PT e PSD estão próximos em dois terços das capitais

Por Cristian Klein | De São Paulo

Pellegrino: candidato do PT em Salvador receberá apoio automático do PSD, em retribuição à ajuda do governador

Assim em São Paulo, como em outras capitais. A parceria entre o PSD, do prefeito Gilberto Kassab, e o PT pode ocorrer em pelo menos 17 cidades que são sedes de Estado. Apenas em cinco das 26 capitais, os dois partidos estão em nítida oposição que deverá impedir uma aproximação nas eleições municipais de outubro. Em outras quatro, a situação é de indefinição, conforme mostra levantamento feito pelo Valor.

A aliança, que na maioria das cidades era improvável, de acordo com levantamento semelhante feito em maio do ano passado, passou a encontrar terreno fértil – seja pela adesão local à estratégia camaleônica de Kassab, seja pela força das circunstâncias ou pela combinação de ambas. Em São Paulo, o prefeito ofereceu ao PT o vice da chapa encabeçada pelo ministro da Educação, Fernando Haddad, durante visita ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em tratamento contra um câncer na laringe, no hospital Sírio-Libanês.

Petistas e pessedistas estão próximos especialmente em capitais onde governadores do PT ou de aliados da base federal abriram as portas e facilitaram a criação do PSD no ano passado.

Os casos mais emblemáticos são de Salvador e Aracaju. Em Sergipe, o PSD é praticamente uma sublegenda organizada pelo governador petista Marcelo Déda. Durante negociação com Kassab, Déda disputou e ganhou o comando do PSD, então cobiçado pelo grupo do senador Eduardo Amorim (PSC) e de seu irmão, o empresário Edvan Amorim (PTB), que controlam nada menos que 11 partidos médios, pequenos e nanicos no Estado.

Na Bahia, o governador Jaques Wagner (PT) abençoou o projeto de seu vice, Otto Alencar, que queria se livrar do PP e embarcar na fundação do PSD. Com a ajuda, a nova sigla construiu no Estado uma de suas seções mais fortes e tem ali a segunda maior bancada na Assembleia Legislativa. O agradecimento virá com o apoio automático ao deputado federal Nelson Pellegrino, pré-candidato do PT à Prefeitura de Salvador.

“Em 2012, será a hora de pagar uma conta muito grande. Somos devedores e, nas grandes cidades, não vamos relutar em apoiar quem nos ajudou”, afirma Saulo Queiroz, secretário-geral do PSD.

Queiroz também cita os casos de Recife, em Pernambuco, e Fortaleza, no Ceará, onde os governadores Eduardo Campos e Cid Gomes, ambos do PSB, em aliança com o PT, foram parceiros.

Essa mesma dívida de gratidão é responsável e explica, em parte, os casos em que PT e PSD estão muito distantes, como em Belém e Curitiba, capitais de Estados onde Kassab contou com a colaboração de governadores tucanos, adversários dos petistas.

No Pará, o presidente estadual do PSD é o secretário de Infraestrutura e Logística, Sérgio Leão. No Paraná, “não há interesse” em desagradar Beto Richa, aliado de Luciano Ducci, que tenta reeleição. O prefeito pertence ao PSB, partido presidido por Eduardo Campos, com quem Kassab tem uma aliança.

O presidente estadual da sigla, o deputado federal Eduardo Sciarra, diz que o partido ainda avalia a possibilidade de candidatura própria – pois tem o deputado estadual mais votado em Curitiba, Ney Leprevost -, mas confirma que a tendência é de apoio a Ducci. O PT, que faz oposição ao prefeito, estuda compor com o ex-deputado federal tucano e seu algoz em Brasília durante o escândalo do mensalão, Gustavo Fruet, agora no PDT.

“Do mesmo modo que em São Paulo, não existe impedimento [para aliança], mas o quadro é este”, afirma Sciarra, indicando a distância em relação ao PT.

Além de Curitiba e Belém, em outras três capitais, todas de baixa densidade eleitoral, a chance de união é remota: Vitória, Rio Branco e Macapá.

Em Vitória, no Espírito Santo, o presidente do diretório municipal do PSD, Max da Mata, ex-DEM, tenta articular candidatura própria e é o nome mais identificado como opositor à administração do prefeito João Coser, do PT, que se divide entre o apoio ao ex-governador Paulo Hartung (PMDB) e à correligionária e ministra de Políticas para as Mulheres, Iriny Lopes.

Em Rio Branco, PT e PSD não se bicam, já que o Acre é um dos raros Estados onde a sigla de Kassab é oposição tanto ao prefeito da capital quanto ao governador, ambos petistas.

No Amapá, o controle do PSD está com representantes do grupo do senador José Sarney (PMDB-AP), adversário do governador Camilo Capiberibe (PSB), que tem em sua base de apoio o PT. O presidente regional da legenda, o deputado estadual Eider Pena, afirma que “a dificuldade maior” é com o PSB, e não com os petistas, mas reconhece ser difícil uma aproximação. Mesmo assim, não deixa de entoar discurso ao estilo kassabiano. “Não somos nem oposição, nem situação. Temos posição”, diz. Questionado sobre se a parceria nacional entre Kassab e Eduardo Campos não poderia mudar a política de aliança, o deputado, ex-PDT, aponta para o seu cacique. “Kassab não tem relação só com Campos, mas também com Sarney”, afirma.

Em compensação, no Maranhão, Estado de origem de Sarney, o senador deve levar o PSD, também sob suas rédeas, ao encontro de uma candidatura petista. O vice-governador Washington Luís surge como nome de seu grupo político para a Prefeitura de São Luís.

Tendo ou não um intermediário, o PSD se esforça rumo à aproximação com o PT mesmo em situações em que o histórico de seus integrantes é de rivalidade local, como os oriundos do DEM.

“Não, não… Nada impede a aproximação. Esse foi um dos motivos para a nossa saída do DEM. Eles [o PT] são oposição, mas o governador [Raimundo Colombo, do PSD] os recebe e atende seus pleitos”, argumenta o deputado estadual Gelson Merísio, presidente da sigla em Santa Catarina, sobre a situação de Florianópolis.

No Rio Grande do Norte, a criação do PSD foi um processo traumático e causou o rompimento entre o vice-governador Robinson Faria, ex-PMN, e o DEM, da governadora Rosalba Ciarlini e do senador José Agripino Maia, presidente nacional do partido. Faria entregou os cargos e foi para a oposição, tornando uma aliança com o PT mais factível na corrida à Prefeitura de Natal.

Em Porto Alegre, é o PT – e os demais concorrentes – que tentam se aproximar do PSD. Curiosamente, o Rio Grande do Sul é um dos Estados onde a sigla de Kassab nasceu mais fraca – está organizada em 21% dos municípios e tem apenas cinco (0,01%) prefeitos de um total de 496 – mas é dirigida pelo popular deputado federal e ex-goleiro do Grêmio, Danrlei. Ele diz ter conversas mais avançadas com o PT, cujo pré-candidato é o deputado estadual Adão Villaverde, e com o PCdoB, da federal Manuela D’Ávila. “Minha relação com os dois é maravilhosa e já existia antes”, afirma Danrlei.

Em três capitais, além de Florianópolis, a relação entre petistas e pessedistas é ambígua ou indefinida. Em Goiânia, o PSD tem grande participação no governo de Marconi Perillo (PSDB), mas o deputado federal Armando Vergílio, que cogita se lançar à disputa, não descarta apoio ao prefeito Paulo Garcia, do PT, que tenta reeleição. Em Porto Velho, um ex-petista, o deputado estadual Hermínio Coelho, pré-candidato, pode se reaproximar, caso haja mudança na direção do partido, envolvida em grande escândalo de corrupção que atingiu líderes de várias siglas na Assembleia. E, por fim, há Belo Horizonte, capital que vive o impasse do consórcio atípico em torno do prefeito Márcio Lacerda (PSB), que não sabe se contará, mais uma vez, com o apoio dos rivais nacionais PT e PSDB.

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