no livro, porém adequado à situação.

Em troca disso, o autor propõe, de forma acertada a meu ver, a pulverização das instâncias decisórias, rebatendo firmemente as objeções que levantam o medo de chegarmos a um assembleísmo imobilista. Não deixa de ser curioso que novamente aproximemos uma ideia de esquerda de ideais liberais, sendo que a descentralização das decisões que dizem respeito às comunidades menores sempre foi uma bandeira liberal. Isso ocorre, em minha opinião, por não haver detalhes mais aprofundados sobre como se daria essa pulverização de instâncias decisórias – e podermos então explicitar as diferenças para com um projeto liberal. Safatle argumenta que uma democracia não precisa de instituições fortes, mas de poderes instituintes fortes, o que nos leva a pensar que a fundação popular de seu sistema precisaria ser arquitetada com o máximo de rigor. Precisaremos de um Sólon?

5.

Após estabelecer os marcos inegociáveis da esquerda, cabe refletir como a esquerda deve pensar sua história recente e como se apresentar perante a ela. E é aqui o momento mais ambicioso do livro: fornecer uma gramática que permita assimilar os defeitos dos regimes passados (ou seja, a compreensão dos calcanhares de Aquiles das ideias comunistas e suas experiências de poder, quase todas resultando em ditaduras) e ainda reivindicar o legado positivo das lutas passadas.

Para definir a necessidade de repensar o socialismo real (isto é, alguns dos piores regimes ditatoriais do século passado), precisamos abandonar a crença de que ideias, uma vez postas à mesa, devem funcionar instantaneamente. O processo histórico caminharia por tentativa e erro, importando mais o aprendizado com os erros do que a busca de novos paradigmas.

Nesse sentido, não devo deixar de assinalar o caráter algo saudosista e pouco moderno dessa asserção. Não é nada necessário à esquerda continuar inspirando-se nas conquistas de Pirro de alguns processos revolucionários ou tentando limpar parte da reputação de alguns de seus heróis complicados de defender. Temos diversos exemplos de governos de esquerda, e até de inspiração marcadamente comunista, bem-sucedidos sem sucumbir às tentações totalitárias dos regimes de inspiração soviética ou maoísta. Em suma, inspirar-se em Kerala, na Índia, talvez seja melhor para a esquerda do que ser constantemente assombrada por velhos fantasmas.

Nesta discussão sobre a visão que a esquerda tem de si mesma, joga papel decisivo a superação da dicotomia – falsa ou real? – entre reformistas e revolucionários. Para Safatle, a divisão é falsa e interessa apenas ao imobilismo da esquerda, dado que a verdadeira característica da esquerda é aposta em uma nova humanidade. Ou, nas palavras de Alain Badiou, o século XX foi o “século do advento de outra humanidade”. Nesse sentido, a crítica ao modo liberal de enxergar o mundo está posta em primeiro plano.

Um dos traços fundamentais da esquerda […] está na recusa em compreender a sociedade como uma associação entre indivíduos […] a fim de realizar, da melhor maneira possível, seus interesses particulares. […] [A] consequência fundamental dessa distorção é a compreensão da ‘liberdade’ simplesmente como o nome que damos para o sistema de defesa dos interesses particulares dos indivíduos, de suas propriedades privadas e de seus modos de expressão. (p.68)

Assim, a mudança da sociedade precisa ter objetivo claro, e os meios para a modificação importam menos, até porque a História provou que processos revolucionários não podem ser criados artificialmente. É preciso fugir à “elevação da revolução [como] modelo único de acontecimento dotado de verdade” por transformar nuances em poeira e ser “a maneira mais segura de a esquerda caminhar para o raquitismo eleitoral”. Em sentido contrário, mas buscando a mesma síntese, Safatle discorda de Ruy Fausto na tentativa deste de determinar se os momentos revolucionários já engendram em si seu próprio autoritarismo. A base da posição do autor frente às revoluções é não procurar sua criação, e ao mesmo tempo não recusar seu surgimento.

Afinal, se há um grande problema à esquerda, e é para onde aponta Safatle no final de seu livro, é que esta não tem uma teoria de governo, embora tenha presente sua teoria de poder, na esteira das considerações foucaultianas sobre os mecanismos de opressão. Uma vez no poder, a esquerda falhou seja em desmantelar esses mecanismos, seja em buscar uma política que os superasse, reproduzindo em muitos casos a própria dinâmica da direita. Assim, a busca de uma teoria do governo da esquerda precisaria levar em conta que, à diferença da ideologia liberal, considera-se que “o indivíduo não é a medida de todas as coisas”, o que “não significa afirmar que ele não é medida de coisa alguma” (p.81).

O ponto, para mim, é que as ideias liberais têm o indivíduo por base por este ser, como eu disse acima, a célula indivisível da política, para além de classes, estamentos, castas ou qualquer outra categoria sociológica, que podem explicar movimentos amplos e macroeconômicos, mas falham constantemente em elaborar o papel e a visão do sujeito dentro de uma dada condição social – algo que os “não indiferentes à diferença” até poderiam fazer, se não fosse o fato de eles criarem ainda novas categorias que, embora menos abstratas, não deixam de ser limitantes. Os limites do pensamento de esquerda também estão aí, e infelizmente Safatle não parece considerar isto uma questão verdadeiramente relevante.

6.

Que as discussões e as censuras acima não levem a dois equívocos: o primeiro, menos provável, de considerarem que não nutro respeito imenso pelo filósofo Vladimir Safatle. Em todas as vezes que o ouvi falar, aprendi e pensei muito sobre suas colocações, e com este livro não foi diferente. O segundo erro, do qual busco resguardar-me decididamente, é considerarem a partir desta resenha que o livro não tem interesse algum àqueles que porventura conheçam bem os assuntos tratados na obra de modo leve. Nada mais falso; este livro alcança seu objetivo: fomentar o debate. Será injusto não debatê-lo para muito além desta resenha e do âmbito da universidade. Caso contrário, para quê livros, afinal?

::: A esquerda que não teme dizer seu nome :::
::: Vladimir Safatle :::
::: Três Estrelas, 2012, 88 páginas :::
::: compre na Livraria Cultura :::

Dilma Rousseff recebe o presidente do Ipea

 

Marcio Pochmann entregou os dois volumes do Brasil em Desenvolvimento e o Plano de Trabalho do Instituto

Fotos: Roberto Stuckert Filho/PR
Dilma Rousseff e Marcio Pochmann conversaram, no Palácio do
Planalto, sobre os dois volumes da obra Brasil em Desenvolvimento

A convite da Presidência da República, o presidente do Ipea, Marcio Pochmann, foi recebido nesta terça-feira, 29 de maio, pela presidenta Dilma Rousseff. Durante o encontro, no Palácio do Planalto, Pochmann entregou à presidenta os dois volumes do livro Brasil em Desenvolvimento: Estado, Planejamento e Políticas Públicas, que o Ipea publicou neste ano.

A obra, divulgada em dois eventos, em Brasília e São Paulo, trata do tema “Financiamento do desenvolvimento: possibilidades, limites e desafios para esta década”. Produzidos inteiramente pelo corpo técnico do Instituto, os estudos contaram com a participação de 40 colaboradores de todas as diretorias setoriais do Ipea. O objetivo é oferecer informação e análises a respeito dos principais elementos da demanda e oferta de recursos públicos necessários à superação dos maiores entraves que se colocam atualmente ao desenvolvimento brasileiro.

Além do Brasil em Desenvolvimento, Pochmann entregou a Dilma o Plano de Trabalho do Ipea para 2012, que reúne os projetos estabelecidos pelas diretorias e assessorias do Instituto. O documento está disponível no sítio do Ipeana internet.

Vinculado à Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada completará, em 2012, 48 anos. Sua missão é “produzir, articular e disseminar conhecimento para aperfeiçoar políticas públicas e contribuir para o planejamento do desenvolvimento brasileiro”.

Eduardo Galeano: “Fomos treinados para ter medo de tudo e de todos”

A cada dia, nasce uma história em “Os filhos dos dias”, novo livro do escritor uruguaio. São 366 textos que, segundo Galeano, são histórias de invisíveis que merecem ser contadas. Confira a entrevista

Por Ana María Mizrah

Publicado por Brasil de Fato, original de La Republica, de Montevidéu
Por que este título: Os filhos dos dias?
Segundo os maias, nós somos filhos dos dias, ou seja, o tempo é que estabelece o espaço. O tempo é nosso pai e nossa mãe e, como somos filhos dos dias, o mais natural é que a cada dia nasça uma história. Somos feitos de átomos, mas também de histórias.
Dentro dessas histórias há muitas vinculadas à nossa vida cotidiana. Você assinala: “vivemos em um mundo inseguro”. A particularidade é que projeta que existem diferentes concepções sobre a insegurança. A que se refere?
Muitos políticos no mundo inteiro, não é algo que passa somente em nosso país, exploram um tipo de histeria coletiva a respeito do tema da insegurança. Te ensinam a ver o próximo como uma ameaça e te proíbem de vê-lo como uma promessa, ou seja, o próximo, esse senhor, essa senhora que anda por aí, pode roubar-te, sequestrar-te, enganar-te, mentir para você, raramente oferecer-te algo que valha a pena receber. Creio que essa forma parte de uma ditadura universal do medo. Fomos treinados para ter medo de tudo e de todos e este é o álibi que necessita a estrutura militar do mundo. Este é um mundo que destina metade de seus recursos à arte de matar o próximo. Os gastos militares, que são o nome artístico dos gastos criminais, necessitam de um álibi. As armas necessitam da guerra, como os abrigos necessitam do inverno.
Quando fala dos medos, você joga com essa palavra para assim mencionar os meios e tem uma história que é “os meios de comunicação”. A que lugar você atribui aos meios em nossos medos
Às vezes, os meios atuam como medos de comunicação, então, se convertem em medos de incomunicação. Isto não é verdade para todos, mas sim para alguns meios que no mundo inteiro exploram esse tipo de histeria coletiva desatada com o tema da insegurança. Mentem, porque a insegurança não se reduz à insegurança que se pode sofrer nas ruas. Inseguro é este mundo e a primeira é a insegurança no trabalho, que é a mais grave de todas e da qual nunca falam os políticos que exploram o tema da insegurança. Não há nada mais inseguro que o trabalho. Todos nos perguntamos: e amanhã, haverá quem me contrate? Voltarei ao lugar de trabalho onde estive hoje? Terá alguém ocupado meu lugar?
Esse medo real de perder o trabalho ou de não encontrá-lo é a fonte de insegurança mais importante. Tão inseguro é o mundo, a quantidade de pessoas que matam os carros nisso que chamamos acidentes de trânsito, na realidade são atos criminosos por conta dos condutores que tendo permissão de dirigir, tem permissão para matar, ou a insegurança da maioria das crianças que nascem no mundo condenados a morrer muito cedo de fome ou de enfermidade incurável.
Aparecem as histórias dos desaparecidos, mas lhe menciono uma em particular, chamada Plano Condor, onde a história que se conta pertence a Macarena Gelma. Como foi para você conhecer Macarena Gelman?
Comecei conhecendo ao pai de Macarena (Marcelo) e ao avô Juan (Gelman) com quem trabalhei junto na revista Crisis em Buenos Aires e que é meu amigo de toda a vida. São muitos anos de amizade, ou melhor, de irmandade. Juan (Gelman) teve que sair da Argentina para continuar vivo, naqueles dias que se viviam em Buenos Aires, onde tinha que ir ou esconder-se. Então, eu recebia com muita frequência a seu filho Marcelo e me fiz de pai por algum tempo, depois o mataram, e a outra história é bastante conhecida.
A mulher de Marcelo (María Claudia) foi sequestrada na Argentina. Eram acusados do crime de protestar, delitos de dignidade que tem a ver com o direito estudantil ao protesto. Esses eram os crimes dos meninos, como eles foram assassinados muito cedo. A María Claudia assassinaram no Uruguai, onde já funcionava o mercado comum da morte, que foi o melhor em funcionamento, porque o Mercosul ainda tinha dificuldades graves. O mercado da morte funcionou muito bem naquelas horas do terror onde as ditaduras trocavam favores. Mandaram María Claudia grávida para o Uruguai e aqui os militares uruguaios se encarregaram do trabalho. Esperaram ela dar à luz, ela passou seus últimos dias, ou talvez seus últimos meses, na sede do Bulevar Artigas e Palmar (SID) onde descobriu-se a placa em memória de María Claudia e todos os que estiveram ali.
Me impressionou o contraste pela beleza exterior do palácio e os horrores que escondia. Depois de dar à luz, a mataram e entregaram seu filho(a) a um policial, troca de favores. A partir de uma busca complicada de Juan (Gelman) e seus amigos, conseguiu encontrá-la e agora chama-se Macarena Gelman. Nós tornamos muito amigos e uma vez jantando em casa, me contou essa história que é parte das histórias de “Os filhos dos dias” (livro). É uma história muito íntima, muito particular e lhe pedi autorização para publicá-la. É uma história rara, mas reveladora. Conta que quando ainda não sabia quem era e vivia em outra casa, com outro nome, nesse período sofria de insônia contínua, que não a deixavam dormir a noite porque a perseguia sempre o mesmo pesadelo. Via uns senhores desconhecidos muito armados que a buscavam no dormitório onde estava dormindo, debaixo da cama, no guarda-roupa e em todas as partes e ela acordava gritando e angustiadíssima.
Durante muitíssimo tempo, toda sua infância teve esse pesadelo que a perseguia e ela não sabia o por quê, de onde vinha. Até que conheceu sua verdadeira história e soube que estava sonhando os pesadelos que sua mãe havia vivido enquanto a formava no ventre. A mãe, uma estudante de apenas 19 anos, era perseguida de verdade por outros senhores armados até os dentes que a encontraram e a mandaram para morrer no Uruguai. Macarena estava no ventre dessa mulher acoada e perseguida. Desde o ventre padecia a perseguição que sua mãe sofria e depois a sonhou e se converteu em seus próprios pesadelos. Ela sonhou o que sua mãe havia vivido. É uma história que parece uma metáfora da transmissão, das penas, dos horrores, e também de outras continuidades que não são todas horríveis.
É um livro que contém muitas histórias de mulheres. Por que?
Também há muitas histórias de mulheres em meus livros anteriores, como Espelhos e Bocas do Tempo. Há muitas histórias dos invisíveis, e as mulheres ainda são bastante invisíveis. Há histórias de negros, de índios, das culturas ignoradas, das pessoas ignoradas e que merecem ser redescobertas porque têm algo para dizer e vale a pena escutar.
Neste último livro (Os filhos dos dias) há uma história que me impressionou muito, e que não havia escrito até agora, a de Juana Azurduy. Juana foi uma heroína das guerras de independência. Encabeçou a tomada do Cerro de Potosí que estava nas mãos dos espanhóis. Ela era a chefe de um grupo guerrilheiro que recuperou Potosí das mãos espanholas. Depois seguiu guerreando pela independência, perdeu seus 7 filhos e seu marido nessa guerra. Finalmente, foi enterrada em uma fossa comum e morreu na pobreza mais pobre que se possa imaginar. Antes havia recebido um título militar, foram as forças independentistas as que lhe deram um título que dizia em mérito: “a sua viril coragem”. Precisou-se de muito tempo para que uma presidenta argentina (Cristina Fernández) a outorgasse o título de General por sua feminina valentia.
Há muitas histórias dos povos originários, da luta pelos recursos naturais, e o rol das multinacionais. Em particular, uma história dedicada à selva amazônica.
Essa história sobre a Amazônia recorda que a Texaco, empresa petroleira que derramou veneno durante muitos anos, arruinou boa parte da solva equatoriana. Foi a juízo, mas perdeu. As vítimas desse atentado à natureza e às pessoas desse lugar não tinham meios econômicos, enquanto a Texaco contava com centenas de advogados. Ao cabo de anos, contudo, o pleito foi ganho, mas ainda não se colocou em prática, porque há muitas maneiras de se apelar, e de tirar a bola para fora e para isso não faltam doutores.
No livro tem um olhar crítico sobre os governos progressistas que ainda não descriminalizaram o aborto.
O livro toca todos os temas sempre a partir de histórias concretas. Não é um livro teórico.
As 366 histórias não são somente latino-americanas, você percorre o mundo.
Há muitas histórias que merecem ser recuperadas. Luana, por exemplo, foi a primeira mulher que firmou seus escritos nas tábuas de barro. Ocorreu há quatro mil anos e dizia que escrever era uma festa. Essa mulher é desconhecida. E vale a pena contar que essa história existiu.
A respeito da crise internacional , você resgata o que ocorreu na Islândia e o movimento dos indignados na Espanha.
Esta crise provém de um círculo muito pequeno de banqueiros onipotentes. Me ocorreu para esta história um título sinistro que foi “adote um banqueiro”. Os responsáveis da crise são os que mais têm se queixado e os que mais dinheiro tem recebido. Eles têm sido recompensados por fundir o planeta. Todo esse dinheiro que destinou aos que causaram o pior desastre na história da humanidade seria suficiente para dar comida aos famintos do mundo com sobra, inclusive.
Você acha uma contradição a existência do movimento dos indignados e que, ao mesmo tempo, tenha ganhado o Partido Popular na Espanha?
A aparição dos indignados é o que de mais lindo ocorreu no mundo nos últimos tempos. Creio que o melhor da vida é sua capacidade de surpresa. O melhor dos meus dias é o que ainda não vivi. Cada vez que uma cigana me cerca para ler a minha mão a peço por favor que a pague, mas que não leia. Não quero que me digam o que vai me ocorrer, o melhor que a vida tem é a curiosidade e a curiosidade nasce da ignorância do destino. A explosão dos indignados começou na Espanha, e depois se estendeu em outras partes. É uma boa notícia a capacidade de indignação. Bem dizia meu mestre brasileiro Darcy Ribeiro (intelectual brasileiro já falecido) que o mundo se divide entre os indignos e os indignados e que tem-se que tomar partido, há que se eleger.
Pensei muito nele quando surgiu este movimento. Jovens que perderam seus empregos e suas casas por responsabilidade desses malabarismos financeiros que acabaram despojando os inocentes de seus bens. Eles não foram os que pegaram empréstimos impossíveis, não foram eles os culpados da bolha financeira e deste disparate que aconteceu na Espanha de construir e construir e agora está cheia de moradias desabitadas e gente sem casa.
O PP ganhou a eleição, é verdade. A direita ganhou as eleições, e terá que lutar para que isso mude. Isto que aconteceu na Espanha também fala do desprestígio de forças de esquerda que entram na vida política prometendo mudanças radicais, e depois terminam repetindo a história, ao invés de mudá-la. Muitas pessoas, sobretudo os jovens, se sentem desapontadas e abandonam a política.
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