Íntegra dos discursos de Barack Obama no Brasil

Íntegra do discurso de Barack Obama no Theatro Municipal /RJ

Na tarde deste domingo (20/03), o presidente norte-americano, Barack Obama, discursou para cerca de 2 mil convidados no Theatro Municipal, Rio de Janeiro.

Alô, Rio de Janeiro. Alô, Cidade Maravilhosa.

Boa tarde todo o povo brasileiro.

Desde o momento em que chegamos, o povo desta cidade tem mostrado a minha família o calor e receptividade de seu espírito. Obrigado. Quero agradecer a todos por estarem aqui, pois sei que há um jogo do Vasco ou do Botafogo. Eu sei que os brasileiros não abrem mão do futebol.

Uma das primeiras impressões que tive do Brasil veio de um filme que vi com minha mãe, “Orfeu Negro”. Minha mãe jamais imaginaria que minha primeira viagem ao Brasil seria como presidente dos EUA. Vocês são mesmo um “país tropical abençoado por Deus e bonito por natureza”.

Ontem tive um encontro com sua presidente Dilma Rousseff e hoje quero falar com vocês sobre as jornadas dos EUA e do Brasil, que são duas terras com abundantes riquezas naturais. Ambos os países já foram colônias e receberam imigrantes de todo mundo. Os EUA foram a 1ª nação a reconhecer a independência do Brasil. O primeiro líder brasileiro a visitar os EUA foi Dom Pedro II.

No Brasil, vocês lutaram contra a ditadura, lutando para serem ouvidos. Mas esses dias passaram. Hoje, o Brasil é um país onde os cidadãos podem escolher seus líderes e onde um garoto pobre de Pernambuco pode chegar ao posto mais elevado do país. Foi essa mudança que vimos na Cidade de Deus. Quero dar os parabéns ao prefeito e ao governador pelo seu excelente trabalho. Mas não se deve olhar para a favela com pena, mas como uma fonte de artista, presidentes, pessoas com soluções.

Vocês sabem que esta cidade não foi minha primeira escolha para os Jogos Olímpicos. Porém, se os jogos não pudessem ser realizados em Chicago, o Rio seria minha escolha. O Brasil sempre foi o “país do futuro”, mas agora esse futuro está aqui.

Estou aqui para dizer que nós, nos EUA, não apenas observamos seus sucessos, mas torcemos por ele. Juntos, duas das maiores economias do mundo podem trazer crescimentos. Precisamos de um compromisso com a inovação e com a tecnologia.

Por isso, também, queremos ajudá-los a preparar o país para os jogos. Por isso somos países comprometidos com o meio ambiente. Por isso a metade dos carros daqui podem circular com biocombustível. E por isso estamos buscando o mesmo nos EUA, para tornar o mundo mais limpo para nossos filhos.

Sendo o Brasil e os EUA dois países que foram tão enriquecidos pela herança africana, temos que nos comprometer com a ajuda à África. Também estamos ajudando os japoneses hoje. Vocês, aqui no Brasil, receberam a maior imigração japonesa no mundo.

Os EUA e o Brasil são parceiros não apenas por laços de comércio e cultura, mas porque ambos acreditam no poder da democracia, porque nada pode ser tão poderoso para levar milhões de pessoas, que subiram da pobreza, para a classe média, o fizeram pela liberdade.

Vocês são a prova de que a democracia é a maior parceira do progresso humano. A democracia dá a maior esperança de que todos serão tratados com respeito. Nós sabemos, nos EUA, como é importante trabalhar juntos, mesmo quando não nos entendemos. Acreditamos que a democracia pode ser lenta e que ela vai sendo aperfeiçoada com o tempo. Mas também sabemos que todo ser humano quer ser livre, quer ser ouvido, quer viver sem medo ou discriminação. Todos querem moldar seu próprio destino. São direitos universais e devemos apoiá-los em toda parte.

Onde quer que a luz da liberdade seja acesa, o mundo se torna um lugar melhor. Esse é o exemplo do Brasil. Brasil, um país que prova que uma ditadura pode se tornar uma próspera democracia e que mostra que um grito por mudanças vindo das ruas pode mudar o mundo.

No passado, foi aqui fora, na Cinelândia, que políticos e artistas protestaram contra a ditadura. Uma das pessoas que protestaram foi presa e sabe o que é viver sem seus direitos mais básicos. Porém, ela também sabe o que é perseverar. Hoje ela é a sua presidente, Dilma Rousseff.

Sabemos que as pessoas antes de nós também enfrentaram desafios e isso une as nossas nações. Portanto, acreditamos que, com a força de vontade, podemos mudar nossos destinos. Obrigado. E que Deus abençoe nossas nações.

Íntegra do discurso de Obama para empresários em Brasília dia 19

O presidente norte-americano Barack Obama participou da Cúpula Empresarial Brasil-Estados Unidos neste sábado (19), em Brasília.

“Muito obrigado. Boa tarde. Podem sentar, por favor.

É um prazer estar aqui no Brasil e, em nome da Michelle e em meu nome, eu gostaria de agradecer as pessoas aqui de Brasília pela recepção calorosa que tivemos.

Gostaria de agradecer ao Conselho de Negócios Brasil-Estados Unidos pelo maravilhoso trabalho, à Confederação Nacional das Indústrias e à Câmara de
Comércio do Brasil. Muito obrigado pelo ótimo trabalho em sediar esta conferência.

Eu gostaria também de agradecer os membros do meu gabinete, o secretário do Tesouro, Timothy Geithner, Gary Locke, secretário de Comércio, Ron Kirk, representante comercial dos Estados Unidos, Lisa Jackson, gerente do setor ambiental, Fred Hochberg, presidente do banco de importações e exportações, Michael Froman, vice-secretário de segurança para questões econômicas e comerciais internacionais, e todas as autoridades do governo brasileiro, muito obrigado pela hospitalidade.

Só lamento ter perdido a festa, chegamos algumas semanas depois do Carnaval. Mas talvez seja melhor assim, pois talvez a produtividade da minha equipe fosse prejudicada se ainda estivéssemos no Carnaval.

Gostaria de agradecer aos representantes comerciais, empresariais e governamentais que vieram de todos os cantos do Brasil. Passamos aqui a manhã conversando sobre diversas questões econômicas, falando com a presidente Rousseff e presidentes de empresas brasileiras e americanas e quero falar como vamos trabalhar juntos para criar novas oportunidades e novos empregos nos nossos dois países.

Nos últimos dois séculos, nunca houve um momento tão promissor para o Brasil. Agora, vocês são a sétima maior economia do mundo, registrando um dos crescimentos mais rápidos do mundo. No intervalo de uma década, centenas de milhares de brasileiros saíram da pobreza, metade da população brasileira é considerada agora classe média.

Em vez de esperar ajuda de outros países, vocês estão agora ajudando outros países, ajudando outras nações em desenvolvimento. Vocês produzem grande parte dos alimentos consumidos no mundo, fornecem grande parte dos biocombustíveis do mundo e vão sediar dois dos maiores eventos esportivos do mundo. E, como mencionei na coletiva de imprensa há pouco com a presidente, eu ainda fico magoado quando lembro que os Jogos Olímpicos vêm para cá e não para Chicago, mas tenho certeza de que farão um ótimo trabalho nos jogos.

Portanto, o que o Brasil conquistou é absolutamente surpreendente. Quantas vezes se escuta que o Brasil é o país do futuro? Bom, o futuro chegou e, apesar das incertezas dos últimos dois anos, o Brasil se colocou na dianteira como uma potência econômica e financeira. Vocês não chegaram aqui simplesmente por uma questão de sorte ou acaso. O sucesso ocorreu por conta de um trabalho árduo e da perseverança do povo brasileiro. O espírito empreendedor de muitas das pessoas aqui nesta sala, a visão de líderes como o presidente Cardoso e presidente Lula.

Esses líderes perceberam, e a presidente Rousseff segue a mesma linha, que o caminho mais certo para a prosperidade no Brasil engloba pessoas livres e mercados livres. Em uma região do mundo onde o legado do colonialismo é recente, havia uma preocupação legítima no século passado de que abrir a economia levaria países mais ricos a extrair recursos sem se importar com o desenvolvimento da nação. Acho isso compreensível.

Ao mesmo tempo, várias nações da América Latina como esta viveram décadas de ditaduras em que economias fechadas não foram capazes de oferecer padrões de vida decentes para a maioria da população. Mas, na última década, o Brasil mostrou ao mundo que há um outro caminho e que a participação na economia global pode levar a grandes oportunidades mostrando que o espírito do capitalismo pode fluir bem ao lado da justiça social. O Brasil mostrou que a democracia ainda é o melhor caminho para o progresso econômico.

Quando os governos se responsabilizam por seu povo, o povo tem mais chances de prosperar. Nos Estados Unidos, sempre compartilhamos essas crenças. Assim como vocês, saímos de uma era colonial estabelecendo nossa independência no novo mundo.

Nós também somos uma nação de imigrantes, com diferentes histórias, passados e culturas e que encontram força na adversidade, força na unidade e no nosso orgulho nacional. E, como as duas maiores economias e democracias do ocidente, nós acreditamos que todos os seres humanos merecem a oportunidade de criar seu próprio futuro.

Por todas essas razões, os Estados Unidos apoiam a ascensão do Brasil como uma potência global. É por isso que trabalhamos para que o Brasil tenha papel de mais destaque no G20, por ser o fórum de economia mais importante. É por isso que apoiamos a participação mais expressiva do Brasil em outras instituições como o FMI e o Banco Mundial. Por isso, o Brasil é minha primeira parada na minha primeira viagem à América Latina, pois almejamos uma parceria maior com seu governo e uma amizade mais profunda com o seu povo.

Acreditamos que o fortalecimento dos nossos laços econômicos criará oportunidades para as duas nações. Ao observar o Brasil, os Estados Unidos enxergam maiores oportunidades de vender mais bens e serviços para um mercado de quase 200 milhões de consumidores em rápida expansão. Para nós, isso representa uma estratégia de empregos, pois ao vender mais produtos em outros países, apoiamos os trabalhadores que vão fabricar e vender esses produtos.

Todos os líderes de negócios norte-americanos aqui presentes devem saber que para cada US$ 1 bilhão em exportações americanas, nós temos 5 mil empregos nos Estados Unidos.

Nossas exportações para o Brasil mais do que duplicaram nos últimos anos, crescendo duas vezes mais rápido do que as exportações gerais e mais do que nossas exportações para a China.

Vendemos hoje US$ 50 bilhões em bens e serviços para o Brasil, e essas vendas geram 250 mil empregos nos Estados Unidos. Por exemplo, depois que uma pequena empresa da Carolina do Norte participou de um fórum comercial em São Paulo no ano passado, a empresa saiu de lá com um acordo de fabricação e distribuição de peças automotivas para o Brasil e a contratação de novos funcionários nos Estados Unidos.

A Capstone Turbine, na Califórnia, vendeu US$ 2 milhões em equipamentos de alta tecnologia atendendo a milhões de brasileiros e criando empregos nos EUA. O governo do Brasil comprou helicópteros que irão, sem dúvida, ajudar a criar mais empregos desde a Pensilvânia até o Alabama, nos Estados Unidos.

Essas exportações não significam apenas mais empregos para os Estados Unidos, mas também mais serviços e mais opções para o Brasil. Desde a área de telecomunicações e informática, até equipamentos e tecnologia de energia limpa, as empresas americanas estão contribuindo para o crescimento econômico que está elevando o padrão de vida dos brasileiros em toda parte. Nossas empresas não promovem essa contribuição apenas por exportar para o Brasil, mas também através de bilhões de dólares investidos diretamente em empregos e negócios nos dois países.

Claro que nossa relação econômica não é uma via de mão única. Os EUA são também o segundo maior mercado de exportações brasileiras e apoiam dezenas de milhares de empregos aqui no Brasil. Na última década, as empresas brasileiras investiram bilhões de dólares em diversos setores americanos desde aço até tecnologia da informação, investimentos esses que criaram muitos empregos nos EUA. No final de 2008, as subsidiárias de empresas brasileiras nos EUA empregavam mais de 42 mil funcionários americanos. Portanto, é inquestionável que os EUA e o Brasil se beneficiam dos laços econômicos criados nos últimos anos.

Também não há a menor dúvida de que o fortalecimento desses laços será um sinal de fortalecimento para as duas nações, um sinal positivo para as duas nações, e tenho o prazer de anunciar que a presidente Rousseff e eu concluímos um acordo para um novo diálogo econômico e financeiro. É chegado o momento de os EUA tratarem suas relações econômicas com o Brasil da mesma forma como lidamos com a China e com a Índia e esse diálogo assinado pela presidente Roussef tem esse intuito. Esse diálogo vai nos ajudar a promover uma cooperação econômica, vamos reduzir o número de regulamentações e aumentar a cooperação internacional, não apenas no G20, mas também em outros fóruns.

Nós também concluímos um acordo de cooperação econômica que vai nos ajudar a expandir as relações comerciais e de investimento entre os países. Esse acordo também vai promover diálogos sobre como reduzir barreiras que existem entre as nossas duas nações. Como o Banco Mundial já disse, ainda existem muitos obstáculos na forma de o Brasil fazer negócios e eu sei que o Brasil tem problemas com certas políticas implementadas nos EUA, e sei que nenhum país ganharia mais do que o Brasil através de uma ampliação comercial.

Queremos ajudar vocês a superar qualquer desafio que esteja no caminho dessas resoluções. Em segundo lugar, queremos criar parcerias no Brasil no setor de energia, e é por isso que a presidente Roussef e eu decidimos lançar um diálogo estratégico sobre energia. Segundo algumas estimativas, o petróleo que foi descoberto recentemente no Brasil pode representar duas vezes as reservas americanas. Queremos trabalhar junto com vocês. Queremos ajudar com tecnologias e apoio para desenvolver essas reservas de petróleo de forma segura. Quando vocês estiverem prontos para vender, nós queremos ser um dos seus maiores clientes.

Às vezes lembramos com que facilidade as instabilidades em outros países do mundo podem impactar o preço do petróleo como vimos recentemente. Os EUA não poderiam estar mais satisfeitos com o potencial de uma nova fonte estável de energia.

Embora analisemos a questão do petróleo no curto prazo, não podemos perder de vista o fato de que a única solução a longo prazo para a dependência do mundo em relação aos combustíveis fósseis é a tecnologia de energia limpa e é por isso que os EUA e o Brasil estão aumentando sua cooperação na área de biocombustíveis.

Estamos lançando uma parceria de economia “verde” entre o Brasil e os EUA porque sabemos que a energia limpa é uma das melhores formas de criarmos novos empregos e novos setores nas duas nações. Mais da metade dos veículos do Brasil usam biocombustível, cerca de 80% da energia do Brasil se origina de fontes hidrelétricas, e nos EUA nós demos início a um setor de energia limpa que em breve terá capacidade de produzir 40% das baterias mais avançadas do mundo. Se pudermos compartilhar essas novas tecnologias, alavancando investimentos privados, podemos desenvolver nossas economias e limpar o meio ambiente ao usar e vender produtos de energia limpa em todo o mundo e isso só trará benefícios.

Podemos cooperar também na área educacional. Eu estava falando no almoço com a presidente Rousseff que concordamos que uma economia baseada em conhecimento será absolutamente essencial para o crescimento e a prosperidade. Isso significa uma força de trabalho com formação e capacitada. Quanto mais nossos jovens, nossos alunos, nossos trabalhadores estiverem expostos a novas culturas, novas ideias, mais rapidamente serão capazes de concorrer em escala global. Por isso, tenho prazer em saber que os líderes de negócios brasileiros e americanos têm aumentado o número de intercâmbios porque quando investimos no nosso povo, investimos no nosso futuro.

A última área que podemos trabalhar conjuntamente é a área de infra-estrutura. Em 2014, o Brasil sediará a Copa do Mundo, a única nação que já foi cinco vezes campeã mundial. Apesar de que os EUA estão melhorando, vocês têm que admitir que o nosso futebol está melhorando. Como já mencionei, o Rio irá sediar os Jogos Olímpicos em 2016, mas apesar de terem perdido, os EUA não ficam simplesmente sentados na arquibancada assistindo.

O Brasil vai investir mais de US$ 200 bilhões para se preparar para esses dois grandes eventos e, à medida que vocês buscam negócios para construir novas estradas, estádios, as empresas americanas estão prontas a ajudá-los na parte de engenharia, fabricação e construção. Queremos ver esses jogos vencerem e terem êxito e esta nação ter êxito também. Portanto podemos dar alguns passos também para aumentar os laços entre nossos países, laços que trarão a promessa de mais prosperidade e oportunidades para brasileiros e americanos.

Pensando em todos os acordos e negócios que venhamos a assinar, o potencial verdadeiro da nossa parceira só será realizado ao criarmos uma relação forte entre nossos povos, líderes de negócios, empreendedores, cientistas, engenheiros, professores, estudantes e mais de um milhão de pessoas que viajam entre ambos os países normalmente. Como todos amigos, nem sempre concordamos em tudo e às vezes queremos tomar caminhos diferentes mas, à medida que as duas maiores democracias do novo mundo iniciam a segunda década de um século jovem, não vamos esquecer tudo que compartilhamos.

Nos EUA acreditamos no sonho americano, a ideia de que não importa quem você é, de onde você vem ou de como você começou, você pode superar todos os obstáculos e, assim, realizar seus maiores sonhos. Eu sou testemunha desse sonho. Acredito que esse sonho exista também nesta América. Posso ver isso no espírito empreendedor dos homens e mulheres presentes nesta sala. Posso ver isso nas comemorações do povo ao saber que os Jogos Olímpicos viriam para cá, no Rio. Posso ver isso na história do Brasil.

Brasília é uma cidade jovem, vai fazer 51 anos, mas começou como um sonho há mais de um século. Em 1883, o santo padroeiro do Brasil, Dom Bosco, teve uma visão de que um dia a capital de uma grande nação seria construída entre os paralelos 15 e 20 e que seria o modelo do futuro e asseguraria que a oportunidade seria direito de todo cidadão brasileiro. Hoje, essa cidade e esse país são um modelo para o futuro, mostrando que a democracia é o melhor parceiro para o futuro. Como amigos, vizinhos, nós vivemos as mesmas histórias, mas queremos fazer parte desse futuro, queremos realizar o sonho americano com vocês.

Muito obrigado.”

Íntegra do discurso de Obama no Palácio do Planalto

“Obrigado, senhora Presidente, pelas gentis palavras. Muito obrigado a vocês e ao povo brasileiro pela calorosa recepção e pela famosa hospitalidade brasileira com que vocês receberam Michelle, a mim e nossas filhas. ‘Muito obrigado’.

Em nossa reunião hoje, mencionei que esta é minha primeira visita à América do Sul e o Brasil é minha primeira parada, e não por acaso. A amizade entre os povos americano e brasileiro já soma mais de dois séculos. Nossos empreendedores e empresários inovam juntos, nossos cientistas e pesquisadores estão criando novas vacinas, juntos nossos alunos e professores exploram novos horizontes. Todos os dias trabalhamos para tornar nossas sociedades mais inclusivas e mais justas.

O crescimento extraordinário do Brasil, senhora Presidente, atrai a atenção do mundo todo. Graças ao sacrifício de pessoas como a presidente Dilma Roussef, o Brasil saiu da ditadura para a democracia, é uma das economias que mais crescem no mundo, tirando milhões da pobreza e levando-os à classe média. Hoje os EUA e o Brasil são as duas maiores democracias do hemisfério e as duas maiores economias. O Brasil, líder regional que promove uma cooperação maior entre todas as Américas e o Brasil é, cada vez mais, um líder mundial, passando de receptor de ajuda externa para doador, reivindicando um mundo sem armas nucleares e estando sempre adiante dos esforços globais para lutar contra a mudança climática. Como presidente, eu sempre promovo o compromisso baseado em respeito mútuo e interesses mútuos e uma parte fundamental desse compromisso é promover uma cooperação maior com centros de influência do século XXI, incluindo o Brasil. Em suma, os EUA não apenas reconhecem o crescimento do Brasil, mas apóiam esse crescimento com entusiasmo. Por isso criamos o G20, o principal fórum de cooperação econômica mundial, para ter certeza de que países como o Brasil terão mais voz ativa. Por isso aumentamos a cota de votação do Brasil e o seu papel nas instituições financeiras internacionais. Por isso que eu vim ao Brasil hoje.

A presidente Roussef e eu acreditamos que esta visita seja uma oportunidade histórica para colocar os EUA e o Brasil na rota de uma cooperação ainda maior nas décadas vindouras. Hoje estamos começando a aproveitar esta oportunidade. Senhora Presidente, gostaria de agradecê-la pelo seu compromisso pessoal em fortalecer as alianças entre as nossas duas nações. Estamos ampliando o comércio e os investimentos, criando empregos nos nossos dois países. O Brasil é um dos nossos principais parceiros comercias, mas ainda há muito que podemos fazer.

Mais tarde hoje, a presidente e eu vamos nos reunir com líderes de negócios dos nossos dois países, vamos ouvir e decidir quais serão as etapas concretas que vão expandir nossas relações econômicas. Vamos anunciar uma série de novos acordos, inclusive um diálogo financeiro e econômico que venha promover relações comerciais, expandir a colaboração na área de ciência e tecnologia e à medida que o Brasil se prepara para receber a Copa do Mundo e as Olimpíadas e, ainda me magoa tocar neste assunto, estamos assegurando que as empresas americanas terão um papel entre os projetos de infraestrutura necessários para essas competições. Estamos criando um novo diálogo estratégico sobre energia para garantir que as cúpulas dos nossos governos estão trabalhando conjuntamente para aproveitar novas oportunidades, em particular, como as novas descobertas de petróleo no Brasil, como disse a presidente Roussef, o Brasil quer ser um grande fornecedor de novas fontes estáveis de energia e eu falei para ela que os EUA também querem ser um grande cliente dessas fontes, o que traria benefícios para ambos os países.

Ao mesmo tempo, estamos expandindo nossa parceria em energia limpa, fundamental para nossa segurança em energia em longo prazo. Como líder na área de energia renovável, como biodiesel, e como parte da parceria de energia e clima entre as Américas que proponho, o Brasil está compartilhando seu conhecimento na região e no mundo. Esse novo diálogo de economia verde que estamos criando hoje aumenta ainda mais nossa cooperação construindo prédios “verdes” e desenvolvimento sustentável. Na área de segurança, nossos exércitos trabalham com proximidade ainda maior para lidar com crises humanitárias, como fizemos no Haiti. Nossas polícias trabalham em conjunto contra os narcotraficantes que ameaçam a todos nós, o Brasil se aliou ao esforço internacional para evitar o contrabando de armas nucleares por seus portos. Agradeço à presidente Roussef pela liderança do Brasil em criar um centro regional de promoção de excelência na área de segurança nuclear. Como membro do conselho de direitos humanos, o Brasil se juntou a nós na condenação aos abusos aos direitos humanos realizados pela Líbia. Gostaria de rapidamente mencionar a situação na Líbia porque conversei sobre isso com a presidente. Ontem a comunidade internacional exigiu um cessar fogo imediato na Líbia, inclusive um fim a todos os ataques contra civis, e hoje a secretária Clinton se reuniu com uma coalizão internacional com nossos parceiros árabes e europeus em Paris para discutir como aplicar a resolução do conselho de segurança criada pela ONU em 1973. Houve um consenso coeso e a conclusão foi clara: o povo da Líbia deve ser protegido e se não for colocado um fim imediato à violência contra civis, nossa coalizão está preparada para entrar em ação, e agirá com urgência. Conversei com a presidente Roussef sobre os passos que estão sendo tomados nesse sentido.

Finalmente, estou especialmente satisfeito pelo Brasil e os EUA estarem juntos em criar uma governança democrática para além de nossos hemisférios. O Brasil está ajudando a liderar a iniciativa global que anunciei nas Nações Unidas de promover governos abertos e novas tecnologias que capacitem os cidadãos no mundo todo. Hoje estamos lançando novos esforços para ajudar outros países a combater a corrupção e o trabalho infantil. Estamos expandindo nossos esforços para aumentar a segurança alimentar nesse movimento de desenvolvimento da agricultura na África. Acredito que este seja apenas o começo do que os dois países podem fazer juntos em todo o mundo. Por isso, os EUA continuarão se esforçando para ter certeza de que as novas realidades do século XXI serão refletidas nas instituições internacionais, como disse a senhora Presidente, incluindo as Nações Unidas onde o Brasil aspira a um assento permanente no conselho de segurança. Como falei à presidente Roussef, os EUA continuarão a trabalhar tanto com o Brasil quanto com outras nações nas reformas que vão tornar o conselho de segurança mais eficaz, eficiente e representativo para poder levar adiante nossas visões compartilhadas de um mundo mais seguro e pacífico.

Mais uma vez, com os resultados de hoje, criamos uma base para uma cooperação maior entre EUA e Brasil nas décadas vindouras. Gostaria de agradecer a presidente Roussef por sua liderança, por tornar este progresso possível. Não conheço a senhora Presidente há muito tempo, mas noto a paixão extraordinária no sentido de oferecer a oportunidade a todo povo brasileiro para que todos possam progredir e essa é uma paixão que compartilho com a senhora Presidente e aqui representando os cidadãos americanos também. Portanto, tenho certeza de que, dado esse espírito que compartilhamos, essa amizade que existe não apenas no âmbito governamental mas entre os nossos povos, que vamos continuar a progredir no futuro e aguardo ansiosamente minha passagem pelo Rio amanhã, onde terei a oportunidade de me dirigir diretamente ao povo brasileiro sobre o que nossos países podem fazer conjuntamente como parceiros globais no século XXI.

Muito obrigado.”

Fonte: http://blogdamarcellamota.blogspot.com

Os perigos da intervenção humanitária na Líbia

 

E depois da Tunísia e do Egito, tinha que ser a Líbia, não é mesmo? Os árabes da África do Norte demandam liberdade, democracia e o fim da opressão. Sim, isso é o que têm em comum. Mas outra coisa que estas nações têm em comum é que fomos nós, os ocidentais, que alimentamos suas ditaduras década após década. Os franceses se encolheram diante de Ben Ali, os estadunidenses paparicaram Mubarak e os italianos acolheram Kadafi até que nosso glorioso líder (Tony Blair) foi ressuscitá-lo entre os mortos políticos. O artigo é de Robert Fisk.
Robert Fisk – La Jornada

Então, vamos tomar todas as medidas necessárias para proteger os civis líbios, certo? É uma lástima que isso não tenha nos ocorrido nos últimos 42 anos. Ou 41 anos. Ou…bem, vocês sabem o resto. E não dos deixemos enganar sobre o que significa, na verdade, a resolução do Conselho de Segurança da ONU. Uma vez mais, será a mudança de regime. E assim como no Iraque – para usar uma das únicas frases memoráveis de Tom Friedman nesse tempo – quando o último ditador se for, quem sabe que tipo de morcego sairá do caixão.

E depois da Tunísia e do Egito, tinha que ser a Líbia, não é mesmo? Os árabes da África do Norte demandam liberdade, democracia e o fim da opressão. Sim, isso é o que têm em comum. Mas outra coisa que estas nações têm em comum é que fomos nós, os ocidentais, que alimentamos suas ditaduras década após década. Os franceses se encolheram diante de Ben Ali, os estadunidenses paparicaram Mubarak e os italianos acolheram Kadafi até que nosso glorioso líder (Tony Blair) foi ressuscitá-lo entre os mortos políticos.

Seria por isso, pergunto-me, que não ouvimos Lord Blair falar de Isfahán (central nuclear iraniana) em data recente? Sem dúvida deveria estar ali, aplaudindo com júbilo uma nova intervenção humanitária. Talvez só esteja descansando entre um episódio e outro. Ou talvez, como os dragões no “Reino das fadas “, de Spenser, esteja vomitando em silêncio panfletos católicos com todo o entusiasmo de um Kadafi em pleno impulso.

Abramos a cortina um pouco e observemos a obscuridade que há atrás dela. Sim, Kadafi é um louco absoluto, um lunático do nível de Ahmadinejad do Irã ou Lieberman de Israel, que se pôs a fanfarronear dizendo que Mubarak podia ir para o inferno, mas tremeu de medo quando Mubarak foi de fato lançado nesta direção. E existe um elemento racista nisso tudo.

O Oriente Médio parece produzir estes personagens…em oposição a Europa, que nos últimos cem anos, só produziu Berlusconi, Mussolini, Stálin e aquele baixinho atarracado que era cabo na infantaria da reserva do 16° regimento bávaro e que perdeu o juízo quando foi eleito chanceler em 1933…Mas agora estamos voltando a limpar o Oriente Médio e podemos esquecer nosso próprio passado colonial nesta região. E por que não, quando Kadafi diz ao povo de Bengasi: “iremos ruela por ruela, casa por casa, quarto por quarto”. Sem dúvida é uma intervenção humanitária que é uma boa ideia. Além de tudo não haverá tropas em terra.

Desde logo cabe dizer que, se esta revolução fosse reprimida com violência, na, digamos, Mauritânia, não creio que exigiríamos zonas de exclusão aérea. Nem na Costa do Marfim, pensando bem. Nem em nenhum outro lugar da África que não tivesse depósitos de petróleo, gás ou minerais ou carecesse de importância do ponto de vista de nossa (ocidental) proteção a Israel, que é a verdadeira razão pela qual o Egito nos importa tanto.

Enumeremos algumas coisas que poderiam acabar mal. Suponhamos que Kadafi se entrincheira em Trípoli e que britânicos, franceses e estadunidenses destroem seus aviões, seus aeroportos, atacam suas baterias de veículos blindados e mísseis e ele simplesmente não desaparece. Na quinta-feira, observei como, pouco antes da votação na ONU, o Pentágono começava a informar os jornalistas sobre os perigos de toda a operação, precisando que poderia levar dias para instalar uma zona de exclusão aérea.

A truculência e a vilania de Kadafi são reais. Nós as vimos sexta-feira, quando seu ministro do Exterior anunciou o cessar fogo e o fim de todas as operações militares, sabendo perfeitamente que uma força da OTAN decidida à mudança de regime não aceitaria isso, o que permitiria a Kadafi apresentar-se como um líder árabe amante da paz e vítima da agressão do Ocidente: Omar Mujtar vive novamente (chefe do movimento de resistência contra a ocupação militar italiana da Líbia, enforcado em 1931).

E que tal se simplesmente não chegarmos a tempo, se os tanques de Kadafi seguirem avançando. Então, enviamos mercenários para ajudar os rebeldes? Nos instalamos em Bengasi, com conselheiros, ONGs e a tradicional retórica diplomática? Note-se como, neste momento crítico, já não falamos das tribos da Líbia, esse curtido povo guerreiro que invocamos com entusiasmo há um par de semanas. Agora falamos da necessidade de proteger o povo da Líbia, já sem falar dos senoussi, o grupo mais poderoso de famílias tribais de Bengasi, cujos homens vêm travando grande parte dos combates. O rei Idris, derrubado por Kadafi em 1969, era senoussi. A bandeira rebelde vermelha, branca e verde – a velha bandeira da líbia pré-revolucionária – é de fato a bandeira de Idris, uma bandeira senoussi.

Agora suponhamos que os rebeldes cheguem a Trípoli (o ponto chave de todo o exercício, não é assim?): serão bem recebidos ali? Sim, houve protestos na capital, mas muitos destes valentes manifestantes vinham de Bengasi. O que farão os partidários de Kadafi? Se dispersarão? Se darão conta que sempre odiavam Kadafi e se unirão à revolução? Ou continuarão a guerra civil?

E se os rebeldes entram em Trípoli e decidem que Kadafi e seu filho demente Saif al-Islam devem receber o que merecem, junto com seu capangas? Vamos fechar os olhos para as matanças de represália, os enforcamentos públicos, os tratamentos que os criminosos de Kadafi têm infringido há anos contra seus opositores. Eu me pergunto. A Líbia não é o Egito. Uma vez mais, Kadafi é um pirado e, dado seu estranho comportamento com seu Livro Verde no balcão de sua casa bombardeada, é provável que, volta e meia, também fique furioso.

Também há o perigo de que as coisas saiam mal do nosso lado: as bombas que caem sobre civis, os aviões da OTAN que podem ser derrubados ou explodidos em território de Kadafi, a súbita suspeita entre os rebeldes, o povo líbio e os manifestantes pela democracia de que a ajuda do Ocidente tem intenções posteriores. E ainda há uma aborrecida regra universal nisso tudo: no segundo em que se empregam as armas contra outro governo, por maior razão que se tenha, as coisas começam a se desencadear. Os mesmos rebeldes que na manhã de quinta expressavam sua fúria ante a diferença de Paris, sacudiam bandeiras francesas à noite em Bengasi. Viva os Estados Unidos. Até que…

Conheço os velhos argumentos. Por pior que tenha sido nossa conduta no passado, que devemos fazer agora? É um pouco tarde para perguntar isso. Amávamos Kadafi quando ele chegou ao poder em 1969. Quando ele mostrou seu um louco, passamos a odiá-lo. Depois voltamos a amá-lo – falo de quando lord Blair apertou suas mãos – e agora o odiamos de novo.

Por acaso Arafat não teve um histórico similar de altos e baixos com os israelenses e estadunidenses? Primeiro era um super-terrorista que desejava destruir Israel. Depois, um super-estadista que apertou a mão de Yitzhak Rabin, e logo em seguida voltou a ser um super-terrorista quando se deu conta que tinha sido enganado sobre o futuro da Palestina.

Algo que podemos fazer é localizar os Kadafi e Saddam do futuro que alimentamos hoje, os futuros dementes sádicos da câmara de torturas que cultivam seus jovens vampiros com nossa ajuda econômica. No Uzbequistão, por exemplo. E no Turkmenistão, no Tayikistão, Checênia e outros do mesmo estilo. Homens com os quais temos que tratar, que nos venderão petróleo, nos comprarão armas e manterão “na linha” os terroristas muçulmanos.

Tudo é tão conhecido que chega a cansar. E agora estamos de novo envolvidos nisso, dando socos no escritório em unidade espiritual. Não temos muitas opções a menos que queiramos ver outra Srebrenica (NT), não é verdade? Mas um momento: por acaso aquilo não ocorreu muito depois de que impormos nossa zona de exclusão aérea na Bósnia?

(NT) O Massacre de Srebrenica foi a matança, em julho de 1995 de até 8.373 bósnios, variando em idade de adolescentes a idosos, na região de Srebrenica na Bósnia e Herzegovina pelo Exército Sérvio da Bósnia sob o comando do General Ratko Mladic e com a participação das forças especiais da Sérvia conhecidos como “Escorpiões”. Em várias ocasiões foram assassinadas crianças e mulheres. Considerado um dos eventos mais terríveis da história europeia recente, o massacre de Srebrenica é o maior assassinato em massa da Europa desde a Segunda Guerra Mundial. Foi o primeiro caso legalmente reconhecido de genocídio na Europa depois do Holocausto.

Tradução: Katarina Peixoto

Perigeu. por Rudá Ricci


Ontem, a Lua ficou mais próxima da Terra. Algo que aproxima a física da poesia. Este fenômeno – denominado de perigeu – também parece que rondou Brasília e Rio de Janeiro. A sedução Obama foi evidente: procurou aproximar o Brasil da “América”. Não é por menos que a velha diplomacia brasileira está em festa. Vê as tentativas lulistas (com Marco Aurélio Garcia e Celso Amorim logo atrás) de política externa mais ofuscada.
Vejamos se a física se aproxima, também na política, da poesia.

Esquerda de butique (via @esquerdopata)


Ontem ainda eu lia no Twitter uns desocupados, entre um toddynho e outro, chamando a posição do Brasil na votação da ONU sobre a Líbia de “covarde”. Gostaria que os panacas fosse à Líbia explicar o que queriam dizer com isso…

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Enlouquecendo as mulheres JOÃO UBALDO RIBEIRO

O ESTADO DE SÃO PAULO – 06/03/11
Homem sempre teve medo de mulher, mas eu acho que no meu tempo tinha mais. As relações entre os sexos eram bem mais complicadas e cheias de normas e preceitos nem sempre coerentes e isso, junto com o medo, contribuía para uma formidolosa coleção de mitos e histórias sobre o eterno feminino – pois, naquela época, não só se falava no sexo frágil, como no eterno feminino. A história que mais provocava calafrios e pesadelos era a da broxada. Um certo amigo, cujo nome a caridade mandava esquecer, conseguira, depois de meses de trabalho insano, seduzir uma certa senhora e levá-la a um encontro numa garçonnière, pois que na época não havia motéis, os hotéis exigiam certidão de casamento para casais e os bem de vida mantinham apartamentos para seus encontros galantes.
Tudo certo, amanhece devagar o dia e vem um ameno fim de tarde outonal. Parece que nunca chega a hora do pecado e, o coração aos pulos, esse certo amigo entra cedo no ninho de amor cuja chave tomara emprestada ao dono. Angustiada espera, palpitações, fôlego curto, espiadas em falso pelo olho mágico, ela se atrasava, será que não viria? Veio, sim, e que maravilha, que linda, que deslumbrante, que corpo escultural, que deusa da luxúria, por trás de aparência tão recatada! Mas, claro, com suor porejando e lágrimas quase lhe brotando dos olhos, esse certo amigo – adivinhou – broxou irremediavelmente, não houve jeito. E vocês sabem o que ela disse a ele?
– Pensei que tinha vindo para a cama com um homem -, disse a desalmada, com um olhar de desdém arrasador, enquanto, dando uma rabanada como se a mostrar a ele o que sua duvidosa virilidade estava perdendo, pegava a roupa e se vestia devagar, para depois recompor rapidamente a maquilagem e, com um risinho entre mofa e compaixão, dar um “tchau, garotinho, te cuida” e sair para nunca mais ter olhos para ele que não os do desprezo.
Ninguém fazia por menos e esse amigo broxa, quase sempre coberto de opróbrio e à beira do suicídio, frequentava todas as assombradas conversas sobre os mistérios femininos. As mulheres oscilavam entre as santas – normalmente a santa mãezinha de cada um – e as serpentes de escritores então muito lidos pelos ousados, como Vargas Villa e Pittigrilli, este autor da inquietantíssima frase “as únicas mulheres sérias são minha mãe e a mãe do leitor”. De vez em quando, circulava uma novidade, que costumava ganhar voga durante algum tempo e depois sumir. Mulher que fica preocupada demais em ajeitar a saia ou o decote, para não deixar nada aparecer – não sei se vocês sabiam -, essa mulher, no mais das vezes, é da pá virada e, com aquela carinha sonsa, só pensa em safadagem. Já as mais largadonas, mais descuidadas, podem até proporcionar umas prévias interessantes, mas não são tão generosas, quando se trata de chegar aos finalmentes. Quanto às casadas, uma das orientações da sabedoria vigente era ver se ela usava demais as palavras “meu marido”. Aconselhava-se desconfiar das casadas que ficam falando “meu marido” para lá e para cá. E também se cultivava a ciência baseada em partes do corpo – mulher de nariz grande, mulher de tornozelo fino, mulher de covinha no queixo, mulher da saboneteira saliente -, uma tipologia complexa que nunca consegui dominar, como, aliás, este assunto como um todo.
Havia sempre os repositórios de sabedoria, os que uniam à experiência a sagacidade científica. Ao longo da existência, fui abastecido por diversos detentores de verdades que os demais desconheciam. Em relação à broxada, o protagonista era sempre um amigo do narrador da história. Em relação a outras experiências, notadamente as positivas, o protagonista costumava ser, modestamente, o narrador, como, por exemplo, no caso de mulheres enlouquecidas. Outra das características daquele tempo, que imagino perdida atualmente, é que as mulheres enlouqueciam. Antigamente, não sei se é impressão minha, mulheres enlouquecidas apareciam muito mais, nos papos masculinos.
Creio que o enlouquecimento das mulheres se devia a uma noção meio radical da fisiologia feminina. Normalmente bem-comportadas, equilibradas e até capazes de dominar qualquer impulso menos nobre, devido à natureza basicamente virtuosa do eterno feminino, as mulheres, não obstante, tinham sempre uma vulnerabilidade: podiam ficar enlouquecidas. Havia diversas teses sobre o que deflagrava esse estado. Lembro de um ou dois sabichões que defendiam a tese de dizer “palavras alucinantes”, garantidas para enlouquecer qualquer mulher, só que eles nunca revelavam que palavras alucinantes eram essas. Teve outro que defendia a tese de que a mulher enlouquecia quando lhe enfiavam a língua numa orelha, mas eu nunca soube de nenhuma mulher confessando enlouquecer com uma babada na orelha, a não ser talvez de raiva.
O carnaval era outro fator de enlouquecimento de mulheres. Segundo alguns, nunca a gente, era tiro e queda para certas mulheres, não precisava mais nada. A maior parte, contudo, tinha de ser enlouquecida suplementarmente e para isso havia o lança-perfume. Devo confessar que tentei enlouquecer uma ou duas mulheres à base do lança-perfume, mas receio que ou elas tinham alguma imunidade desconhecida da ciência ou não foi uma boa ideia eu cheirar também – e apagar, é claro, para jamais tentar outra vez. Cheguei a recusar participar de uma expedição carnavalesca de cheiradores de lança-perfume que planejavam enlouquecer dezenas de mulheres, tipo orgia de Calígula mesmo. No começo, fiquei meio arrependido de ter recusado, mas depois um amigo meu que participou me contou o que se passou.
– Mulher mesmo não apareceu nenhuma – admitiu ele. – Mas espere até eu lhe contar as histórias de mulher enlouquecida que eu ouvi.

Postado por MURILO

“Nota” do ensino médio do Estado de SP cai e chega a 1,81 em uma escala de zero a dez

Rafael Targino
Em São Paulo

O Idesp (Índice de Desenvolvimento da Educação de São Paulo), uma espécie de “nota” da educação do Estado, caiu entre 2009 e 2010 nos anos finais do ensino fundamental e no ensino médio. Neste último nível, a nota do ano passado foi 1,81, contra 1,98 em 2009, em uma escala de zero a dez.

Nos anos finais do ensino fundamental, a nota recuou de 2,84 para 2,52. Nos inciais, a nota subiu de 3,86 para 3,96. O índice é feito levando-se em conta dados de aprovação, reprovação, abandono e os resultados no Saresp (Sistema de Avaliação do Rendimento Escolar do Estado de São Paulo), composto por provas de português e matemática.

Fazem os exames os estudantes dos 5º e 9º anos do fundamental e do 3º ano do ensino médio. O Idesp também influencia nos bônus por desempenho pagos a professores da rede.

Segundo a secretaria, a redução no 9º ano se deu pelas quedas nas notas de matemática (de 251,5 em 2009 para 243,3 em 2010) e português (de 236,3 para 229,2). Esse mesmo recuo foi registrado no ensino médio, em português (de 274,6 para 265,7) e em matemática (de 269,4 para 269,2).

Quem puxou o crescimento da primeira etapa do ensino fundamental foi a prova de matemática. A nota dos alunos subiu de 201,4 em 2009 para 204,6 em 2010.

Proficiência

A distribuição por níveis de proficiência nos três níveis seguiu o resultado do Idesp, com melhora nos anos iniciais e piora nos finais e no ensino médio. Veja:

Anos iniciais do fundamental

2009 2010
MATEMÁTICA
Insuficente 30,3% 29%
Suficente 63,3% 62,7%
Avançado 6,3% 8,2%
PORTUGUÊS
Insuficente 20,9% 19,8%
Suficente 68,8% 70,4%
Avançado 10,3% 9,8%

Anos finais do fundamental

2009 2010
MATEMÁTICA
Insuficente 27,6% 34,9%
Suficente 71,2% 64,3%
Avançado 1,2% 0,8%
PORTUGUÊS
Insuficente 22,5% 28,4%
Suficente 75,5% 69,8%
Avançado 2,3% 1,7%

Ensino médio

2009 2010
MATEMÁTICA
Insuficente 58,3% 57,7%
Suficente 41,2% 42%
Avançado 0,5% 0,3%
PORTUGUÊS
Insuficente 29,5% 37,9%
Suficente 69,8% 61,6%
Avançado 0,7% 0,6%

Brasil e Estados Unidos formalizam dez acordos, mas deixam de fora alguns polêmicos

Danilo Macedo e Renata Giraldi
Repórteres da Agência Brasil

Brasília – Os governos dos Estados Unidos e do Brasil assinaram hoje (19), no Palácio Itamaraty, dez acordos de cooperação. Os textos envolvem áreas estratégicas que vão desde economia e comércio até ciência e tecnologia. No total, são dez textos em setores como comércio e cooperação econômica; transporte aéreo; uso pacífico do espaço exterior; apoio à organização de grandes eventos esportivos, como a Copa do Mundo e as Olimpíadas; pesquisas em biodiversidade; desenvolvimento de biocombustíveis de aviação e cooperação técnica em outros países.

Entre os temas de destaque estão o Tratado Econômico e Comercial (Teca), que estabelece contatos entre os governos nas negociações para acelerar eventuais articulações, e o apoio para a realização de eventos como a Copa do Mundo, em 2014, e as Olimpíadas, em 2016.

Porém, temas polêmicos, como o fim de vistos para brasileiros que viajam aos Estados Unidos e um acordo previdenciário ficaram para uma próxima etapa de negociações. Nesta fase de articulações, os assessores dos presidentes dos Estados Unidos, Barack Obama, e Dilma Rousseff não conseguiram consenso nesses temas.

Na área de comércio, foi criada Comissão Brasil-Estados Unidos para Relações Econômicas e Comerciais. O objetivo desse grupo é promover a cooperação econômica e comercial bilateral. A comissão vai desenvolver um programa para facilitar a liberação do comércio e de investimentos bilaterais e examinará temas que estão sempre em pauta entre as duas nações, como direitos de propriedade intelectual.

Na área agropecuária, serão analisadas medidas sanitárias e fitossanitárias, barreiras técnicas ao comércio e a cooperação no Comitê Consultivo Agrícola Brasil Estados Unidos. Os empresários brasileiros se queixam das restrições impostas pelos EUA aos produtos brasileiros. Nos últimos dias, 14 dos 50 estados norte-americanos abriram concessões ao Brasil.

Edição: Juliana Andrade

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