O mundo que conhecemos acabou

Maria Antonieta 
Em 2006, a cineasta Sofia Coppola lançou um filme sobre Maria Antonieta. Ao contar a história da rainha juvenil que vivia de festa em festa enquanto o mundo desabava em silêncio, Coppola acabou por falar de sua própria geração.
Esta mesma que cresceu nos anos 1990.
No filme, há uma cena premonitória sobre nosso destino. Após acompanharmos a jovem Maria por festas que duravam até a manhã com trilhas de Siouxsie and the Banshees, depois de vermos sua felicidade pela descoberta do “glamour” do consumo conspícuo, algo estranho ocorre.
Maria Antonieta está agora em um balcão diante de uma massa que nunca aparece, da qual apenas ouvimos os gritos confusos. Uma massa sem representação, mas que agora clama por sua cabeça.
Maria Antonieta está diante do que não deveria ter lugar no filme, ou seja, da Revolução Francesa. Essa massa sem rosto e lugar é normalmente quem faz a história. Ela não estava nas raves, não entrou em nenhuma concept store para procurar o tênis mais stylish.
Porém ela tem a força de, com seus gritos surdos, fazer todo esse mundo desabar.
Talvez valha a pena lembrar disso agora porque quem cresceu nos anos 1990 foi doutrinado para repetir compulsivamente que tal massa não existia mais, que seus gritos nunca seriam mais ouvidos, que estávamos seguros entre uma rave, uma escapada em uma concept store e um emprego de “criativo” na publicidade.
Para quem cresceu com tal ideia na cabeça, é difícil entender o que 400 mil pessoas fazem nas ruas de Santiago, o que 300 mil pessoas gritam atualmente em Tel Aviv.
Por trás de palavras de ordem como “educação pública de qualidade e gratuita”, “nós queremos justiça social e um Estado-providência”, “democracia real” ou o impressionante “aqui é o Egito” ouvido (vejam só) em Israel, eles dizem simplesmente: o mundo que conhecemos acabou.
Enganam-se aqueles que veem em tais palavras apenas a nostalgia de um Estado de bem-estar social que morreu exatamente na passagem dos anos 1980 para 1990.
Essas milhares de pessoas dizem algo muito mais irrepresentável, a saber, todas as respostas são de novo possíveis, nada tem a garantia de que ficará de pé, estamos dispostos a experimentar algo que ainda não tem nome.
Nessas horas, vale a lição de Maria Antonieta: aqueles que não percebem o fim de um mundo são destruídos com ele. Há momentos na história em que tudo parece acontecer de maneira muito acelerada.
Já temos sinais demais de que nosso presente caminha nessa direção. Nada pior do que continuar a agir como se nada de decisivo e novo estivesse acontecendo.

Leia mais em: O Esquerdopata: O mundo que conhecemos acabou
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“Meu nome é Harvey Milk e eu quero recrutá-lo” ( via @cinematerapia)

Milk[1]

(Milk, 2008)

Por Eduardo J. S. Honorato, Denise Deschamps e Mateus Sant’Ana[2]

“Meu nome é Harvey Milk e eu quero recrutá-lo”

Sinopse

Trailer

Gostaríamos de esclarecer que não pretendemos esgotar os temas Homossexualidade e Preconceito em espaço tão curto, nem tão pouco abordar todas as possibilidades de leitura deste filme, mas sim, apresentar um ponto de reflexão que este pode gerar.

Primeiramente é preciso relembrar algo que, a primeira vista, parece simples, mas não é: a terminologia. A Organização Mundial de Saúde excluiu o “homossexualismo” da lista de “doenças” em 1° de janeiro de 1993 . Sim, Essa situação já fez festa de debutantes e tem profissional que ainda não percebeu isso.  Assim, houve uma mudança na nomeclatura. Você deve se lembrar das suas aulas de português no Colégio, onde aprendeu que sufixos “ismo” denotam doenças. Portanto, o termo homosexuaLISMO está equivocado, ultrapassado e pejorativo. O correto é HomossexuaLIDADE. Isto é bastante relevante, especialmente para profissionais e estudantes, pois temos obrigação ética de usar as terminologias corretas.

A Academia se rendeu a Sean Pean, lhe dando o Oscar de Melhor ator nesta película. Baseada em fatos reais, poderia ser apenas mais um filme sobre direitos humanos, igualdade, luta homossexuail. Mas Milk vai além de tudo isso: é uma lição sobre Perseverança, Compaixão e Força de Vontade.

Não há como não se emocionar, se sentir indignado com algumas posturas homofóbicas, não vibrar pelas vitórias e chorar. Sim…Assista ao filme e quando Harvey ganhar sua primeira eleição, aumente o volume da Tv, GRITE….com força e bem alto. Aproveite esse momento para comemorar algo seu, mesmo que não tenha relação com o filme. Use esse momento do filme para extravasar e limpar sua chaminé. Use o filme como catalizador para as suas buscas, as suas conquistas, os seus ideais.

Harvey foi um ativista diferente, que quebrou preconceitos com chistes e aos poucos foi conseguindo seu espaço. Infelizmente, como diz logo na abertura, foi vítima de um “mal resolvido”, ou, como já publicado na Revista Psiquê, “Em alguns casos, a homofobia internalizada poderá ganhar contornos de uma manifestação projetiva e apresentar-se ao mundo externo como perseguição ao objeto temido. Nesta situação o sujeito desenvolve toda uma estratégia de perseguição à homossexualidade. Isto é muito observado em grupos organizados, tais como os de cunho religioso ou mesmo militares”. Nada mais nítido do que o demonstrado por algumas personagens dessa jornada de Harvey.

Algumas cenas com formas de preconceito mais arcaicas, mais pejorativas, podem te despertar NOJO. Sim….nojo de pessoas que se dizem religiosas, caridosas ou que amam ao próximo, usando a religião e seu poder para disseminar seus conflitos e questões sexuais mal resolvidas,  usando um escudo “pelo bem da família”. Que conceito pode ser esse de família que segrega, exclui, odeia e persegue tudo que foge as suas estreitas regras?

Trinta anos depois do enredo deste filme, aqui no Brasil ainda apresentamos os mesmos “sintomas sociais” em nossas cidades. Harvey e seu namorado se beijam na rua, em frente a sua loja, em plena década de 70. Mas, a violência contra homossexuais surge em diferentes países ainda nos dias de hoje, onde ser diferente caracteriza um ato de violência, agressão e até mesmo morte, como poderíamos citar manchetes recentes: Espanha, Hungria, Bósnia, Gâmbia, Pernambuco, São Paulo (universidades)

Estamos falando de ambientes públicos –  Universidades –  que cumprem sua função de “garantir a conservação e o progresso nos diversos ramos do conhecimento, pelo ensino e pela pesquisa”(Aurélio, 2006).  Locais onde em épocas de ditadura militar os estudantes “revolucionários” arregaçavam  suas mangas e foram as ruas gritar liberdade e justiça, e hoje é  cenário de manifestações sintomatológicas como as de homofobia.

Enquanto profissionais de Psicologia, temos um compromisso etico na nossa atuação, respaldada por nosso código. O interessante é verificar que o mesmo artigo deste Código, que versa sobre as questões religiosas na atuação, também menciona as questões ligadas a sexualidade. Porém, essa breve menção não foi suficiente para convencer alguns profissionais de que uma postura de “cura” ou “tratamento” da homoafetividade é algo nada ético, e por isso, o CFP homologou a resolução 01-99 – Sim..há dez anos, afirmando que o tratamento de homossexuais por profissionais psicólogos não é permitido, uma vez que não é considerado uma doença. Se há algo que precisa ser “tratado”, é a homofobia, e não a homoafetividade Os Psicólogos Fabrício Vianna (autor de “O Armário”) e  João Brito são alguns dos profissionais que debatem e divulgam este tema, reforçando estas questões, seja online, seja em palestras, seja em livros.

Após assistir esse filme, se coloque no lugar destes personagens. Digamos que você tem uma crença religiosa, que você ama seu esposo ou esposa, é apaixonado por seus filhos ou animais de estimação. Supondo que voce tenha relações de afeto e carinho com pessoas da sua família. Como você se sentiria se fosse “proibido” ou “coibido” de demonstrar publicamente suas crenças religiosas, seu amor por sua esposa ou filho…..E se, um dia, você não puder mais expressar seus sentimentos – algo que nos torna mais e mais humanos – como você diria “eu te amo” em público e em voz  alta?

Se você tem o direito de não ser agredido quando abraça seu filho, eles também tem o direito de não o serem. Parece algo simples e objetivo, mas infelizmente não é. A intolerância sexual ainda está fortemente marcada em nossa sociedade.

Percebemos que a questão homoafativa faz parte da evolução da sociedade, e o direito tem o papel principal de acompanhar tais ajustes, como podemos citar o projeto de lei PLC 122/2006.

As criticas a este projeto não tem respaldo jurídico convincente , pois alegam que fere a liberdade de manifestação e de pensamento, mas esquece que a Constituição é clara no Art. 1º no que diz , constitui-se em Estado Democrático de Direito e tem como fundamentos: inciso II dignidade Humana. Ao assistir ao filme não podemos deixar de fazer uma comparação com o que aconteceu nos Estados Unidos nos anos setenta. Desculpas religiosas deturpando a política. Que grande coincidência!

Pensar na diversidade sexual como algo que faz parte da nossa humanidade é combater toda e qualquer prática da homofobia no meio social, prática essa muitas vezes exercida de forma velada, mas em algumas situações peculiares expressa com extrema violência e perseguição. Partimos do fato de que a homofobia é um mal que atinge tanto os heterossexuais quanto os homossexuais, que a exercerão contra seu próprio organismo, muitas vezes estabelecendo um quadro de profunda depressão que alimenta a alta taxa de suicídios existente dentro desse segmento da população.

Se você quer tornar a sociedade um local mais tranquilo de se viver, mais harmonioso para seus filhos, amigos e parentes, reflita sobre a sua contribuição no sofrimento psíquico destes milhões de brasileiros. Talvez, como suavemente aparece no filme, tocando ao fundo como trilha sonora de uma das passeatas, possamos ter “ Em algum lugar sobre o arco-íris…E os sonhos que você se atreve a sonhar
Realmente se realizam”

Se o filme tem essa função também de desconstruir velhos e arraigados pré-conceitos, é sempre porque traz em si a capacidade de nos fazer refletir sob outros pontos de vista e de uma forma emocionada, mas nada adianta se choramos e nos emocionamos e ao virarmos a esquina buscarmos a proteção das nossas velhas crenças. Se Harvey deixou-nos um recado, esse foi com certeza nessa direção, não adiantam crenças e respeito sem respectivas ações modificadoras. Tivemos ao longo da história muitos líderes que lutaram por causas das minorias, ou das parcelas oprimidas da sociedade, mas de nada adiantaria a luta deles se cada um que foi tocado por seus argumentos não se comprometesse em espalhá-los em palavras e atitudes.

Sean Pean se deixou tocar e transformou em ação quando aceitou esse papel. Houve um circular de notícias quanto ao fato de que aqui no Brasil, a pessoa que sempre dublou Sean Pean,teria se recusado a dublá-lo nesse filme, se isso for uma informação procedente nos remeterá exatamente aquilo pelo qual o personagem representado tão delicada e lindamente por Sean Pean, teria perdido mais um “round” dessa luta que ainda não está ganha, o combate a homofobia que segrega uma parcela considerável da população apenas por amar diferente de uma maioria heterossexual.

Por que um beijo incomoda tanto? O que há de afronta em duas pessoas apaixonadas que vivem isso, também, publicamente, dentro das reservas que são postas para relacionamentos sejam homo ou hetero afetivos? Não acreditamos, assim como Harvey, que possa haver uma resposta coerente para essa pergunta.

Em uma época de crescimento de perseguições a homossexuais aqui no Brasil e de correntes religiosas, que se utilizam de um discurso falaciosos para defender a continuidade dos comportamentos homofóbicos, legitimados por uma moral decadente e extemporânea, esse filme chega em muito boa hora. Que promova debates e novos pensamentos. Que via a emoção que provoca no espectador possa abrir brechas e tocar corações, como fizeram antes dele, os personagens de “Brokeback Mountain”. Que afinal o amor vença, que sigamos construindo um mundo menos bélico, menos intolerante, mais unido por ideais fraternos e respeito à diversidade que é o que nos torna mais humanos, seres da cultura, e não bárbaros movidos por instintos.

Em um dos seus mais belos discursos, Harvey diz: We have got to give them hope”.  Para o público brasileiro fica a esperança de que em breve teremos Leis que coibam atitudes homofóbicas. Leis e posturas que Harvey lutou há trinta anos nos Estados Unidos, e nós, ainda engatinhamos por aqui. Precisamos de mais “Harveys” na nossa política. Esta pode nao ser a “sua” luta, mas é a dos seus filhos, netos e gerações futuras, por uma sociedade mais igualitária e saudável. Abrace esta causa e se deixe recrutar por Harvey!


[1] Partes deste artigo foram publicadas originalmente em edições da Revista Psiquê Ciência e Vida, da Editora Escala.

[2] Acadêmico de Direito do CESUSC, que colaborou com este texto.

Post publicado originalmente em cinematerapia

Só quero que voce me ame. I Only Want You To Love Me

O trabalho (nem sempre) enobrece o homem

por Bruno Carmelo, publicado originalmente no blog Discurso-Imagem.  
“Eu só quero que você me ame”. O título pode parecer romântico, mas ele deve ser lido num sentido mais angustiante. A necessidade de ser amado, de se inserir na estrutura (moral e econômica) contemporânea e corresponder “ao que se espera” de uma pessoa pode realmente levar o indivíduo a ações inesperadas. A crise financeira e o aumento das desigualdades sociais têm inspirado diversos filmes recentes sobre a desilusão do capitalismo, sobre a falência pessoal diante de um sistema de consumo de difícil inserção.
Esta obra se insere nesta linha “moderna”, mesmo tendo sido feita em 1976, pelo diretor alemão Rainer Werner Fassbinder. O filme inédito chegou à França com grande comemoração e notável peso autoral (a menção “um filme de Fassbinder”) aparece três vezes no filme, seguida do rótulo “moderno” no pôster. Sim, a narrativa se foca na falência de Peter, um pobre operário que deseja levar uma vida de classe média, deseja comprar aparelhos de alta tecnologia, ter computadores e uma vida “respeitável”. Sua noção de sucesso profissional e pessoal passa necessariamente pelo consumo, desejo que normalmente leva a uma ruína gradativa e inevitável dos protagonistas, geralmente homens, pais de família, empresários e portanto respeitáveis pretendentes à burguesia (vide Sonata de Tóquio, O Adversário, A Agenda…). Perder o emprego é uma desonra na estrutura em que o homem é o único responsável pela sobrevivência da esposa e dos filhos.
Crise da família patriarcal, portanto, que atinge desde os pais do protagonista, figuras exigentes e pouco amorosas. O filho, sensível, buquê de flores sempre à mão, se esforça para ganhar a admiração das duas figuras impassíveis. O sucesso no trabalho é portanto indispensável para este homem poder se mostrar como adulto independente aos olhos dos outros. Peter se casa com uma esposa que deseja trabalhar, mas ele a impede garantindo que o “dinheiro é de responsabilidade do homem”. Seguem mentiras, trabalhos mal pagos, dívidas, crises, tensões, brigas.
Fassbinder utiliza a estrutura da gradação linear e certeira, que utiliza o frágil protagonista e o mergulha num ambiente cada vez pior, com perspectivas mais limitadas (o filho nasce, o trabalho torna-se escasso), mas tentando manter as aparências (simbolizadas pelo terno e gravata, por viajar de táxi). A direção concentra-se no rosto perturbado de Peter, na sua passagem diante das vitrines, nos presentes caros que oferece à esposa “porque eu só quero que você me ame”. O tema da compra do afeto com bens materiais está presente na arte pelo menos desde a Revolução Industrial, sendo bem descrita nos livros de Guy de Maupassant e de Gustave Flaubert, mas o capitalismo dos anos XX, pós-Guerra Fria (estamos no oeste alemão), intensifica a noção de desejo, de “descartabilidade”, de individualidade. Por amor à esposa, Peter compra joias, mas não lhe compra os alimentos de base.
I Only Want You To Love Me segue o declínio de Peter, até o tal assassinato que o filme evoca desde o início. A única solução para o protagonista é evidentemente assassinar um tipo bem-sucedido, figura paterna evidente, rompendo simbolicamente os laços familiares. A narrativa se conclui de maneira irônica, cínica e sem soluções. O personagem sai de quadro e resta o espaço vazio, a vista do “mundo lá fora”, visto da sala da prisão. A noção de liberdade deste mundo exterior parece de repente muito mais restrita, ingrata, capaz de levar mesmo os homens mais honestos a atos de loucura. Que se considere este ponto de vista determinista ou sintomático demais, este filme constitui uma representação pessimista do que viria a ser a “multidão solitária” e pós-moderna dos dias de hoje.
Je veux seulement que vous m’aimiez (Ich will doch nur, dass ihr mich liebt, 1976)
Filme da Alemanha do Oeste, dirigido por Rainer Werner Fassbinder.
Com Vitus Zeplichal, Elke Aberle, Alexander Allerson, Erni Mangold, Johanna Hofer.

O Dia que durou 21 anos, dia 4, 22h, na TV Brasil (via @AEsquerdaMS)

O Dia que durou 21 anos

“O Dia que durou 21 anos” é IMPERDÍVEL! Em 3 episódios, a partir de seg, dia 04,
22h, na TV Brasil

‘O Dia que durou 21 anos’ estreia na TV Brasil
Série de 3 episódios revela imagens e depoimentos históricos sobre o Golpe de 64

Robert Bentley, assistente de embaixador Lincoln Gordon, dá depoimento exclusivo
Os que viveram a ditadura militar brasileira, os que passaram por ela em brancas nuvens e os que nasceram depois que ela acabou. Todos podem conhecer melhor e refletir sobre esse período, a partir da nova série “O Dia que durou 21 anos”, que a TV Brasil exibe nos dias 4, 5 e 6 de abril, às 22 h.

Em clima de suspense e ação, o documentário apresenta, em três episódios de 26 minutos cada, os bastidores da participação do governo dos Estados Unidos no golpe militar de 1964 que durou até 1985 e instaurou a ditadura no Brasil. Pela primeira vez na televisão, documentos do arquivo norte-americano, classificados durante 46 anos como Top Secret, serão expostos ao público. Textos de telegramas, áudio de conversas telefônicas, depoimentos contundentes e imagens inéditas fazem parte dessa série iconográfica, narrada pelo jornalista Flávio Tavares.

O mundo vivia a Guerra Fria quando os Estados Unidos começaram a arquitetar o golpe para derrubar o governo de João Goulart. As primeiras ações surgem em 1962, pelo então presidente John Kennedy. Os fatos vão se descortinando, através de relatos de políticos, militares, historiadores, diplomatas e estudiosos dos dois países. Depois do assassinato de Kennedy, em novembro de 1963, o texano Lyndon Johnson assume o governo e mantém a estratégia de remover Jango, apelido de Goulart. O temor de que o país se alinharia ao comunismo e influenciaria outros países da América Latina, contrariando assim os interesses dos Estados Unidos, reforçaram os movimentos pró-golpe.

Peter Korneluh
A série mostra como os Estados Unidos agiram para planejar e criar as condições para o golpe da madrugada de 31 de março. E, depois, para sustentar e reconhecer o regime militar do governo do marechal Humberto Castelo Branco. Envergando uma roupa civil, ele assume o poder em 15 de abril. Castelo era chefe do Estado Maior do Exército de Jango.

O governo norte-americano estava preparado para intervir militarmente, mas não foi necessário, como ressaltam historiadores e militares. O general Ivan Cavalcanti Proença, oficial da guarda presidencial, resume: “Lamento que foi um golpe fácil demais. Ninguém assumiu o comando revolucionário”.

Do Brasil, duas autoridades americanas foram peças-chaves para bloquear as ações de Goulart e apoiar Castelo Branco: o embaixador dos Estados Unidos, Lincoln Gordon; e o general Vernon Walters, adido militar e que já conhecia Castelo Branco. As cartas e o áudio dos diálogos de Gordon com o primeiro escalão do governo americano são expostas. Entre os interlocutores, o presidente Lyndon Johnson, Dean Rusk (secretário de Estado), Robert McNamara (Defesa). Além de conversas telefônicas de Johnson com George Reedy Dean Rusk; Thomas Mann (Subsecretário de Estado para Assuntos Interamericanos) e George Bundy, assessor de segurança nacional da Casa Branca, entre outros.

Foi uma das mais longas ditaduras da América Latina. O general Newton Cruz, que foi chefe da Agência Central do Serviço Nacional de Informações (SNI) e ex-comandante militar do Planalto, conclui: “A revolução era para arrumar a casa. Ninguém passa 20 anos para arrumar uma Casa”.

Em 1967, quem assume o Planalto é o general Costa e Silva, então ministro da Guerra de Castelo. Da linha dura, seu governo consolida a repressão. As conseqüências deste período da ditadura, seus meandros políticos e ideológicos estarão na tela. Mortes, torturas, assassinatos, violação de direitos democráticos e prisões arbitrárias fazem parte desse período dramático da história.

O jornalista Flávio Tavares, participou da luta armada, foi preso, torturado e exilado político. Através da série, dirigida por seu filho Camilo Tavares, ele explora suas vivências e lembranças. E mais: abre uma nova oportunidade de reflexão sobre o passado.

O Dia que durou 21 anos é uma coprodução da TV Brasil com a Pequi Filmes, com direção de Camilo Tavares. Roteiro e entrevistas de Flávio e Camilo.

Primeiro Episódio:

As ações do embaixador dos Estados Unidos, Lincoln Gordon, ainda no governo Kennedy, são expostas neste primeiro capítulo. O discurso do presidente João Goulart pregando reformas sociais torna-se uma ameaça e é interpretado pelos militares como uma provocação. Nos quartéis temia-se uma movimentação de esquerda e a adoção do comunismo, que poderia se espalhar por outros países latinos. Entrevistas e reportagens da CBS são reproduzidas, bem como diálogos entre Gordon e Kennedy.

O documentário expõe a efervescência da sociedade brasileira naquele período. Para evitar que Goulart chegasse forte às eleições de 1965, foi criado o IBAD (Instituto Brasileiro de Ação Democrática), que teria dado cobertura às ações dos Estudos Unidos para derrubar João Goulart.

Segundo Episódio:

Cenas da morte de John Kennedy e a posse de Lyndon Johnson abrem este capítulo, dando sequência à estratégia dos Estados Unidos de impedir ao que o ex-presidente americano chamou de “um outro regime comunista no hemisfério ocidental”. “Vamos ficar em cima de Goulart e nos expor se for preciso”, diria Jonhson.

Imagens focam no discurso de Jango na Central do Brasil, em 13 de março de 1964, que foi considerado uma provocação pelos arquitetos do golpe. Os americanos já preparavam o esquema, enviando suas forças militares para o “controle das massas”, como se refere um dos entrevistados. Paralelamente, articulações para levar Castelo Branco ao poder estavam sendo engendradas.

As forças americanas não precisaram entrar em campo. João Goulart pegou o avião, foi para Brasília e depois para o sul do país. Por que Jango não reagiu”? É uma questão posta na tela. O general Cavalcanti, oficial da guarda presidencial, resume: “Lamento que foi um golpe fácil demais. Ninguém assumiu o comando revolucionário”.

Os Estados Unidos estavam mobilizados para, em caso de resistência, fazer a intervenção militar pela costa e assim ajudar os militares. As correspondências de Lincoln Gordon com o primeiro escalão da Casa Branca são mostradas ao público, explorando as ações secretas junto às Forças Armadas, a reação da imprensa e dos grupos católicos no Brasil. Os Estados Unidos reconhecem o novo governo e imagens da vitória e manifestações de rua entram em cenas.

Terceiro Episódio:

O cargo de presidente é declarado vago pelo presidente do Senado, Auro Moura de Andrade. O presidente da Câmara, Ranieri Mazzilli, é empossado.

No dia 15 de abril, o chefe das Forças Armadas, marechal Castelo Branco, toma posse.

Castelo tinha relações amistosas com Vernon Walters, adido da Embaixada dos Estados Unidos no Brasil. Depois de suas conversas com Castelo, ele se ocupava em enviar telegramas para os Estados Unidos, relatando o teor da conversa. Os textos dos telegramas são revelados no episódio.

O governo Castelo Branco recrudesce e dá início aos atos institucionais. O de número 2 extingue os partidos políticos e torna as eleições indiretas. E mais: prorroga o seu mandato. Em 1967, ele é substituído pelo general Costa e Silva, da chamada linha dura do Exército. O AI 5 é decretado no ano seguinte, e o Brasil entra no caos, “O AI5 foi uma revolução dentro da revolução”, declara o general Newton Cruz.

A repressão e a tortura dominavam o país. Militares e estudiosos falam desse período. O brigadeiro Rui Moreira Lima, da Força Aérea Brasileira, declara: “Eu conheci um coronel, filho de um general, que veio de um curso de tortura no Panamá. Ele chegou e disse: agora estou tinindo na tortura, pega aí um cara pra eu torturar”.

Os Estados Unidos continuam em campo e Lincoln Gordon pede para o governo fortalecer ao máximo o regime militar brasileiro. O orçamento da embaixada cresce, como registra o historiador Carlos Fico, da UFRJ, um dos entrevistados de Flávio Tavares

Fonte: http://45graus.com.br


Não pode ser mera coincidência

do O esquerdopata de Еskеrдоpата e cinemaemtorrent

Trabalho Interno / Inside Job (2010) BRRip – Documentário Vencedor Oscar 2011


Ganhador do Oscar 2011 melhor documentário… Um olhar atento para o que provocou a crise finaceira… Não deixe de assistir

 

LUIZ CARLOS BRESSER-PEREIRA, na Ditabranda

“Inside Job”, Oscar de melhor documentário, é uma reportagem precisa da crise financeira global

A CARICATURA é a farsa que precede e anuncia a tragédia. “Inside job”, ganhador do Oscar de melhor documentário, é uma reportagem clara, precisa e bem estruturada da crise financeira global de 2008. É um filme ao qual o espectador assiste com prazer misturado com indignação.
Começa contando a história da crise da Islândia, um pequeno país de 380 mil habitantes no meio do Atlântico Norte cujos bancos entraram em especulação financeira desenfreada, com pleno apoio dos economistas neoliberais, e ficaram devendo quase cem vezes seu capital.
Some-se a isto sua estratégia de crescimento com poupança externa que levou o deficit em conta corrente a 16% do PIB, e então entenderemos por que o país quebrou violentamente, com grande prejuízo para sua população.
A Islândia foi a caricatura do sistema financeiro mundial apoiado pela teoria econômica ortodoxa, da mesma forma que no Chile a brutal crise financeira que encerrou os nove primeiros anos do governo Pinochet e seus Chicago boys (1973-81) foi o trailer caricatural dos 30 Anos Neoliberais do Capitalismo.
Estes começaram em 1979 com a eleição de Margaret Thatcher na Grã Bretanha, contaram com o apoio firme dos economistas ortodoxos, resultaram em casos de fraude generalizada, documentada de forma impiedosa no filme, e, afinal, produziram a crise financeira que o globo conheceu em 2008.
Conheço muitos economistas neoclássicos e neoliberais que são impolutos. Mas há uma relação entre o aumento da instabilidade financeira, da especulação e da corrupção e o predomínio nas universidades dessa teoria econômica neoclássica ou ortodoxa.
Foi essa teoria, foram o modelo do equilíbrio geral e a teoria das expectativas racionais que estão no seu núcleo duro, que serviram de justificação “científica” para o neoliberalismo. A ideologia neoliberal dos mercados autorregulados e da liberalização e desregulamentação geral do sistema econômico que abriu espaço para fraudes de todo tipo foi “legitimada” pela teoria ortodoxa. Foi essa teoria que fundamentou o neoliberalismo.
Este fato é significativo, mas ainda não é suficiente para que compreendamos a relação entre a teoria e a fraude. Afinal uma teoria científica tem um compromisso com a verdade que, em princípio, a defenderia contra a corrupção.
Mas o que dizer se essa teoria não tiver compromisso com a verdade, ou seja, com a sua conformidade com o real? Se essa teoria for apenas um castelo no ar hipotético-dedutivo baseado em alguns axiomas sem validade? E se o principal desses axiomas for o de que todo homem só defende seus próprios interesses não tendo compromisso com o interesse público?
Não há, portanto, nessa teoria compromisso com a verdade, nem com a moralidade, apenas com a consistência lógica e com o autointeresse. Sei que nem tudo que é falso e autocentrado é imoral, mas a imoralidade está sempre associada à mentira e ao egoísmo.

“Inside job” mostra essa imoralidade de forma viva e definitiva. E mostra que quem a justifica são sempre economistas que ensinam essa teoria sem compromisso com a realidade ou com o interesse público. Definitivamente, a correlação entre o que se ensina e o que se pratica não pode ser mera coincidência.

Baixe e assista Inside Job no blog cinemaemtorrent

Através de uma pesquisa extensiva e entrevistas com economistas, políticos e jornalistas, “Inside Job – A Verdade da Crise”, mostra-nos as relações corruptas existentes entre as várias partes da sociedade. Narrado pelo actor Matt Damon e realizado por Charles Fergunson, este é o primeiro filme que expõe a verdade acerca da crise económica de 2008. A catástrofe, que custou mais de $20 triliões, fez com que milhões de pessoas tenham perdido as suas casas e empregos.

Ficha Técnica:

Gênero: Documentário
Diretor: Charles Ferguson
Duração: 108 minutos
Ano de Lançamento: 2010
País de Origem: EUA
Idioma do Áudio: Inglês

Qualidade: BRRip
Tamanho: 1.7 Gb
Qtde de mídias: 1

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