Uma defesa para Dilma

Uma das tarefas domésticas que mais gostava na infância era ir ao supermercado. Não tanto para comprar doces e chocolates, já que minha mãe foi por muito tempo rígida com açúcar e gordura dentro de casa. O mais divertido era sair correndo na frente do funcionário que remarcava preços com sua “arma”. Lembro que eu e meu irmão entrávamos nos corredores e ao avistarmos o inimigo, corríamos para pegar as compras. Voltávamos para o carrinho sempre com a sensação de dever cumprido e pronto para a próxima missão.

Sei, no entanto, que esta é a única parte cômica da tragédia dos anos 1980. Quem viveu sabe que processos hiperinflacionários são destruidores de lares. Sem exagero. A inflação corrói a renda, principalmente dos mais pobres e daqueles que tem salários pré-estabelecidos. A remarcação diária de preços acaba com o poder de compra do assalariado, que força seu empregador a corrigir seu salário e que por consequência pressiona novamente a inflação.

Por isso, combater processos inflacionários é um dado da realidade, ainda mais se há uma opção por privilegiar as classes mais baixas. Em qualquer política econômica séria esta é uma premissa fundamental, que deve ser sempre respeitada.

A questão, como quase tudo nessa vida, é como.

Quando a presidenta afirmou que o método de combate à inflação baseado em altíssimas taxas de juros estava superado, ela falou a verdade. Sua fala posterior, dizendo que combater a inflação é um valor em si, também. Ok. Ela desdisse para acalmar os ânimos do “mercado”, é fato. Mas não mentiu.

O que ela não disse – ou não deixaram que dissesse – é que o problema sobre o combate à inflação é de método. Investidores, especuladores, operadores e donos do mercado financeiro vociferaram à afirmação dizendo ser pá de cal no controle sério da inflação. O chororô faz parecer que logo mais vamos voltar aos velhos tempos, quando os itens mais básicos da alimentação chegavam a ter seus preços reajustados mais de uma vez por dia.

Quase que como uma entidade espiritual, “o mercado” mandou mais um recado ao governo. Mostrando sua insatisfação com o que chama de excesso de intromissão do Estado em assuntos que não são de sua competência, só faltou demandar por sacrifícios para saciar suas vontades.

Na verdade, o conjunto de entidades financeiras que compõe o que os jornais chamam de “mercado” quer sim sacrifícios para aplacar sua fome. Só não tem coragem de dizer por que depois da era Fernando Henrique – o que saiu pela porta dos fundos – falar em altas taxas de juros se tornou algo digno de censura moral. Mas sempre que podem se valem da “desculpa” da inflação para saciar sua fome.

O que o mercado quer mesmo é um aumento das taxas de juros. O pretexto é o combate à inflação para proteger o salário dos mais pobres. A verdade é que sem taxas de juros estratosféricas, o lucro fácil dos bancos e especuladores cai. Sinceramente, não acho que muitos banqueiros estão realmente preocupados com o salário do trabalhador. Por outro lado, desconfio que com uma taxa SELIC mais alta, fica fácil ganhar mais trabalhando menos. Aliás, foi só o governo começar a fazer cortes significativos na taxa básica que todos os bancos registraram enormes prejuízos. O Santander amargou queda de seu valor de mercado em nível mundial.

Quando disse que o combate à inflação é um problema de método me referia a isso: todo o projeto de combate à hiperinflação defendido pelo mercado pode ser resumido a deixar nossa taxa básica de juros tão alta, mas tão alta, que paralisa a economia real (a indústria, setor agrícola etc) e tem como consequência a diminuição da inflação.

Em 1999 nossa taxa SELIC chegou a 45% ao ano. Na prática isso significa dizer ninguém mais emprestava dinheiro para investir na indústria. Primeiro porque com uma rentabilidade dessas era só comprar títulos públicos, sentar e esperar. Não há margem de lucro em outros setores da economia que possam competir com isso. Ou seja, pra que diabos eu investiria em uma empresa se poderia colocar minha grana na ciranda financeira e ganhar sem trabalho algum?

Mas isso não é tudo. A taxa SELIC é o piso do que o mercado paga ao contrair empréstimos. Ou seja, todos os empréstimos privados são calculados a partir deste valor. Assim, se você for doido de abrir uma fábrica, vai ter que dar um jeito de pagar seus empréstimos (de capital de giro, por exemplo) com no mínimo 45% de juros ao ano.

Essa política econômica controla a inflação simplesmente porque acaba com a economia real. Sem empréstimos, fica-se sem dinheiro para girar a economia. Com a fonte seca, ninguém consome. Essa é a primeira parte da história. A segunda é que sem consumo, temos crise. Com a crise, desemprego. Com o desemprego, mais crise.

Desse jeito galera, até eu acabo com a inflação. Basta fazer todo mundo parar de consumir que está tudo resolvido. A outra parte da história, que eles não contam, é que não tem inflação, mas não tem emprego, renda etc.

O erro de Dilma foi não ter entrado neste mérito. É óbvio que temos que controlar a inflação. É óbvio que o maior prejudicado é o assalariado. Mais óbvio do que isso é que a inflação tem que ser controlada com a economia crescendo. E é aí que na prática a teoria é outra. O governo, apesar de suas inúmeras limitações, vem fazendo algum esforço para a economia andar. Não concordo com várias ações, mas este não é o ponto. É fato que Dilma tem colocado peso político para fazer a indústria brasileira voltar a crescer.

O que não dá pra deixar é o país voltar à Idade Média das finanças, quando o mercado e seus cardeais ditavam todas as regras da economia, sempre em benefício próprio. De fato, o governo tem que pensar em formas de conciliar o desenvolvimento econômico com o controle da inflação. Só não podemos voltar àquela velha catequese que diz que o melhor jeito de crescer é não crescendo. De uma vez por todas precisamos nos livrar da ideia de matar o boi para acabar com o carrapato.

BC reduz juro a 8,5% e sinaliza mais cortes

Por Mônica Izaguirre e Claudia Safatle | De BrasíliaValor Econômico

Além de reduzir a taxa básica de juros (Selic) para o menor nível da história – 8,5% ao ano -, o Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom) praticamente assegurou que promoverá novos cortes nas próximas reuniões. Se o cenário externo não se deteriorar, a próxima redução deverá ser também de 0,5 ponto percentual

A taxa básica de juros (Selic) rompeu o seu piso histórico e caiu para 8,5% ao ano, em decisão unânime tomada ontem pelo Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom). Até então, o nível mais baixo era de 8,75% ao ano, que vigorou entre julho de 2009 e abril de 2010.

No comunicado divulgado logo após a reunião, o Copom deixou claro que haverá pelo menos mais um corte de juros na reunião dos dias 10 e 11 de julho, ao mencionar que a redução de 0,5 ponto percentual de ontem estava “dando seguimento ao processo de ajuste das condições monetárias”. O fato de ter sido uma decisão unânime é uma outra indicação adicional de que novos cortes virão.

Até lá, eventos importantes vão ocorrer na Europa, onde a crise se agrava dia a dia, que podem ampliar ou não o ritmo de queda da taxa básica de juros. No dia 17 haverá eleições na Grécia, no dia 18 as lideranças mundiais se encontram no G-20 no México e há grandes expectativas em relação aos desdobramentos da crise na Espanha.

Este foi sétimo corte consecutivo da Selic, desde agosto de 2011, quando, antecipando-se aos efeitos da crise internacional e suas consequências recessivas e desinflacionárias, o BC começou a patrocinar um longo ciclo de afrouxamento monetário.

Mas o ritmo desse processo, que havia se acelerado em março e abril, arrefeceu. Após duas quedas de 0,75 ponto percentual, a Selic, que de agosto a abril recuou de 12,5% para 9% ao ano, desta vez caiu meio ponto percentual.

A reunião de ontem foi a primeira sob o novo regulamento do Copom. O texto da norma que rege o funcionamento do comitê foi alterado na semana passada, para se adaptar à nova lei de acesso à informação. Antes, havendo divergência entre os membros do colegiado, divulgava-se somente o placar. Agora, o Copom vai divulgar os votos de cada um dos diretores. Dessa vez, isso não fez diferença porque a decisão foi unânime.

No breve comunicado, o Copom justificou o corte afirmando que, “neste momento, permanecem limitados os riscos para a trajetória da inflação”. O comitê ainda reiterou que, “dada a fragilidade da economia global”, a contribuição do setor externo tem sido desinflacionária”.

O mercado já esperava uma desaceleração do processo de queda da Selic. A última edição da pesquisa Focus, feita pelo BC junto a uma centena de bancos e outras empresas, mostrou que a mediana das projeções para a meta de taxa Selic era de exatos 8,5% ao ano na sexta-feira, dia 25.

Ao falar em “parcimônia” na ata da reunião de abril, o próprio BC tinha sinalizado que colocaria um pé no freio. “Mesmo considerando que a recuperação da atividade vem ocorrendo mais lentamente do que se antecipava, o Copom entende que, dados os efeitos cumulativos e defasados das ações de política implementadas até o momento, qualquer movimento de flexibilização monetária adicional deve ser conduzido com parcimônia”, informou o BC no texto.

Ou seja, mesmo com crescimento fraco, o Copom entende que é preciso ser parcimonioso porque a atividade econômica ainda será estimulada pelo efeito defasado de reduções anteriores da Selic.

Para o economista-chefe do Banco Fator, José Francisco de Lima Gonçalves, o corte de 0,5 ponto percentual “mostrou que a parcimônia prometida na ata da reunião anterior não foi afetada pela nítida piora na situação da economia global e da economia brasileira”. Na opinião dele, ” parece ter prevalecido a percepção de que os estímulos fiscais e monetários já implementados estão perto de mostrar seus efeitos cumulativos e defasados sobre a atividade.”

O economista Roberto Luis Troster, que já foi da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), avaliou que o Copom deu “mais peso ao risco inflacionário do que ao risco de desaceleração da economia”. Ele destaca que, desde a reunião de abril, o real se desvalorizou ante o dólar americano, o que pressiona preços. Entre os que tendem a ser mais afetados, estão os bens duráveis, cujos preços são sensíveis ao câmbio, diz Troster.

O economista lembra que até então esses preços vinham contribuindo com o recuo da inflação do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA, no qual se baseia a meta de inflação oficial, de 4,5% para 2012), pois caíram 2,65% no acumulado de 12 meses até abril. O câmbio muda essa tendência.

A percepção dos agentes econômicos sobre o comportamento recente da taxa de câmbio também pressiona a inflação, no entendimento de Troster. Os sinais dados pelo governo têm levado muitos agentes a avaliar que essa elevação do dólar não é fruto de mero nervosismo do mercado e que, portanto, não se reverterá. A percepção, explica ele, é de que o novo e mais alto patamar da moeda americana se manterá, o que estimula o reajuste de preços.

O fato de o Copom ter optado por um corte menor do que os dois anteriores sinaliza, na interpretação de Troster, que o fim do processo de ajuste da Selic, iniciado em agosto, está próximo do fim. Ele acredita que a taxa para de cair quando chegar a 8% ao ano, o que significa mais uma redução de meio ponto percentual.

Para o economista sênior do HSBC, Constatin Jancso, as condições que levaram o Copom a usar o argumento da parcimônia, na ata da reunião de abril, não mudaram de forma significativa a ponto de justificar uma alteração do argumento. Por isso, a decisão não surpreendeu.

Jancso afirma que mesmo o agravamento da crise internacional não foi suficiente para modificar os planos do Copom de desacelerar o ritmo dos cortes da taxa básica de juros. Para o economista, os dados conhecidos não sustentam cortes mais intensos da Selic, embora, acredita ele, isso possa ocorrer com uma saída desastrosa da Grécia da Zona do Euro ou outra “hecatombe”.

“O mais provável é que uma piora no cenário externo vá influenciar por quanto tempo o BC vai continuar o ciclo de afrouxamento monetário”, afirmou. Mesmo assim, o HSBC ainda mantém a projeção de somente mais um corte de 0,50 ponto percentual, na próxima reunião em julho, na Selic, que fecharia o ano em 8% ao ano.

No cenário interno, o economista vê um ambiente misto. Os indicadores continuam positivos no mercado de trabalho e no varejo restrito. Por outro lado, pela precariedade do ambiente externo e pela volatilidade no câmbio, há um arrefecimento nas decisões de investimentos para o país e uma expectativa ruim para a produção industrial, que ainda sofre com a concorrência dos importados e o alto custo.

Entre agentes de mercado, esta quinta-feira tende a ser marcada po ajustes marginais, o que seria diferente caso o corte da Selic fosse de 0,25 ou 0,75 ponto percentual.

Segundo o economista-sênior para a América Latina da empresa de análises de mercado 4Cast, Pedro Tuesta, como nenhuma vírgula foi alterada no texto, o BC não soma nenhum tipo de “urgência” à comunicação ou avaliação. “Mantemos nossa avaliação de que o BC fará um novo corte de meio ponto e manterá a taxa básica em 8% por um longo período de tempo”, diz Tuesta. E longo período de tempo quer dizer até 2014.

O economista-chefe da corretora Concórdia, Flávio Combat, acredita que os ajustes na curva futura de juros devem indicar mais um corte de 0,5 ponto em julho. Para ele, a Selic estaciona em 8%.

“O BC vai então avaliar o impacto e os reflexos desse afrouxamento monetário sobre a atividade”, aponta. “Se foi usado o termo parcimonioso é porque esse corte deveria ter vindo menos forte que o anterior”.

Ontem, na BM&F, o contrato de julho/2012 o segundo de maior giro, fechando a 8,30%, com R$ 56 bilhões movimentados, quase cinco vezes mais que o giro da terça-feira – sinalização que há espaço para ajustes na curva.

O HSBC apontou em relatório assinado pelo economista Constatin Jancso que os fatores favoráveis à queda dos juros no Brasil são mais fortes e presentes que as variáveis capazes de levar o BC a rever o afrouxamento monetário. “Levando em conta nossa projeção de Selic de 8% neste ano e no próximo, vemos espaço para as taxas recuarem mais”, diz o banco sobre os juros. “Vemos espaço para a curva DI se mover para algum ponto mais baixo”.

O novo juro básico aciona o “gatilho” que muda a rentabilidade da poupança para o equivalente a 70% da Selic (ou 5,95% ao ano). O BC informou que os depósitos em poupança feitos ou renovados partir de hoje serão remunerados a 0,4828% ao mês mais TR. Esse será o rendimento enquanto a Selic estiver em 8,5% ao ano. (Colaborou João José de Oliveira)

 

2011, o primeiro ano de Dilma

por Paulo Passarinho, publicado originalmente pela Fundação Lauro Campos.

O início do ano que se encerra foi o primeiro da gestão de Dilma Rousseff, como presidente da República. A herdeira de Lula e principal auxiliar do ex-presidente enfrentava em janeiro passado dois temores: o que se chamava de recrudescimento inflacionário e um processo de forte valorização do real.

O ano de 2010 havia terminado com um expressivo crescimento do PIB – acima de 7,5% – por conta de um conjunto de medidas que havia sido tomado pelo governo, como resposta à retração econômica experimentada pelo país em 2009. O recuo do PIB naquele ano se deu por força da crise internacional e, também, pela demora do Banco Central, ainda em 2008, em reduzir a taxa básica de juros, o que somente ocorreu já em 2009.

A retração de 2009 e a adoção de medidas anticíclicas, junto com a liberação de recursos públicos no ano eleitoral de 2010, ajudam, portanto, o desempenho da economia brasileira, em termos do comportamento do PIB. Contudo, é neste contexto que sinais vermelhos se acendem para o novo governo. O desempenho das exportações e a entrada maciça de recursos externos no país contribuem para a valorização do real frente ao dólar. Se este é um processo que acaba por contribuir para atenuar as pressões inflacionárias, o forte crescimento das importações faz com que o saldo da balança comercial sofra igualmente uma indesejável redução. E esse é um processo que não interessa ao governo. Com a desnacionalização do aparato produtivo brasileiro, com a abertura financeira que temos e com o processo de endividamento externo das empresas privadas nossa conta de serviços é crescentemente deficitária. A obtenção de saldos comerciais, em um quadro como o descrito, torna-se essencial, como forma de administrar o balanço de pagamentos e sua dependência de atração de recursos pela conta de capital – o que apenas faz com que nossos passivos com o capital externo se elevem.

Frente a esse quadro, medidas macro prudenciais, particularmente relacionadas à área fiscal e ao fluxo de capitais externos (embora de forma muito tímida) foram adotadas, ainda mesmo antes da posse de Dilma. Já em janeiro, o ano se inicia com fortes medidas de controle sobre o orçamento e um processo de alta da taxa Selic, além de uma organizada resistência dentro do Congresso, para se evitar qualquer surpresa na definição do valor do salário mínimo, que acabou ficando em R$ 545,00, conforme vontade do Palácio do Planalto.

A palavra de ordem do novo governo era desacelerar o crescimento. Segundo Guido Mantega, o objetivo do governo seria diminuir o ritmo de crescimento da atividade econômica, sem, contudo, abortá-lo. A maior preocupação era, naquele momento, com os efeitos da sobrevalorização do real, suas conseqüências sobre o ritmo das importações, e o temor com a inflação. Mesmo com o bom desempenho das exportações, tanto em termos de volume quanto em relação aos preços das commodities agrícolas e minerais, a velocidade com que as importações cresciam levava a projeções que apontavam o risco de voltarmos a ter um resultado negativo da balança comercial, em 2012. O que não deixa de ser uma ironia e um paradoxo: afinal, para um Brasil que em boa parte do século XX cresceu a taxas muito elevadas e de forma continuada, agora, em plena era de um suposto neo-desenvolvimentismo, um crescimento de pouco mais de 7%, em seguida a uma retração econômica, como a observada em 2009, assusta as autoridades e as fazem traçar metas de desaceleração do crescimento…

Entretanto, o que de fato acabou por surpreender Dilma e sua equipe econômica foi, com certeza, o recrudescimento da crise internacional e especialmente a instabilidade econômica e financeira da Europa. Desse modo, depois de elevar a taxa básica de juros ao longo de todo o primeiro semestre, ao final de agosto o Banco Central se vê obrigado a inverter a mão e dar início a um processo de paulatina redução da taxa Selic.

De janeiro a julho, a taxa de juros básica foi elevada por cinco consecutivas vezes, chegando a 12,5% ao ano (em dezembro de 2010, a taxa Selic era de 10,75%). Agora, em dezembro, o Copom definiu a taxa básica em 11% ao ano, em uma terceira redução consecutiva. A preocupação se volta, novamente, para o ritmo da atividade econômica. Porém, em um sentido inverso daquele manifesto no início do ano. No terceiro trimestre do ano, a economia ficou estagnada em relação ao desempenho do segundo trimestre. Na comparação com o mesmo trimestre do ano passado, o crescimento foi de 2,1%, muito abaixo de países como a Índia (6,9%) ou a China (9,1%).

Fica claro, desse modo, que a administração macroeconômica continua refém do curto-prazo e tem como objetivo a busca de condições para a manutenção do modelo em curso, baseado no tripé câmbio flutuante/ metas de inflação/ superávit fiscal.

A aposta no mercado externo para o fechamento das nossas contas externas depende cada vez mais da dinâmica e da demanda asiática, e chinesa, por nossas commodities agro-minerais. O endividamento em títulos da União; em dólares, pelas grandes empresas, e em reais, pelas famílias, continuam em curso. E, é bom lembrar, nem a inflação, nem a sobrevalorização do real se transformaram nos bichos-papão apontados inicialmente.

No plano produtivo, o que voltamos a destacar é a forma como continuamos a assistir a entrada do capital estrangeiro e seu predomínio nos mais diferentes setores da economia, particularmente nas aquisições de terras, como reserva de valor ou em investimentos vinculados à produção de etanol e à atividade agropecuária voltada à exportação.

Pela intensa badalação que a mídia dominante, de dentro e de fora do país, assim como círculos de pressão e formação de opinião vêm fazendo em relação ao nosso país, tudo indica que o Brasil é a estrela econômica da vez. Ao menos durante esse ciclo, onde nosso país estará sediando eventos como a Copa do Mundo e as Olimpíadas. Da mesma forma que, em passado não muito recente, países como o México e a Argentina já foram apresentados como sucessos pela chamada comunidade financeira internacional.

Espero apenas que o nosso destino não nos seja tão cruel.

Paulo Passarinho é economista

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