A cracolândia e o proto-fascismo de Alckmin e Kassab


Governantes implementam uma política reacionária e higienista – que penaliza negros e pobres, reprime movimentos sociais e restringe liberdades democráticas. A dupla governa com apoio da grande mídia – apoiada nas elites e na tradicional classe média branca paulistana.

Por Julian Rodrigues
Sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Caso estivéssemos em outra conjuntura, o autoritarismo e a violência exibidas na “operação cracolândia” seriam apenas mais uma manifestação da convencional hipocrisia que marca a abordagem dos governos sobre a questão das drogas.

Mas a mega operação do governo estadual e da prefeitura de São Paulo, além de ser pirotecnia pura, é bárbara, cruel, inócua – parte de planejada ascensão autoritária promovida pelo prefeito e pelo governador.

Trata-se de um retorno à ideologia corrente no início do século passado, em plena república velha, quando a questão social era tratada como um caso de polícia. Kassab e Alckmin implementam uma política reacionária e higienista – que penaliza negros e pobres, reprime movimentos sociais e restringe liberdades democráticas. A dupla governa com apoio da grande mídia – apoiada nas elites e na tradicional classe média branca paulista-na.

Kassab, enquanto se distrai construindo seu novo partido, o PSD, coloca a maioria das subprefeituras da capital na mão de oficiais militares. Seu governo persegue camelôs, desaloja violentamente sem-teto, faz do higienismo diretriz oficial.

Alckmin, em um ano de governo, já mostrou ao que veio com suas “aulas de democracia”. A PM do governador do PSDB tem como uma de suas tarefas reprimir o movimento estudantil. E está ocupada vigiando estudantes da USP, tentando impedir que fumem um singelo baseado no campus.

É a mesma polícia autoritária de sempre que ignora o direito constitucional à liberdade de manifestação, descendo o porrete em ativistas que defendem uma nova política de drogas em passeatas na Paulista.

Enquanto isso, o grande crime organizado segue atuando tranqüilo, a violência aumenta. Ou homofóbicos atacam livremente gays na região central.

Dor e sofrimento 

Porém, é necessário registrar. Essa espetacular ação da PM de Alckmin e da prefeitura de Kassab na cracolândia inaugura um novo momento. Colocar milicos para jogar gás lacrimogênio e atirar balas de borracha em dependentes químicos, moradores de rua é ação típica de ditaduras. Remete-nos imediatamente aos anos de chumbo, à ditadura militar, quando o biônico governador Maluf e seu delegado Richetti regozijavam-se a prender e torturar negros, pobres, putas e viados nas ruas do centro paulistano.

Não há racionalidade ou objetividade nessa atuação violenta. Os direitos humanos e as liberdades civis de centenas de pessoas estão sendo violados flagrantemente. O problema não se limita aos evidentes equívocos conceituais ou à óbvia ineficácia dessa operação – que manipula o discurso do combate ao tráfico para fazer uma “limpeza” urbana.

É repulsivo esse oportunismo eleitoreiro. Anos de inação governamental não serão compensados com amadoras jogadas de marketing. O pior é certa apologia governamental da ignorância e da brutalidade. Um desprezo absoluto pelos direitos humanos. Para não mencionar o cinismo explícito. Afinal, não há locais, leitos ou estrutura mínima para acolher os dependentes que eventualmente decidam procurar ajuda.

Um secretário de Alckmin chegou a dizer que o objetivo da ação policial, além de dispersá-los, seria impedir o acesso dos dependentes à droga para que entrem em abstinência, sintam dor, sofram e procurem tratamento. Sem comentários.

Enfrentar o debate ideológico 

Certamente a firme reação dos setores democráticos vai cessar essa ação proto-fascista na cracolândia. Mas será uma vitória pontual.

É hora de inserir o debate de uma nova política pública sobre drogas na agenda do petista. Sem pânico moral, sem hipocrisia, com realismo, respeito aos direitos humanos e racionalidade.

Toda pessoa tem o direito de alterar seu próprio estado de consciência, desde que não cause danos a terceiros – é uma liberdade individual, democrática. Dependência química, entretanto, é questão de saúde pública. E de política social.

Inexiste argumento- científico, jurídico ou filosófico – que justifique, por exemplo, a proscrição da maconha e o livre acesso à cachaça. E se faz, simultaneamente, propaganda abundante da cerveja.

A produção, comercialização e o uso de todas as drogas devem ser regulados pelo Estado. A questão é importante demais para ficar na mão do mercado ilegal.

Somente uma nova legislação e outra política pública, que caminhe em direção à legalização das drogas, com rígido controle, podem acabar com o tráfico. Além de reduzir danos, prevenir o consumo e tratar os doentes. Enfrentemos esse debate.

A esquerda paulista e brasileira, o Partido dos Trabalhadores, os movimentos sociais e os setores democráticos estão chamados a combater a política atrasada e repressiva dos tucanos e da direita paulista.

Nossa resposta tem de vir das ruas e das urnas. Na capital, nosso desafio é transformar a campanha de Fernando Haddad à prefeitura em um grande movimento de massas, que repudie os oito anos de Serra-Kassab e projete uma nova cidade.

É hora da velha e boa disputa política, ideológica, cultural.Momento de nitidez programática.

Porque a velha direita volta com força total. E a esquerda é cada vez mais necessária. Civilização ou barbárie?

*Julian Rodrigues, ativista pelos direitos humanos, é militante do PT-SP e coordenador nacional do setorial LGBT do PT

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O fracasso do toque de recolher‏. Fenandópolis – SP

cremildateixeira |

Ontem, a TV Globo mostrou Fernandópolis-SP mergulhada nas drogas. Para uma cidade pequena, as cenas foram chocantes. Era uma “cracolândia” e a céu aberto. O céu da cidade onde mais se perseguem crianças e alunos… Toque de recolher… famílias perseguidas… Conselho Tutelar dando blitz junto com a polícia… na caça de crianças e adolescentes fora da escola ou fora de casa…
Em Fernandópolis, violaram frontalmente a Constituição Federal, cerceando o direito da criança e do adolescente. Não podiam circular pela cidade se tivesse com uniforme da escola; e eram tratados como bandidos. Com direito a abordagem policial e humilhação diante das câmeras das TVs que acompanhavam as caçadas…
Então, mudar a Constituição Federal completamente e obrigar todo mundo a ficar confinado dentro de casa não podiam… Então caiam de pau, ferozmente, em cima do adolescente…
NÃO DEU CERTO. NÃO PODIA DAR.
Na última reportagem da Rede Record de Televisão, dois policiais posaram de heróis diante das câmeras, ligando para a escola de onde o aluno teria se evadido. A satisfação deles parecia com a satisfação de quem prendeu um traficante perigoso… Mas era apenas um aluno que cabulou aula… Fácil assim: policial prendendo aluno…
Se Fernandópolis está mergulhada nas drogas, seria mais natural que pegassem “o cabeça”, o traficante. Mais natural, mas não tão fácil como dar cana em aluno de escola pública
Uma advogada, na época, foi entrevistada e disse que esperava que não passassem a abordar aluno simplesmente por estar uniformizado na rua… Mas era exatamente o que estava acontecendo… e na frente das câmeras das TVs, conforme mostrado na mesma reportagem…
Então, estamos cobrando uma posição pública e oficial da OAB de Fernandópolis…
O lado menos negro menos vergonhoso da reportagem foi o CONANDA (conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente), pronunciando-se e dizendo que se combate a criminalidade infanto-juvenil com políticas públicas voltada para a prevenção. Pediram mais Educação e só faltou pedir às escolas que acolhessem os alunos… só faltou ele aproveitar e pedir menos repressão na escola pública.
As escolas públicas devem dar bons exemplos e aulas de qualidade.
Com políticas públicas para adolescente, com escola pública interessante e atraente, a prevenção seria a solução.
Fernandópolis usou a violência e a repressão e foi um ótimo exemplo de fracasso retumbante.
Faltou ao CONANDA ser mais preciso nas suas críticas. Mas o que falou já foi o suficiente para desmoralizar a política do “toque de recolher de dia “ (para os alunos) e o “toque de recolher noturno” (para todas as crianças e adolescentes à noite).

 


“Governo que não respeita a Defensoria Pública, não respeita os direitos da sua população!”

Conflito campal entre polícias é marca da política de segurança de Serra, diz analista

do BOCA QUE FALA de Lucio Costa

Para especialistas, o conflito entre policiais civis e militares de São Paulo representa uma piora sensível da política de segurança pública do governo estadual. A condução convencional deu lugar a novos entraves. Em 16 de outubro de 2008, policiais civis, em greve havia 31 dias, realizavam um protesto em direção ao Palácio dos Bandeirantes, residência oficial do então governador paulista, José Serra, hoje candidato à Presidência da República pelo PSDB.

Mas o encontro com a Polícia Militar resultou em um enfrentamento transmitido para todo o Brasil e com repercussão internacional. Na ocasião, a batalha em campo aberto foi analisada pelo Times Online, da Grã Bretanha, em função do alerta das Nações Unidas de que deveria ser revertida a situação de baixos salários da polícia brasileira.

Serra preferiu não receber os policiais civis, dando mostras de inflexibilidade. A Polícia Militar, como fez ao longo da gestão do agora candidato à frente do estado, cumpriu a ordem de reprimir movimentos reivindicatórios. A diferença é que, desta vez, do outro lado estavam homens igualmente armados e que carregam, entre si, o peso de disputas por espaço. O resultado imediato foi de 24 feridos e manchas na imagem da política de segurança estadual.

A longo prazo, os efeitos são piores. Renato Sérgio de Lima, secretário-geral do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, lembra que foi prejudicado todo e qualquer esforço de integração das polícias. A divisão histórica é vista como um dos fatores para explicar os altos índices de criminalidade no estado, já que a comunicação entre policiamento ostensivo e investigativo fica prejudicada.

Lima lembra que, durante a gestão de Mário Covas, a primeira que o PSDB teve em São Paulo, foi feito um esforço grande na melhoria deste intercâmbio. “Se é que os governos posteriores não abandonaram isso, na prática deram menos ênfase, tiveram uma administração mais tradicional da polícia”, analisa. Ele refere-se aos seis anos de gestão de Geraldo Alckmin e três de José Serra.

O que vinha com problemas agravou-se. O especialista entende que os fatos de 2008 significam um enorme refluxo nos esforços empreendidos desde a década anterior. “É extremamente emblemático que, quando as reformas não ocorrem de uma maneira definitiva, ao menor sinal, podem retroceder muito. É uma quebra de confiança, uma fragilização da política de integração que vinha sendo conduzida há muitos anos.”

Luiz Flávio Sapori, ex-secretário de Segurança Pública de Minas Gerais e secretário-executivo do Instituto Minas pela Paz, entende que o setor de investigação vinha avançando na polícia paulista, com melhoria na resolutividade de casos. Mas, de 2008 para cá, a situação mudou. “Isso por conta do acirramento dos conflitos corporativos entre as duas polícias, que teve o ápice no enfrentamento em frente ao palácio de governo. Isso afeta a motivação policial na ponta, bem como aumenta a distância entre os trabalhos da polícia ostensiva e da polícia investigativa. À medida que esse trabalho é distante, antagônico, a eficiência na repressão ao crime diminui.”

Fonte: Sindicato dos Psicólogos do Estado de São Paulo

Governo pretende coibir castigos corporais a crianças e adolescentes

 

   O governo vai encaminhar ao Congresso um projeto de lei destinado a coibir a prática de castigos corporais em crianças e adolescentes. A apresentação da proposta foi anunciada ontem pela subsecretária nacional de Promoção dos Direitos da Criança e do Adolescente, Carmem Oliveira. O presidente Lula assinará o projeto no dia 14, quarta-feira, para marcar os 20 anos de vigência do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).

    Carmem Oliveira disse que a criação de legislação própria sobre a aplicação de castigo corporal é uma tendência mundial apoiada pelo Comitê da Convenção Sobre Direitos da Criança das Nações Unidas. No Brasil, a lei suprirá uma lacuna existente no estatuto e também no Código Civil.

    “O ECA refere-se apenas a maus tratos, mas não especifica o que é um bom trato e um mau trato. Já o Código Civil faz referência à proibição de castigos imoderados, o que dá margem à compreensão de que castigos moderados são permitidos”.

    O uso de castigos corporais contra crianças e adolescentes é reprimido por lei em 25 países. Na América do Sul, apenas o Uruguai e a Venezuela têm legislação sobre o tema.

    A proposta que o governo submeterá ao exame do Congresso foi produzida pela Rede Não Bata, Eduque, que é formada por instituições e pessoas físicas, e esteve em debate, durante o primeiro semestre, na Secretaria de Direitos Humanos e nos ministérios da Justiça e do Desenvolvimento Social.

    Márcia Oliveira, coordenadora da Campanha Nacional Não Bata, Eduque, diz que a ideia não é criminalizar quem castiga, mas criar instâncias para orientar e ajudar os pais a mudarem a cultura de castigos corporais em crianças e adolescentes.

    “Aprendemos que os castigos físicos são métodos educativos. Os pais ou responsáveis batem nas crianças porque elas bateram no irmão. Estamos ensinando a violência para estas crianças. O uso de castigo físico é uma violação dos direitos da criança e do adolescente”.

    A subsecretária Carmem Oliveira destaca que este é um momento importante para o avanço dos direitos das crianças e adolescentes, porque se começa a pautar a questão da violência doméstica e a violação dos direitos pelos próprios cuidadores.

    “Até o momento demos foco para o que acontece na rua, no trabalho infantil, na exploração sexual. É importante mostrar que a casa, a escola ou o abrigo, onde é atendida a criança, também pode ser um ambientes violador”. (Agência Brasil)

Perversão no Orkut ou Psicopatologia em acting no virtual

(Trabalho apresentado no Psicoinfo/2006 – PUC/SP)

 Denise Deschamps e Eduardo J. S. Honorato

“Ao escrevermos, como evitar que escrevamos sobre aquilo que

não sabemos ou que sabemos mal? É necessariamente

neste ponto que imaginamos ter algo a dizer. Só

escrevemos na extremidade de nosso próprio saber, nesta

ponta extrema que separa nosso saber e nossa ignorância e

que transforma um no outro.”

Gilles Deleuze

Necessário esclarecer antes de tudo,que esse trabalho levantará mais questões do que as que pretende responder, partindo da convicção de que a produção de conhecimento se dá mais no ato de perguntar do que de criar respostas fechadas e inquestionáveis.

Sua apresentação consistirá em uma descrição de algumas tipologias em psicopatologia psicanalítica e uma análise da vivência de algumas dessas dinâmicas nas chamadas comunidades virtuais – mais especificadamente as do site Orkut.

O Orkut caracteriza-se pela proposta em se constituir em um espaço destinado ao desenvolvimento de comunidades virtuais e um encontro de amigos. Sabemos que até certo ponto tem cumprido seu objetivo. O Brasil assimilou o Orkut de uma forma bastante impressionante. Pelos dados do próprio Orkut representamos hoje a grande maioria de seus usuários(por volta de 51,18%[nov/08])).

Vejamos a descrição do Orkut por ele mesmo: “Com o orkut é fácil conhecer pessoas que tenham os mesmos ‘hobbies’ e interesses que você, que estejam procurando um relacionamento afetivo ou contatos profissionais. Você também pode criar comunidades on-line ou participar de várias delas para discutir eventos atuais, reencontrar antigos amigos de faculdade ou até mesmo trocar receitas de biscoitos.”

Observa-se hoje que o Orkut tem uma movimentação e características próprias e que, se aproxima muitas vezes, de uma dinâmica muito próxima do mundo presencial(optamos por nomear dessa forma, já que chamar de mundo real daria ao virtual, por analogia, a característica de irreal, coisa que está longe de ser; ainda poderia ser chamado de “atual” [Lévy]). Nessa dinâmica encontraremos aspectos que incluem os chamados de positivos ou negativos; construtivos ou destrutivos, legais ou ilegais, espontâneos ou provocados.

Sobre o Virtual e os fakes

Dentro do mundo orkutiano o sujeito psíquico poderá encontrar formas absolutamente diversas de inserir-se nele. Mas, vale sublinhar a partir dessa fase desse trabalho, que ele possui características de tela, levando a um mecanismo que se resumiria dessa maneira: Identificação -> Projeção -> Reação

Por esses aspectos talvez possamos pensar a partir do conceito criado por Melanie Klein de “identificação projetiva”.

 

Em um primeiro momento todos se apresentam com suas características mais idealizadas, procurando comunidades que descrevam aspectos de sua crença, reflexões filosóficas, corrente científica, inserção profissional, etc. Apresentando-se de maneira identificada, a primeira vista, com seus interlocutores. A seguir o fenômeno que acontece, é no mínimo, interessante, realizam-se alguns laços por afinidades e iniciam-se, também, as hostilidades, dessa maneira já operando o mecanismo de projeção, tendo ela características bem regressivas pelo aspecto da fragmentação(ambivalência dissociada). Todos que participam das comunidades do Orkut experimentam o aparecimento desses aspectos da convivência virtual, de maneira mais ou menos intensa, de acordo com seu histórico pessoal.

Observamos o aparecimento repetitivo de algumas dessas dinâmicas psicopatológicas, ao longo de debates, nas comunidades cuja temática giram em torno de temas da psicologia e psicanálise, que na verdade foram as comunidades por nós observadas, não descartamos a hipótese de que as mesmas dinâmicas se reproduzam em outras comunidades. Esse fenômeno está vinculado ao anonimato proporcionado pelos chamados perfis “fakes”, ou como preferimos classificar: “perfis não identificáveis” .

Na comunidade do Orkut intitulada de Wilhelm Reich, seu moderador, experiente terapeuta reichiano, coloca como observação às regras para o seu funcionamento, uma observação muito descritiva dessa dinâmica que relatamos: “Os “fakes” estão presentes em todo o mundo virtual, mas as manifestações de suas presenças devem estar de acordo com as características e objetivos da comunidade. Além do mais, já que estão protegidos pelo anonimato, serão analisados com mais rigor as suas colocações, observações e opiniões exaradas. Serão tolerados… mas correrão sempre o risco de serem expulsos da comunidade. Civilidade e respeito ao próximo são objetivos de pessoas do bem e assumidas em suas identidades.”

Enquanto os outros membros transitam pelas comunidades privilegiando os aspectos mais produtivos de suas identificações/projeções, alguns desses fakes demonstram um distúrbio dissociativo bastante peculiar e interessante. Operam variações entre o mais encantador acolhimento até explosões de ódio e ataque de intensidade bastante impressionante, alguns deles operam ações de agressão própria ao mundo virtual, que muitas vezes irá avançar pelo mundo presencial do sujeito atacado de inúmeras maneiras e quase sempre de forma bem estruturada e direcionada.

 

Psicopatologia psicanalítica

Vamos então descrever em linhas gerais a psicopatologia freudiana, vamos nos ater a ela pela adequação ao que estamos estudando e essa apresentação se dará de forma bastante resumida.

Sabemos que em psicanálise(freudiana) teremos três estruturas diferenciadas: as neuroses propriamente ditas ou chamadas neuroses de transferência, as psicoses,também chamadas de neuroses narcisícas ou narcisistas e finalmente as perversões que dizem respeito em psicanálise a escolha do objeto sexual e a parcialidade das pulsões, sem ter necessariamente relação com os atos de perversidade. Paralelamente teremos as psicopatias que são descritas por Freud como distúrbio de caráter e não doença mental e que pode ter atrelada a ela outros quadros, quase sempre de psicoses ou perversão com o deslocamento do alvo para os atos de perversidade e manipulação do outro. Teríamos hoje o que está se convencionando chamar de a clínica dos borderlines, onde na verdade se centrará aqui essa exposição.

Vejamos então um breve estudo:

 “Perversão: “Diz-se que existe perversão quando o orgasmo é obtido com outros objetos sexuais (pedofilia, bestialidade, etc)…e quando é subordinado de forma imperiosa a certas condições extrínsecas(feitichismo, escoptofilia, exibicionismo, sado-masoquismo), estas podem proporcionar, por si sós, o prazer sexual…

Na mesma ordem de idéias, é corrente falar-se de perversão, ou antes de perversidade, para qualificar o caráter e o comportamento de certos indivíduos que demonstram crueldade ou uma malignidade singulares”.(1)

Psicopatia: Os anti-sociais se escondem em pele de cordeiro, parecem muitas vezes amáveis e solícitos, até que são contrariados ou explodem por algo que lhes acarretou frustração ou não correspondeu às suas deturpadas expectativas. Transtornos anti-sociais (psicopatias e sociopatias) não são considerados “doença mental”, mas sim como propôs Freud, seriam distúrbios de caráter, por conta disso são de difícil identificação e podem ter quadros de doenças mentais acoplados a eles.

Poderemos apenas perceber que constroem uma lógica própria que independe das leis da maioria. Mudam seus discursos de acordo com seus interesses. Não conseguem controlar-se frente a fato de serem confrontados e são capazes de atos cruéis em todos os sentidos(sempre se posicionando como se fossem vítimas da situação por eles mesmos engendrada).

Há que se entender também que traços narcisistas poderão ser encontrados em alguns dos quadros na psicopatologia freudiana e neles operar de maneira diferenciada.

Ama-se segundo o tipo narcisista:

 a) O que se é (a própria pessoa);

b) O que se foi;

c) O que se gostaria de ser;

d) A pessoa que foi, uma parte da própria pessoa.

Iremos ainda conceituar brevemente algumas diferenciações ainda sobre as chamadas psicoses(neuroses narcisistas) e as neuroses propriamente ditas (de transferência).

N. Transferência

<!–[if !supportLists]–>· <!–[endif]–>Frustração em relação ao objeto

<!–[if !supportLists]–>· <!–[endif]–> Retração da Carga do objeto real

<!–[if !supportLists]–>· <!–[endif]–>Investimento no objeto fantasiado

<!–[if !supportLists]–>· <!–[endif]–>Retração do objeto recalcado -> Carga em outros objetos

N. Narcisista

<!–[if !supportLists]–>· <!–[endif]–>Cessação de carga

<!–[if !supportLists]–><!–[endif]–>Investimento libidinal no eu

Importante ainda pontuar a linha de desenvolvimento:

 Auto-Erotismo – Etapa Anárquica

Narcisismo Primário – Imagem Unificada

Narcisismo Secundário – Investimento próprio Ego.

Psiconeuroses Narcisistas

Ausência de Objeto

Catexia das Palavras

Perversões se caracterizam Por desvios de:

1 – Objeto

2 – Objetivo Sexual

No curso psicossexual normal se encontram rudimentos perversos nas chamadas carícias preliminares e porque não pensar, também, em algumas formas de atuação frente a objetos de investimento.

Interdição como aquilo que sustenta o aparelhamento psíquico..

DUPLA

1º Tempo 2º Tempo 3º Tempo

CÉLULA NARCÍSICA  SEPARAÇÃO  sujeito psíquico

1º TEMPO – Posição psicótica

2º TEMPO – Posição perversa

3º TEMPO – Posição neurótica

1º TEMPO – mãe fálica e filho narcisista

2º TEMPO – castração simbólica – interdita duplamente a mãe e o filho castração simbólica – função de separação

A interdição é tarefa da função pai cria dois sujeitos desejantes.

A mãe precisa reconhecer fora alguma coisa que precisa e o filho deixar de ser um complemento total. “Já que me falta, agora eu desejo”.

3º TEMPO – situação edípica

 <!–[if !supportLists]–>· <!–[endif]–>Identificações

<!–[if !supportLists]–>· <!–[endif]–>Investimento

<!–[if !supportLists]–>· <!–[endif]–>Formação do Superego

<!–[if !supportLists]–>· <!–[endif]–>Constituição do sujeito

Protótipo da lei – interdição do incesto

Os limítrofes e o real

A grosso-modo pode-se dizer que durante aproximadamente os primeiros 50 anos de psicanálise o neurótico domina a cena psicanalítica e que, de lá para cá, as chamadas síndromes limítrofes têm ocupado um lugar cada vez maior na clínica e no pensamento psicanalítico.”(B)

Vamos então estender mais nosso estudo sobre os limítrofes para fundamentar nossa tese de sua atuação dentro das comunidades do Orkut. Entendendo seu funcionamento e seu modelo de relação com o real poderemos inferir algumas hipóteses para seu funcionamento frente ao manejo virtual.

 “Uma classificação bastante didática divide o Transtorno Borderline em 4 grupos clínicos:

Grupo A: Borderline com predomínio de características esquizóides e/ou paranóides, mais próxima das psicoses.

Grupo B: Borderline com predomínio de características distímicas e afetivas.

Grupo C: Borderline com predomínio de características anti-sociais e perversas (corresponderiam ao grupo de Transtorno de Pessoalidade Borderline, propriamente dito, satisfazendo quase todos os critérios do DSM IV).

Grupo D: Borderline com predomínio de características neuróticas (obsessivo-compulsivas, histéricas e fobicas graves).

Esta classificação tem objetivo mais didático que prático, porquanto na prática cotidiana observamos com maior freqüência a ocorrência de casos mistos.”(A)

Citando Winnicott: “Os psicanalistas experientes concordariam em que há uma gradação da normalidade não somente no sentido da neurose, mas também da psicose” (em C)

Completaríamos essa afirmação aqui nesse caso, dizendo que essa gradação se dará em todos os sentidos e referente a todas as estruturas e suas inter-relações.

“Grinker,R.R., fala de quatro níveis de borderline:

Grupo 1- O borderline psicótico – comportamento inapropriado e não adaptado. Deficiente senso de identidade e de realidade. Comportamento negativo e raivoso em relação às pessoas. Depressão.

Grupo 2- O borderline nuclear – Envolvimento flutuante com outros. Expressões abertas e atuadas de raiva. Depressão. Ausência de indicações de um self consistente.

Grupo 3 – Personalidades ‘como se’ – comportamento adaptado e apropriado. Relações complementares. Pouca espontaneidade e afeto em resposta a situações. Defesas: afastamento e intelectualização.

Grupo 4- O borderline neurótico – Depressão anaclítica (semelhante à da infância). Ansiedade. Semelhança com caráter narcisista neurótico. “Influenciado por essa sistematização agrupei esse conjunto humano em borderline pesado (patológico), borderline falso-self e borderline brando (próximo da normalidade)”[Nahman]. Estaremo trabalhando muito próximo dessa classificação de A. Nahman.

Fato é que como muito bem sublinha esse autor acima citado., “O borderline pesado é polissintomático, ambulatório, com dificuldades nas relações pessoais por sua fragmentação ou por suas necessidades narcísicas exacerbadas, com tendência à atuação, com problemas na área afetiva, com questões nas áreas das identificações e identidade, necessitando de uma circunvizinhança humana para atuar os seus fantasmas, com labilidade de humor, com tendência à exagerada dependência afetiva muitas vezes reativamente negada, usando excessivamente a identificação projetiva e introjetiva, com extrema sensibilidade e susceptibilidade, incomumente e seletivamente permeável ao próprio inconsciente, ao inconsciente do outro e à subjetividade circulante.”(B)

O Orkut como depositário da patologia

E como isso tem aparecido nas comunidades virtuais? Levantamos a hipótese que elas têm sido local privilegiado na atualidade para seus “actings”. Para elaborarmos essa hipótese observamos presencialmente por onze meses a atuação de o que chamamos uma “legião de fakes” atuando nas comunidades de Psicologia/Psicanálise de maneira evidente e cruel. Atende às suas necessidades de vínculo permanente, pois podem estar em atuação 24 horas por dia. Isso porque em suas “relações interpessoais: não suportam a solidão e o abandono, necessitam do outro em tempo integral, a todo o momento, são francamente dependentes, masoquistas e manipuladores.”( Gunderson) É nesse aspecto que são atraídos pelas comunidades virtuais, onde a questão do corte temporal inexiste (não há a necessidade do outro estar presente [on] para que se possa estabelecer a “comunicação”), dessa forma tomam conta de determinadas comunidades, impondo um diálogo peculiar, onde passam de extrema cooperação à crises de fúria incontrolável, atacando com violência o membro da comunidade que questiona sua delirante posição de privilégios. Constrói, dessa maneira, no virtual, diferentes aspectos de seu ser, fragmentando-os em parte, criando uma nova classificação que poderíamos, na falta de outro termo ainda consistente, chamar de “múltiplas personalidades virtuais”. Aquilo que não podemos encontrar enquanto realidade em casos descritos de psicopatologia em estudo, vamos perceber atuando com constância nas comunidades virtuais que compõem o Orkut.

Na teia de perversidade impune que lança mão esse sujeito psíquico frente ao virtual , lança sua própria história fragmentada projetando em seus inúmeros personagens, de uma forma infantilmente maniqueísta, seus lados “bondosos” ou “maldosos”, dando existência no virtual ao seu insano diálogo interno, sem dar-se conta, quase em nenhum momento, que ao ocultar-se, na verdade, mais se fará revelar.

Nesse caso em específico, por esse trabalho abordado, descrevemos um tipo de limítrofe com traços de perversão, não no sentido de busca de objeto, mas sim do objetivo, já que esse perderia as características próprias a sexualidade e adquiriria busca de prazer bem longe da genitalização e bem próxima do campo de atuação da patologia(acting out). Encontrando no virtual, ambiente propício para uma atuação longe do alcance da lei, por esse mesmo motivo, seria um campo provilegiado onde inconscientemente estaria operando a NEGAÇÃO (enquanto defesa) da existência da lei(enquanto interditora e formadora do sujeito psíquico). Somente nesse aspecto encontraremos traços de perversão, no restante acreditamos estar lidando com fortes tendências anti-sociais, o que aproximaria ainda mais a tese dos limítrofes na atuação desses fakes.

Vamos então estender mais nosso estudo sobre os limítrofes para fundamentar nossa tese de sua atuação dentro das comunidades do Orkut. Entendendo seu funcionamento e seu modelo de relação com o real poderemos inferir algumas hipóteses para seu funcionamento frente ao manejo virtual.

A tendência anti-social faz parte da família da psicopatia. Ela começa na infância e pode ou não se estender à idade adulta quando ganha outros contornos e outros nomes.”(C)

Ressalta Nahmann também que: “Uma pessoa da linhagem neuróide se frustrada recalcará o seu desejo infantil de onipotência e acederá a uma potência fixando objetivos distantes e de realização gradativa. Na linhagem psicóide o desejo de onipotência não é recalcado, mas dissociado. O que ocupa o lugar da onipotência não é a potência neuróide, mas a impotência psicóide. O borderline ferido em seu narcisismo sente-se impotente e dissocia sua onipotência. Esta, porém, vai reaparecer logo adiante, sendo então este o momento em que a impotência é colocada numa gaveta, não influindo no impulso de onipotência.”(C)

E como poderemos pensar sua atuação dentro de um ambiente virtual, com características bem próprias:

 1- anonimato (sem possibilidade de identificação);

2- possibilidade de projetar no “fake” características que não necessitam comprovação;

3- completa apropriação do discurso do outro como seu;

4- possibilidade permanente de atuar sua dissociação(mais de um perfil: bom X mau);

5- estruturação das idéias deliróides em relatos onde o real não faz o corte;

6- inexistência do corte temporal.

Faremos nesse momento uma impotante ressalva, que tratará de questões referentes a faixa etária envolvida no comportamento virtual/net.

Percebemos que os adolescentes fazem uso permanente dessas características dentro do virtual, de alguma maneira, encontram nesse espaço, o local “seguro” para depositarem suas características de atuação que acontecem dentro de uma normalidade no período da adolescência.

Diz Arminda Aberastury: “O Adolescente se apresenta como vários personagens e, às vezes, frente aos próprios pais, porém com mais freqüência frente a diferentes pessoas do mundo externo, que nos poderiam dar dele versões totalmente contraditórias sobre sua maturidade, sua bondade, sua capacidade, sua afetividade, seu comportamento e, inclusive, num mesmo dia, sobre seu aspecto físico

Essa imensa mobilidade característica da adolescência apresenta-se no virtual. Sabemos que o fato dessas características persistirem em um ser adulto nomeará o aparecimento de outros quadros, perdendo a qualidade de rebeldia e questionamento próprias da adolescência. “Nesse momento se produz um aumento da intelectualização para superar a incapacidade de ação(que é correspondente ao período de onipotência do pensamento na criança pequena). O adolescente procura a solução teórica de todos os problemas transcendentes e daqueles com os quais se enfrentará a curto prazo: o amor, a liberdade, o matrimônio, a paternidade,a educação, a filosofia, a religião. Mas aqui, podemos e devemos traçar-nos a interrogação: é assim só por uma necessidade do adolescente ou também é resultante de um mundo que lhe proíbe a ação e obriga-o a refugiar-se na fantasia e na intelectualização?” Há hoje um enorme impedimento à ação advindo do medo do mundo real violento e ameaçador, pais procuram impedir maiores movimentações físicas e filhos amedrontados se refugiam projetando suas fantasias de realização no virtual. Nada contra, fenômeno passível de estudo na atualidade e não será dele que pretendemos falar. Ele nos serve apenas como ponte para evidenciar que assim como no real, esse comportamento onipotente no virtual vindo de um adolescente tem uma característica e advindo de um ser adulto poderá estar evidenciando um manejo psicopatológico evidente.

Vamos então circunscrever nosso objeto então para não nos perdermos em classificações múltiplas que acabarão por confundir o entendimento sobre o fenômeno que relatamos no presente trabalho.

Estivemos descrevendo aqui um sujeito adulto (idade cronológica), mas com um manejo das relações virtuais que apresenta fortes traços juvenis, com suas características de dissociação e projeção, caracterizando um quadro limítrofe com comportamentos virtuais anti-sociais e perversos no sentido mesmo da realização do prazer pela ação de enganar, manipular, dissociar que faz através da construção de vários perfis não identificáveis a si mesmo(fakes).

 

Na classificação proposta pelo psicanalista Nahmann Armony diríamos que seria o bordeline pesado(patológico).

 

Outras variações em psicopatologia presentes no Orkut

Nesse mundo do anonimato outros tipos de acting, que não somente o borderline perverso, também atuariam de maneiras diferenciadas. Nesse trabalho só pudemos pesquisar um dos tipos. Vale ressaltar que estes relatados aqui, não compõem a totalidade dos fakes. Existem também, os apelidados no mundo virtual de “fakes do bem”, que representam apenas pessoas que, por qualquer motivo, não querem ser identificadas e preferem atuar nessas comunidades compondo um personagem onde algumas de suas características são projetadas, mas percebemos nesses perfis a manutenção de uma ética e coerência com suas estruturas emocionais.

Dentro de outras variações encontraremos grande quantidade de expressão do patológico dentro do mundo do Orkut. Vão desde a combatida propagação da idéia central da pedofilia (perversão propriamente dita), até os ataques mágicos de algo próximo a uma projeção paranóica, passando ainda por melancólicos e expositivos pedidos de ajuda, ou ainda ataques contra-fóbicos aos representante do objeto temido (ex.:homofobia).

Resta-nos talvez pesquisar se, no caso desse anonimato, não seriam atraídos com maior intensidade os traços narcisistas que estão presentes em todos nós, os neuróticos. Se assim ficar evidenciado, teríamos então em mãos um fenômeno de massa a ser detalhadamente descrito. Mas isso consistiria necessariamente em outra etapa dessa pesquisa. Não temos ainda nesse momento elementos que nos permitam afirmar uma coisa ou outra no caso do anonimato fake e sua patologização de maneira generalizada

Propomos então, a partir desse estudo, que sejam criados conceitos que procurem classificar e descrever os vários fenômenos presentes na virtualidade e ainda em estágio de formação. O desenvolvimento desse teatro onde autor e personagem se confundem em uma teia psicopatológica.

Os perfis do Orkut, até mesmo por sua natureza virtual são muito susceptíveis a se tornarem continente de partes excindidas do self, e esse fenômeno ocorre não apenas nos chamados nos perfis ‘fakes’, mas em todos os perfis. A partir dessa projeção, vão se repetir e reproduzir via transferência, todas as situações objetais psicóticas e neuróticas (ou perversas) de seus usuários. A intensidade dessas projeções pode ser um indicativo do grau de psicose nesse indivíduo: quanto maior o uso de mecanismos projetivos, maior a parte psicótica da realidade, pois menor é capacidade de integração do ego.”(E)

Estar presente como espectador interessado num espetáculo ou peça, representa para os adultos o que o brinquedo representa para as crianças, cujas esperanças hesitantes de poderem fazer o que os adultos fazem são, dessa forma, satisfeitas. O espectador é uma pessoa cuja participação é muito pequena, que sente ser um ‘pobre miserável a quem nada de importância pode acontecer’, que de há muito tem sido obrigado a sufocar, ou antes, a deslocar sua ambição de ter sua própria pessoa no centro dos assuntos mundiais; ele anseia por sentir, agir e dispor as coisas de acordo com seus desejos – em suma, por ser um herói…o espectador sabe, muito bem que uma verdadeira conduta heróica como essa seria impossível para ele sem dores, sofrimentos e temores agudos, que quase anulariam o prazer”(Freud)(3b)

Finalização: “O PAI (resoluto, avançando)

Fico maravilhado da incredulidade dos senhores! Não estão habituados, porventura, a ver pularem vivos, aqui em cima, uma diante das outras, as personagens que foram criadas por um autor? Talvez porque não há ali (indica a caixa do ponto) UM TEXTO QUE NOS CONTENHA?…(*)

A ENTEADA (indo ao Diretor sorridente e provocante)

Creia, senhor, que somos verdadeiramente, seis personagens interessantíssimas! Se bem que desperdiçadas!…

O PAI (afastando-se)

Sim, desperdiçadas, isso mesmo! (Ao Diretor, subitamente) No sentido de que o autor que nos criou vivos não quis, depois, ou não pode, materialmente, meter-nos no mundo da arte. E foi um verdadeiro crime, senhor, porque quem tem a sorte de nascer personagem viva, pode rir até da morte. Não morre mais! Morrerá o homem, o escritor, instrumento da criação; a criatura não morre jamais! E para viver eternamente, nem mesmo precisa possuir dotes extraordinários ou realizar prodígios...”(do livro: Seis personagens à procura de uma autor – Luigi Pirandello)

(*) grifo nosso

Considerações críticas

Submetido a tese do presente trabalho para crítica de alguns psicanalistas, recebeu contribuições bastante interessantes e algumas sugestões.

 Destacaremos os comentários a nós enviados pelo psicanalista Alexandre Escaples, por nos trazer uma abordagem mais kleiniana e por ser um usuário freqüente do Orkut. Ele produziu um interessante texto de supervisão desse trabalho que fizemos constar da bibliografia.

Segue parte dessa crítica: “Um ‘fake’ é uma ‘entidade virtual’, um continente (Bion) de uma projeção de uma parte da realidade psíquica, uma parte do ego do usuário do Orkut.” Mas poderíamos ir além e dizer que TODO perfil do Orkut é em certa medida a mesma coisa. A intensidade e a relação do usuário com essa parte excindida creio que seja um objeto interessante de estudo.”

Os perfis ‘fakes’ não apenas são o continente de uma parte excindida do self do usuário, mas eles também atuam a partir desses perfis. E qual seria o objetivo dessas atuações? Minha proposta é que partes não integradas do self atuam a partir desses perfis, provocando nos demais usuários respostas emocionais específicas. Em outras palavras, estamos diante de uma transferência (Freud, 1914): busca-se uma solução para os conflitos do ego, através de relações objetais, nesse caso mais virtuais, e portanto menos suscetíveis a frustrações. Esse mecanismo para mim tem algumas funções básicas:

<!–[if !supportLists]–>a) <!–[endif]–>trabalhar essas partes psicóticas, integrando-as em na virtualidade orkutiana, menos susceptível a frustrações, na esperança da busca de novas possibilidades de integração ao ego;

<!–[if !supportLists]–>b) <!–[endif]–>projeção de um conflito neurótico, onde a parte excindida, nesse caso é o próprio conflito, que se repete nas relações objetais que se estabelecem no Orkut, de acordo com cada resposta que o ego neurótico pode dar ao conflito: neurótico obsessivo ou histérico.

 Essas duas hipóteses básicas não são excludentes. A diferença básica aqui é qual parte do ego é excindida: no primeiro caso se trata de uma parte não integrada, na segunda, uma parte mais integrada, ainda que conflituosa.

Sinceramente não sei se todos os usuários ‘fakes’ podem ser considerados sob a égide de uma estrutura psicopatológica, como a perversão, mesmo os ‘fakes’ do mal. Poderíamos estar diante da ambivalência de um neurótico obsessivo que excinde mais sua parte agressiva, uma vez que pode não consegue integrá-la ou controla-la pelo seu ego.

Uma pergunta interessante: Pode o Orkut, com suas características de comunidade virtual, suprir as necessidade de integração de um ego? Um dos fatores fundamentais na esperança da projeção é que a mãe devolva amor ao seu filho e com isso ele possa se integrar. Citando Empédocles: o amor uni e o ódio separa. Pode o Orkut ser um holding para essa situação? Em minha opinião sim e não. Pode, pois todas as relações humanas podem, mas em um grau muito diminuto, pois o amor, fator integrativo, é algo real, e não virtual. “(E)

Bibliografia:

1.Vocabulário da Psicanálise – J.L. Laplanche e J.B. Pontalis

2Teoria Psicanalítica das neuroses – Otto Fenichel

3Obras Completas Sigmund Freud:

Artigos:

a)Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade – vol VII;

b)Tipos psicopáticos no palco – vol VII;

c)O Caso Schreber e Artigos sobre a técnica – vol XII;

 d)Sobre o narcisismo: uma introdução – vol XIV; e

)Luto e Melancolia – vol. XIV;

f)Alguns tipos de caráter encontrados no trabalho psicanalítico – vol. XIV.

g) FREUD, S. Recordar, repetir e elaborar. Volume XII (1914).

4 “CLASSIFICAÇÃO: EXISTE UMA CONTRIBUIÇÃO PSICANALÍTICA À CLASSIFICAÇÃO PSIQUIÁTRICA?”

In “O ambiente e os processos de maturação”.- Winnicot, D.W. – 5Adolescência Normal – A. Aberastury e M. Knobel

Sites:

A- http://virtualpsy.locaweb.com.br/index.php?art=150&sec=91

B- http://www.saude.inf.br/nahman/borderlineidentificacao.pdf#search=%22Nahman%20Armony%22

C- http://www.saude.inf.br/nahman/tendenciaantisocial.pdf#search=%22Nahman%2Bborderline%2Bcultura%22

D-http://www.pucsp.br/nucleodesubjetividade/Textos/peter/clausuradofora.pdf#search=%22dissocia%C3%A7%C3%A3o%20esquiz%C3%B3ide%2Bfragmenta%C3%A7%C3%A3o%2Bpsican%C3%A1lise%2Bvirtualidade%22

E- Texto Alexandre Escaples

 

– Literatura:

Seis personagens à procura de um autor – Luigi Pirandello

Filmes Indicados: (clique nas imagens para ler as sinopses)

 

 

http://www.cinematerapia.psc.br/perversoorkut.html

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