A direita também disputa ruas e urnas

Charge Latuff - 2013Por Valter Pomar – 21/06/13

Quem militou ou estudou os acontecimentos anteriores ao golpe de 1964 sabe muito bem que a direita é capaz de combinar todas as formas de luta. Conhece, também, a diferença entre “organizações sociais” e “movimentos sociais”, sendo que os movimentos muitas vezes podem ser explosivos e espontâneos.

Já a geração que cresceu com o Partido dos Trabalhadores acostumou-se a outra situação. Nos anos 1980 e 1990, a esquerda ganhava nas ruas, enquanto a direita vencia nas urnas. E a partir de 2002, a esquerda passou a ganhar nas urnas, chegando muitas vezes a deixar as ruas para a oposição de esquerda.

A direita, no dizer de alguns, estaria “sem programa”, “sem rumo”, controlando “apenas”  o PIG, que já não seria mais capaz de controlar a “opinião pública”, apenas a “opinião publicada”.

Era como se tivéssemos todo o tempo do mundo para resolver os problemas que vinham se acumulando: alterações geracionais e sociológicas, crescimento do conservadorismo ideológico, crescente perda de vínculos entre a esquerda e as massas, ampliação do descontentamento com ações (e com falta de ações) por parte dos nossos governos, decaimento do PT à vala comum dos partidos tradicionais etc.

Apesar destes problemas, o discurso dominante na esquerda brasileira era, até ontem, de dois tipos.

Por um lado, no petismo e aliados, o contentamento com nossas realizações passadas e presentes, acompanhada do reconhecimento mais ou menos ritual de que “precisamos mais” e de que “precisamos mudar práticas”.

Por outro lado, na esquerda oposicionista (PSOL, PSTU e outros), a crítica aos limites do petismo, acompanhada da crença de que através da luta política e social, seria possível derrotar o PT e, no lugar, colocar uma “esquerda mais de esquerda”.

As manifestações populares ocorridas nos últimos dias, especialmente as de ontem, atropelaram estas e outras interpretações.

Primeiro, reafirmaram que os movimentos sociais existem, mas que eles podem ser espontâneos. E que alguns autoproclamados “movimentos sociais”, assim como muitos partidos “populares”,  não conseguem reunir, nem tampouco dirigir, uma mínima fração das centenas de milhares de pessoas dispostas a sair ás ruas, para manifestar-se.

Em segundo lugar, mostraram que a direita sabe disputar as ruas, como parte de uma estratégia que hoje ainda pretende nos derrotar nas urnas. Mas que sempre pode evoluir em outras direções.

Frente a esta nova situação, qual deve ser a atitude do conjunto da esquerda brasileira, especialmente a nossa, que somos do Partido dos Trabalhadores?

Em primeiro lugar, não confundir focinho de porco com tomada. As manifestações das últimas semanas não são “de direita” ou “fascistas”. Se isto fosse verdade, estaríamos realmente em péssimos lençóis.

As manifestações (ainda) são expressão de uma insatisfação social difusa e profunda, especialmente da juventude urbana. Não são predominantemente manifestações da chamada classe média conservadora, tampouco são manifestações da classe trabalhadora clássica.

A forma das manifestações corresponde a esta base social e geracional: são como um mural do facebook, onde cada qual posta o que quer. E tem todos os limites políticos e organizativos de uma geração que cresceu num momento “estranho” da história do Brasil, em que a classe dominante continua hegemonizando a sociedade, enquanto a esquerda aparentemente hegemoniza a política.

A insatisfação expressa pelas manifestações tem dois focos: as políticas públicas e o sistema político.

As políticas públicas demandadas coincidem com o programa histórico do PT e da esquerda. E a crítica ao sistema político dialoga com os motivos pelos quais defendemos a reforma política.

Por isto, muita gente no PT e na esquerda acreditava que seria fácil aproximar-se, participar e disputar a manifestação. Alguns, até, sonhavam em dirigir.

Acontece que, por sermos o principal partido do país, por conta da ação do consórcio direita/mídia, pelos erros politicos acumulados ao longo dos últimos dez anos, o PT se converteu para muitos em símbolo principal do sistema político condenado pelas manifestações.

Esta condição foi reforçada, nos últimos dias, pela atitude desastrosa de duas lideranças do PT: o ministro da Justiça, Cardozo, que ofereceu a ajuda de tropas federais para o governador tucano “lidar” com as manifestações; e o prefeito Haddad, que nem na entrada nem na saída teve o bom senso de diferenciar-se do governador.

O foco no PT, aliado ao caráter progressista das demandas por políticas públicas, fez com que parte da oposição de esquerda acreditasse que seria possível cavalgar as manifestações. Ledo engano.

Como vimos, a rejeição ao PT se estendeu ao conjunto dos partidos e organizações da esquerda político-social. Mostrando a ilusão dos que pensam que, através da luta social (ou da disputa eleitoral) seriam capazes de derrotar o PT e colocar algo mais à esquerda no lugar. 

A verdade é que ou o PT se recicla, gira à esquerda, aprofunda as mudanças no país; ou toda a esquerda será atraída ao fundo. E isto inclui os que saíram do PT, e também os que nos últimos anos flertaram abertamente com o discurso anti-partido e com certo nacionalismo. Vale lembrar que a tentativa de impedir a presença de bandeiras partidárias em mobilizações sociais não começou agora.

O rechaço ao sistema político, à corrupção, aos partidos em geral e ao PT em particular não significa, entretanto, que as manifestações sejam da direita. Significa algo ao mesmo tempo melhor e pior: o senso comum saiu às ruas. O que inclui certo uso que vem sendo dado nas manifestações aos símbolos nacionais.

Este senso comum, construído ao longo dos últimos anos, em parte por omissão e em parte por ação nossa, abre enorme espaço para a direita. Mas, ao mesmo tempo, à medida que este senso comum participa abertamente da disputa política, criam-se condições melhores para que possamos disputá-lo.

Hoje, o consórcio direita/mídia está ganhando a disputa pelo pauta das manifestações. Além disso, há uma operação articulada de participação da direita, seja através da presença de manifestantes, seja através da difusão de determinadas palavras de ordem, seja através da ação de grupos paramilitares.

Mas a direita tem dificuldades para ser consequente nesta disputa. O sistema político brasileiro é controlado pela direita, não pela esquerda. E as bandeiras sociais que aparecem nas manifestações exigem, pelo menos, uma grande reforma tributária, além de menos dinheiro público para banqueiros e grandes empresários.

É por isto que a direita tem pressa em mudar a pauta das manifestações, em direção a Dilma e ao PT. O problema é que esta politização de direita pode esvaziar o caráter espontâneo e a legitimidade do movimento; além de produzir um efeito convocatória sobre as bases sociais do lulismo, do petismo e da esquerda brasileira.

Por isto, é fundamental que o PT e o conjunto da esquerda disputem o espaço das ruas, e disputem corações e mentes dos manifestantes e dos setores sociais por eles representados. Não podemos abandonar as ruas, não podemos deixar de disputar estes setores.

Para vencer esta disputa teremos que combinar ação de governo, ação militante na rua, comunicação de massas e reconstruir a unidade da esquerda.

A premissa, claro, é que nossos governos adotem medidas imediatas que respondam às demandas reais por mais e melhores políticas públicas. Sem isto, não teremos a menor chance de vencer.

Não basta dizer o que já fizemos. É preciso dar conta do que falta fazer. E, principalmente, explicar didaticamente, politicamente, as ações do governo. Marcando a diferença programática, simbólica, política, entre a ação de governo de nosso partido e os demais.

O anúncio conjunto (Alckmin/Haddad) de redução da tarifa e a oferta da força pública feita por Cardozo a Alckmin são exemplos do que não pode se repetir. Para não falar das atitudes conservadoras contra os povos indígenas, da atitude complacente com setores conservadores e de direita, dos argumentos errados que alguns adotam para defender as obras da Copa e as hidroelétricas etc.

Para dialogar com o sentimento difuso de insatisfação revelado pelas mobilizações, não bastam medidas de governo. Talvez tenha chegado a hora, como algumas pessoas têm sugerido, de divulgarmos uma nova “carta aos brasileiros e brasileiras”. Só que desta vez, uma carta em favor das reformas de base, das reformas estruturais.

Quanto a nossa ação de rua, devemos ter presença organizada e massiva nas manifestações que venham a ocorrer. Isto significa milhares de militantes de esquerda, com um adequado serviço de ordem, para proteger nossa militância dos para-militares da direita.

É preciso diferenciar as manifestações  de massa das ações que a direita faz dentro dos atos de massa. E a depender da evolução da conjuntura, nos caberá convocar grandes atos próprios da esquerda político-social. 

Independente da forma, o fundamental, como já dissemos, que a esquerda não perca a batalha pelas ruas.

Quanto a batalha da comunicação,  novamente cabe ao governo um papel insubstituível. No atual estágio de mobilização e conflito, não basta contra-atacar a direita nas redes sociais; é preciso enfrentar a narrativa dos monopólios nas televisões e rádios. O governo precisa entender que sua postura frente ao tema precisa ser alterada já. 

Em resumo: trata-se de combinar ruas e urnas, mudando a estratégia e a conduta geral do PT e da esquerda.

Não há como deslocar a correlação de forças no país, sem luta social. A direita sabe disto tanto quanto nós. A direita quer ocupar as ruas. Não podemos permitir isto. E, ao mesmo tempo, não podemos deixar de mobilizar.

Se não tivermos êxito nesta operação, perderemos a batalha das ruas hoje e a das urnas ano que vem. Mas, se tivermos êxito, poderemos colher aquilo que o direitista Reinaldo Azevedo aponta como risco (para a direita) num texto divulgado recentemente por ele, cujo primeiro parágrafo afirma o seguinte:  ”o movimento que está nas ruas provocará uma reciclagem do PT pela esquerda, poderá tornar o resultado das urnas ainda mais inóspito para a direita”.

Num resumo: a saída para esta situação existe. Pela esquerda.

*Valter Pomar é membro do Diretório Nacional do PT

Fonte: Blog do ValterPomar 

Portal do Ig publica informação incorreta sobre eleições internas do PT

logo_ae_bigA coluna Poder Online, editada por Clarissa Oliveira, Juliana Granjela e Marcel Frota, publicou nesta terça-feira 26 de fevereiro uma informação incorreta acerca das eleições internas que o PT realizará em novembro deste ano.


Segundo a coluna do Ig, as “Correntes do PT avançam na negociação de candidatura contra Rui Falcão”.

O texto fala o seguinte: Avançou no PT a negociação para a formação de uma candidatura para disputar a presidência do partido, contra o atual detentor do cargo, Rui Falcão. As correntes Mensagem ao Partido e Articulação de Esquerda já conseguiram abrir um diálogo com o grupo Movimento PT para tentar uma união para a eleição interna marcada para novembro. Por enquanto, petistas ainda enxergam uma chance reduzida de o Movimento PT aderir à chapa. Se isso ocorrer, o nome escolhido para enfrentar Falcão teria uma candidatura muito mais competitiva. Até a semana passada, falava-se principalmente nos nomes do deputado Paulo Teixeira e do ex-governador do Rio Grande do Sul Olívio Dutra para encabeçar a chapa. Nesta semana, começou a circular também o nome de Raul Pont (PT-RS).

O mesmo texto traz um link para outra matéria, que afirma o seguinte: Um grupo de petistas começou a articular nos bastidores a formação de uma chapa que reúna várias correntes em torno de uma candidatura única para rivalizar com o atual presidente Rui Falcão. Com o apoio do ex-presidente Lula e da ala majoritária do PT, Falcão disputará mais um mandato na presidência do PT na eleição interna marcada para novembro. A corrente Mensagem ao Partido vem tratando do assunto silenciosamente com a Articulação de Esquerda. A primeira é capitaneada pelo governador do Rio Grande do Sul, Tarso Genro. A segunda é um dos mais tradicionais grupos da chamada “esquerda petista” e, nas últimas eleições internas, teve como candidato o ex-secretário da sigla Valter Pomar.  A Mensagem cita dois possíveis nomes para encabeçar a chapa – o deputado Paulo Teixeira e o ex-governador do Rio Grande do Sul Olívio Dutra. Juntas, as duas correntes dificilmente teriam força para rivalizar com Falcão. Mas os mais ambiciosos falam em tentar atrair também o grupo Movimento PT, integrado por nomes como o ex-presidente da Câmara Arlindo Chinaglia e a ministra Maria do Rosário. Aliados estimam que o atual presidente do PT tenha algo em torno de 60% dos votos no diretório nacional petista. Estão com o deputado os grupos Construindo um Novo Brasil, PT de Luta e de Massa e Novo Rumo para o PT.

Um terceiro link afirma que a corrente petista Mensagem ao Partido marcou para o próximo dia 22 de março uma reunião na qual vai definir se lançará um candidato à presidência do partido na eleição interna marcada para novembro. A corrente fundada pelo hoje governador do Rio Grande do Sul, Tarso Genro, tem dois possíveis nomes para a disputa: o deputado Paulo Teixeira (SP) e o ex-governador do Rio Grande do Sul Olívio Dutra. Se optar pela candidatura, o grupo vai se contrapor ao atual presidente Rui Falcão, que disputa a reeleição para a vaga com aval do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e da ala majoritária do PT, composta pelos grupos Construindo um Novo Brasil (CNB), Novo Rumo para o PT e PT de Luta e de Massa.

Tudo indica que os autores da nota acreditaram nas suas fontes, deixando de ouvir parte dos que são citados. No caso específico da Articulação de Esquerda, cujas posições são públicas e encontram-se disponíveis neste site (www.pagina13.org.br), não cometeríamos o equívoco de negociar candidatura e chapa “contra” alguém. E não por mera formalidade ou protocolo.

A questão é que só participaríamos de chapa e candidatura com outros setores do Partido, se fosse com base num programa comum. E, como sabe todo mundo que acompanha a vida partidária, as posições defendidas pelas tendências Mensagem e Movimento PT são distintas das nossas. Assim como são distintas as nossas posições e as posições defendidas pelo setor que apóia a candidatura de Rui Falcão, especialmente a tendência Construindo um Novo Brasil.

Por isto, ao menos no caso da Articulação de Esquerda, falar de chapa e/ou de candidatura com qualquer outra tendência, suporia um debate preliminar acerca da estratégia, da tática e do funcionamento do Partido, que pudesse convergir para uma posição comum. E no caso das tendências citadas na nota, este debate simplesmente não existiu.

Vale dizer que a Articulação de Esquerde decidiu, em reunião realizada em novembro de 2012, cujas deliberações como já se disse são públicas e publicadas, que reunir-se-ia com todas as tendências e setores partidários, de O Trabalho até a Construindo um Novo Brasil, para apresentar nossas posições. Mas, até agora, a reunião entre a direção nacional da AE e as respectivas direções da Mensagem e do Movimento PT não foram nem mesmo agendadas.

Portanto, a notícia publicada no Ig simplesmente não procede. Até porque, da mesma forma como nos recusamos a participar de “chapas únicas”, tampouco aceitaríamos participar de chapas “contra”, cujo único efeito prático seria empobrecer o debate de que o PT está tão necessitado.

Redação do Página 13

Leia também >>>>>“Correntes do PT avançam na negociação de candidatura contra Rui Falcão”.

Os 10 anos que mudaram o Brasil.

 

De 2003 para cá, esquerda brasileira viveu período intenso, com conquistas sociais, divergências e nova posição do Brasil no mundo

 

09/01/2013

 

Renato Godoy de Toledo

Redação do Brasil de Fato

 

Dilma e Lula: concessões ao fisiologismo em nome da governabilidade

Foto: Valter Campanato/ABr

Em janeiro de 2003, a esquerda brasileira viu a posse da principal liderança do maior partido construído pelas forças progressistas do país. Essa posse se deu em meio à expectativa de mudanças profundas e de descrença por setores mais à esquerda, críticos das alianças que Luiz Inácio Lula da Silva realizou para chegar ao Palácio do Planalto.

Hoje, 10 anos depois da posse, com uma reeleição e a eleição de sua sucessora, o PT consolidou-se como o maior partido do país, ainda que seja menor do que a figura carismática de seu maior líder.

Em meio a concessões aos partidos tradicionais, em nome da chamada governabilidade, e com uma clara melhora de vida da população mais pobre – com índices de pobreza e miséria sendo reduzidos drasticamente, muito em função de programas sociais –, bem ou mal, a esquerda brasileira viveu os 10 anos mais intensos de sua história.

Uma parte minoritária, hoje representada pelo Psol, rompeu com o governo e o PT após acontecimentos polêmicos como a reforma da Previdência, em 2003, e o chamado escândalo do mensalão, que atingiu figuras históricas do PT. Grande parcela dos partidos fisiológicos aderiu ao governo encabeçado por forças progressistas e, até então, antagônicas. O PFL mudou de nome para Democratas, afim de apagar seu passado pró-ditadura e seu empenho em impor o liberalismo – doutrina político-econômica que perdeu espaço na América Latina e é contestada mundialmente após o estopim da crise global. O PSDB firmou-se como partido da classe média, mas, diante da grande popularidade dos governos Lula e Dilma, tem dificuldades para criticar as políticas sociais, como o Bolsa Família, e educacionais, como o ProUni. Após três derrotas consecutivas, a direita partidária brasileira perdeu força eleitoral e as disputas tendem a crescer dentro do governismo.

O Brasil de Fato ouviu dirigentes da esquerda brasileira de diferentes matizes para avaliar politicamente os 10 anos do governo encabeçado pelo PT e apontar onde essa gestão se situa dentro do espectro político.

Espectro

Para Valter Pomar, membro do Diretório Nacional do PT e do Foro de São Paulo, por se tratar de um governo de composição, as gestões Lula e Dilma não podem ser consideradas como exclusivamente de esquerda. “Os governos Lula e Dilma são governos de centro-esquerda. Do ponto de vista social, são governos de aliança com setores do empresariado. Do ponto de vista político, são governos de aliança com partidos de centro e, inclusive, de direita, como o PP. Do ponto de visto programático, são governos que buscam superar o neoliberalismo, não são governos que buscam fazer reformas estruturais de tipo democrático popular”, afirma.

Roberto Amaral, vice-presidente do PSB, partido que compõe o governo desde 2003, aponta as dificuldades de uma aliança com partidos fisiológicos e estabelece uma diferença entre ganhar uma eleição e chegar ao poder. “O primeiro destaque [desses 10 anos], primeiro e essencial, é sua opção preferencial pelos pobres que se completa na defesa da soberania nacional, através do fortalecimento de nossa economia, de um lado, e, de outro, através de uma política externa independente. Certamente todos gostaríamos de que mais tivesse sido feito, e cada um de nós tem um reparo e uma sugestão. Mas a política não é movida apenas pela vontade, regida que é pela realidade objetiva. Penso que fizemos o possível em face da correlação de forças. Ganhamos, apenas, as eleições”, aponta Amaral, que foi ministro da Ciência e Tecnologia do governo Lula entre 2003 e 2004.

Ivan Valente, deputado federal e presidente nacional do Psol, ressalta a continuidade conservadora do governo na política econômica, ainda que aponte diferenças importantes em relação às gestões anteriores do PSDB. “A política seguida tem a hegemonia do capital financeiro, com cerca de 47% da arrecadação direcionada ao pagamento de juros e amortizações da divida. Isso inviabiliza propostas estruturantes no campo social. O governo assumiu a lógica privatizante do patrimônio público. Começou com os leilões do petróleo, alguns bancos estaduais, e agora com a privatização dos portos e aeroportos. Ao mesmo tempo, o governo tentou fazer algum diálogo com setores excluídos, com políticas compensatórias, mas que ainda não são estruturantes para os direitos dos trabalhadores”, avalia.

O presidente do Psol também aponta para algumas mudanças na política internacional, mas ainda as considera insuficientes. “Poderíamos ter uma política mais agressiva, como alguns países latino-americanos têm. Mas, de qualquer forma, ao combater a formação da Alca, foi uma postura de afirmação nacional. A entrada da Venezuela no Mercosul também é um fator positivo, mas a democracia brasileira ainda está engatinhando, pois quando chega na hora de votar uma limitação dos monopólios dos meios de comunicação, como na Argentina, o governo é frágil e não faz enfrentamentos”, analisa.

Inflexões

Ao longo dos 10 anos, analistas apontam algumas nuances na forma de conduzir política e economicamente o país. O marco comumente tido como mais importante nesse período foi o ano de 2005, quando estourou a crise do mensalão. Os principais quadros políticos do PT que cercavam Lula envolveram-se em denúncias e deixaram o governo, concentrando as decisões estratégicas cada vez mais nas mãos do ex-presidente.

“Vejo duas inflexões essenciais no governo Lula. A primeira, em 2005, quando, ameaçado e abandonado por muitas correntes políticas, opta pelo contato direto com as massas e as reconquista. Outro momento é seu segundo governo delineado pelas circunstâncias das eleições em segundo turno. Os fatos levaram o governo mais à esquerda. O governo, sem dela se afastar, começava a desconfiar que a ‘conciliação de classes’ era (como é) uma balela”, salienta Roberto Amaral.

Para Valter Pomar, houve um ataque do conservadorismo em 2005 e o governo respondeu trocando o seu comando. “Em 2005, a burguesia exagerou no ataque e provocou um contra-ataque das bases populares do PT e do governo. No meio deste contra-ataque, caiu a cúpula do primeiro governo Lula, abrindo espaço para uma outra orientação, personificada em Mantega e Dilma. Esta outra orientação significou uma inflexão desenvolvimentista, que se traduziu na linha adotada no segundo turno de 2006 e no PAC”, diz.

Perguntas a responder – Valter Pomar

Publicado originalmente em Teoria e Debate

No governo Lula e agora com Dilma, enfrentamos, com maior ou menor êxito, a herança neoliberal. Os efeitos benéficos para o povo brasileiro são conhecidos. Mas a estratégia e o programa adotados até aqui, pelo PT, no enfrentamento do neoliberalismo, são suficientes para superar as características estruturais do capitalismo brasileiro?

 

Dez anos de governo do Partido dos Trabalhadores

Dez anos de governo do Partido dos Trabalhadores

Foto: José Cruz/ABr

A brutal desigualdade social, a acentuada dependência externa e a limitada democracia política, traços característicos do capitalismo brasileiro, agravaram-se durante os governos neoliberais de Fernando Collor e Fernando Henrique.

No governo Lula e agora com Dilma, estamos enfrentando, com maior ou menor êxito, a herança neoliberal. Os efeitos benéficos disso para o povo brasileiro são conhecidos, nos três terrenos: social, nacional e democrático.

Mas atenção: o desmonte do neoliberalismo, ainda em curso e em muitos aspectos longe de ser concluído, está revelando as fundações dos problemas que o Brasil exibia antes do período neoliberal – um país rico, uma classe dominante conservadora e antidemocrática, um povo tremendamente explorado.

A imagem fica clara se pensarmos no neoliberalismo como o bode na sala. Tire o bode, e momentaneamente a sala vai nos parecer melhor. Mas logo perceberemos se tratar da conhecida sala apertada.

Para a oposição de direita (e também para a oposição de esquerda), isso constitui matéria-prima para atacar o PT. Como fez recentemente Aécio Neves, ao dizer cinicamente que, apesar de eventuais acertos de nossos governos, o Brasil continua muito desigual.

Já para a esquerda que chegou ao governo com Lula e Dilma, em especial para nós do Partido dos Trabalhadores, trata-se de responder se os métodos que vêm sendo utilizados para enfrentar a herança neoliberal são (ou não) suficientes para superar a desigualdade social, a dependência externa e a limitada democracia política que caracterizam o capitalismo brasileiro.

Não se trata do debate sobre concordar ou não com os métodos utilizados para enfrentar a herança neoliberal. Tampouco do balanço do que fizemos e seguimos fazendo, no plano da ideologia, da política, da sociedade e da economia brasileiras. Esses debates são relevantes, mas a discussão proposta é outra.

Trata-se de responder o seguinte: a estratégia e o programa adotados até aqui, pelo PT, no enfrentamento do neoliberalismo, são suficientes para a tarefa de enfrentar e superar as características estruturais do capitalismo brasileiro?

Caso a resposta seja sim, são suficientes, então podemos nos concentrar nos debates táticos, setoriais e pragmáticos. Caso a resposta seja não, não são suficientes, então devemos dar destaque, em nossa pauta, aos debates estratégicos, programáticos e ideológicos.

Para responder à pergunta, o primeiro ponto a considerar é o acúmulo de forças, por parte da esquerda em geral e do PT em particular, através de variáveis como a evolução da cultura política do povo, o nível de associativismo e os resultados eleitorais. A conclusão é que ainda estamos oscilando ao redor dos patamares alcançados na onda vermelha de 2000-2002.

Patamares que nos permitiram conquistar e manter a Presidência da República, mas sem maioria congressual de esquerda, precondição institucional para mudanças mais profundas no país.

Patamares altos, como nunca antes na nossa história, mas ainda assim inferiores aos níveis de satisfação popular com nosso governo e, de maneira geral, com a vida.

Há várias explicações para a situação descrita, entre as quais:1) a melhoria de vida do povo não está sendo acompanhada da correspondente politização e organização desse povo: a maioria dos beneficiários das políticas sociais considera que seu progresso deve-se principalmente a seu esforço pessoal;2) parcelas crescentes das novas gerações nos enxergam apenas como gestores do presente, não como superadores do passado e construtores do futuro, e com isso crescem as parcelas da juventude que buscam candidaturas alternativas, à esquerda ou à direita; 3) os meios de comunicação e o financiamento privado das campanhas reduzem nosso potencial eleitoral, especialmente das candidaturas parlamentares, além de desgastar a esquerda, estimulando ainda a degeneração ideológica e a desorganização popular;4) parcela crescente do petismo tem se convertido em força predominantemente eleitoral, que faz política e busca o povo intensamente, apenas nos anos pares, o que pode ser suficiente para ganhar eleições e administrar, mas não para governar transformando estruturalmente o Brasil.Sem alterar essas e outras variáveis, não teremos os meios necessários para fazer mudanças estruturais no Brasil. A estratégia e o programa adotados até aqui, no enfrentamento do neoliberalismo, são suficientes para alterar as variáveis citadas? Um segundo ponto a considerar é o comportamento do grande empresariado frente a nossos governos, não através do que dizem, mas do que fazem com aquilo que consideram mais importante: seu capital.Já houve um tempo em que, nas palavras de Lula, eles lucraram como nunca. Mas hoje as taxas de investimento privado indicam que o capital não está satisfeito com a rentabilidade resultante da combinação entre crise internacional, juros cadentes, baixas taxas de desemprego e participação crescente do trabalho na renda nacional.Baixas taxas de investimento resultam em baixas taxas de crescimento. E isso pode repercutir sobre o emprego, sobre os salários, sobre a participação do trabalho na renda nacional, sobre os recursos disponíveis para as politicas públicas e, por tabela, no estado de ânimo da população em relação ao nosso governo.Contornar essa situação exige maior participação do Estado. Mas os meios disponíveis são limitados. Para ampliá-los, será necessário submeter o setor financeiro privado e/ou ampliar a tributação das camadas mais ricas da população.Perguntamos: a estratégia e o programa adotados até aqui, no enfrentamento do neoliberalismo, são suficientes para alterar as variáveis citadas acima?Um terceiro ponto a considerar é o comportamento dos setores médios. Como é de sua natureza, estão divididos. Parte deles constitui desde o início a tropa de choque do PSDB. Outra parte incorporou-se desde sempre na construção do PT. Um terceiro setor oscila entre os dois polos da política brasileira desde 1994 – o que se expressa, de maneira distorcida, na postura do PMDB e de outros partidos frente aos governos FHC, Lula e Dilma.Pois bem: parcelas crescentes dos setores médios, assim como parcela dos trabalhadores que progrediram materialmente desde 2003, estão sendo empurradas para uma postura de rejeição visceral ao petismo. A fórmula para isso é clássica: as acusações de corrupção, trombeteadas pelos meios de comunicação e supostamente confirmadas pelos setores conservadores do Judiciário.A rejeição ao petismo é a cunha através da qual a oposição busca dividir a base de apoio do governo.Novamente a pergunta: a estratégia e o programa adotados até aqui, no enfrentamento do neoliberalismo, são suficientes para disputar os corações e as mentes dos setores médios? Os que consideram que a resposta para esta e anteriores perguntas é não têm pela frente o desafio de retomar o fio vermelho das elaborações programáticas e estratégicas do PT, que num passado não muito distante, antes da onda neoliberal, formulou uma alternativa democrático-popular e socialista para os dilemas estruturais da sociedade brasileira.

 

Valter Pomar é membro do Diretório Nacional do Partido dos Trabalhadores 

Artigo: Atilio A. Boron: um balance equivocado – por Valter Pomar

Valter Pomar, secretário executivo do Foro de São Paulo, durante o Encontro em Caracas

Acabo de receber um correio do Servicio Informativo “Alai-amlatina”, contendo artigo de Atílio A. Boron intitulado Foro de Sao Paulo: balance desde Caracas.

 

Boron esteve presente, a convite dos anfitriões venezuelanos, na mesa principal do ato de encerramento do XVIII Encontro do Foro de São Paulo. Não sei se esteve presente em outros Foros, não sei se participou de outros momentos do XVIII Foro. O que sei é que seu balanço é equivocado.

Começo pelos equívocos factuais. Boron diz que no se entiende como las autoridades del FSP le negaron el derecho a la palabra -¡no sólo el ingreso de la Marcha Patriótica como una organización política afiliada al foro, pese a todos los avales presentados por partidos políticos dentro y fuera de Colombia- a la Senadora Piedad Córdoba.

De fato, se fosse verdade, não seria compreensível. Mas o que diz Boron não é verdade.

A Marcha Patriótica solicitou ingresso no Foro de São Paulo através de correio eletrônico enviado na mesma semana em que realizou-se o XVIII Encontro do Foro. As normas do Foro, normas que nos permitiram chegar inteiros até aqui, estabelecem que para uma organização ingressar, é necessário o consenso de todos os partidos nacionais, depois o consenso do Grupo de Trabalho e depois o consenso da Assembléia do Foro.

Apesar da boa vontade geral, como o pedido foi feito demasiado tarde, não foi possível a todos os partidos colombianos responder a tempo se estão de acordo com a entrada da Marcha Patriótica. E sem o apoio explícito e formal dos partidos nacionais, onde existem, não há como aprovar o ingresso de uma nova organização, seja qual for, tenha que avales tiver.

Boron diz que as autoridades do Foro (quem serão estas autoridades?) negaram à Piedad Córdoba o direito à palavra. Minha pergunta é: a quem ela teria solicitado este direito? E quem teria negado? Aguardo que Bóron responda.

Até então, só posso dizer o que sei e o que presenciei, na condição de secretário executivo do Foro e de coordenador de várias das reuniões ocorridas durante o XVIII Encontro. E o que sei e o que presenciei é que, se ela tivesse solicitado, teríamos concedido a palavra, como concedemos a vários outros convidados.

Boron fala de argucias leguleyas, inadmisibles en una entidad que dice ser de izquierda, nos privaron de escuchar su testimonio, lo que no pasó inadvertido para el presidente Chávez. Mesmo que fosse verdade o que ele diz, sobre ter sido negada a palavra, é assustador é ver alguém de esquerda escrever algo deste naipe, como se Chavez fosse um bedel ou vigia noturno, e Boron seu estafeta. Definitivamente, erudição marxista e comportamento adequado são coisas distintas.

Bóron também diz que otro tanto se hizo con los hondureños de Libertad y Refundación (LIBRE), partido que representa mejor que ningún otro la resistencia al gobierno de Porfirio Lobo. Simplesmente não entendo o que Boron quer dizer. De que otro tanto, de que exclusão ele está falando?

Para quem não está informado: durante a reunião do Grupo de Trabalho do Foro de São Paulo, no dia 3 de julho, foi debatida a relação entre o LIBRE e o Foro de São Paulo. Formalmente, quem faz parte do Foro é a Frente de Resistência. Ficou decidido na reunião do GT que, tão logo o LIBRE solicite integração ao Foro, será integrado, mas que este pedido deve ser feito por eles, uma vez que há setores que integram o Libre e não integram a Frente de Resistência. E o fato é que o LIBRE não fez chegar à secretaria executiva do Foro sua solicitação de ingresso.

Portanto, tanto no caso da Colômbia quanto no caso de Honduras, Boron está na melhor das hipóteses mal informado.  Nesses dois casos, seria útil que ele seguisse o conselho que dá ao Foro: uma discusión fraternal pero profunda, sin concesiones, y a salvo de cualquier clase de trabas burocráticas o formalistas que la asfixien. Se ele tivesse perguntado a alguma das “autoridades do Foro” (ele deve conhecer quem são, já que as cita), teria descoberto que as coisas não passaram-se como ele diz.

Minha impressão, contudo, é que Boron está mais preocupado em pontificar, do que em pesquisar. Sem contar que ele parece meio descontente com o sucesso do Foro, motivo pelo qual se esforça em atribuir o sucesso deste XVIII Encontro a todos, menos ao Foro mesmo.

Boron diz que el balance final del cónclave es, en un cierto sentido, positivo, aunque en algunos aspectos que veremos a continuación hay muchas cosas para mejorar. Positivo porque en el multitudinario evento se dieron cita una gran cantidad de partidos y movimientos que tuvieron la posibilidad de intercambiar opiniones, comparar experiencias y realizar un rico y necesario aprendizaje recíproco. Positivo también porque ante el conocido eclecticismo ideológico del foro -del cual participan partidos que sólo por un alarde de la imaginación podrían categorizarse como de izquierda- el discurso de cierre pronunciado por el Comandante Chávez fijó una nueva agenda que los partidos y organizaciones del FSP deberían considerar muy cuidadosamente en sus próximos encuentros.

As frases anteriores contém dois raciocínios encadeados, um incorreto e o outro pior que isto.

O raciocínio incorreto está na crítica que Boron faz ao conocido eclecticismo ideológico del foro -del cual participan partidos que sólo por un alarde de la imaginación podrían categorizarse como de izquierda. Quem diz isto simplesmente não entendeu nada acerca dos motivos pelos quais o Foro chegou aonde chegou, 22 anos depois. Se o Foro não fosse “eclético”, política e ideológicamente, ele seria mais uma destas “internacionais” estéreis que rondam por aí. Por outro lado, o fato de ser “eclético” não impediu o Foro de manter uma atitude essencialmente correta ao longo de duas décadas, o que é tempo suficiente para testar a consistência de certas idéias e iniciativas.

Pior que incorreto é dizer que Chávez teria fixadouna nueva agenda que los partidos y organizaciones del FSP deberían considerar muy cuidadosamente en sus próximos encuentros. Pessoalmente, concordo com algumas coisas e discordo de outras coisas que Chavez disse no seu discurso final. Mas é simplesmente falso dizer que ele colocou uma nueva agenda. Os temas que Chavez tratou fazem parte do debate do Foro, há muito tempo. Inclusive algo que Boron faz questão de omitir, que é a necessidade de ir além da esquerda.

Por exemplo: Boron diz que más allá de la crítica necesaria al neoliberalismo y su todavía hoy pesada herencia, el problema es el capitalismo, lo que hay que vencer y subvertir es el capitalismo. Verdade. Tanto é verdade, que a Declaração final do XVIII Encontro fala diretamente de socialismo. E isto num foro “eclético”, onde nem todos os integrantes são socialistas!!

Portanto, é uma besteira dizer que isto seria uma das principales debilidades teóricas de la Declaración de Caracas aprobada por el FSP. Debilidade haveria, isto sim, se a Declaração final gastasse 99% do seu tempo falando do socialismo e apenas 1% apontando como enfrentar o capitalismo neoliberal e o imperialismo. A Declaração indica as tarefas políticas fundamentais do período; sem vencê-las, o socialismo, a integração e o combate ao neoliberalismo ficarão apenas na retórica.

Acontece que Boron parece ter uma péssima impressão acerca das organizações que integram o Foro. Segundo sua caricatura, somos partidos que acreditam que o socialismo cairá del cielo como producto de un determinismo económico, sino por la intervención del plural y heterogéneo sujeto revolucionario. Também segundo sua caricatura, somos organizações que não saberiam o que fazer, no dia seguinte ao XVIII Encontro.

A caricatura é tão ridícula, que Boron toma o cuidado de atribuí-la a Chavez. Fico simplesmente envergonhado quando vejo alguém de tão larga trajetória como Boron, usar deste tipo de expediente retórico para tonificar suas posições.

Se Boron fosse menos mal-humorado com o Foro, se tivesse um pingo da tolerância que predica aos outros, se tivesse perguntado a opinião de qualquer um dos integrantes do Grupo de Trabalho, teria descoberto que uma de nossas preocupações centrais consiste exatamente em aumentar nossa organicidade. O problema é que isto é fácil de dizer, mas muito difícil de fazer.

Não sei qual a experiência prática de Boron, como dirigente político-partidário. O que sei, a partir da minha experiência no PT e no Foro de São Paulo, é que nós não estamos desentendiéndonos alegremente de la decisiva problemática de la organización. O que ocorre é que a decisiva problemática da organização, numa instituição internacional e plural como o Foro, é muito mais complexa do que numa organização nacional. Além do mais, nem sempre os que falam em organização são os mais bem sucedidos em termos organizativos.

Boron simplica tanto o problema, que chega a confundir as situações do Foro de São Paulo e do Foro Social Mundial. A comparação entre uma e outra não faz o menor sentido, até porque no FSM os partidos são recusados e a hegemonia é de grupos que por princípio são contra a definição de prioridades político-programáticas.

Haveria outras coisas a dizer, acerca do balanço feito por Boron.

Vejamos o que ele diz sobre o Haiti, por exemplo:La declaración aprobada en Caracas condena las tentativas golpistas en contra de Evo Morales, Mel Zelaya, Rafael Correa y la más reciente contra Fernando Lugo. Olvida señalar, lamentablemente, el golpe perpetrado contra Jean-Bertrand Aristide en Haití, en el año 2004. Falla grave porque no se puede disociar este olvido de la desafortunada presencia de tropas de varios países latinoamericanos –Brasil, Chile, Argentina, entre otros- en Haití cuando en realidad lo que hace falta en ese sufrido país son médicos, enfermeros, maestros.

Talvez Boron não saiba, mas as Declarações finais são consensuadas nas reuniões do Grupo de Trabalho. Do qual participaram, neste XVIII Encontro, dirigentes haitianos. Que apresentaram uma resolução, aprovada em Plenário, acerca da situação do Haiti. É legítimo debater se esta resolução e a Declaração deveriam ou não fazer referência a derrubada de Preval. Mas beira a má fé vincular este suposto olvido a desafortunada presencia de tropas de varios países latinoamericanos –Brasil, Chile, Argentina, entre otros, omitindo quem são estes outros, omissão (mais que olvido) que serve para reforçar uma insinuação que Boron deveria explicitar, para que o debate possa ser feito a claras.

Para que não me acusem também de mal humor, reconheço que Boron tem razão quando reclama que poderíamos ter incluido na Declaração a exigência del cierre de las bases militares que se extienden por toda América Latina y el Caribe. De toda forma, o tema (inclusive seus desdobramentos colombianos) foi largamente tratado em vários momentos do Foro, inclusive num taller e num seminário. Reconheço, também, que a frase acerca dos limitados logros dos TLCs permite mesmo dupla interpretação.

Concordo, finalmente, que vivemos um momento em que a moderação, lejos de ser una virtud se convierte en un pecado mortal. Aliás, aprecio muito a recomendacao de “audacia, audacia, audacia”. Que tal frase tenha sido dita por Danton comprova, de quebra, que nem todo radicalismo verbal é consequente.

Valter Pomar é dirigente nacional do Partido dos Trabalhadores e secretário executivo do Foro de São Paulo

Recurso da AE provoca anulação de todos os Encontros Setoriais do PT-SP

Um recurso articulado pelo companheiro Valter Pomar, da Articulação de Esquerda, foi acatado por 4x 2, na Comissão de recursos do DN do PT.

O recurso acatado ANULA TODOS OS ENCONTROS SETORIAIS do PT-SP.

A formalidade burocrática alegada foi a de que não havia quitação prévia de todos os delegados, mas essa quitação já foi feita.

É preciso considerar que havia praticamente um “vácuo” na regulamentação dos Encontros, que só foi formalizada 72h antes da primeira data possível de fazer os Encontros e 10  dias antes da segunda data possível. 

Não houve tempo mínimo para divulgar e executar o regimento nas suas minúcias. Se houve erro, foi da Executiva nacional.

O fundamental foi o esforço feito pelo conjunto da militância do PT-SP. Os encontros foram um sucesso, com 17881 credenciados. !  TUDO FOI FEITO POR ACORDO UNÂNIME NO PT-SP..

16 setoriais elegeram sua nova direção.  

Nada disso sensibilizou a AE e nem os 4 dirigentes nacionais que acataram o recurso. Provavelmente são daqueles setores do Partido que desprezam a militância setorial e fazem de tudo para boicotar os Encontros e esvaziar esse espaço de militância e formulação política.

Nesse momento, a Executiva Estadual do PT-SP acaba de recorrer para a Executiva Nacional, pedindo anulação dessa estapafúrdia decisão. 

São 168 DELEGADOS E DELEGADAS  de SP (considerando as Secretarias Setoriais)  aos Encontros Nacionais que estão tendo seu mandato cassado por iniciativa da AE e insensibilidade desses 4 companheiros.

Um absurdo! Grande indignação agora na militância dos setoriais. Vamos ficar fora do Encontro Nacional? A maior delegação do Brasil?

Esperamos que a Comissão Executiva Nacional tenha um mínimo de respeito pela militância de SP e tenha lucidez e agilidade para reverter esse absurdo.

Hoje, “Conjuntura Internacional”, com a presença do secretário do Foro de São Paulo e membro do Diretório Nacional do PT, Valter Pomar

Está confirmado para hoje, segunda-feira, 11/7/11, o debate sobre “Conjuntura Internacional”, com a presença do secretário do Foro de São Paulo e membro do Diretório Nacional do PT, Valter Pomar. O evento está sendo organizado pela Secretaria de Formação Política do Diretório Municipal do PT-SJC.

Valter Pomar irá tratar, dentre outros temas, do avanço das forças de centro-esquerda na América Latina, em especial na América do Sul, e a importância desse fenômeno para a quebra da hegemonia estadunidense na região e para o avanço das teses socialistas. Abordará ainda questões específicas dos países da região, como a situação na Venezuela (com a doença de Chaves e as dificuldades econômicas por que passa o país), a recente vitória de Ollanta Humala no Peru, as reformas econômica e política em curso na Cuba pós-Fidel e a importância da vitória de Dilma Rousseff para a continuidade do avanço das forças de centro-esquerda na América do Sul.


Entrevista com Valter Pomar sobre a política em Campinas, PT, e caso Dr. Helio…

Publicamos abaixo a entrevista com Valter Pomar, entendemos que muito do raciocínio expresso transita para realidades outras, não é restrito a Campinas. Leia e conclua por si mesmo.

1. Qual é a avaliação geral que vc faz do caso?

Primeiro, faz parte das eleições de 2012 e dos planos do PSDB de governar Campinas e recuperar espaço em São Paulo. Segundo, faz parte do estilo seletivo do setor tucano do Ministério Público e da Polícia paulista, que têm como alvo principal o PT e seus aliados. Terceiro, dado este contexto, há os problemas reais do governo Hélio: sem estes problemas reais, a crise não teria assumido a dimensão que assumiu.

2. Há algum aspecto que não tem sido abordado (na imprensa) e que possa ter relevância, na sua opinião?

O de sempre: os esquemas de corrupção, infelizmente, florescem em todo tipo de governo. Mas são muito mais comuns e mais danosos nos governos da direita, do PSDB e companhia. Apesar disto, a grande imprensa faz um enorme esforço para destacar aquilo que envolve o PT e seus aliados. No caso concreto, ficou nítido que o setor tucano do MP, da polícia e da Justiça estavam mais preocupados com o Demétrio, por ele ser do PT, do que com outras pessoas, mesmo que fosse sobre estas outras pessoas que recaiam as verdadeiras acusações.

3. O vice-prefeito deu explicações contundentes ao PT? Há uma tranquilidade interna no partido acerca dos desdobramentos do caso ou a situação é tensa?

No PT –nacional, estadual e municipal–  prevalece até hoje, por larguíssima margem, a confiança pessoal no vice-prefeito. Minha impressão é que jã está acontecendo o contrário, no que diz respeito as acusações contra is demais envolvidos. Embora todos nós defendamos enfaticamente a presunção de inocência, o direito a defesa e critiquemos a espetacularização das investigações, tenho a impressão de que a maioria dos dirigentes que está acompanhando a situação já está se convencendo de que os problemas são reais e muito, muito sérios.
4. Com as novas frentes de investigação, o suposto envolvimento do vice-prefeito está em evidência crescente. Além disso, o MP já avalia a possibilidade de conexões com outros governos petistas e a Petrobras. Como o PT poderá minimizar esse desgaste político?
Os ataques seletivos contra o vice-prefeito e contra o PT não tem nada, ou quase nada, que ver com os fatos e com as investigações. As investigações não apontam para ele, nem para o Partido. Apontam noutro sentido. Quem aponta para ele e para nós é o pedaço tucano da mídia, do MP, da Justiça e da polícia. Este pedaço não está preocupado com as denúncias em si, mas com o impacto eleitoral em 2012. Como Hélio não será mais candidato, como o PT tem 30% das intenções de voto em Campinas, como o candidato do PT irá ao segundo turno, eles fazem todo o esforço para colocar o vice em evidência e assim reduzir o potencial eleitoral do Partido. Veja, como disse antes, tudo aponta para a existência de problemas, para usar um eufemismo, muito sérios. Mas tais problemas estão circunscritos a Campinas e, tanto aqui como fora, não envolvem o PT. Uma vez que as investigações confirmem isto, parte do desgaste some. Por isto o PT tem tido claramente que apóia as investigações e a punição de quem se comprovar culpado. A outra parte do desgaste terá que ser enfrentada e superada na luta política e na campanha eleitoral.
5. A AE defendia a candidatura própria em Campinas e, se não me engano, foi contrária à aliança fechada com o Dr. Hélio e mesmo aos cargos assumidos pelo PT. A corrente pode a defender a ruptura com o governo Hélio? Há outros grupos que seguem essa posição hoje?  
Já em 2004, nos posicionamos contrários a apoiar, formal e oficialmente, a candidatura de Hélio no segundo turno. Defendemos que o Partido chamasse o voto anti-Carlos Sampaio, anti-PSDB. Na época, explicamos por escrito nossos motivos. Em 2008, também fomos contrários a apoiar Hélio. Nos dois casos, nossa posição foi extremamente minoritária no PT de Campinas. Fizemos recursos na direção estadual e nacional e também perdemos. Em todos estes momentos e instâncias partidárias, fizemos questão de esclarecer nossos motivos, que continuam nos parecendo justos, aliás foram reforçados pela crise. O PT de Campinas, vai realizar proximamente um encontro de filiados para decidir o que fazer frente ao governo. Minha impressão é que a maioria do Partido sabe que estamos em contagem regressiva. A questão é quando e como.

6. Diante do escândalo e ainda do próprio rumo da gestão Hélio, considerada privatizante, é possível que o PT repense a análise da AE e rompa com Hélio, apesar das declarações do ex-presidente Lula e do ex-ministro José Dirceu? Há chances de ocorrer essa mudança?

Minha principal crítica a gestão Hélio é exatamente esta: tradicionalista, conservadora, adotou políticas como “tolerância zero” e privatização de serviços públicos de saúde e educação. Em 2012, o PT terá candidatura própria à prefeitura de Campinas e, vencendo as eleições, poderemos corrigir tudo isto. Mas para isto será preciso construir uma forte candidatura petista para prefeito de Campinas, para derrotar o PSDB e seus clones. Nisto, que é o que efetivamente fará a diferença sobre o futuro, estamos todos de acordo. Claro que nossa candidatura petista será mais forte, quanto mais rápido nos diferenciemos e nos distanciemos de problemas que não causamos e de práticas que não compartilhamos.

7. Vários petistas têm reclamado que a rota de privatização da gestão municipal é acentuada, ao mesmo tempo em que o funcionalismo sofre arrochos pesados, de modo que o modelo se assemelha ao sistema do governo tucano no estado e que, com essa aliança, o PT não terá mais bandeiras políticas em Campinas. Na sua avaliação, essa análise é verdadeira?

Esta análise não é verdadeira. Por este critério simplista, o PSDB também não teria chance alguma de ganhar em 2012, afinal o governo acusado de corrupto está aplicando políticas tucanas. Veja, a campanha eleitoral já começou, mas a eleição será em outubro de 2012. Ainda há tempo para esclarecer a verdade, diferenciar o PT dos malfeitos, evitar que recaia sobre nós aquilo que o Partido não fez e não aceita. Por outro lado, o PT tem um programa e um eleitorado muito forte. O caminho passa por unificar o PT em torno de uma candidatura que seja capaz de fazer, ao menos em parte, aquilo que Toninho fez em 2000: galvanizar o enorme potencial democrático-popular que nossa cidade tem. Uma cidade com a força econômica, cultural, tecnológica e com uma imensa rede de organizações sindicais, populares, estudantis, cidadãs como Campinas merece um governo petista com final feliz.

PT Nacional: Uma maioria bem encrenqueira. Por Valter Pomar.

Delúbio Soares

Por Valter Pomar

Antes de entrar no assunto principal deste texto, três comentários preliminares.

Primeiro, parabenizamos o companheiro José Eduardo Dutra pela coragem e tranqüilidade com que veio a público, perante a direção partidária e os meios de comunicação, informar seu estado de saúde e explicar os motivos pelos quais não queria mais exercer a presidência nacional do PT.

Nos solidarizamos com ele, opinamos que ele deveria tirar uma licença prolongada e não renunciar; mas frente à sua decisão, pessoal e irrevogável, ressaltamos o tratamento correto que deu a uma questão que, para muitos, ainda é tabu: a saúde das lideranças políticas, especialmente quando envolve problemas de fundo neurológico.

Segundo, saudamos o novo presidente nacional do PT, Rui Falcão.

Desde que Dutra pediu licença, apoiamos integralmente a interinidade de Rui, não apenas por ser ele o primeiro vice-presidente, mas principalmente porque acreditamos que suas qualidades pessoais e políticas o tornam capaz de lidar adequadamente com as exigências da presidência.

Pelos mesmos motivos, confirmada a renúncia de Dutra, defendemos a eleição de Rui no Diretório Nacional, tomando o cuidado de — ao contrário de outros setores, meio reticentes em privado mas exuberantes apoiadores em público — deixar claro que, ao apoiarmos Rui como presidente, substituindo em definitivo Dutra, não perdíamos de vista as divergências que tivemos, temos e certamente seguiremos tendo com ele e principalmente com a chapa que o elegeu para o Diretório Nacional.

Terceiro, comemoramos o conteúdo das decisões sobre conjuntura adotadas pelo Diretório Nacional do PT nos dias 29 e 30 de abril de 2011.

Seja pelas decisões de mérito sobre a reforma política, seja pelo que apontaram como tarefas gerais do Partido (apoiar o governo, defender as reformas políticas e tributária, defender a democratização da comunicação social, enfrentar o debate ideológico e aproximar-se mais das classes trabalhadoras, aí incluída a defesa das 40 horas), as resoluções adotadas pelo DN fornecem a melhor orientação possível, ou seja, aquela que a atual maioria dirigente foi neste momento capaz de produzir.

O que nos remete para dois grandes erros cometidos nesta reunião do Diretório Nacional.

O primeiro deles é de responsabilidade coletiva: o balanço que se fez do início do governo Dilma. A saber: seja na política externa, seja na política econômica, seja em outras áreas de governo, há problemas políticos, gerenciais e de mérito que precisam ser debatidos e enfrentados urgentemente pelo Partido.

O segundo erro é de responsabilidade exclusiva e intransferível da maioria da direção: aprovar a refiliação de Delúbio Soares.

Quando falamos maioria, nos referimos a 60 membros do Diretório Nacional, representantes de todas as chapas, com exceção de duas: Esquerda Socialista e Mensagem ao Partido.

Foram os integrantes destas duas chapas que forneceram os 15 votos contrários à filiação de Delúbio. E que buscaram, através de legítimos procedimentos regimentais, evitar que o DN cometesse o erro que finalmente cometeu.

Aqui vale lembrar o passo a passo da coisa.

Em 2005, Delúbio foi expulso do Partido. A decisão foi adotada pelo Diretório Nacional, após ouvir o parecer de uma comissão de ética que apontou que Delúbio cometera “gestão temerária”. Por trás deste termo técnico, um grave problema político: Delúbio terceirizara a gestão financeira do Partido, entregando-a de fato aos métodos , costumes e recursos provenientes de um “operador” vinculado ao PSDB. A expulsão foi aprovada por cerca de 2/3 do DN, contra uma minoria que se absteve ou votou pela suspensão.

Desde aquele momento, até o dia 29 de abril, Delúbio Soares não fez autocrítica consistente dos erros cometidos. O que é absolutamente compreensível: aos réus (e Delúbio é réu em diversos processos) se reconhece o direito de não produzir provas contra si mesmos. E uma autocrítica implicaria em reconhecer graves erros políticos (alguns dos quais serviram de base para pesadas acusações, com sérias implicações legais) que são de sua total e exclusiva responsabilidade. E implicaria em apontar, também, quais erros envolvem outras pessoas.

Apesar disto, ou por isto mesmo, Delúbio nunca aceitou sua expulsão e sempre lutou por voltar ao Partido. Fez isso antes da campanha Dilma, quando foi convencido a retirar o pedido, que certamente seria rejeitado. Fez isso novamente agora, quando teve êxito.

Nunca nos ocupamos de analisar, nem tampouco de duvidar, da sinceridade de seus motivos psicológicos e políticos. A questão para nós sempre foi outra: o impacto político, interno ao PT, na sociedade e no judiciário, da refiliação de Delúbio.

Internamente ao PT, a volta de Delúbio é um ponto a favor dos que erraram então, não parecem ter aprendido muito com seus erros, e no fundamental se julgam vítimas das circunstâncias. Alguns até se consideram heróis e, infelizmente, às vezes parecem prontos a errar novamente. Se vão fazê-lo ou não, dependerá do grau de controle e constrangimento que se imponha sobre eles.

Na sociedade, a volta de Delúbio poderá ser considerada por muitos petistas, simpatizantes, aliados e até adversários cordiais, como um sinal de que uma parcela do Partido não parece ter entendido que o quase golpe de 2005 fracassou apesar da ajuda involuntária dada aos golpistas por alguns petistas, que com seus erros forneceram argumentos para os ataques da direita. Se esta parcela “pragmática” do PT vai fornecer novos pretextos aos que odeiam o PT e a esquerda, igualmente dependerá do grau de controle e constrangimento que se imponha sobre ela.

No judiciário, achamos que a volta de Delúbio soará como uma provocação, que poderá ser instrumentalizada de várias formas pelos  que pretendem causar danos ao PT.

Esperamos estar enganados, mas achamos que a refiliação de Delúbio poderá fornecer, mesmo que involuntariamente, argumentos para os que defendem a tese da “quadrilha”, o que afetará não só o PT, mas também os réus contra os quais não há provas factuais, apenas ilações políticas. Isso porque a readmissão de Delúbio, ainda mais apresentado por alguns como herói e vítima, pode enfraquecer os argumentos utilizados por advogados de defesa e por dirigentes do próprio partido, argumentos que isolavam as atitudes do ex-tesoureiro das atitudes do Partido.

Por tudo isto, nós da Articulação de Esquerda votamos em 2011 com o mesmo espírito que votamos em 2005: em favor dos interesses coletivos do Partido.

Enfim, o tempo dirá se nossos argumentos estão certos ou errados. De qualquer forma, nossa impressão é de que esta decisão da maioria do DN confirma, mais uma vez, a originalidade do PT. Noutros partidos, não é raro que uma minoria seja acusada de “encrenqueira” pela maioria. Já na atual direção do PT, parece ocorrer o contrário.

Trágico é ser um tucano de esquerda – Valter Pomar

Por Valter Pomar

O professor Luiz Carlos Bresser-Pereira é um dos fundadores do PSDB, foi ministro de FHC e tudo o mais. Mas seus textos (pelo menos os mais recentes) situam-no no lado esquerdo da tucanagem.
Aliás, um paradoxo: de certa forma, o PSDB atraiu parte da antiga esquerda do PMDB. Claro que na época da ruptura, um dos motivos apresentados foi a corrupção e o fisiologismo do PMDB, especialmente de Quércia. Mas se voltarmos no tempo, veremos que o ponto de clivagem foi o balanço do Plano Cruzado. Alguns setores do PMDB, mais exatamente de sua esquerda, fizeram um balanço crítico do Plano Cruzado, que resultou na adesão a várias teses monetaristas e ortodoxas.
Haveria muito que dizer sobre aquele debate. Mas o que mais me chama a atenção, olhando retrospectivamente, é o pessimismo. O mesmo pessimismo, negativismo, quase niilismo, que tomou conta de setores da então ultra-esquerda do PT, que impactados pela crise do socialismo, acabaram mudando de lado.
Um exemplo deste negativismo está num dos textos mais recentes de Bresser, intulado A tragédia dos povos pobres, que Página 13 reproduz mais abaixo. Nele, Bresser diz o seguinte:
1) as revoluções são sempre realizadas pelo povo, mas, muitas vezes, ele é, no fim das contas, derrotado;
2) nunca as esperanças maiores do povo são efetivamente realizadas;
3) apesar disto, o povo avançou em cada uma das revoluções ocorridas no mundo, exceto na soviética.
Tirante o preconceito, é difícil de entender por quais motivos Bresser considera que o povo não avançou na revolução soviética.
Mas o mais interessante são os três corolários de sua argumentação:
4) os povos que estão se revoltando só serão vitoriosos se os novos governos forem capazes de conduzir seus países à revolução nacional e capitalista e, portanto, ao desenvolvimento;
5) Mas, para isso, falta a esses povos uma sociedade civil forte como existe nos países ricos e nos países de renda média. A pobreza e o baixo nível de educação são obstáculos para atingir isso;
6) A alternativa é contar com um líder comprometido moralmente com a população.
Ou seja: o capitalismo é o objetivo final; os setores médios são a chave da vitória; e nos países pobres, é preciso um líder.
Totalmente didático. Que do lado de cá se diga: o socialismo é o objetivo final; as classes trabalhadoras são a chave da vitória; e quanto mais desorganizada for a sociedade, mais imprescindível é a presença de um partido.
Segue o texto:

A tragédia dos povos pobres

Por Luiz Carlos Bresser-Pereira (27/02/11)
As revoluções são obra do povo, mas, com base na história, suas esperanças jamais são confirmadasAs revoluções sãosempre realizadas pelo povo, mas, muitas vezes, ele é, no fim das contas, derrotado. Faço essa afirmação pensando no que acontecerá depois das revoluções na Tunísia e no Egito, e do banho de sangue que está acontecendo na Líbia. As revoluções podem ser revoltas contra o “antigo regime”, como o foram a Revolução Francesa de 1789 e a russa de 1917, ou podem ser revoluções de união nacional, como foram as revoluções de Bismarck na Alemanha e a de Garibaldi na Itália, ou podem ser revoluções de libertação nacional como foram a de Gandhi e Nehru, na Índia, e a de Mao Tse-tung, na China. Há ainda as revoluções de afirmação nacional, como foi a Revolução Mexicana de 1910.

Mas quando o povo é, afinal, vitorioso nessas revoluções? Não é fácil responder a essa questão. Nunca suas esperanças maiores são efetivamente realizadas. Ao mesmo tempo, é impossível negar que o povo avançou em cada uma das revoluções que eu citei acima, exceto a soviética.
Deixemos, porém, grandes revoluções de lado e pensemos nas revoluções nacionalistas nos países em desenvolvimento -nas bem sucedidas como a de Kemal Atatürk na Turquia, em 1922, ou a de Getúlio Vargas no Brasil, em 1930, e no grande número de revoluções que, afinal, fracassaram. A grande tragédia dos povos pobres, como são os povos do Oriente Médio que estão se revoltando, é que eles só serão vitoriosos se os novos governos forem capazes de conduzir seus países à revolução nacional e capitalista e, portanto, ao desenvolvimento.
Mas, para isso, falta a esses povos uma sociedade civil forte como existe nos países ricos e nos países de renda média. No Oriente Médio, muitas revoluções de libertação ou de afirmação nacionais foram realizadas, mas poucas vingaram. Algumas foram simplesmente esmagadas pelas potências imperiais, como foi o
caso da revolução de Mossadegh no Irã, em 1955, ou de Nasser, no Egito, em 1967.
Outras, localizadas no extremo oposto, não vingaram porque o político ou o militar vitorioso logo se associou às potências imperiais e às elites locais corrompidas e também se corrompeu. Foi o caso, por exemplo, de Ben Ali na Tunísia ou de Saddam Hussein no Iraque. Outras ainda, como é o caso da revolução na Líbia de Gaddafi, inicialmente pretenderam ser libertadoras de seu povo, e, por isso, encontraram forte oposição das potências ocidentais, mas também dele se desligaram e se corromperam, sendo então seus dirigentes aceitos pelas potências ocidentais.
Existe solução para esta tragédia dos povos pobres? Sim, mas o caminho é difícil. Eles são fortes no momento da revolução, quando se mobilizam e, muitas vezes, se tornam heroicos, como estamos hoje vendo no Oriente Médio. Mas depois perdem coesão e abrem espaço para o domínio das velhas elites e dos interesses estrangeiros. É preciso que cada povo se constitua em nação e logre fazer valer sua vontade nacional, mas a pobreza e o baixo nível de educação são obstáculos para atingir isso.

A alternativa é contar com um líder comprometido moralmente com a população, mas tal situação depende da sorte ou da fortuna -uma deusa amada, mas com a qual não podemos contar.

Via: pagina13.org

Os apocalípticos: FHC não se conforma com a vitória de Dilma e adota um discurso cada vez mais cavernícula

Os apocalípticos

 

FHC não se conforma com a vitória de Dilma e adota um discurso cada vez mais cavernícula

 

Valter Pomar

Há nove candidaturas disputando a presidência da República: Dilma Rousseff, do Partido dos Trabalhadores: José Serra, do Partido da Social Democracia Brasileira; Marina Silva, do Partido Verde; Plínio de Arruda Sampaio, do PSOL; José Maria de Almeida, do PSTU; Ivan Pinheiro, do PCB; José Maria Eymael, do PSDC; Levy Fidelix, do PRTB; e Rui Costa Pimenta, do PCO.

As seis últimas candidaturas, somadas, não alcançam 2% de intenções de voto nas pesquisas publicadas até agora. A candidatura de Marina Silva vem oscilando, dependendo da pesquisa e do momento, entre 5 e 10 pontos. As candidaturas de Dilma e Serra, somadas, chegam a 80% das intenções de voto.

No fundamental, este cenário eleitoral confirma a avaliação feita, já em 2009, segundo a qual a eleição presidencial seria marcada pela polarização PT versus PSDB; a candidatura Dilma viria em ascensão; a candidatura Serra se manteria estagnada, ainda que mantendo um apoio eleitoral significativo.

Mas o cenário deste setembro traz, também, uma novidade importante: a partir de agosto e até agora, a candidatura Dilma não interrompeu sua ascensão. O impacto psicológico disto, sobre as fileiras adversárias, foi tão grande, que a candidatura Serra começou a perder apoios. Ao mesmo tempo, não teve o êxito pretendido a operação financeira e midiática em favor da candidatura Marina, visando levar a eleição presidencial para o segundo turno. Resultado: discute-se abertamente a possibilidade de a eleição presidencial ser decidida já no primeiro turno, com a vitória de Dilma Roussef.

Mantra

Esta possibilidade existe e não devemos desperdiçá-la. Mas, para que se torne possível o que não é o mais provável, é essencial não subir no salto, nem baixar a guarda.

Afinal, embora a candidatura Serra esteja enfrentando dificuldades políticas, ela tem meios para fazer operações especiais que, como em 2006, podem levar a eleição para o segundo turno.  

As dificuldades políticas da direita têm duas causas fundamentais. A primeira delas é muito simples: a maior parte do povo brasileiro está vivendo melhor e relaciona isto às políticas adotadas pelo governo Lula, com quem ademais mantém uma identidade de classe.

A segunda delas é mais complexa, embora não tanto: a oposição de direita propaga e em parte acredita que os êxitos do governo Lula estão baseados nos supostos êxitos do governo FHC.

Segundo Pedro Malan, ex-ministro da Fazenda de FHC, o mesmo seria dito por “vozes sensatas” do PT, como Antonio Palocci (“os ganhos obtidos pelo Brasil a partir de 2003 se assentaram sobre avanços e resultados realizados em governos anteriores (…). Fazer tabula rasa destas contribuições seria atentar contra a própria história do País”) e Paulo Bernardo (“Não tenho dúvidas de que o Brasil evoluiu positivamente ao longo dos últimos 15 anos”).

Mas, apesar desses bolsões sensatos, a oposição sabe que o povo não pensa assim, até porque conhece os efeitos de uma e outra política no emprego e nos salários, por exemplo. E percebe que eventual evolução positiva se deu apesar das políticas tucanas, não graças a elas.

Como o povo rejeita a herança maldita, Serra evita defender o “legado FHC”, foge da comparação entre os dois governos e dá prioridade à tentativa de desconstituir a imagem de Dilma, apostando que assim conseguiria evitar a transferência de votos em favor da candidata do PT. Parece incrível, mas na cabeça de Serra, ele seria a “continuidade com segurança”.

Registre-se que Marina e Plínio também embarcaram na tentativa de desconstituir Dilma.

A candidata verde disse o seguinte, ao jornal O Estado de S. Paulo: “Nós conhecemos o presidente Lula, a gente conhecia o Fernando Henrique Cardoso, a gente conhece o Serra – eu discordo dele, mas conheço. O povo pode até discordar de mim, mas me conhece. Eu estou aí há 16 anos na política nacional. Mas, com todo respeito à ministra Dilma, nós não conhecemos ela nesse lugar de eleita. Conhecemos como ministra de Minas e Energia, da Casa Civil e até respeitamos o trabalho dela, mas daí a ser presidente da República?”

O candidato do PSOL, durante um debate promovido pela rede Canção Nova, disse que “toda a comunidade cristã conhece ao Serra, a mim e à Marina”. Já Dilma foi classificada como uma “incógnita, que foi inventada pelo Lula”.

Como era de se esperar, a operação de desconstituição promovida por Serra e seus aliados é mais violenta: inclui tratar Dilma como grosseira e autoritária (como fizeram os apresentadores do Jornal Nacional), apresentá-la como violenta terrorista (técnica adotada especialmente na internet), adepta do jogo sujo (dossiês, quebras de sigilo), tecnocrata, centralizadora e tudo mais, inclusive o contrário disto tudo: uma candidata inventada, um preposto de Lula.

A polêmica em torno da quebra do sigilo fiscal de Verônica Serra, Eduardo Jorge e outros faz parte deste contexto. Há fortes indícios de que a operação fez parte da disputa interna no tucanato, entre Serra e Aécio. Mas sua repercussão atual, na qual se atribui ao PT a iniciativa, cumpre um triplo papel: tentar levar a disputa presidencial para o segundo turno; reunir elementos para questionar legalmente a candidatura Dilma; e colocar em questão a legitimidade de nossa vitória, seja no primeiro, seja no segundo turno.

Serra, setores do Judiciário e dos meios de comunicação estão envolvidos nesta operação. Motivo adicional para não baixarmos a guarda: lembrar de 2006 deve ser repetido como mantra.

Futuro

Exceto por uma reviravolta imponderável, Dilma será eleita presidenta da República, seja no primeiro, seja no segundo turno. A questão estratégica é saber qual o conteúdo programático: o que esta vitória projeta para o futuro?

Ao longo da campanha, Dilma afirmou um compromisso, composto de duas ações articuladas: continuar é continuar mudando. Por diversas razões, o acento principal foi na continuidade; e o tema das mudanças acabou ficando em segundo plano.

A campanha tratou de forma defensiva temas importantes como a reforma política, a reforma tributária e a democratização da comunicação social, para ficar apenas nestes casos. Isto, mais a composição da coligação, apontam para um governo mais comprometido com a continuidade, sem que fique claro no que vamos continuar mudando.

Claro que continuar mudando dependerá e muito da correlação de forças que emergirá das urnas: a composição do Senado, da Câmara, dos governos estaduais e das assembléias legislativas. Visto de agora, tudo indica que teremos uma maioria governista, mas não teremos uma maioria de esquerda (entendendo por isto basicamente o PT, o PCdoB, o PSB e o PDT).

Este é um dos motivos pelos quais devemos fazer de tudo, nesta reta final de campanha, para fortalecer o desempenho do PT, de nossas candidaturas a governador, ao Senado, à Câmara e às Assembléias estaduais.

Outras variáveis vão incidir na conduta do próximo governo. Uma destas variáveis é a conjuntura internacional, que segue combinando elementos de crise econômica prolongada e provocações militares por parte dos Estados Unidos. Outra das variáveis é a postura das oposições. Já vimos, em 2005, como uma atitude da oposição pode influenciar a postura do governo.

À luz das eleições de 2010, o que podemos dizer sobre o que farão as oposições ao longo dos próximos anos?

A oposição de esquerda, ao que tudo indica, colapsou. A aposta que fizeram no fracasso do governo Lula, no desmanche do PT, num discurso para-udenista, não rendeu frutos eleitorais, nem conseguiu construir um pólo social de oposição. Pelo contrário: em diversos momentos aliaram-se à oposição de direita, enfraqueceram as posições de esquerda no interior do PT e acabam passando para a sociedade uma imagem caricatural do socialismo, prejudicando mais do que ajudando as posições de esquerda.

Se a oposição de esquerda colapsou, a oposição de direita está em surto, como se depreende da leitura dos trechos abaixo, parte de textos escritos recentemente por colunistas eleitores de Serra:

“A quebra do sigilo é um aviso de que o Estado democrático de Direito está em crise de que um Estado totalitário se aproxima”

(Ricardo Caldas, Folha de S. Paulo, 8 de setembro)

“O lulismo desqualifica a política. E abre caminho para o autoritarismo.”

(Marco Antonio Villa, Folha de S. Paulo, 8 de setembro)

“(…) uma entidade institucional inédita, personificada por Lula. Semelhante, neste aspecto, a um aiatolá, atuando de fora para dentro do governo (…) a democracia brasileira adentrará uma quadra histórica não isenta de riscos (…) controle social da mídia é eufemismo para intervenção em empresas jornalísticas e imposição de censura prévia” (…) Estamos nas “cercanias de um regime autoritário” (…) “chavismo branco” ou “regime mexican style” (…)

(Bolívar Lamounier, O Estado de São Paulo, 24 de agosto)

“Estão criadas as condições para o surgimento de uma versão brasileira –com duas faces, a do PT e a do PMDB — da “ditadura perfeita” vivida pelo México décadas a fio sob o controle do PRI.”

(Editorial do jornal O Estado de São Paulo, 24 de agosto)

A declaração mais recente nesta linha foi dada pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que no dia 14 de setembro teria afirmado (segundo divulgado pelo jornal Folha de S. Paulo) que o presidente Lula virou “um militante e um chefe de uma facção”, o que (segundo FHC) “extrapola o limite do estado de direito democrático”.

Se realmente FHC disse o que a Folha lhe atribui, baixou nele um espírito cavernícula: “Faltou quem freasse o Mussolini. Alguém tem que parar o Lula”. Pelo visto, o tucano resolveu brincar com fogo, pois é difícil imaginar um significado inocente para a expressão “parar o Lula”.

Se mantiver este discurso, esta oposição apocalíptica cumprirá um papel político importante, mas só terá chances eleitorais em 2012 e 2014 se a situação econômico-social desandar completamente. Motivo pelo qual é provável que a direita social (ou seja, o grande empresariado e os setores médios conservadores) aposte suas fichas no PMDB, que já se ofereceu inclusive para abrigar Aécio Neves.

Neste sentido, precisamos ter um olho no peixe e outro no gato. E, não importa qual seja o resultado da eleição congressual, para reduzir as chances de que o aliado de hoje se torne o inimigo de amanhã, o PT deve dar mais organicidade à sua relação com os demais partidos de esquerda (PCdoB, PSB, PDT). Há quem defenda, até, a constituição de uma “frente ampla” semelhante à que existe no Uruguai.

E o que será do PT, neste contexto? Sobre isto, há muito o que debater e reformar. Apenas como aperitivo, podemos apontar duas incógnitas e duas certezas.

As incógnitas são: que papel Lula terá no próximo período; e que organicidade terá a relação entre a companheira Dilma, uma vez eleita presidente, e seu Partido?
As certezas são: o Partido dos Trabalhadores sairá desta eleição mais importante e mais desenvolvimentista do que entrou.

Vale lembrar que o PT surgiu em 1980, criticando não apenas a ditadura, mas também o desenvolvimentismo, apresentando uma alternativa democrático-popular e socialista. Já em 2002, o programa com que Lula disputou as eleições foi de transição para o pós-neoliberalismo. Entre 2003 e 2005, esta transição foi contida e dominada pelos social-liberais, sob comando de Antonio Palocci. Mas a partir de 2005 e até hoje, os setores desenvolvimentistas vêm ganhando espaço. A tal ponto que, recentemente, até mesmo candidatos da esquerda petista incluíram, em seu material de propaganda, a defesa de um “modelo econômico centrado no capitalismo produtivo”.

Claro que é melhor um partido hegemonizado por desenvolvimentistas, do que por social-liberais. Mas sem reformas estruturais, o desenvolvimentismo brasileiro será sempre conservador (ou seja, para cada ganho dos de baixo, muito mais ganho nos de cima). Em nosso país, 20 mil famílias controlam 46% da riqueza; 1% controla 44% das terras; 59% não tem acesso à esgoto e água tratados! E, desenvolvimentista ou não, o capitalismo será sempre… capitalista.

Para mudar esta situação, precisamos fazer reformas estruturais: reforma

tributária, para que os ricos paguem impostos; reforma urbana, para que

todos possam morar bem; reforma agrária, para que os alimentos sejam cada vez mais baratos; reforma política, para que os mandatos não sejam

comprados, nem vendidos; democratização da comunicação, para que haja

informação de qualidade; sistema único de saúde e educação pública e

gratuita, retirando estas e outras ações da esfera mercantil.

Noutras palavras: neste PT mais importante que emergirá das eleições de 2010, continua sendo indispensável uma forte esquerda socialista, que defenda reformas estruturais, que compreenda o papel estratégico da luta social e do próprio Partido.

Por isto, nesta reta final, além de não baixar a guarda, ampliar a votação do PT, dar organicidade ao campo democrático-popular, é também fundamental ampliar a votação e o número de parlamentares comprometidos com continuar mudando. Mudando muito e rápido.

Valter Pomar é membro do Diretório Nacional do PT

Jornalismo calhorda. A Mídia Mente – Valter Pomar

Por Valter Pomar

Só falando assim, para definir o título da matéria publicada dia 30/7 por O Estado de S. Paulo (No dia da estreia da petista na TV, PT estimula debate sobre Farc). Reproduzo a íntegra da matéria ao final.
 
É Serra quem estimula o debate sobre as Farc. Mas o título da matéria inverte os fatos.
 
Qual o objetivo desta inversão? A matéria deixa claro o objetivo, quando diz que o PT vai jogar a candidata Dilma Rousseff em mais uma polêmica envolvendo a suposta ligação do partido com as Farc.
 
Ou seja: para o Estadão, o PT não é a vítima de uma calúnia, mas sim o responsável pela polêmica.
 
A verdade é outra: o PT vai participar do XVI Encontro do Foro de São Paulo, como sempre fizemos, desde 1990. A polêmica, quem está criando é a oposição.
 
E a oposição é como o lobo da fábula: não importa o que o cordeiro diga, o lobo sempre vai inventar um pretexto. Se formos, é porque fomos, se não formos, é porque temos algo a esconder….
 
A matéria repete mentiras publicadas noutras matérias, de vários meios; a esse respeito, sugiro ler o que disse na entrevista publicada no www.pt.org.br acerca do XVI Encontro do Foro de São Paulo.
 
 
 Leia a seguiur a matéria publicada no O Estado de São Paulo:
 
 
No dia da estreia da petista na TV, PT estimula e sobre Farc
Partido vai participar do 16.º Foro de São Paulo, instância da esquerda da América Latina, que ainda discutirá controle da mídia
30 de julho de 2010 | 0h 00
 
João Domingos / BRASÍLIA – O Estado de S.Paulo

 

No dia da estreia do programa eleitoral dos candidatos à Presidência – 17 de agosto -, o PT vai jogar a candidata Dilma Rousseff em mais uma polêmica envolvendo a suposta ligação do partido com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc). Não bastasse isso, os petistas vão entrar também em outro debate que Dilma afirma abominar: o controle social dos meios de comunicação.

Nesse dia, 16 petistas, entre eles o deputado José Eduardo Martins Cardozo (SP), um dos principais coordenadores da campanha de Dilma, estarão em Buenos Aires para participar da abertura do 16.º Foro de São Paulo – a instância cuja meta é a socialização da América Latina e do Caribe.

O documento preparatório do encontro de Buenos Aires, ainda em sua versão em espanhol, afirma que é preciso fazer o controle social da mídia. E diz que o resultado do pleito presidencial no Brasil influenciará todo o processo eleitoral na América do Sul e no Caribe, notadamente na Argentina no ano que vem. Por isso, prega a eleição de um candidato de esquerda.

Os principais idealizadores do Foro, criado em 1990, foram o hoje presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o ex-deputado Plínio de Arruda Sampaio, que disputa a Presidência pelo PSOL. Lula decidiu convocar partidos de esquerda da América Latina e do Caribe depois de receber a visita, em sua casa, em São Bernardo, do então presidente de Cuba, Fidel Castro.

Representantes das Farc estiveram nesse Foro, realizado em São Paulo, fazendo com que a guerrilha aparecesse como uma das fundadoras da instância esquerdista, assim como o Exército de Libertação Nacional, ambos da guerrilha colombiana.

Pesquisas. O tucano José Serra decidiu explorar essa suposta ligação do partido de Dilma Rousseff com as Farc. Tem insistido no tema, amparado por pesquisas qualitativas que apontariam para possíveis prejuízos eleitorais à petista caso consiga deixar no eleitor certa desconfiança quanto à ligação com a guerrilha terrorista. O assunto foi trazido à campanha pelo vice de Serra, Índio da Costa (DEM).

O secretário executivo do Foro, Valter Pomar, da ala mais à esquerda do PT, afirmou que as Farc nunca participaram dessa instância das esquerdas da América Latina e do Caribe. “Os partidos de esquerda latino-americanos estão implementando estratégias que combinam luta eleitoral e luta social. A maioria desses partidos apoia, na Colômbia, o Pólo Democrático Alternativo, que já disputou duas eleições presidenciais”, argumentou. As Farc, na visão dele, preferem conduzir a guerrilha.

O ex-vereador Edson Albertão (PSOL), de Guarulhos, um dos poucos que assumem abertamente ter contatos com as Farc, lamentou que o PT tenha decidido rejeitar a participação de grupos como as Farc no Foro de São Paulo. “Eu não concordo com isso. É uma inflexão à direita, discriminatória e odiosa a um grupo que definiu sua forma de luta não porque quis, mas porque foi obrigado a isso”, disse.

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