André Singer: “A energia social não voltará atrás”

O teórico do lulismo diz que as manifestações de rua abriram um ciclo longo de mobilizações que colocarão o governo e o país diante de escolhas cruciais

GUILHERME EVELIN

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O cientista político André Singer é um festejado teórico do “lulismo” – como ele batizou o alinhamento de segmentos sociais, antes hostis ao PT, às forças políticas comandadas pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Embora surpreso com a forma como eclodiu, Singer diz que o movimento que tomou conta das ruas do Brasil estava “meio anunciado”. Ele o relaciona à ascensão de um “novo proletariado”. Nos últimos anos, diz, ele ganhou emprego e renda, mas vive ainda de forma precária. Para Singer, a emergência do movimento coloca o governo Dilma diante de uma encruzilhada. Os manifestantes pedem mais gastos públicos, enquanto o mercado cobra austeridade.

À ESQUERDA O cientista político André Singer, em sua casa em São Paulo. Para ele, as mobilizações vieram para ficar (Foto: Camila Fontana/ÉPOCA)À ESQUERDA
O cientista político André Singer, em sua casa em São Paulo. Para ele, as mobilizações vieram para ficar (Foto: Camila Fontana/ÉPOCA)

ÉPOCA – As manifestações são um abalo para o lulismo? Acabou a lua de mel da maioria da população com o PT?
André Singer –
Elas representam um possível retorno do movimento de massas, ausente no cenário político brasileiro desde, pelo menos, 1992. Ele começou a desaparecer com a derrota eleitoral de Lula em 1989, quando se encerrou um ciclo de dez anos de mobilizações. O movimento tem hoje características novas e não pode ser ainda caracterizado como um abalo, mas um desafio importante. Coincidiu com um momento complicado da economia. O lulismo enfrenta duas forças em direções contrárias. Essas manifestações tendem a ser um movimento por aumento de gasto público. E, do lado do capital, vemos pressão pelo corte dos gastos públicos. É um momento que representa um desafio para o lulismo. Não havia, nos setores que se mobilizam, uma lua de mel com o governo. Há uma forte base do lulismo no subproletariado, um setor expressivo da população, que não está na rua.

ÉPOCA – Quem está na rua?
Singer –
Minha hipótese é que as manifestações estão compostas de duas camadas sociais. Uma são os filhos da classe média tradicional, estabelecida assim há mais de uma geração, que possivelmente puxaram as manifestações. Elas ganharam adesão também do que chamo de novo proletariado. Não é uma nova classe média. São jovens que não pertencem a famílias nitidamente de classe média, mas passaram a ter emprego por causa do lulismo. Mas têm empregos precários, com alta rotatividade, más condições de trabalho e baixa remuneração. Ao longo das manifestações, a participação desse segundo grupo foi aumentando. Isso talvez explique por que, na segunda etapa, elas se expandiram pela Grande São Paulo, pelo Grande Rio e pelas cidades em torno das capitais. A segunda camada é muito mais extensa do que a primeira e mostra o potencial do movimento.

ÉPOCA – A que o senhor atribui a insatisfação que emergiu?
Singer –
O lulismo é um processo de reformismo fraco, de mudança estrutural do Brasil, mas muito lento e concentrado no subproletariado, os mais pobres. De um modo geral, esse subproletariado não está nas capitais. É mais expressivo no Nordeste ou no interior do que nas grandes capitais. O lulismo é um modelo que favoreceu essa camada e, indiretamente, também os trabalhadores urbanos, porque aumentou emprego e renda. Mas os problemas urbanos das grandes metrópoles são muito caros. Para você conseguir resolvê-los, precisa fazer investimentos gigantescos, que teriam de sair dos cofres públicos. Para isso, teria de haver um rearranjo, em matéria tributária ou de serviços da dívida, ou na forma de taxação das grandes fortunas, ou tudo isso junto. Isso não foi feito. Os problemas urbanos se acumulam e se somam à precariedade da situação do novo proletariado. A situação estava meio anunciada, porque esse setor tem condições agora de reivindicar. Na verdade, foi completamente inesperada a maneira como o movimento emergiu. Mas, em retrospecto, a equação que explica o que aconteceu é bem clara.

ÉPOCA – Por que o senhor localiza o fim do movimento de massas em 1989 – e não no impeachment de 1992?
Singer –
As manifestações pelo impeachment de Collor são uma espécie de uma última aparição daquele grande ciclo, que já terminara. O ciclo acaba em 1989, porque a derrota de Lula abriu a porta para o neoliberalismo no Brasil e quebrou a espinha dorsal da classe trabalhadora organizada, com aumento do desemprego. Houve uma diminuição expressiva no número de trabalhadores industriais nos anos 1990, seguida pela década do lulismo, onde começou a recomposição do trabalho. É um erro pensar que os movimentos sociais de massa ocorrem na depressão econômica. Eles ocorrem depois da ascensão das condições econômicas.

“Há um pacote para produzir um ajuste recessivo. As manifestações dizem: ‘Isto não!’”

ÉPOCA – As manifestações não têm liderança, não têm organização, não têm partido. Por que virariam um grande movimento?
Singer –
Há uma recusa dos partidos, dos sindicatos, das instituições tradicionais. O princípio fundamental é a descentralização. São movimentos horizontais, em que a orientação principal é não ter hierarquia. Essa horizontalidade tem uma enorme vantagem. Os movimentos são pouco propensos à burocratização, grande problema de partidos e sindicatos. Isso é extremamente saudável. Mas há uma contrapartida: eles não têm uma direção clara e centralizada. Essa característica torna esses movimentos mais difíceis de entender. No que isso vai dar? Foi desencadeada uma energia social que não voltará atrás rapidamente. O curso que ela encontrará não sei dizer. Mas acredito que outras coisas desse tipo virão.

ÉPOCA – Quais serão as consequências no sistema político?
Singer –
O novo ator impacta o sistema político, mas não o substitui. O sistema político continuará funcionando. Não deixará de existir, porque, na verdade, passamos por um momento em que esses novos movimentos não têm alternativa. Os partidos terão de incorporar coisas, dialogar com o movimento, fazer concessões, mudar. Alguns ganharão. Outros perderão. Para dar um exemplo concreto, o próprio movimento da Marina Silva é uma antecipação disso, porque ela fala aos ouvidos de parte dos manifestantes.

ÉPOCA – Marina será a grande ganhadora?
Singer –
Não digo isso, porque, embora esse movimento se caracterize pela horizontalidade, ele tem uma agenda materialista. Estamos falando da distribuição da riqueza. É isso que está em jogo: para onde vão os recursos, sejam os públicos, sejam os que transitam entre capital e trabalho. Marina lida muito mal com essa agenda materialista, porque ela quer ficar no meio. Essa posição é inviável.

ÉPOCA – Qual pode ser a consequência nas próximas eleições presidenciais? Atrapalha a reeleição da presidente Dilma?
Singer –
É impossível fazer um prognóstico. As manifestações pendem para a esquerda. O impacto sobre a candidatura Dilma dependerá de como ela lidará com essa pressão, por mais recursos para transporte, saúde, educação e segurança.

ÉPOCA – E o PT? Como será afetado?
Singer –
O PT está desafiado, com o lulismo. Como o PT tem uma importante, embora não dominante, facção de esquerda, esses setores estão diante de perguntas existenciais.

ÉPOCA – O lulismo atendeu aos anseios de consumo de parte da população. Esse modelo de crescimento não foi posto em xeque pelas manifestações, que pedem melhores serviços públicos e não mais consumo?
Singer –
Não creio que seja um problema do modelo de crescimento. Ele incluiu pessoas excluídas. Com isso, ativou a economia por baixo. Mas houve uma diminuição da margem para isso. Desde 2011, estamos num quadro complicado, que tem a ver com a crise do capitalismo iniciada em 2008. Acreditava-se que tinha sido contida em 2009. Na verdade, não conhecemos ainda o final do túnel. Se a economia tivesse continuado com um crescimento maior, haveria margem para investir mais em saúde, educação, segurança. Mas ela anda devagar. Os recursos estão mais escassos. Os juros subiram. As restrições ao capital especulativo foram retiradas. E agora há uma enorme pressão para cortes de gastos públicos. Há um pacote para produzir um ajuste recessivo na economia. De alguma maneira, as manifestações dizem: “Isto não!”.

ÉPOCA – O senhor diz que o lulismo não procurou enfrentar o capital na política econômica. Nos últimos dois anos, o governo a flexibilizou, e os resultados foram crescimento baixo e inflação mais alta, por causa dos gastos públicos. A estratégia desenvolvimentista de Dilma não deu resultados.
Singer –
Isso mesmo. Na crise mundial, o governo Dilma decidiu dar um passo à frente e modificou os termos da política neoliberal. O resultado, em crescimento, foi decepcionante. Os economistas dizem: faltou investimento. Algo na equação então falhou, porque tudo foi feito para proteger o capital produtivo brasileiro. Tenho ouvido reclamações contra o intervencionismo do governo, mas é um intervencionismo para facilitar a vida desse capital. O que não funcionou não está claro ainda. Não quero subestimar o tamanho dos problemas. Mas, se é para seguir a linha reformista, esses problemas precisam ser enfrentados para manter as mudanças. Se voltar à agenda neoliberal, não dá para fazer as mudanças.

ÉPOCA – Mas Dilma já tem recuado. Aumentou os juros e voltou ao câmbio flutuante.
Singer –
O governo tem recuado nos últimos seis meses. O capital pede um novo recuo, com o corte dos gastos públicos. Essas manifestações pedem o aumento dos gastos. Por isso, é um momento em que os desafios são sérios e cruciais. Essa é a questão: para onde o governo penderá nessa bifurcação.

ÉPOCA – Pode haver uma desestabilização do governo?
Singer –
Não creio. O governo tem capacidade de entender o que acontece e demonstrou que não está descolado. Tenho certeza de que tentará equacionar as questões.

ÉPOCA – Como resultado, as instituições mudarão?
Singer –
Sim e não. Sim, pois serão obrigadas a alguma abertura. Mas não a ponto de se desfazer. Os sistemas político e econômico continuarão em suas bases tradicionais. Pode estar se abrindo um ciclo longo, em que haverá as duas coisas. É o que acontece na Europa e mesmo em outros países, onde ocorreu a Primavera Árabe. Os movimentos lá foram enormes, mudaram o regime político. Mas, quando houve eleição, os partidos tradicionais ganharam. É o que deverá acontecer aqui. Temos, nas ruas, milhares de pessoas. Mas o eleitorado são milhões. Esses milhões é que votarão e decidirão.

A direita também disputa ruas e urnas

Charge Latuff - 2013Por Valter Pomar – 21/06/13

Quem militou ou estudou os acontecimentos anteriores ao golpe de 1964 sabe muito bem que a direita é capaz de combinar todas as formas de luta. Conhece, também, a diferença entre “organizações sociais” e “movimentos sociais”, sendo que os movimentos muitas vezes podem ser explosivos e espontâneos.

Já a geração que cresceu com o Partido dos Trabalhadores acostumou-se a outra situação. Nos anos 1980 e 1990, a esquerda ganhava nas ruas, enquanto a direita vencia nas urnas. E a partir de 2002, a esquerda passou a ganhar nas urnas, chegando muitas vezes a deixar as ruas para a oposição de esquerda.

A direita, no dizer de alguns, estaria “sem programa”, “sem rumo”, controlando “apenas”  o PIG, que já não seria mais capaz de controlar a “opinião pública”, apenas a “opinião publicada”.

Era como se tivéssemos todo o tempo do mundo para resolver os problemas que vinham se acumulando: alterações geracionais e sociológicas, crescimento do conservadorismo ideológico, crescente perda de vínculos entre a esquerda e as massas, ampliação do descontentamento com ações (e com falta de ações) por parte dos nossos governos, decaimento do PT à vala comum dos partidos tradicionais etc.

Apesar destes problemas, o discurso dominante na esquerda brasileira era, até ontem, de dois tipos.

Por um lado, no petismo e aliados, o contentamento com nossas realizações passadas e presentes, acompanhada do reconhecimento mais ou menos ritual de que “precisamos mais” e de que “precisamos mudar práticas”.

Por outro lado, na esquerda oposicionista (PSOL, PSTU e outros), a crítica aos limites do petismo, acompanhada da crença de que através da luta política e social, seria possível derrotar o PT e, no lugar, colocar uma “esquerda mais de esquerda”.

As manifestações populares ocorridas nos últimos dias, especialmente as de ontem, atropelaram estas e outras interpretações.

Primeiro, reafirmaram que os movimentos sociais existem, mas que eles podem ser espontâneos. E que alguns autoproclamados “movimentos sociais”, assim como muitos partidos “populares”,  não conseguem reunir, nem tampouco dirigir, uma mínima fração das centenas de milhares de pessoas dispostas a sair ás ruas, para manifestar-se.

Em segundo lugar, mostraram que a direita sabe disputar as ruas, como parte de uma estratégia que hoje ainda pretende nos derrotar nas urnas. Mas que sempre pode evoluir em outras direções.

Frente a esta nova situação, qual deve ser a atitude do conjunto da esquerda brasileira, especialmente a nossa, que somos do Partido dos Trabalhadores?

Em primeiro lugar, não confundir focinho de porco com tomada. As manifestações das últimas semanas não são “de direita” ou “fascistas”. Se isto fosse verdade, estaríamos realmente em péssimos lençóis.

As manifestações (ainda) são expressão de uma insatisfação social difusa e profunda, especialmente da juventude urbana. Não são predominantemente manifestações da chamada classe média conservadora, tampouco são manifestações da classe trabalhadora clássica.

A forma das manifestações corresponde a esta base social e geracional: são como um mural do facebook, onde cada qual posta o que quer. E tem todos os limites políticos e organizativos de uma geração que cresceu num momento “estranho” da história do Brasil, em que a classe dominante continua hegemonizando a sociedade, enquanto a esquerda aparentemente hegemoniza a política.

A insatisfação expressa pelas manifestações tem dois focos: as políticas públicas e o sistema político.

As políticas públicas demandadas coincidem com o programa histórico do PT e da esquerda. E a crítica ao sistema político dialoga com os motivos pelos quais defendemos a reforma política.

Por isto, muita gente no PT e na esquerda acreditava que seria fácil aproximar-se, participar e disputar a manifestação. Alguns, até, sonhavam em dirigir.

Acontece que, por sermos o principal partido do país, por conta da ação do consórcio direita/mídia, pelos erros politicos acumulados ao longo dos últimos dez anos, o PT se converteu para muitos em símbolo principal do sistema político condenado pelas manifestações.

Esta condição foi reforçada, nos últimos dias, pela atitude desastrosa de duas lideranças do PT: o ministro da Justiça, Cardozo, que ofereceu a ajuda de tropas federais para o governador tucano “lidar” com as manifestações; e o prefeito Haddad, que nem na entrada nem na saída teve o bom senso de diferenciar-se do governador.

O foco no PT, aliado ao caráter progressista das demandas por políticas públicas, fez com que parte da oposição de esquerda acreditasse que seria possível cavalgar as manifestações. Ledo engano.

Como vimos, a rejeição ao PT se estendeu ao conjunto dos partidos e organizações da esquerda político-social. Mostrando a ilusão dos que pensam que, através da luta social (ou da disputa eleitoral) seriam capazes de derrotar o PT e colocar algo mais à esquerda no lugar. 

A verdade é que ou o PT se recicla, gira à esquerda, aprofunda as mudanças no país; ou toda a esquerda será atraída ao fundo. E isto inclui os que saíram do PT, e também os que nos últimos anos flertaram abertamente com o discurso anti-partido e com certo nacionalismo. Vale lembrar que a tentativa de impedir a presença de bandeiras partidárias em mobilizações sociais não começou agora.

O rechaço ao sistema político, à corrupção, aos partidos em geral e ao PT em particular não significa, entretanto, que as manifestações sejam da direita. Significa algo ao mesmo tempo melhor e pior: o senso comum saiu às ruas. O que inclui certo uso que vem sendo dado nas manifestações aos símbolos nacionais.

Este senso comum, construído ao longo dos últimos anos, em parte por omissão e em parte por ação nossa, abre enorme espaço para a direita. Mas, ao mesmo tempo, à medida que este senso comum participa abertamente da disputa política, criam-se condições melhores para que possamos disputá-lo.

Hoje, o consórcio direita/mídia está ganhando a disputa pelo pauta das manifestações. Além disso, há uma operação articulada de participação da direita, seja através da presença de manifestantes, seja através da difusão de determinadas palavras de ordem, seja através da ação de grupos paramilitares.

Mas a direita tem dificuldades para ser consequente nesta disputa. O sistema político brasileiro é controlado pela direita, não pela esquerda. E as bandeiras sociais que aparecem nas manifestações exigem, pelo menos, uma grande reforma tributária, além de menos dinheiro público para banqueiros e grandes empresários.

É por isto que a direita tem pressa em mudar a pauta das manifestações, em direção a Dilma e ao PT. O problema é que esta politização de direita pode esvaziar o caráter espontâneo e a legitimidade do movimento; além de produzir um efeito convocatória sobre as bases sociais do lulismo, do petismo e da esquerda brasileira.

Por isto, é fundamental que o PT e o conjunto da esquerda disputem o espaço das ruas, e disputem corações e mentes dos manifestantes e dos setores sociais por eles representados. Não podemos abandonar as ruas, não podemos deixar de disputar estes setores.

Para vencer esta disputa teremos que combinar ação de governo, ação militante na rua, comunicação de massas e reconstruir a unidade da esquerda.

A premissa, claro, é que nossos governos adotem medidas imediatas que respondam às demandas reais por mais e melhores políticas públicas. Sem isto, não teremos a menor chance de vencer.

Não basta dizer o que já fizemos. É preciso dar conta do que falta fazer. E, principalmente, explicar didaticamente, politicamente, as ações do governo. Marcando a diferença programática, simbólica, política, entre a ação de governo de nosso partido e os demais.

O anúncio conjunto (Alckmin/Haddad) de redução da tarifa e a oferta da força pública feita por Cardozo a Alckmin são exemplos do que não pode se repetir. Para não falar das atitudes conservadoras contra os povos indígenas, da atitude complacente com setores conservadores e de direita, dos argumentos errados que alguns adotam para defender as obras da Copa e as hidroelétricas etc.

Para dialogar com o sentimento difuso de insatisfação revelado pelas mobilizações, não bastam medidas de governo. Talvez tenha chegado a hora, como algumas pessoas têm sugerido, de divulgarmos uma nova “carta aos brasileiros e brasileiras”. Só que desta vez, uma carta em favor das reformas de base, das reformas estruturais.

Quanto a nossa ação de rua, devemos ter presença organizada e massiva nas manifestações que venham a ocorrer. Isto significa milhares de militantes de esquerda, com um adequado serviço de ordem, para proteger nossa militância dos para-militares da direita.

É preciso diferenciar as manifestações  de massa das ações que a direita faz dentro dos atos de massa. E a depender da evolução da conjuntura, nos caberá convocar grandes atos próprios da esquerda político-social. 

Independente da forma, o fundamental, como já dissemos, que a esquerda não perca a batalha pelas ruas.

Quanto a batalha da comunicação,  novamente cabe ao governo um papel insubstituível. No atual estágio de mobilização e conflito, não basta contra-atacar a direita nas redes sociais; é preciso enfrentar a narrativa dos monopólios nas televisões e rádios. O governo precisa entender que sua postura frente ao tema precisa ser alterada já. 

Em resumo: trata-se de combinar ruas e urnas, mudando a estratégia e a conduta geral do PT e da esquerda.

Não há como deslocar a correlação de forças no país, sem luta social. A direita sabe disto tanto quanto nós. A direita quer ocupar as ruas. Não podemos permitir isto. E, ao mesmo tempo, não podemos deixar de mobilizar.

Se não tivermos êxito nesta operação, perderemos a batalha das ruas hoje e a das urnas ano que vem. Mas, se tivermos êxito, poderemos colher aquilo que o direitista Reinaldo Azevedo aponta como risco (para a direita) num texto divulgado recentemente por ele, cujo primeiro parágrafo afirma o seguinte:  ”o movimento que está nas ruas provocará uma reciclagem do PT pela esquerda, poderá tornar o resultado das urnas ainda mais inóspito para a direita”.

Num resumo: a saída para esta situação existe. Pela esquerda.

*Valter Pomar é membro do Diretório Nacional do PT

Fonte: Blog do ValterPomar 

Protesto contra Lula e PT reúne 20 pessoas na avenida Paulista

DE SÃO PAULO

Uma manifestação contra o ex-presidente Lula e o PT reuniu cerca de 20 pessoas na avenida Paulista, em frente ao Masp (Museu de Arte de São Paulo), na tarde deste domingo (13) em São Paulo.

O encontro, marcado via redes sociais, tinha como um dos lemas “Mexeu com o Brasil, mexeu comigo. Por um Brasil sem LULA/PT” e associava Lula ao processo do mensalão.

Os manifestantes entoavam gritos e seguravam faixas contra o partido e o ex-presidente Lula.

O professor Antonio da Silva Ortega, 60, dizia ter nojo do PT. “Estou aqui porque não quero que o Brasil vire uma Venezuela ou Cuba, mas não sou de nenhum partido.”

A professora aposentada Miriam Tebet veio de Ribeirão Preto para a manifestação. Descrevendo-se como “PTfóbica”, afirmava no início do evento que mais pessoas poderiam comparecer. “Mas não esqueço o país em que vivo”, completou.

Cerca de 1.800 pessoas haviam confirmado presença no protesto no Facebook. A “OCC – Organização de Combate à Corrupção” foi uma das principais organizadoras do evento.

A psicóloga Marta Abdo, 55, passava pelo local e disse estranhar a “timidez” dos manifestantes. “Parece meia dúzia de pessoas paradas, sem organização alguma.”

A auxiliar de almoxarifado Ângela Pires da Slva, 25, afirmou que “achava engraçado aquele pessoal parado”.

Já o aposentado Carim Facuri, 61, disse que via no protesto “uma bela surpresa a favor da honestidade”.

O vendedor de artesanato Antonio José da Silva, 48, dizia acreditar que o protesto fora organizado por algum partido antiPT.

Protesto contra Lula

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Eduardo Knapp/Folhapress

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Um grupo de cerca de 20 pessoas fez neste domingo (13) um protesto contra o ex-presidente Lula e o PT. Eles organizaram o ato pela rede social Facebook. Na internet, cerca de 1800 afirmaram que iriam participar do ato que ocorreu na avenida Paulista

No aniversário da cidade, manifestantes encurralam o prefeito de São Paulo

do Passa Palavra

Um cordão foi feito ao redor da Catedral para evitar uma típica saída “à francesa”

img_3794Na manhã desta quarta-feira, 25 de janeiro, aniversário de 458 anos da cidade de São Paulo, o prefeito Gilberto Kassab (PSD) foi encurralado por manifestantes ao tentar sair da Catedral da Praça da Sé. O governador do estado, Geraldo Alckmin (PSDB), também era esperado; no entanto, não compareceu. O protesto“Especulação extermina: basta de trevas na Luz e em São Paulo!”, que reuniu ao longo do percurso mais de mil pessoas e representantes de diversas organizações e movimentos sociais, foi uma resposta às recentes ações do governo municipal e estadual contra a Favela do Moinho, a operação “Centro Legal” na Cracolândia e a reintegração de posse de Pinheirinho, em São José dos Campos.

A concentração da manifestação começou às 9 horas na Praça da Sé e, de acordo com as orientações dadas pelo microfone, as entradas da Catedral foram bloqueadas por grupos de 150 manifestantes. Enquanto a cerimônia não se encerrava, os manifestantes esticavam faixas, gritavam palavras de ordem e denunciavam as repressões que ocorreram recentemente. Um cordão foi feito ao redor da Catedral para evitar uma típica saída “à francesa”.

Por volta das 10h 30 ocorreu a primeira tentativa de saída para chegar até o carro oficial. Houve empurra-empurra e o prefeito recuou para a igreja. Na segunda tentativa, a polícia escoltou Kassab até à porta do carro. Os manifestantes que bloqueavam a rua foram fortemente reprimidos com gás de pimenta, bombas de efeito moral e cassetetes. Pelo menos cinco pessoas ficaram feridas. Não houve relatos de detenções.

img_3785Apesar da fuga do prefeito e da ausência do governador, o ato continuou. Aproximadamente mil pessoas marcharam pacificamente da Praça da Sé até o prédio da Prefeitura, na Rua Libero Badaró, aonde foram feitas intervenções dos diversos setores e organizações da esquerda condenando as ações do governo. Por volta das 13h, uma parte da manifestação seguiu até à área da Cracolândia, onde houve uma programação cultural para o dia.

A campanhas de solidariedade aos moradores de Pinheirinhos promoverá em breve novas ações, além da coleta de doações.

Surpreendente adesão ao #StopSOPA

As pessoas não querem que a Internet se transforme numa grande rede de TV a cabo.

O blackout contra os projetos SOPA e PIPA, chamado pela Wikipedia e pelo Reddit,  obteve a adesão massiva de sites norte-americanos. Surpreendeu a todos que o protesto obteve a adesão solidária de centenas de sites brasileiros. Este blog orgulha-se de ter participado da organização da manifestação contra a censura e o bloqueio da Internet.

Durante quase todo o dia a hashtag #StopSOPA liderou não somente os comentários no Twitter mundial como no Brasil. Para ser bem preciso, o protesto na Internet brasileira chegou antes ao Trends do que no World. Isto demonstra que a sociedade brasileira está atenta na defesa da liberdade de expressão e de navegação na rede.

A seguir alguns exemplos de sites que aderiram ao blackout da Internet no dia 18/01/2012 ficando offline.

Durante quase todo o dia 18/01 o blog Trezentos satiriza o projeto SOPA com a imagem do Rambo, versão digital.

Acima a adesão do site oficial do cantor e compositor hacker Gilberto Gil.

Wikipedia, em língua inglesa, fica o dia todo fora da rede. Se os projetos SOPA e PIPA se tornarem leis, a Wikipedia terá que apagar os enlaces e links para qualquer site. Isto tornará inviável e inverídica a enciclopédia colaborativa.

Greenpeace (site mundial) adere ao blackout, pois se o projeto SOPA for aprovado muitas atividades de denúncia de devastação ambiental serão acusadas de violação de marcas, um tipo de propriedade intelectual.

A rede social livre Identica, que reune geeks, nerds, hackers e desenvolvedores de software livre (com milhares de usuários) deixou claro em suas páginas que desaprova o #SOPA. Veja o print da página do Identica logo acima.

Depois postaremos aqui mais exemplos e analises do primeiro blackout da internet contra os abusos dos obscuros projetos de lei.

Parabéns a todos! O protesto foi massivo, bem humorado, contundente e teve uma adesão VITORIOSA!

#StopSOPA

Por Sérgio AmadeuLeia mais (1)

BLACKOUT

NESTA QUARTA, DIA 18/01, PROTESTE CONTRA AS
TENTATIVAS DE CENSURA E BLOQUEIO DA INTERNET
TIRE SEU BLOG DA REDE DAS 8HS ÀS 20HS
A INDÚSTRIA DO COPYRIGHT QUER APROVAR DUAS LEIS NO CONGRESSO NORTE-AMERICANO
(SOPA E PIPA) QUE VISAM IMPEDIR A LIBERDADE DE EXPRESSÃO, CRIAÇÃO E RECOMBINAÇÃO SOB O ARGUMENTO DE COMBATER A PIRATARIA.
Veja o tutorial: como tirar […]

Em 17 jan 2012 por Sérgio AmadeuLeia mais (2)

Protesto em Wall Street termina com 700 presos

DENISE CHRISPIM MARIN, CORRESPONDENTE – Agência Estado

O maior protesto da organização Ocupar Wall Street terminou hoje com a prisão de 700 dos cerca de 1.500 manifestantes que bloqueavam a ponte do Brooklin, um dos principais acessos a Manhattan, em Nova York. Nas últimas duas semanas, esse movimento pacífico contra os excessos econômicos e políticos das grandes corporações e do mercado financeiro dos Estados Unidos manteve-se concentrado no Parque Zucotti (ou Liberdade), na vizinhança da Bolsa de Valores de Nova York.

Na tarde de sábado, o protesto tomara as vias expressas da ponte.

Respaldada pelo prefeito de Nova York, Michael Bloomberg, a reação da polícia chamou ainda mais a atenção do país para o movimento. Trata-se de uma versão americana dos protestos em favor da democracia, no mundo árabe, e dos acampamentos contra o ajuste fiscal e a recessão, nos países europeus com risco de quebra.

Nos EUA, o foco está na ação de grandes companhias e de agentes do mercado financeiro, supostamente beneficiados pela crise de 2008. Assim como nos países árabes e na Europa, não há lideranças, e as decisões são ditadas pelo voto da maioria em assembleias, das quais qualquer um pode participar.

A ocupação simbólica de Wall Street foi acompanhada por manifestações similares em Washington, em Los Angeles, em Boston, em Chicago, em Albuquerque e em Portland, realizadas no último sábado. “É chegada a hora de os 99% serem ouvidos. Somos sindicatos, estudantes, professores, veteranos, famílias, empregados e desempregados. Somos de todas as raças, sexos e credos. Nós somos a maioria. Nós somos os 99%. E não vamos mais continuar silenciosos”, resume o Ocupar Wall Street em sua página na internet.

Nas últimas duas semanas, cerca de 300 manifestantes do Ocupar Wall Street foram detidos durante os protestos no Parque Zucotti, aos quais se juntaram celebridades, como a atriz Susan Sarandon e o cineasta Michael Moore, e veteranos dos protestos contra a Guerra do Vietnã nos anos 70. Ontem, porém, a polícia de Nova York foi acusada de ter permitido o acesso dos manifestantes à ponte sobre o East River para, horas depois, iniciar a trabalhosa e demorada operação de prisão das 700 pessoas.

Os presos foram levados em ônibus para as delegacias, com as mãos presas por algemas de plástico. Liberados em seguida, responderão à Justiça por desordem pública. “A polícia fez exatamente o que se esperava dela. É muito fácil conseguir uma permissão (para uma marcha ou manifestação)”, defendeu Bloomberg.

A prisão das centenas de manifestantes, entretanto, acabou sendo comparada ao pequeno número de encarcerados entre os responsáveis pela crise financeira de 2008. “A economia mundial tem sido arruinada por esses negociantes gananciosos. Porém, são os manifestantes que vão para a cadeia”, disse o escritor Salman Rushdie, por meio do Twitter.

Informativo sobre a marcha de 07/09 do movimento apartidário caras pintadas contra o PT.

@Selma_Lua

Vestimenta: maquiagem, camiseta preta marcas Emporio Armani ou Dolce & Gabbana
Sapato de sua preferencia desde que o valor não seja inferior a R$500,00
Capacete ou laquê reforçado contra bolinhas de papel

Kassab irá disponibilizar uma via da Paulista para ciclovia
Serão distribuídos vale brindes da Daslu
CET disponibilizara serviço de manobrista
PM de SP servirá prosecco para quem deixar uma “gorda caixinha”
Adquira logo seu sem parar pq serão instalados 10 pedágios no trecho Rua Itapeva até Peixoto Gomide
Linha verde do metrô será fechada para evitar acúmulos de pobres no local

Atenção o evento será altamente explorado pela mídia, se alguém se atrever em fazer alguma denuncia sobre corrupção no governo do estado será considerado Petralha, retirado do evento pela própria mídia e perderá seu vale brinde Daslu.

Divirtam-se!

Para onde vão as multidões?

DEBATE ABERTO – Carta Maior

Protestos no Oriente Médio, na Europa e no Chile têm como motivação principal a disputa por quem paga a conta da crise mundial. Mas as generalizações param por aí. Há especificidades importantes em cada país. Acima de tudo é preciso atentar para o sentido das manifestações

Gilberto Maringoni

O ano de 2011 pode ficar marcado como aquele em que as multidões voltaram às ruas de forma vigorosa em diversas partes do mundo. O ano começou com o levante na Tunísia, que derrubou o presidente Ben Ali, passou pelas maciças concentrações na praça Tahrir, que culminaram com a queda de Hosni Mubarak e espalharam-se pela Argélia, Iêmen, Bahrein, Kwait e alcançaram Israel. A Líbia não entra na conta, pois o aspecto dominante na queda de Kadafi não foram inquietações internas, mas a invasão da OTAN. Milhões também se mobilizaram na Grécia, Espanha, Islândia, Portugal e Inglaterra. No Chile, após mais de dois meses de enormes protestos, os trabalhadores se uniram aos estudantes e deflagraram uma inédita greve geral, com a participação de diversas categorias profissionais.

Desde 1968 o mundo não assistia uma onda de levantes e marchas populares de tamanha envergadura. Ao mesmo tempo, apesar da proximidade no tempo, é difícil falar em “onda global” de protestos. Avaliar que imensos contingentes decidiram “votar com os pés”, numa expressão de Lênin, em protesto contra a “globalização neoliberal” é uma generalização de pouca valia. Em última instância tudo pode ser debitado no grande cesto da crise internacional, da pauperização acelerada da população e da submissão dos governos ao chamado “mercado”.

No entanto, mais do que nunca, olhar para os detalhes é fundamental. Até porque os países atingidos são muito distintos entre si.

Periferia e centro
As reações populares atingiram a periferia e o centro do sistema. Há diferenças mesmo entre os países do Oriente Médio. O Egito (84 milhões de habitantes, PIB de US$ 579 bilhões, PIB per capita de US$ 7,2 mil e 101º. no IDH-ONU) e a Tunísia (10,5 milhões de habitantes, PIB de US$ 53,2 bilhões, PIB per capita de US$ 5 mil e 81º.no IDH-ONU) são países pobres, com alta concentração de renda e socialmente instáveis. A Espanha (47 milhões de habitantes, PIB de US$ 1,48 trilhões, PIB per capita US$ 32 mil, 20º. no IDH ONU) e a Inglaterra (51 milhões de habitantes, PIB de US$ 2,27 trilhões, PIB per capita US$ 39,5 mil e 28º no IDH ONU) representam o chamado “mundo rico”. Israel (7,5 milhões de habitantes, PIB US$ 210 bilhões, PIB per capita de US$ 28 mil e 15º no IDH ONU) e Grécia (12 milhões de habitantes, PIB de US$ 310 bilhões, PIB per capita de US$ 27 mil e 22º no IDH ONU) apresentam formalmente indicadores próximos aos da Europa Ocidental. Todos os dados têm por fonte o FMI (http://www.imf.org/external/pubs/ft/weo/2011/01/weodata/download.aspx) e a ONU (http://hdr.undp.org/en/media/HDR_2010_PT_Tables_reprint.pdf).

Na Tunísia e no Egito, o empobrecimento das maiorias, com altíssimas taxas de desemprego, foi rapidamente associado às antigas ditaduras locais. Na Grécia, o alvo visível foi o Parlamento. Na Espanha, aconteceu o fenômeno mais preocupante: após gigantescas manifestações que se arrastaram por várias semanas nas grandes cidades, a direita venceu as eleições municipais de 22 de maio. O Partido Popular obteve 37,58% dos votos contra 27,81% dos votos do Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE), de José Luiz Zapatero. 33,7% dos eleitores não foram votar, o que equivale a cerca de 11 milhões de pessoas. Madri, entre outras, agora está nas mãos de conservadores que não escondem suas simpatias pela ditadura franquista (1938-75). Vários ativistas fizeram campanha pelo direito de não votar, como forma de protesto.

No caso inglês, os protestos aconteceram em regiões pobres da capital e de grandes cidades, com forte concentração de imigrantes. Ali o quadro se configura como uma grande catarse social diante de uma situação de precarização prolongada.

Forças organizadas
Nas ditaduras do Oriente Médio, os longos anos de repressão impediram o surgimento de forças populares organizadas de grande envergadura.

Expressão disso é que a formidável ebulição da praça Tahrir não apresentava lideranças claras. Um dos que buscou, sem sucesso, ficar a cavaleiro da situação foi o diplomata Mohamed El Baradei, de regresso ao país depois de três décadas no exterior. Como o Facebook foi um dos meios de comunicação dos rebeldes, chamaram até o representante local da rede social para falar à multidão. Entre outras organizações, a Irmandade Muçulmana foi acusada de estar por trás de tudo. Nenhum dos três atores parecia representar uma síntese orgânica da rebelião. Mesmo assim, multidões voltaram à praça nas últimas semanas.

O caso egípcio e o espanhol foram saudados por alguns como exemplo de mobilização horizontal, sem burocracias partidárias ou sindicais a tirar proveito da situação. O que parece ser uma vantagem tem se afigurado como problema. O viés contra a política institucional, no caso espanhol é claro. O desgaste dos partidos políticos – imersos em financiamentos milionários de campanha que atrelam governos cada vez mais a interesses privados – afasta o debate de alternativas reais às disputas sociais.

Socialismo conservador
O que seria um hipotético partido de esquerda, o PSOE, aplica desde os anos 1980 as medidas ultraliberais na Espanha com maior afinco que a direita tradicional. Daí o desalento e o afastamento da juventude em relação à política institucional. Várias das demandas clamam por uma democracia direta, acima de partidos e organizações tradicionais. Nunca parece ter sido tão grande a distância entre as ruas e o poder político, formalmente democrático.

Apesar do viés preocupante, não há dúvidas que as mobilizações têm representado enorme alento em um continente tomado por governos de direita e socialmente regressivos.

Uma lógica política institucionalizada só é mudada em casos extremos de rupturas por forças que se sobreponham ao status quo. Apesar da palavra “revolução” ter sido usada à exaustão para classificar os eventos árabes e europeus, não parece haver nada lá que se aproxime de algo dessa magnitude.

Diferencial chileno
O caso chileno parece ter certa distinção em relação aos anteriores. Isso se dá não apenas pela impressionante envergadura das atividades, mas por seu grau de organização. Não se trata mais de jornadas estudantis, mas de uma onda de protestos que passou a envolver a maioria dos trabalhadores urbanos, com forte apoio da opinião pública. A expressão disso foi a greve geral de 24 e 25 de agosto.

Na cabeça das agitações estão a Federação de Estudantes do Chile (Fech) e entidades do funcionalismo público (dirigidas majoritariamente pelo Partido Comunista) e a Central Unitária dos Trabalhadores (hegemonizada pelo Partido Socialista). Vale notar que a CUT sofreu, nos últimos anos, um processo de divisões e defecções por conta de seu apoio aos governos da Concertação (aliança PS-Democracia Cristã), que dirigiu o país entre 1990 e 2010 e deixou intocadas as estruturas econômicas da ditadura pinochetista (1973-89). A adesão da Central às manifestações, demandando mudanças na legislação trabalhista da ditadura, é também uma forma de superar seus desgastes.

O que era inicialmente um protesto contra altas taxas das universidades, todas particulares, se transformou em demanda contra a privatização dos serviços públicos e contra a crescente desigualdade social. Com 17 milhões de habitantes, PIB de US$ 162 bilhões, PIB per capita de US$ 9,5 mil e 44º lugar no IDH da ONU, o Chile é um dos que apresenta menor investimento público em saúde (2,2%) na América do Sul. O desemprego atingiu o pico de 9,7% em 2009.

Nada indica que o Chile fará uma revolução a partir das manifestações. A marca distintiva é que elas parecem concentrar suas energias nas organizações existentes e consegue potencializar a força dos protestos.

Limites do espontaneísmo
É sempre bom lembrar a história brasileira dos anos 1980-90 para ver as possibilidades da organização política e social e os limites das manifestações espontâneas e com demandas vagas, saudadas por alguns como “democráticas” e “não burocráticas”.

O Brasil dos anos 1980 assistiu às maiores mobilizações de massa de sua história. O movimento estudantil, as greves operárias e as Diretas Já geraram saldos organizativos que se materializaram na construção de partidos de esquerda – PT incluído – entidades democráticas – UNE, CUT, MST entre outras – e mudanças sensíveis expressas na Constituição de 1988. Não se discute aqui o transformismo conservador vivido por parcela desses organismos nos anos recentes. Havia demandas claras por democracia e conquista de direitos sociais, em boa medida vitoriosas.

No início da década seguinte, multidões voltaram às ruas. Dessa vez, o alvo eram os desmandos do governo Collor. A voz das ruas falou mais alto e o presidente teve de renunciar em 2 de outubro de 1992. No dia seguinte, houve eleições municipais em todo o país. Em São Paulo, a população deu vitória ao candidato da direita, Paulo Maluf, que enfrentava Eduardo Suplicy, do PT, agremiação que estivera à frente dos protestos. Guardadas as proporções, Collor e Maluf eram expressões do mesmo projeto político.

Os resultados eleitorais ainda suscitam polêmicas. Mas no centro estava o fato de a campanha contra Collor foi realizada com base num moralismo anticorrupção que, embora indignasse a população, não deixou saldos políticos. Sobre o projeto ultraliberal do governo, quase nada foi dito.

No Oriente Médio governos foram derrubados e na Europa os indignados podem voltar a marchar. Tomara que a disputa entre no decisivo terreno da política.

Gilberto Maringoni, jornalista e cartunista, é doutor em História pela Universidade de São Paulo (USP) e autor de “A Venezuela que se inventa – poder, petróleo e intriga nos tempos de Chávez” (Editora Fundação Perseu Abramo).

Veja as fotos dos Protestos em Israel

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Coordenação dos Movimentos Sociais realiza protesto contra acordo do governo com as teles!

Do Blog Escrevinhador

Os rumos do Plano Nacional de Banda Larga desagradam os movimentos sociais. Segundo as organizações, os acordos fechados com as empresas de telecomunicações não atendem a uma série de itens considerados essenciais para a expansão do acesso à internet no Brasil.

Para marcar sua insatisfação, os movimentos realizarão protesto, nesta segunda feira, em São Paulo. Convocado pela Coordenação dos Movimentos Sociais (CMS), o ato vai reafirmar que as organizações querem banda larga de qualidade, barata e para todos.

O ato será segunda-feira (15) às 19h, no Sindicato dos Engenheiros (rua Genebra, 25. Próximo ao Metrô Anhangabaú).

Abaixo a íntegra do manifesto, publicado no site da CUT:

Banda larga é um direito seu!  Por uma internet rápida e de qualidade para todos e todas

Sem controle de tarifas, continuidade ou metas de universalização para o acesso à internet, o acordo fechado pelo Ministério das Comunicações com as empresas de telecomunicações vai na contramão da democratização dos serviços.

Os ‘termos de compromisso’ assinados são completamente insuficientes para os usuários que continuarão pagando caro pelo uso de uma internet lenta e concentrada nas faixas de maior poder aquisitivo.

Além de inaceitável, o acordo com as teles representa a negação do próprio Plano Nacional de Banda Larga (PNBL) e das diretrizes aprovadas na Conferência Nacional de Comunicação (Confecom), que apontavam para um maior protagonismo do Estado e para o fortalecimento da Telebrás, essenciais para fazer da internet um direito de todos, e não privilégio de alguns. Afinal, mais do que lazer e diversão, a internet é um instrumento fundamental para o desenvolvimento nacional e a inclusão social.

Venha lutar conosco por uma banda larga de qualidade e para todos e todas, prestada em serviço público, com expansão constante das redes e universalização progressiva.

O que está em jogo são os direitos, o presente e o futuro do povo brasileiro.

Junte-se a nós!

O capitalismo bestial ataca nas ruas (via @IHU)

O thatcherismo despertou os instintos bestiais do capitalismo (o “espírito animal” do empreendedor, como o chamam timidamente) e, desde então, nada surgiu que os domasse. Destruir e queimar é hoje a palavra de ordem das classes dominantes, de fato, em todo o mundo. Todos, não só os jovens agitadores, devem ser responsabilizados. O capitalismo bestial deve ser levado a julgamento por crimes contra a humanidade, tanto quanto por crimes contra a natureza. O comentário é de David Harvey em artigo publicado no blog do autor e traduzido e reproduzido pelo sítio esquerda.net, 14-08-2011.

Eis o artigo.

“Adolescentes niilistas e bestiais”. Foi como o Daily Mail os apresentou: os jovens enlouquecidos, vindos de todas as vias da vida, que correram pelas ruas sem pensar, atirando desesperadamente tijolos, pedras e garrafas contra os polícias, saqueando aqui, incendiando ali, levando as autoridades a uma também enlouquecida caçada de salve-se quem puder/agarre o que conseguir, enquanto os jovens iam alterando os seus alvos estratégicos, saltando de um para outro.

A palavra “bestial” saltou-me à vista. Lembrou-me que os communards em Paris em 1871 foram mostrados como animais selvagens, como hienas, que mereciam ser (como foram, em vários casos) sumariamente executados, em nome da santidade da propriedade privada, da moralidade, da religião e da família. Mas em seguida a palavra trouxe-me outra associação: Tony Blair atacando os “média bestiais”, depois de ter vivido durante tanto tempo confortavelmente alojado no bolso esquerdo de Rupert Murdoch, até que Murdoch meteu a mão no bolso direito e de lá tirou David Cameron.

Evidentemente haverá o debate histérico de sempre entre os sempre prontos a ver a agitação das ruas como questão de pura, simples e imperdoável criminalidade, e os ansiosos por contextualizar eventos em termos de polícia incompetente; de eterno racismo e injustificada perseguição aos jovens e às minorias; de desemprego em massa entre os jovens; de pauperização incontrolável da sociedade; de uma política autista de austeridade que nada tem a ver com a economia e tudo tem a ver com a perpetuação e a consolidação da riqueza e do poder individuais. Haverá até quem condene o sem sentido e a alienação de tantos trabalhos e empregos e tal desperdício da vida de todos os dias, de tão imenso, mas desigualmente distribuído, potencial para o florescimento humano.

Se tivermos sorte, haverá comissões e relatórios que dirão tudo, outra vez, que já foi dito sobre Brixton e Toxteth nos anos Thatcher. Digo “sorte”, porque os instintos bestiais do atual primeiro-ministro parecem tender mais a mandar usar canhões de água, a convocar a brigada do gás lacrimogêneo e a usar balas revestidas de borracha, ao mesmo tempo em que ele untuosamente pontifica sobre a perda da bússola moral, o declínio da civilidade e a triste deterioração dos valores da família e da disciplina entre os jovens sem lar.

Mas o problema é que vivemos em sociedade na qual o próprio capitalismo se tornou desenfreadamente fera. Políticos-feras mentem nos gastos, banqueiros-feras assaltam a bolsa pública até ao último vintém, altos executivos, operadores de hedge fundse génios do lucro privado saqueiam o mundo dos ricos, empresas de telemóveis e cartões de crédito cobram misteriosas tarifas nas contas de todos, empresas de retalho aumentam os preços, por baixo do chapéu artistas vigaristas e golpistas aplicam os seus golpes até entre os mais altos escalões do mundo corporativo e político.

Uma economia política de saque das massas, de práticas predatórias que chegam ao assalto à luz do dia, sempre contra os mais pobres e vulneráveis, os simples e desprotegidos pela lei – isso é hoje a ordem do dia. Alguém ainda crê que seja possível encontrar um capitalista honesto, um banqueiro honesto, um político honesto, um comerciante honesto ou um delegado de polícia honesto? Sim, existem. Mas só como minoria, que todos os demais consideram idiotas. Seja esperto. Passe a mão no lucro fácil. Fraude, roube! A probabilidade de ser apanhado é baixa. E em qualquer caso, há muitos meios para proteger a fortuna pessoal e impedir que seja tocada pelos golpes das corporações.

Tudo isso, dito assim, talvez choque. Muitos de nós não vemos, porque não queremos ver. Claro que nenhum político se atreve a dizer estas coisas e a imprensa só publicaria, se algum dia publicasse, para escarnecer de quem dissesse. Mas acho que todos os que correm pelas ruas agitando a cidade sabem exatamente a que me refiro. Estão fazendo o que todos fazem, embora de modo diferente – mais flagrante, mais visível, nas ruas. O thatcherismo despertou os instintos bestiais do capitalismo (o “espírito animal” do empreendedor, como o chamam timidamente) e, desde então, nada surgiu que os domasse. Destruir e queimar é hoje a palavra de ordem das classes dominantes, de fato, em todo o mundo.

Essa é a nova normalidade sob a qual vivemos. Isso deveria preocupar o presidente do inquérito que rapidamente será nomeado. Todos, não só os jovens agitadores, devem ser responsabilizados. O capitalismo bestial deve ser levado a julgamento por crimes contra a humanidade, tanto quanto por crimes contra a natureza.

Infelizmente, isso é o que os agitadores nem vêem nem exigem. Tudo conspira para nos impedir de ver ou exigir exactamente isso. Por isso o poder político tão facilmente se traveste na roupagem da moralidade e de uma razão repugnante, de modo que ninguém veja a corrupção nua e a irracional estupidez.

Mas há réstias de esperança e luz em todo o mundo. O movimento dos indignados na Espanha e na Grécia, os impulsos revolucionários na América Latina, os movimentos camponeses na Ásia, todos esses começam a ver através da imundície que o capitalismo global, predatório, bestial lançou sobre o mundo. O que ainda falta para que todos vejamos e comecemos a agir? Como se poderá começar tudo outra vez? Que rumo tomar? As respostas não são fáceis. Mas uma coisa já se sabe: só chegaremos às respostas certas, se fizermos as perguntas certas.

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Presos pelos distúrbios em Londres já somam 1.401

O número de pessoas detidas por causa dos distúrbios ocorridos em Londres entre o sábado (6 de agosto) e a terça-feira (9 de agosto) soma agora 1.401, dos quais 808 já foram processados, indicam dados da Scotland Yard (Polícia Metropolitana de Londres).

O número inclui mais 200 detenções com relação ao levantamento da véspera. Com esse aumento, somam quase 1,9 mil os detidos no país pela onda de violência.

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A Polícia continua divulgando imagens dos “arruaceiros” e saqueadores gravadas pelas câmeras de segurança e pede aos cidadãos que os identifiquem e ajudem a localizá-los para detê-los. Segundo as forças de segurança, o número de prisões poderia chegar aos três mil graças às novas identificações.

Os juizados londrinos e de outras cidades da Inglaterra continuam neste fim de semana tomando depoimento dos detidos.

Entre eles estão os dois processados pela morte de três muçulmanos em Birmingham, que foram atropelados quando patrulhavam um bairro da cidade para protegê-lo dos distúrbios.

Trata-se de um adolescente de 17 anos e um jovem de 26 anos, que desde esta manhã depõem diante de magistrados em Birmingham.

Por envolvimento neste fato foram detidos ao todo cinco jovens, embora só os dois tenham sido acusados diretamente pelo homicídio.

Esta prevista uma manifestação em Birmingham em protesto pelas três mortes. O tio de dois dos falecidos no sábado considerou o ato puramente criminoso, sem relação com raça ou religião das vítimas.

A manifestação de Birmingham se une a outras manifestações em áreas afetadas pelos distúrbios, como a que ocorreu no sábado no bairro londrino de Tottenham.

Polícia rebate críticas de Cameron e diz que governo não teve papel relevante no combate aos distúrbios no Reino Unido

O GloboCom agências internacionais

O premier David Cameron passa por um policial da  10 Downing Street , em Londres - Reuters

LONDRES – Os recentes distúrbios sociais em Londres colocaram em rota de colisão os chefes de polícia e o governo britânico depois que o premier David Cameron criticou o baixo número de agentes destacados para combater a violência. O chefe da Scotland Yard, Tim Godwin rejeitou as críticas, afirmando que a tática de policiamento que restaurou a calma no país foi uma decisão da polícia.

– Após um evento como este, as pessoas sempre fazem comentários, mesmo não tendo estado lá – alfinetou o comissário. – O que posso dizer é que, levando em conta as cenas sem precedentes que encontramos em Londres, tenho alguns dos melhores comandantes do mundo, que mostraram grande coragem. A prova disso é que fomos capazes de cortar este mal pela raiz em alguns dias. A questão em torno dos números, a questão em torno da tática, são todas decisões da polícia e são feitas por meus comandantes de polícia e por mim mesmo.

As críticas mais duras ao governo couberam ao presidente da Associação dos Chefes de Polícia, Hugh Orde. Em entrevista à BBC, ele afirmou que foram os policiais, e não os políticos, que implementaram a abordagem “mais robusta”. Para Orde, a volta antecipada de Cameron a Londres, depois do cancelamento de suas férias, foi “irrelevante”.

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O oficial também questionou a alegação da ministra do Interior, Teresa May, de que foi sua a decisão de aumentar o efetivo policial nas ruas. Para ele, a ministra não tinha “qualquer poder” para isso.

– A tática mais robusta de policiamento que foi vista não foi em função de uma interferência política, mas em função do número (de policiais) disponível que permitiu aos chefes de polícia mudar a tática – afirmou Orde.

Morre a quinta vítima dos distúrbios

Enquanto isso, um jovem de 22 anos foi preso pelo assassinato de Richard Mannington Bowes, um homem de 68 anos que foi atacado por criminosos quando tentava apagar um incêndio durante os distúrbios no bairro londrino de Ealing. Bowes estava internado em estado grave, mas não resistiu aos ferimentos e morreu na noite de quinta-feira. Esta foi a quinta morte em decorrência dos conflitos sociais.

o presidente da Associação dos Chefes de Polícia, Hugh Orde - AFP

Os tribunais britânicos continuaram a funcionar durante a madrugada para agilizar os processos contra os detidos nos distúrbios. A Scotland Yard já efeutou 1.047 prisões desde que os tumultos começaram no último sábado. Destes, 584 já foram julgados.

Na entrevista, Orde afirmou que a polícia enfrentou uma “situação sem precedentes, de circunstâncias únicas”.

– O fato de os políticos terem decidido voltar (das férias) é irrelevante em termos da estratégia que estamos desenvolvendo.

O policial ainda criticou os cortes no orçamento da corporação anunciados pelo governo.

– Precisamos ter uma conversa muito honesta com o governo sobre o que vamos ter que parar de fazer se quisermos manter a linha de frente de prestação de serviços nos níveis atuais – apontou ele. – Os cortes de 20% no período gastos atual vai levar a menos oficiais de polícia, devemos ser muito claros sobre isso.

A polícia britânica se prepara para ocupar as ruas nesta sexta-feira, buscando evitar que o maior consumo de álcool no fim de semana leve ao reinício dos distúrbios. Steve Kavanagh, subcomissário-assistente da Polícia Metropolitana, disse que 16 mil agentes, em vez dos 2.500 habituais, permanecerão a postos em Londres, na sua maior mobilização em tempos de paz.

Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/mundo/mat/2011/08/12/policia-rebate-criticas-de-cameron-diz-que-governo-nao-teve-papel-relevante-no-combate-aos-disturbios-no-reino-unido-925119663.asp#ixzz1UpEIK3Ch
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Rebeldes de Londres não são “ladrões”

Por Gianni Carta, na revista CartaCapital:

A onda de violência na Grã-Bretanha foi provocada por um bando de “ladrões”´ e “doentes”. Numerosos pertencem a gangues de jovens encapuzados, os hoodies. Palavras do primeiro-ministro britânico, David Cameron, em sessão extraordinária no Parlamento, nesta quinta-feira 11. Em miúdos, os ladrões, ou doentes, ou quem sabe ladrões doentes encapuzados, não têm uma agenda. Só querem saquear.

Foram raros os articulistas britânicos a questionar o discurso simplista do primeiro-ministro conservador. Para minha surpresa, até colunistas de diários de esquerda, como o The Independent, concordaram com Cameron. Esses escribas não levaram em conta como a maior recessão desde os anos 1930 e o programa de austeridade implementado pelo governo suscitaram a erosão da qualidade de vida das classes médias e pobres. Também ignoraram o fato de os integrantes de minorias serem os mais afetados pela crise e pelo programa de austeridade. Colunistas da imprensa brasileira adotaram, acríticos, a fórmula de Cameron: os rebeldes são ladrões.

Cameron, vale exprimir, está atravessando a crise mais grave desde que assumiu o cargo, 15 meses atrás. Teve de encurtar suas férias na Toscana, e, ao chegar a Londres, vestiu a camisa do premier linha-dura. Em grande parte, adotou essa postura devido à sua imagem negativa nas pesquisas. Em uma delas, a maioria das 2.534 pessoas interrogadas (57%) revelou-se insatisfeita com a lenta reação do primeiro-ministro. Na mesma enquete, a maioria dos britânicos (42%) estimou que as manifestações estão ligadas a comportamentos criminosos. E apenas 8% dos interrogados acham que a onda de violência é consequência do programa de austeridade. Criticado por ter tido de cortar 16.200 policiais por conta do programa de austeridade, Cameron cogita usar o exército se houver novos protestos.

Nas revoltas que sacudiram a França no final de 2005, os jovens também não tinham uma agenda. Como os ingleses, saquearam lojas e supermercados. Adotaram, ainda, a prática de incendiar automóveis. Na verdade, o problema, como sempre nessas revoltas a assolar a Europa, é muito mais profundo. Além de ter raízes na recessão, a questão do racismo sempre entra na equação. Na Grã-Bretanha, os conflitos tiveram início dois dias depois de a Scotland Yard matar Mark Duggan, um negro de 29 anos e pai de quatro filhos. Na esteira, minorias e brancos – e, de fato, hoodies –, se agregaram às manifestações país afora.

O programa de austeridade provocou o declínio dos serviços públicos, e o nível de desemprego, principalmente no setor público, está em ascensão. As medidas adotadas pelo governo alastram a fissura entre privilegiados e classes médias. O governo de Cameron cortou, por exemplo, os impostos do 1% dos mais endinheirados e aumentou o valor agregado – em período de recessão. Em suma, o poder aquisitivo das classes médias só pode declinar. Ao mesmo tempo, a fatia dos pobres, em sua maior parte formada por minorias marginalizadas, cresce.

Quem não ficaria revoltado com essas medidas a favorecer os privilegiados? Lee Jasper, ativista pelos direitos das minorias, respondeu para o diário italiano La Repubblica: “Condeno a violência, mas em parte. Condeno mais a violência econômica: o desemprego, a falta de oportunidade para os jovens no futuro. Essa violência não é reconhecida”.

Na verdade, não surpreende o fato de essas revoltas terem acontecido no Reino Unido, o país com maior disparidade social na Europa. Segundo um artigo do semanário Time, publicado em 2008, uma em cada três crianças nasce abaixo do nível de pobreza. A escassa possibilidade de mobilidade social deve-se à estrutura de classes, mantida pelas elites em grande medida por meio do sistema escolar. O ensino na maioria das escolas públicas é muito inferior ao das particulares. No setor público a média de alunos por classe é 26,2% comparada a 10,7% no privado.

A Fulham Prep School, escola privada ao sudoeste de Londres, cobra 24 mil dólares ao ano por criança. Essas escolas formam os futuros alunos de Oxford e Cambridge (ou Oxbridge), num reino onde 93% da população estudam em escolas públicas. Se os 7% a frequentar as particulares chegam a Oxbridge, cerca de 50% dos alunos de escolas públicas têm o mesmo paradeiro. E qual será o porcentual dos outros 50% que viram violentos hoodies? Esses excluídos tendem a participar em levantes de todos os tipos. E saqueiam. Mas as raízes dos levantes são mais profundas…

Israel está oficialmente abrindo mão da democracia?

Por Carta Maior

Israel está oficialmente abrindo mão da democracia? O parlamento israelense está analisando projeto de lei que propõe “tornar as regras democráticas subservientes à definição do estado como o ‘lar nacional do povo judeu’”. O autor do projeto diz que ele visa fornecer respaldo legal para as cortes judiciárias do país que apoiam “o estado como estado da nação judaica subsumindo o seu caráter democrático, caso o estatuto de estado judaico colida com esse caráter”. A legislação, caso aprovada, representará a mais importante mudança na história de Israel, que estará abraçando a ideia de teocracia sobre a de democracia.

MJ Rosenberg – Al Jazeera

É difícil de acreditar que alguém confiaria nos informes que noticiam os termos para negociar um acordo com os palestinos do supostamente moderado primeiro ministro de Israel, Binyamin Netanyahu. Mas, incrivelmente, algumas pessoas na verdade levam-no a sério. Bastante corretamente, os palestinos não o fazem.

Eis a descrição no Jerusalem Post dos novos “termos” de Netanyahu:

Os representantes israelenses dizem que esses termos seriam um pacote de negociações segundo o qual Israel concordaria em começar as negociações a respeito das fronteiras de 1967, concordando mutuamente em negociar a seu respeito, como base para conversações, e os palestinos concordariam que o objetivo final das negociações seriam dois estados, um palestino e outro judeu.

O [Jerusalém] Post considerou esses termos uma concessão, porque os palestinos iriam “ter algo que há muito querem”: eles “iriam ter as linhas de 1967 como base” para negociações.

O que? As linhas de 1967 sempre foram o ponto de partida para negociações, desde a Resolução 242, de novembro de 1967, do Conselho de Segurança da ONU. O que mais poderia ser?

Obviamente que Israel não negociaria com base nas linhas de 1948. Na verdade, o governo de Israel nunca questionou que as fronteiras de 1967 seriam a base para negociações até Netanyahu chegar a Washington em maio e dizer que rejeitava esse compromisso. Depois da guerra de 1967, o primeiro ministro Levy Eshkol fez a famosa afirmação de que Israel estava em posição de “negociar a paz com os árabes” porque agora tinha território para abrir mão. E todo primeiro ministro desde então concordou. Exceto Netanyahu.

Mas Netanyahu agora diz que está bem usar as fronteiras de 1967, e os bobalhões dizem “Viva, uma concessão!”. De jeito nenhum. Netanyahu simplesmente se moveu na direção das metas que estão aí há 44 anos. Grande coisa.

Em todo caso, tudo o que ele fez foi concordar em negociar com base num mapa das fronteiras de 1967 a sua frente. Ele não disse que abriria mão de qualquer território durante essas negociações. E tem rejeitado consistentemente o congelamento dos assentamentos, para não falar [na rejeição] da retirada de quaisquer dos assentamentos [em territórios para além das linhas de 67]. Na verdade, ele acabou de autorizar novas 900 unidades de assentamentos. Obviamente que não pode haver acordo com os assentamentos e com os desvios nas rodovias e os checkpoints que retalham a Palestina numa salada israelense.

Netanyahu não tem interesse em negociações. O que ele quer é evitar que os palestinos tenham aspirações ao estabelecimento de um estado, na ONU, neste outono. Ele pensa que os palestinos são tão estúpidos que irão aceitar uma oferta vazia sua, em vez de tentarem algo novo, algo que – quer venha a ser bem sucedido, quer não – mudará fundamentalmente o terreno político de uma maneira que não será bem vinda a Netanyahu.

Mais evidência da nova postura completamente fraudulenta de Netanyahu é a informação de que o Knesset [parlamento israelense] está analisando um projeto de lei – apoiado por 40 deputados do Kadima, Likud e Yisrael Beiteinu – que iria, de acordo com o Haaretz, “tornar as regras democráticas subservientes à definição do estado como o ‘lar nacional do povo judeu’”.

O autor do projeto de lei diz que ela visa a fornecer respaldo legal para as cortes judiciárias do país que apoiam “o estado como estado da nação judaica subsumindo o seu caráter democrático, caso o estatuto de estado judaico colida com esse caráter”.

É provável que o projeto seja aprovado – 20 de 28 membros do “moderado” partido Kadima se juntou ao Likud no apoio ao projeto –, o que significaria que Israel estará fazendo a escolha há muito prevista entre ser democrático ou ser judeu –, uma escolha desnecessária caso Israel tivesse aberto mão dos territórios além da fronteira de 1967.

Parece que membros do Knesset estão preparados para deixar de lado a democracia, dando a Israel a liberdade de abraçar todos os territórios, enquanto continua a denegar direitos democráticos aos milhões de palestinos destituídos de cidadania que lá vivem.

A legislação, caso seja aprovada, representará a mais importante mudança na história de Israel. Israel estará abraçando a ideia de teocracia sobre a de democracia. Até agora, Israel sempre insistiu que não é diferente dos EUA ou de qualquer país moderno – em que igreja e estado são separados.

É claro que não se trata de coincidência que essa mudança ocorra em seguida à recente exigência de Israel de que os palestinos reconheçam o país como um “estado judeu”. Por décadas, Israel só soube se reconhecer como Israel. A insistência em que seja reconhecido como “um estado judeu” é fundamentalmente uma tentativa de manter suas demandas em pé de igualdade às dos palestinos, e é parte do sonho dos assentados de tornar Israel tão judaica quanto o Vaticano é católico.

Tudo isso é péssima notícia para os árabes israelenses, bem como para os israelenses seculares, que estão cansados de viver num estado em que os rabinos sucessivas vezes exigem que o direito público coadune com o judaísmo ortodoxo. Aqui nos EUA a Primeira Emenda da Constituição nos protege, mais ou menos, do clero politicamente avarento. Mas os israelenses, como os iranianos, vivem com isso diariamente. E parece que em breve ficará pior – muito pior.

Nesse contexto, mostrar Netanyahu pegando leve deve ser visto como o que é: uma farsa. A esperança dos palestinos é ir para as Nações Unidas o que se tudo der certo eles farão. Quanto aos israelenses, eles devem continuar a irem para as ruas, em protesto

(*) MJ Rosenberg é membro da organização Media Matterss Action Network

Fontehttp://english.aljazeera.net/indepth/features/2011/07/201173110175240835.html.

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