Ciranda – Por Ricardo Fernandes de Menezes

No dia 20 de maio de 2006, foram disponibilizados no sítio do Partido dos Trabalhadores (PT) na Internet os documentos intitulados Conjuntura, Tática e Política de Alianças e Diretrizes para a Elaboração do Programa de Governo, aprovados no 13º Encontro Nacional do PT, realizado no final do mês de abril do presente ano. Nos dois documentos encontram-se análises sobre o governo Luiz Inácio Lula da Silva e diretrizes para a elaboração do programa de governo a ser apresentado à sociedade brasileira nas eleições de 2006.

Chama a atenção, nos dois documentos, a ênfase com que a questão social é abordada e, por isso mesmo, revela-se a preocupação com um dos pressupostos para o encaminhamento de soluções para a superação das enormes desigualdades que caracterizam a sociedade brasileira: as condições de operação do aparelho de Estado nacional.

Assim, diz-se que o país “experimentou os efeitos de uma década de governos neoliberais, com efeitos gravíssimos nas condições de vida do povo, na vida econômica do país e na capacidade de atuação social do Estado”; fala-se “na desestruturação do aparelho de Estado”; aponta-se que “o contexto do processo de privatizações no Brasil foi marcado também pelo desmonte neoliberal da máquina estatal e de suas já combalidas estruturas de controle e fiscalização”; afirma-se que “foi necessário desencadear um processo de reconstrução do Estado, enfraquecido por forte crise fiscal, por privatizações, terceirização de seu pessoal” e, agrega-se, que “abandonou-se a opção anterior pelo Estado mínimo”.

E lê-se ainda naqueles documentos: “Interrompeu-se o ciclo de privatizações, concursos recompuseram áreas fundamentais do serviço público. Foram retomados os investimentos no saneamento básico, tendo sido já contratados 6.2 bilhões de reais de serviços nesta área. Deu-se vigoroso impulso às grandes estatais.

A Petrobrás, a Caixa Econômica, o Banco do Brasil, o BNDES, a Infraero, para só citar algumas empresas, passaram a ter papel estruturante na reorganização do país, ao mesmo tempo em que exibem uma rentabilidade que nunca tiveram”. E lê-se também: “O investimento em pessoal e equipamento na Polícia Federal permitiu inéditos avanços no combate ao crime organizado” e, por fim, que “Os programas de transferência de renda têm forte impacto sobre a reativação da economia, transcendem o assistencialismo, mas o desafio para o segundo mandato é transformar esses programas em políticas sociais universais, tais como a Previdência Social e o SUS mais adequados ao nosso país que se caracteriza por profundas desigualdades sociais”.

No dia 27 de maio de 2006, em matéria publicada na Folha de São Paulo, intitulada “Tarso pede fim do “conceito arcaico” de direito adquirido”, assinada por Malu Delgado, da  Reportagem Local, Seção Brasil, foram veiculadas supostas declarações do Ministro de Relações Institucionais, Tarso Genro, entre elas as contidas no seguinte trecho da matéria:

O ministro de Relações Institucionais, Tarso Genro, defendeu ontem a “redução drástica de despesas da União, com corte de salários, pensões e aposentadorias como uma medida exemplar” e crucial para que o país consiga crescer a médio prazo. Especializado em direito trabalhista, afirmou que é preciso “remover o conceito arcaico de direito adquirido” e “cassar privilégios para os quais as pessoas não contribuíram”.

Tais supostas declarações causam espécie, porque destoam completamente do eixo político central que inspira os aludidos documentos aprovados no 13º Encontro Nacional do Partido dos Trabalhadores (PT), agremiação da qual o ministro faz parte.  

Há de se ter críticas ao Estado – lato sensu – historicamente erigido pela elite econômica (burguesia) brasileira, mas a solução é trabalhar com persistência e competência para democratizá-lo, reorganizá-lo e torná-lo coisa pública. No entanto, para que isso seja possível, o “insumo” vital é gente – profissionais de carreira, concursados, bem remunerados, sistematicamente capacitados e compromissados com a causa pública. De certo, entes públicos eficazes da Administração Pública no país – citarei a Petrobrás face à exemplaridade que lhe é inerente, mas existem muitos outros – não teriam sido construídos à luz do Estado mínimo, cujo discurso tem como característica mais saliente a estigmatização dos servidores públicos, dos servidores do Estado ou, ainda, como preferem alguns, dos trabalhadores sociais. 

Atualmente, a sociedade brasileira assiste às graves conseqüências da desestruturação do aparelho de Estado brasileiro, iniciada no final dos anos 1980, em todos os setores que convenciona-se denominar de sociais, com crises na segurança pública e na saúde para não nos alongarmos. Contudo, afrontando mesmo a realidade, continuamos a conviver com um dado discurso que, por ser ideologicamente dotado de lógica interna complexa, contribui para estigmatizar sobremaneira os servidores do Estado perante a sociedade.

Este discurso é uma espécie de ciranda, na qual joga-se remediados contra pobres, e pobres contra excluídos.

Os que são remediados e pobres, o são porque, mal ou bem, têm direitos sociais que, ao longo de décadas de duras lutas, foram sendo conquistados, mas escribas e oradores disso se esquecem.

Os que não são remediados, nem pobres, nem tampouco excluídos, não aparecem na história daqueles escribas e oradores esquecidos. E pior: o topo da pirâmide social, de um país cuja concentração de renda e exclusão só fez aumentar durante o paraíso prometido por Fernando CoIlor de Melo e Fernando Henrique Cardoso (chegou-se a afirmar que estaríamos vivendo um “novo renascimento”, lembram-se?), simplesmente não existe, pois, provavelmente, trata-se de entidade divina, atemporal.

Advoga-se que os remediados não têm direitos sociais, não, eles têm privilégios em face dos pobres, portanto, pobre que é pobre (o que é ser pobre?) deve buscar esquartejar os remediados?; já os pobres também não têm certos direitos sociais, não, eles têm privilégios em face dos excluídos, portanto, excluído que é excluído, deve combater os pobres? E assim continua a moderna “ciranda da solidariedade” do novo milênio, com sua proverbial vocação para, quem sabe?, entoar a ordem de ataque dos excluídos aos remediados e, deste modo, ensejar a contra-ofensiva política desses com relação aos excluídos e pobres, ou – pior dos mundos – brotar da terra o grito de guerra dos pobres, não contra a degradação da vida humana originária dos interesses da divindade do Capital, não, mas contra os excluídos!

A intervenção do Estado não pode dar curso à possibilidade de se estabelecer no imaginário popular a inusitada dinâmica daquela ciranda de ressentimento, que, por outro lado, não eleva, muito menos solda, o princípio da solidariedade social no sentido (apenas) da busca da consecução de emblemas da Revolução Francesa (1789): igualdade e fraternidade.

No aparato estatal existem remediados e, a depender do que se considere pobreza, existem por certo pobres, mas não existem excluídos. O círculo de servidores federais, estaduais e municipais, que vertebra a face visível do Estado na vida cotidiana das pessoas, aguarda historicamente ser conduzido por mãos arrojadas que, no mínimo, o leve a implementar ações e a executar atividades estruturantes de políticas públicas, norteadas por princípios de proteção da vida, que visem:

a) num primeiro momento, impulsionar os excluídos para cima, para a pobreza que seja, porém objetivando assentar esses seres em definitivo na condição de cidadãos cujos direitos sociais foram reconhecidos – de fato;

b) ungir os lídimos pobres, bem como os novos-pobres – os quais, então, seriam lembranças tristes da exclusão passada -, à dignidade que resulta da ampliação das possibilidades de acesso à cultura, ao trabalho regular e formal, à proteção social (educação e seguridade social – saúde, previdência e assistência social), à prática de esporte, ao lazer;

c) valorizar a importância do trabalho dos remediados para a construção coletiva de uma sociedade que transite da perspectiva de barbárie – verossímil como conseqüência de desdobramentos políticos imponderáveis da profunda desigualdade econômico-social e cultural  reinante no Brasil – para uma sociedade menos desigual.

O círculo de servidores a que me refiro partilha de sentimento singelo e, talvez por isso mesmo, não associa aquelas políticas públicas à caridade, porque ele mesmo não se enxerga como objeto de políticas de corte benemerente ou de políticas públicas de eliminação de direitos – instituídos há décadas – de quem vem, com todas as sabidas dificuldades, constituindo-se em agente principal da prestação de serviços voltados para a proteção social de excluídos, de pobres e de remediados.

Sim, os servidores públicos brasileiros não entendem o giro de uma ciranda que, a pretexto de impulsionar a solidariedade humana, consagra a divindade do Capital e de seus negócios, os quais, por um passe de mágica, tornam-se invisíveis, desprovidos de interesses concretos e passam a pairar no Brasil como almas penadas que, persistentemente, distribuem o sofrimento, sugam a riqueza e a soberania nacionais e tentam inculcar-nos o menos nobre dos sentimentos: tudo haverá de ser como antes, porque, de novo, não há nada mesmo a fazer…

 

Contudo, embora não se saiba bem porque, os servidores públicos brasileiros ainda conseguem extrair do fundo d’alma a esperança. Por que será? Talvez porque acreditem que o desafio do mandato popular é implantar políticas sociais universais, tais como a Previdência Social e o Sistema Único de Saúde (SUS), mais adequadas a um país que, conforme foi mencionado anteriormente, se caracteriza por profundas desigualdades sociais.

 


Ricardo Fernandes de Menezes é médico sanitarista.

Caso Enem: todo apoio ao ministro Haddad (Dep. Paulo Teixeira PT – SP)

Escrito em 16 de novembro de 2010, às 11:49

Diante da recente notícia de que o presidente do Tribunal Regional Federal (TRF) da 5ª Região, o desembargador Luiz Alberto Gurgel de Faria, considerou o recurso do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep) e sustou a liminar que invalida o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) de 2010, cabe aqui reiterar nosso apoio incondicional ao Ministro Fernando Haddad, à sua postura diante dos acontecimentos e à validação do Exame.

Não há motivos para que nossa confiança no Enem seja, em alguma medida, abalada. Afinal, entre os mais de 4,5 milhões de alunos que se inscreveram para fazer a prova (sendo que 3,3 milhões efetivamente a fizeram), menos de 1.000 tiveram problemas em suas avaliações. Isso significa que o Inep, responsável pelo Exame, e o Ministério da Educação, do qual o Inep é autarquia, obtiveram uma margem de mais de 99% de acerto. E, assim como grandes concursos e vestibulares que são realizados todos os anos no país, o Enem é passível de ter questões anuladas por conta de problema ou outro.

Além disso, conforme já se explicou, é possível aplicar uma nova prova aos poucos alunos prejudicados sem que haja perda de isonomia – isto é, nossa tecnologia educacional permite, com toda precisão, fazermos um exame com o mesmo grau de dificuldade do primeiro, pouco importando se as provas são realizadas em dias distintos ou não. Muitos exames, como o TOEFL, que avalia proficiência em língua inglesa, são realizados em países diferentes e em dias diferentes e, nem por isso, são desqualificados. Outro exemplo é o SAT (Standart Admissions Test), que, utilizado por universidades norte-americanas para selecionar seus futuros alunos, é realizado sete vezes por ano.

É evidente que as falhas precisam ser, com urgência, corrigidas, de modo que aprendamos com os erros a fim de evitar cometê-los no futuro. No entanto, o Exame Nacional do Ensino Médio vem recebendo saltos de qualidade consideráveis sob a gestão do Ministro Haddad. Trata-se, conforme observou o neurocientista Miguel Nicolelis – professor da Universidade de Duke – em entrevista ao Viomundo, de uma das melhores maneiras que existem no mundo de se avaliar o conhecimento, pois nela os alunos são examinados de modo uniforme, independentemente das diferentes metodologias de ensino a que foram submetidos.

Não é à toa que, ao todo, 500 mil alunos a mais se inscreveram no Exame desta vez, e que mais universidades passam a adotá-lo a cada ano. Por tudo isso, é nossa obrigação defender o Enem, refazer o processo com os alunos prejudicados e, por fim, validar sua aplicação neste ano de 2010. Quando tenta desqualificar a prova e menosprezar o trabalho do Ministro Haddad, a oposição, derrotada nas urnas, tenta criar um clima inexistente de terceiro turno. Não podemos permiti-lo.

Serra não cumpre meta e temporários já representam 46% dos professores em SP

 

 

Apesar de José Serra ter prometido reduzir a taxa de professores temporários para 10%, hoje eles já representam 46% da rede estadual, a maior proporção desde 2005. Quando o tucano assumiu o governo, em 2007, eram 42,4%. 

Os dados são da própria Secretaria da Educação. Em números absolutos, são hoje 101 mil não efetivos. Um concurso público com 10 mil vagas foi feito em março, mas os aprovados só começarão a trabalhar no ano que vem. 

Pesquisadores afirmam que o contingente de temporários tem impacto direto na qualidade de ensino, uma vez que eles tendem a ter uma rotatividade maior nos colégios. 

O Estado já poderia ter diminuído o número de temporários. “Com um mínimo de planejamento, você sabe quantos professores vão se aposentar ou sair da rede e pode planejar concursos”, diz Ocimar Alavarse, pesquisador da Faculdade de Educação da USP e ex-membro da Secretaria da Educação na gestão Kassab na prefeitura da capital. 

Para Alavarse, há a possibilidade de o Estado não acelerar os concursos porque conta com a continuidade de municipalização de parte da rede. “Mas o processo é lento e não há garantias de que vá se efetivar.” 

Segundo o presidente da Udemo (entidade que representa os diretores de escolas), Luiz Gonzaga Pinto, “o Estado só quer saber de economizar”. Segundo ele, o temporário custa 15% a menos, por não ter alguns benefícios. 

Em Santo André, falta de professor deixa alunos sem aula 

Os alunos de escolas estaduais de Santo André têm sofrido com a ausência de professores titulares e falta de eventuais e temporários para substitui-los. Segundo a Apeoesp (Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo), os estudantes assistem a 15% a menos de aulas que o programado. 

A Secretaria de Estado informa que não há falta de eventuais ou temporários – mais 90 mil professores foram selecionados na última avaliação. “O problema é que esses professores têm de ficar à disposição da escola, mas só ganham por aula dada”, explicou o conselheiro da Apeoesp 

Problemas de saúde 

Os problemas de saúde são o principal motivo de falta ao trabalho. “Muitos têm jornada dupla e acabam tendo problemas nas cordas vocais, por exemplo. Outros têm problemas psicológicos e estão afastados. 

De acordo com a entidade, cerca de 20% dos professores ativos têm algum problema de saúde, mesmo que não estejam afastados. “É uma rotina estressante. Na semana passada, um aluno da 5ª série surtou e agrediu outro aluno. Há 15 dias, o mesmo jovem já havia agredido a professora. A violência dentro das escolas aumenta o número de faltas de professores”, explicou uma professora efetiva da rede. 

Com informações da Folha de S. Paulo e do Diário do Grande ABC

Alckmin cortou recursos para APAE e entidades afins em São Paulo

 

Instituições privadas sem fins lucrativos – como as Associações de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apaes) – que oferecem atendimento educacional especializado para alunos tiveram  recursos cortados durante a gestão do tucano Alckmin no governo de São Paulo (2003-2006). 

Mais de R$ 12 milhões previstos, entre 2004 e 2006, não foram aplicados em educação a alunos com deficiência e descumprida a meta de ampliar o número de atendimentos em 18% – 42.863 crianças deixaram de obter benefício. Nos Orçamentos de 2003 a 2006 a previsão de atendimento era para 239.925 crianças, no entanto, o governo cumpriu apenas 197.062. 

A gestão Alckmin caminhou no sentido contrário a política de inclusão do governo federal, que aumentou o  repasse de recursos federais destinados a melhorar as condições das instituições especializadas em alunos com deficiência. O Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica (Fundeb) passou a contar em dobro as matrículas das pessoas com deficiência que estudam em dois turnos, sendo um na escola regular e outro em instituições de atendimento educacional especializado. 

Este ano, o valor total repassado por meio do Fundeb ao atendimento educacional especializado em instituições privadas será de R$ 293.241.435,86. Em 2009, foram encaminhados R$ 282.271.920,02. O número de matrículas atuais nessas unidades conveniadas é de 126.895. 

Além disso, o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) envia recursos às instituições filantrópicas para merenda, livro e aqueles originários do Programa Dinheiro Direto na Escola (PDDE). Nos últimos três anos, foram repassados R$ 53.641.014,94, destinados a essas ações.

Presidenciáveis, ideologia e ensino técnico. Voto Dilma, mas o texto que MERECE comentários e dabate.

Não conheço nenhum aluno que saiu de uma escola técnica de nível médio que, se a duras penas chegou à universidade, fez elogio ao ensino que obteve antes do nível superior. Seja lá de qual escola veio, o aluno do ensino técnico, nesses últimos 20 anos em que acompanho suas trajetórias na universidade, reclama mais que os outros – e não sem razão – pela sua dificuldade no ensino superior. A despeito disso, os três candidatos à presidência que aparecem com intenção de voto nas pesquisas querem priorizar o ensino técnico.

Nesse aspecto, os três falam sem conhecimento de causa. Marina quer ensino técnico com o currículo “voltado para o verde”. Dilma quer continuar a ampliação do “ensino técnico de Lula”. Serra diz que irá ampliar o ensino técnico e, como não poderia deixar de ser para seu perfil ideológico, sustentará essa ampliação com dinheiro público destinado às escolas técnicas particulares – vingará aí o velho sistema de bolsas. Isso, aliás, não o faz diferente de Lula que, enfim, pela via de Fernando Haddad, recheou os bolsos dos empresários com o Prouni.

Claro que a objeção que fazemos ao ensino técnico, uma vez colocada diante dos candidatos, não ficaria sem resposta – e rápida. Com a fala fácil que os três possuem, principalmente na disputa de votos, eles diriam que fariam um ensino técnico superior ao existente hoje. Falariam, sem rubor, que construiriam um sistema de ensino técnico tanto profissionalizante quanto propedêutico à universidade. No momento em que escrevo, até posso imaginar a expressão do rosto de cada um respondendo a tal objeção, fazendo ar sério para dar a impressão que chegaram a refletir sobre o assunto. Mas não refletiram nada. E nenhum dos três sabe ao certo o que estão falando.

O ensino técnico no Brasil tem uma tradição de cultivar a terminalidade. Ele nasceu entre o Império e a República não para favorecer o desenvolvimento do país, mas para encontrar um lugar para o pobre. Hoje, o ensino técnico ainda aparece segundo o espírito de quando a Era Vargas o instituiu de modo mais amplo, a partir da década de quarenta. O que foi criado pela Era Vargas, por obra do ministro da Educação Gustavo Capanema, espelhou o Estado Corporativo. Todo o ensino era feito em canais pouco comunicáveis horizontalmente, de modo que a população estudantil já se configurasse dentro de uma corporação antes mesmo do término de seus estudos. O ensino produziria as corporações, sendo que algumas, formadas por gente mais pobre, se constituiriam de modo mais rápido. Depois, nos anos sessenta, quando o ensino ficou livre de vez das amarras horizontais da legislação, que proibiam que o ensino técnico habilitasse para o ensino superior de um modo geral, o reflexo disso, ou seja, tudo que se seguiu daí em diante, não criou nenhuma boa tradição. Tanto é que, quando em 1971 a Ditadura Militar tornou todo o ensino médio em ensino técnico-profissionalizante, isso só serviu para inviabilizar a escola média e desacreditar de vez o ensino técnico perante as classes médias e, até mesmo, perante as classes populares. Em 1978, o próprio governo federal, ainda no ciclo dos governos militares de 1964, reconheceu o erro e eliminou a obrigação da escola média de se manter filiada à proposta técnico-profissional.

A inviabilização desse projeto da Ditadura Militar deixou para vários entre nós uma experiência: que a insistência nesse tipo de educação não era algo a ser feito novamente. Para além dos problemas pedagógicos, que realmente mostraram os erros dessa insistência, um dos elementos mais fortes para sua inviabilização foi a rejeição do modelo pela própria população a quem ele foi destinado.

A população brasileira, especialmente os setores popualres, não queria a escola profissionalizante de nível médio. Aliás, quando da hora da matrícula e não na hora da eleição, ela ainda rejeita o ensino técnico-profissionalizante. A profissionalização no ensino médio que sempre foi aceita pela população brasileira, para além da fornecida pelo do Senai e Senac, era a da formação da professora pela Escola Normal, uma escola estadual, e a da formação de contabilista, em geral feita por escolas municipais. Essas escolas davam terminalidade ao terceiro ou quarto anos. Fora disso, a população brasileira sempre preferiu o ensino médio como uma educação propedêutica à universidade. O filho do pobre sempre sonhou com a profissionalização na universidade e, se assim não acontecia por obra da barreira do vestibular, jamais quis fixar sua dedicação em uma escola técnica profissional. Afinal, ele sempre soube que, para uma profissionalização naquele nível, as próprias empresas dariam treinamento técnico-profissional – sem dúvida melhor do que faria uma escola de rede pública ou privada.

Esse pensamento ainda não mudou. Todavia, a idéia de que o ensino técnico é uma boa opção, é ideologicamente criado e recriado entre as elites, inclusive as elites sindicais, e, por isso mesmo, elas sempre gastam saliva nesse tópico. Elas vendem um peixe que só é assado pela sociedade porque essas elites fizeram propaganda (enganosa) do tal peixe. Mas, quem já comeu bons peixes, sabe que este está contaminado pelo agro-tóxico da hegemonia do pensamento conservador.

O ensino médio não tem como ser bom, técnico e popular tudo ao mesmo tempo. Expandir o ensino técnico médio de modo real, mantendo-o como um ensino que realmente profissionaliza e que não castra aqueles que, porventura, queiram depois seguir para a universidade, não é algo viável. Todos sabem disso. Ficaria muito caro uma rede de escolas técnicas de boa qualidade para além das redes que já temos. Criar estabelecimentos e fazer deles escolas que gerariam jovens mais informados sobre o mundo e, portanto, capazes de lidar com saberes para além das questões técnico-profissionalizantes, é um projeto muito dispendioso se comparado com a expansão de uma boa rede pública de ensino propedêutico.

Assim, conta contra o projeto dos três candidatos, dois fortes elementos: a não preferência da população, na hora da matrícula, pela escola técnica; a falta de dinheiro para tal, uma vez que é um projeto realmente caro, algo que, se possível, nunca sairia do âmbito dos tais “projetos experimentais”.

Por que esses candidatos, então, mantêm essa plataforma? Só ignorância? Não, o que há é a força da ideologia. Essa ideologia de que o melhor para os setores populares é conseguir uma formação mais rápida, ligada de modo muito direto ao mundo do trabalho, é o aspecto mais forte (e talvez um dos mais perversos) do corpo de pensamentos das elites brasileiras desde o século XIX. A idéia básica é simplesmente o seguinte: filhos de trabalhadores não foram feitos para estudar e, sim, para trabalhar; então, se vão estudar, que estudem num lugar que já os coloque logo no mundo do trabalho. Esse é um pensamento pouco generoso, de caráter conservador. Nossos três candidatos são, em termos gerais, conservadores. Sabemos disso. E isso aparece de modo mais nítido nas suas propostas de educação.

Os candidatos poderiam, para ganhar votos, mentir em outra direção. Poderiam dizer que dariam uma escola básica e boa qualidade para todos, que todos teriam chances para o ensino superior. Mas eles preferem mentir e, ao mesmo tempo, propagar sua ideologia. A ideologia é, por definição, o que esconde algo, mas, ao mesmo tempo, o mostra. A população é convidada a se enganar: fica com a idéia de que, como é provável que nunca terá acesso ao ensino superior e que estudar é, realmente, algo feito para os filhos dos ricos ou para os filhos dos que já estudaram, então, é melhor sonhar com o possível: a escola técnica que dará profissão rapidamente. Esse sonho pequeno termina na hora da matrícula. Nessa hora, todos vão para a escola existente, pública, gratuita e, em geral, a escola que se mantém como aquela para o qual o fluxo da vida corre. Mas o sonho maior ressurge. Afinal, aos 13 anos, contra a lei, um jovem pode ser posto no trabalho e não reclamar, mas, a favor da lei, ele não gosta de ser posto numa escola do trabalho. Ele sonha com o ensino superior como o único e tardio campo de profissionalização legitimo. Ele esquece, aí, o voto conservador de seus pais para os candidatos que falaram que viabilizariam o ensino técnico. Aliás, diga-se de passagem, esses candidatos não vão viabilizar nenhuma coisa realmente útil, em termos de educação, para o Brasil.

©2010 Paulo Ghiraldelli Jr., filósofo, escritor e professor da UFRRJ

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