Rússia entra no conflito diplomático entre os Estados Unidos e o Brasil

Se o Brasil quer interrogar Snowden para saber mais sobre a espionagem americana, a Rússia pode facilitar o encontro.

Dilma exigiu saber todos os pormenores da espionagem americana Henry Romero/Reuters

O embaixador da Rússia em Brasília, Serguei Okopov, disse que o seu país pode mediar um encontro do ex-analista da Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos (NSA, em inglês) Edward Snowden com deputados brasileiros que queiram investigar as ações de espionagem americana no Brasil.

Okopov garantiu à comissão do Congresso, com a qual se reuniu na terça-feira, que consultará as autoridades de seu país sobre a possibilidade de os deputados interrogarem Snowden, que está asilado na Rússia. Snowden começou a divulgar um conjunto de documentos que denuncia os métodos de espionagem da NSA e revela os países e pessoas alvo dessa espionagem. A empresa Petrobras e Dilma Rousseff foram espiadas e a Presidente do Brasil cancelou a visita oficial aos EUA, marcada para 23 de Outubro.

A Câmara dos Deputados brasileira aprovou na semana passada a viagem a Moscou de uma comissão integrada por, pelo menos, seis parlamentares com a missão de falarem com Snowden sobre as atividades de espionagem ao Brasil.

Qualquer reunião está condicionada à aprovação do governo da Rússia e do próprio Snowden, e o encontro não pode violar as normas que garantem o asilo do americano em Moscou, explicou o deputado federal Ivan Valente em declarações a jornalistas e citado pela agência Efe.

De acordo com Valente, Okopov disse que uma resposta das autoridades de Moscou deve demorar, pelo menos, uma semana. O diplomata russo, segundo a versão do deputado brasileiro, considera que Snowden estaria interessado em colaborar com o Brasil porque “quanto mais o mundo souber, mais seguro se sentirá”.

As denúncias de Snowden são apoiadas em documentos entregues por este ao americano Glenn Greenwald, que vive no Rio de Janeiro e é colaborador do jornal britânico The Guardian.

Na segunda-feira, Barack Obama telefonou a Dilma, mas fontes da presidência disseram que a Presidente considerou as explicações, que duraram 20 minutos, insuficientes. Em causa está um contrato que Dilma ia assinar, no valor de quatro mil milhões de dólares (o Brasil iria comprar aviões militares aos EUA), e acordos de cooperação na área do biodiesel.

O porta-voz da Casa Branca disse que a visita de Dilma foi adiada para data a anunciar. Jay Carney explicou que Obama concordou com o adiamento e com o motivo de Dilma. Mas, disse Carney, a investigação que Obama prometeu a Dilma sobre a espionagem ao Brasil vai demorar tempo. “Como o Presidente disse anteriormente, ele ordenou um relatório, mas o documento só estará pronto dentro de meses.”

As relações diplomáticas e comerciais entre os EUA e o Brasil melhoraram desde a posse de Dilma, em 2011. Mas a revelação da espionagem da NSA, que interceptou e-mails, chamadas telefônicas de Dilma e dos seus colaboradores durante a campanha eleitoral, e espiou também empresas onde o governo americano tem interesses (a petrolífera Petrobras é uma delas), inquinou as relações e fez reemergir a crítica de que os EUA pretendem encontrar uma forma de explorar a seu favor a riqueza mineral brasileira.

A Reuters avança que Dilma Rousseff irá referir-se às práticas de espionagem americana no discurso que fará na abertura da Assembleia Geral das Nações Unidas, na próxima semana.

Publicado originalmente em Mundo P

Rússia acusa potências ocidentais de financiar oposição armada da Síria

Sergei Lavrov sugeriu que grandes lideranças não contribuam para aumentar a desestabilização do país

O ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, responsabilizou diretamente as potências estrangeiras pela violência na Síria, onde um duplo atentado terrorista matou nesta quinta-feira (10/05) pelo menos 55 pessoas nos arredores de Damasco.

“Infelizmente, alguns de nossos parceiros não só fazem previsões, mas também ações práticas para que a situação exploda”, afirmou Lavrov em entrevista coletiva em Pequim.

“Os líderes da comunidade internacional têm influência sobre os grupos armados. Deveriam utilizar sua influência para o bem, não para o mal”, disse em sua reunião desta quinta-feira (10/05) com seu colega chinês, Yang Jiechi.

Lavrov ressaltou que o regime sírio de Bashar al Assad tem parte da responsabilidade pela situação no país árabe, mas que “isso não pode servir de desculpa para eximir a outra parte de qualquer responsabilidade”.

Ele acusou as potências que têm mais influência que a Rússia sobre a oposição síria de “inclusive ameaçar os grupos armados a não aceitar nenhum acordo ou compromisso e a continuar sua atividade destruidora”.

Em sua opinião, essas potências abrigam esperanças de que “as forças governamentais reagirão de maneira inadequada e que a espiral de violência conduzirá à necessária ingerência exterior”. “Isso é inaceitável. E o Conselho de Segurança da ONU não autorizará o dito plano. Nós não estamos ao lado dos que atuam na Síria segundo o princípio de ‘quanto pior, melhor'”, completou.

“É evidente que o objetivo dessas cruéis ações é dirigir o país a uma nova, sangrenta e muito perigosa espiral de violência, abortar o cumprimento do plano do mediador internacional, Kofi Annan, e amedrontar os observadores da ONU”, apontou.

No último sábado (05/05), Lavrov já havia conversado por telefone com  Annan, enviado especial da ONU e da Liga Árabe para a Síria para coordenar o andamento do plano de paz elborado para o país. Na ocasião, o diplomata considerou inaceitável o contrabando de armas ao país, por conduzir a ordem social a uma desestabilização.

Antes disso, a emissora iraniana Press TV já havia informado informou que oposicionistas sírios estariam recebendo armas através do território turco. Para facilitar o procedimento, autoridades da Turquia estariam inclusive criando uma zona-tampão humanitária na fronteira.

 

texto publicado originalmente no Opera Mundi

Visita da Presidenta Dilma Rousseff a Nova York por ocasião da 66ª Assembleia-Geral da ONU

 

A Presidenta Dilma Rousseff realizará visita de trabalho a Nova York entre os dias 19 e 22 de setembro, quando chefiará a delegação brasileira à 66ª Assembleia-Geral das Nações Unidas.

No dia 21, a Presidenta será a primeira mulher, desde a fundação das Nações Unidas, a proferir o discurso de abertura da Assembleia-Geral.

No dia 19, a Presidenta participará da sessão de abertura da Reunião de Alto Nível sobre Doenças Crônicas e Não-Transmissíveis e será co-anfitriã do Colóquio de Alto Nível sobre Participação Política de Mulheres.

No dia 20, a mandatária brasileira co-presidirá com o Presidente dos EUA a cerimônia de lançamento da Parceria para a Transparência Governamental (“Open Government Partnership”). No mesmo dia, receberá o prêmio “Woodrow Wilson for Public Service”, outorgado pelo “Woodrow Wilson International Center for Scholars”.

No dia 22, a Presidenta participará da Reunião de Alto Nível sobre Segurança Nuclear e da Reunião de Alto Nível do Conselho de Segurança sobre Diplomacia Preventiva.

A Presidenta também manterá encontros bilaterais com Chefes de Estado e de Governo e com o Secretário-Geral das Nações Unidas.

O Ministro Antonio de Aguiar Patriota acompanhará a Presidenta Rousseff e participará de encontros bilaterais com Chanceleres de diversos países, bem como de reuniões ministeriais do BRICS e do G-4.

A Assembleia-Geral das Nações Unidas, em sua 66ª sessão, deverá privilegiar, dentre outros temas, questões relacionadas à mediação e à diplomacia preventiva.

Publicado originalmente pelo Itamaraty

Decisão parlamentar sobre Convenção 158 prejudica trabalhadores

portal vermelho

A rejeição, pela Comissão de Trabalho da Câmara dos Deputados, da ratificação da Convenção 158 da OIT, que coíbe as demissões imotivadas, por 17 votos contra oito, levanta a suspeita de que, sob este aspecto, aquela comissão é, na verdade, uma Comissão dos Interesses Patronais.

A Convenção 158 é importante para a defesa dos interesses dos trabalhadores por dois aspectos fundamentais – ela acena com a estabilidade no emprego e torna ilegal a prática comumente empregada pelos patrões para burlar as negociações salariais e reduzir o ganho dos trabalhadores através da demissão para contratar novos empregados por salários mais baixos.

Este truque é antigo nas empresas brasileiras e, como mostram estudos do Ministério do Trabalho e do Emprego, usado principalmente por grandes indústrias de transformação.

É a rotatividade da mão de obra, vivida pelos trabalhadores no chão de fábrica como o famigerado “facão”, que ocorre usualmente nos meses que antecedem as negociações salariais, ou naqueles imediatamente posteriores a ela. E que continua a ser usado para corroer as vitórias alcançadas nas negociações coletivas dos últimos anos, nas quais as correções salariais têm incorporado ganhos reais acima da inflação, dentro da política de valorização dos salários acertada entre as centrais sindicais e o governo federal.

As taxas de rotatividade da mão de obra são escandalosas e, historicamente, têm superado o patamar de 40% dos trabalhadores contratados, mostrando – como constatou o ministro do Trabalho e do Emprego, Carlos Alberto Lupi – que demitir, no Brasil, é fácil e barato para as empresas. Em 2009, por exemplo, dos 61 milhões de contratos de trabalho existentes, apenas 41 milhões continuaram ativos até o final do ano, significando que 20 milhões de trabalhadores perderam seus empregos e tiveram que encontrar outros com salários menores. É um dado assustador, reconheceu o ministro, constatando também a extrema flexibilidade (contra os trabalhadores) da legislação trabalhista.

A resistência da bancada do PCdoB contra a decisão negativa da Comissão de Trabalho da Câmara dos Deputados foi intensa. O deputado Assis Melo (PCdoB-RS) defendeu a proteção ao emprego contra os abusos patronais; Daniel Almeida (PCdoB-BA) chegou a denunciar o reaparecimento do direitista “centrão”, que tantos malefícios causou à democracia e aos trabalhadores na Assembleia Constituinte de 1987/1988; Alice Portugal (PCdoB-BA), também alertou para a necessidade de mais pressão contra a posição retrógada da Comissão do Trabalho.

A posição da maioria dos deputados daquela Comissão é inaceitável e confirma a determinação de agir contra os interesses dos trabalhadores já demonstrada na votação da proposta do deputado Sandro Mabel (PR-GO), que facilita e amplia a possibilidade de terceirização nas empresas, em benefício dos patrões e seus lucros, e contrariando frontalmente os interesses dos trabalhadores.

A decisão da Comissão de Trabalho da Câmara, entretanto, não significa o fim da luta pela ratificação da Convenção 158 da OIT, mas apenas um obstáculo a mais que precisará ser vencido pelos trabalhadores e pelas centrais sindicais. Agora, ela depende do apoio de dez por cento dos deputados para poder ser votada pelo Plenário da Câmara. Caso, contrário, será arquivada. Isto significa que os trabalhadores e suas lideranças precisam ficar atentos e dirigir suas pressões agora sobre aqueles a quem caberá primeiro apoiar a votação em Plenário e, depois, conquistar ainda mais votos para que ela seja aprovada.

Paulo Teixeira: Desafio para 2012


Confiram abaixo artigo de autoria do líder Paulo Teixeira, publicado pelo jornal O Globo nesta sexta-feira (5/8):

A realização da Conferência da ONU sobre Desenvolvimento Sustentável – a Rio+20 -, no ano que vem, coloca o Brasil diante do desafio de atualizar seu Código Florestal, conciliando-o com os interesses da agricultura e do meio ambiente. Precisamos pavimentar o caminho para o nosso futuro, dando nossa contribuição para um planeta ameaçado por desequilíbrios ecológicos.

Na Rio+20, poderemos mostrar a cerca de 150 chefes de Estado e de governo um modelo exemplar, atendendo aos interesses nacionais e nossos compromissos globais em torno de uma alternativa sustentável, que controle o desmatamento e emissões de gases que contribuem para o efeito estufa e garanta às gerações atuais e futuras plenas condições de sobrevivência.

O Brasil tem um imenso ativo ambiental, com a maior floresta tropical na Amazônia e uma diversidade de biomas singular no mundo. Temos recursos hídricos abundantes e a maior diversidade biológica do planeta. Esse ativo é extremamente favorável à agricultura, pois áreas florestadas ajudam a regular o clima, polinizar cultivos e controlar pragas e doenças prejudiciais à atividade agrícola. E ajuda o Brasil a liderar a produção de energias limpas.

Esse ativo ambiental pode ser mais bem explorado pelas indústrias de ponta, de cosméticos a fármacos, mediante uso sustentável da flora e fauna brasileiras. Ocorre que a riqueza natural do país é ameaçada por uma economia de baixa produtividade e práticas predatórias. Na Amazônia e no Cerrado a exploração tem sido com pouco valor agregado, o que pode mudar, com uma agricultura mais qualificada. Ao mesmo tempo, temos o privilégio de sermos uma potência agrícola, que fornece alimentos para o mercado interno, por meio dos pequenos agricultores, e para exportação, pelo agronegócio.

Portanto, a discussão do novo Código Florestal deve ser ponderada, para não comprometer o equilíbrio e a sinergia existentes entre agricultura e meio ambiente. Todavia, na votação do tema na Câmara, há dois meses, não foi esse o resultado obtido.

Lutamos para garantir a permanência da obrigatoriedade das reservas legais e das Áreas de Preservação Permanentes (APPs) de pelo menos trinta metros nas margens de rios. Votamos a favor do relatório de Aldo Rebelo (PCdoB-SP) que retirou da ilegalidade a agricultura familiar e culturas como a do arroz, da maçã e da uva e criou uma dinâmica de recuperação a detentores de passivo ambiental. Mas, no mesmo relatório, a bancada do PT votou contra os dispositivos contrários ao meio ambiente.

Opusemos-nos também à famigerada Emenda 164, que, entre outros retrocessos, propõe anistia a multas a desmatadores e sacrifica pelo menos 100 milhões de hectares de matas. Isso traria impacto negativo para toda a sociedade brasileira, como menos água para consumo, irrigação e até para o regime de chuvas, essenciais à agricultura.

Esperamos que o Senado e, mais tarde, novamente, a Câmara, modifiquem e melhorem o resultado e tenhamos um Código Florestal sintonizado com nosso ativo ambiental. Continuaremos lutando contra o que ameaça nossa biodiversidade.

O desafio do Congresso é evitar retrocesso histórico e elaborar um texto à altura do país que sediará a Rio+20. Sem o equilíbrio necessário, podemos incorrer no risco de optar por um modelo estreito, esquecendo-nos de que o nosso futuro como nação depende do modelo que fixarmos nas relações com a natureza.

Paulo Teixeira é deputado federal e líder do Partido dos Trabalhadores na Câmara.

Israel está oficialmente abrindo mão da democracia?

Por Carta Maior

Israel está oficialmente abrindo mão da democracia? O parlamento israelense está analisando projeto de lei que propõe “tornar as regras democráticas subservientes à definição do estado como o ‘lar nacional do povo judeu’”. O autor do projeto diz que ele visa fornecer respaldo legal para as cortes judiciárias do país que apoiam “o estado como estado da nação judaica subsumindo o seu caráter democrático, caso o estatuto de estado judaico colida com esse caráter”. A legislação, caso aprovada, representará a mais importante mudança na história de Israel, que estará abraçando a ideia de teocracia sobre a de democracia.

MJ Rosenberg – Al Jazeera

É difícil de acreditar que alguém confiaria nos informes que noticiam os termos para negociar um acordo com os palestinos do supostamente moderado primeiro ministro de Israel, Binyamin Netanyahu. Mas, incrivelmente, algumas pessoas na verdade levam-no a sério. Bastante corretamente, os palestinos não o fazem.

Eis a descrição no Jerusalem Post dos novos “termos” de Netanyahu:

Os representantes israelenses dizem que esses termos seriam um pacote de negociações segundo o qual Israel concordaria em começar as negociações a respeito das fronteiras de 1967, concordando mutuamente em negociar a seu respeito, como base para conversações, e os palestinos concordariam que o objetivo final das negociações seriam dois estados, um palestino e outro judeu.

O [Jerusalém] Post considerou esses termos uma concessão, porque os palestinos iriam “ter algo que há muito querem”: eles “iriam ter as linhas de 1967 como base” para negociações.

O que? As linhas de 1967 sempre foram o ponto de partida para negociações, desde a Resolução 242, de novembro de 1967, do Conselho de Segurança da ONU. O que mais poderia ser?

Obviamente que Israel não negociaria com base nas linhas de 1948. Na verdade, o governo de Israel nunca questionou que as fronteiras de 1967 seriam a base para negociações até Netanyahu chegar a Washington em maio e dizer que rejeitava esse compromisso. Depois da guerra de 1967, o primeiro ministro Levy Eshkol fez a famosa afirmação de que Israel estava em posição de “negociar a paz com os árabes” porque agora tinha território para abrir mão. E todo primeiro ministro desde então concordou. Exceto Netanyahu.

Mas Netanyahu agora diz que está bem usar as fronteiras de 1967, e os bobalhões dizem “Viva, uma concessão!”. De jeito nenhum. Netanyahu simplesmente se moveu na direção das metas que estão aí há 44 anos. Grande coisa.

Em todo caso, tudo o que ele fez foi concordar em negociar com base num mapa das fronteiras de 1967 a sua frente. Ele não disse que abriria mão de qualquer território durante essas negociações. E tem rejeitado consistentemente o congelamento dos assentamentos, para não falar [na rejeição] da retirada de quaisquer dos assentamentos [em territórios para além das linhas de 67]. Na verdade, ele acabou de autorizar novas 900 unidades de assentamentos. Obviamente que não pode haver acordo com os assentamentos e com os desvios nas rodovias e os checkpoints que retalham a Palestina numa salada israelense.

Netanyahu não tem interesse em negociações. O que ele quer é evitar que os palestinos tenham aspirações ao estabelecimento de um estado, na ONU, neste outono. Ele pensa que os palestinos são tão estúpidos que irão aceitar uma oferta vazia sua, em vez de tentarem algo novo, algo que – quer venha a ser bem sucedido, quer não – mudará fundamentalmente o terreno político de uma maneira que não será bem vinda a Netanyahu.

Mais evidência da nova postura completamente fraudulenta de Netanyahu é a informação de que o Knesset [parlamento israelense] está analisando um projeto de lei – apoiado por 40 deputados do Kadima, Likud e Yisrael Beiteinu – que iria, de acordo com o Haaretz, “tornar as regras democráticas subservientes à definição do estado como o ‘lar nacional do povo judeu’”.

O autor do projeto de lei diz que ela visa a fornecer respaldo legal para as cortes judiciárias do país que apoiam “o estado como estado da nação judaica subsumindo o seu caráter democrático, caso o estatuto de estado judaico colida com esse caráter”.

É provável que o projeto seja aprovado – 20 de 28 membros do “moderado” partido Kadima se juntou ao Likud no apoio ao projeto –, o que significaria que Israel estará fazendo a escolha há muito prevista entre ser democrático ou ser judeu –, uma escolha desnecessária caso Israel tivesse aberto mão dos territórios além da fronteira de 1967.

Parece que membros do Knesset estão preparados para deixar de lado a democracia, dando a Israel a liberdade de abraçar todos os territórios, enquanto continua a denegar direitos democráticos aos milhões de palestinos destituídos de cidadania que lá vivem.

A legislação, caso seja aprovada, representará a mais importante mudança na história de Israel. Israel estará abraçando a ideia de teocracia sobre a de democracia. Até agora, Israel sempre insistiu que não é diferente dos EUA ou de qualquer país moderno – em que igreja e estado são separados.

É claro que não se trata de coincidência que essa mudança ocorra em seguida à recente exigência de Israel de que os palestinos reconheçam o país como um “estado judeu”. Por décadas, Israel só soube se reconhecer como Israel. A insistência em que seja reconhecido como “um estado judeu” é fundamentalmente uma tentativa de manter suas demandas em pé de igualdade às dos palestinos, e é parte do sonho dos assentados de tornar Israel tão judaica quanto o Vaticano é católico.

Tudo isso é péssima notícia para os árabes israelenses, bem como para os israelenses seculares, que estão cansados de viver num estado em que os rabinos sucessivas vezes exigem que o direito público coadune com o judaísmo ortodoxo. Aqui nos EUA a Primeira Emenda da Constituição nos protege, mais ou menos, do clero politicamente avarento. Mas os israelenses, como os iranianos, vivem com isso diariamente. E parece que em breve ficará pior – muito pior.

Nesse contexto, mostrar Netanyahu pegando leve deve ser visto como o que é: uma farsa. A esperança dos palestinos é ir para as Nações Unidas o que se tudo der certo eles farão. Quanto aos israelenses, eles devem continuar a irem para as ruas, em protesto

(*) MJ Rosenberg é membro da organização Media Matterss Action Network

Fontehttp://english.aljazeera.net/indepth/features/2011/07/201173110175240835.html.

O Brasil tem o mais baixo encargo trabalhista entre 34 países, diz a Fiesp

Entidade patronal se atrapalha e deixa escapar: em dinheiro, o custo do trabalho no País é muito pequeno.

O Brasil tem o mais baixo valor de encargos trabalhistas entre 34 países pesquisados pelo Departamento de Estatística do Trabalho dos EUA (BLS, sigla em inglês). Em dólares, a média brasileira é de US$ 2,70 a hora, enquanto a média das outras 33 nações avaliadas é de US$ 5,80 por hora.

Essa é a conclusão mais evidente trazida por um texto publicado pelo jornal “O Estado de S. Paulo” neste final de semana. Porém, essa informação, a mais clara de toda a reportagem, vinha apenas no penúltimo parágrafo.

Estranhamente, o título deste texto era “Brasil é o número 1 em encargos trabalhistas”.

Mas o texto não consegue defender a manchete, apesar do esforço.

O Estadão afirma que, segundo compilação feita pela Fiesp a partir de dados do BLS, o peso percentual dos “custos com mão de obra na indústria de transformação brasileira” é de 32,4%, contra a média de 21,4% dos demais.

Não há maiores detalhes sobre quais são esses custos, portanto não há dados amplos sobre qual a base de comparação usada pela Fiesp.

Mas, se esses números estiverem corretos, a diferença brasileira, em dólares, para os outros países, fica ainda mais espantosa. Imaginem, se a nossa carga é percentualmente maior, mas em valores monetários é tão menor, os proventos dos trabalhadores e trabalhadoras brasileiras são muito baixos em comparação com a média dos países industrializados.

Esse fato já conhecíamos, e insistimos nessa informação há muito tempo, como forma de desconstruir o falso discurso conservador de que o trabalho no Brasil é caro e tira competitividade do País. Só que não é sempre que a própria Fiesp deixa um dado como esse à mostra.

Cabe mais reparos ao texto do Estadão. O jornal elenca como “encargos” valores que, na verdade, são complemento salarial. O FGTS, a Previdência Pública e o 13º, citados na reportagem, retornam ao trabalhador – e ao mercado – como complemento salarial, na forma de poupança. Nem de longe são encargos.

Em estudo preparado pela subseção do Dieese na CUT Nacional, tomando como base dados do mesmo Departamento de Estatística dos EUA, referentes a 2008, a diferença do custo de mão de obra é ainda mais gritante. Enquanto na Alemanha é de U$36,07 a hora e nos Estados Unidos de US$ 25, 65, no Brasil a mão de obra/hora é de US$ 6,93 – o recorte do Dieese não mistura alhos com bugalhos e concentra-se na questão salário, daí a diferença e, também, uma chave para compreender a própria contradição dos números divulgados pela Fiesp.

A conjunção desses fatores e dados só reforça a impressão de que os salários no Brasil ainda são baixos. Por serem reduzidos, acabam por exigir complementos como o FGTS e o 13º e, ainda assim, a média em dólar perde de longe para os países que a Fiesp usa como referência.

E tudo a despeito de o real estar sobrevalorizado. Nem assim o valor do trabalho no Brasil chega a se aproximar da média internacional segundo o olhar BLS/Fiesp.

Sem esquecer de um dado fundamental, que precisa ser alardeado até que a elite econômica se convença de que há muito por fazer neste País e que não é retirando do trabalhador que chegaremos no ponto que queremos e desejamos: o índice GINI, usado para medir a concentração de renda, no Brasil atinge 0,56, perdendo apenas para Haiti, Bolívia e Tailândia num grupo de 14 países pesquisados. O GINI, utilizado pela ONU, é tão mais representativo de concentração de renda quanto mais próximo de um.

Se a Fiesp quer cortar custos de seus associados botando o trabalhador como réu, enfrentará novamente nossa resistência.

Publicado originalmente no blog do Artur Henrique Presidente Nacional da CUT

Brasil Apoia Palestinos na ONU e Irrita Israel

Fonte: Estadão

 

O governo Dilma Rousseff já se decidiu: em setembro, quando a Autoridade Palestina pedir para se tornar o 194.º país-membro da ONU, terá o voto brasileiro.

A garantia de apoio foi passada ao presidente palestino, Mahmoud Abbas, por um mensageiro especial de Dilma, Luiz Inácio Lula da Silva, há menos de um mês. Lula prontificou-se ainda a pessoalmente ajudar Ramallah a conquistar votos de países em desenvolvimento.

Israel, do outro lado, tenta agora uma ofensiva para “contenção de danos”. Dois integrantes do primeiro escalão do governo estão a caminho do Brasil. Um deles, Moshe Yaalon, vice do primeiro-ministro Binyamin Netanyahu, solicitou um encontro com Dilma – que deverá ser recusado pelo Planalto.

Os israelenses sabem que ao final não conseguirão reverter a decisão brasileira, mas querem evitar que Brasília “puxe votos” contra Israel.

“O objetivo do Brasil é ajudar a criar um fato político que empurre israelenses e palestinos para uma negociação direta. Do jeito que está, o conflito tende a se eternizar”, explicou ao Estado o assessor para Assuntos Internacionais da Presidência, Marco Aurélio Garcia. “A questão palestino-israelense é o foco de desestabilização do Oriente Médio”, defendeu Garcia.

Em entrevista no último domingo ao Estado, o chanceler Antonio Patriota havia indicado que o Brasil “não terá dificuldades em votar a favor” do reconhecimento do Estado palestino pelas Nações Unidas.

Dilma discursará na sessão anual da Assembleia-Geral da ONU, quando virá à baila a questão. Ela será a primeira a subir à tribuna em Nova York, conforme a tradição que, desde 1947, reserva ao Brasil a abertura dos discursos de chefes de Estado, ministros e demais autoridades nacionais na plenária.

O reconhecimento dos palestinos pela ONU, porém, deverá passar ainda pelo Conselho de Segurança, onde provavelmente acabará vetado pelos EUA.

Noam Chosmky: sobre intervenções e hipocrisia (via Ousar Lutar!! Ousar Vencer!!)

Entrevista a Stephen Shallon e Michael Albert, no ZNet  
 
Tradução: Daniela Frabasile

Quais são os propósitos mais amplos dos EUA nas relações internacionais, no mundo árabe e na Líbia?

Uma maneira útil de abordar a questão é perguntar quais não são os motivos dos EUA. Existem alguns meios bons de descobrir. Um deles é ler a literatura específica de relações internacionais: nela descreve-se as políticas como aquilo que não são. É um tema interessante, mas não vou me aprofundar sobre ele.

Outro método, muito relevante agora, é ouvir líderes políticos e comentaristas. Suponha que eles digam que o motivo de uma ação militar é humanitário. No discurso, isso não traz nenhuma informação: praticamente todas as ações de força são justificadas nesses termos. Mesmo pelos piores monstros – que até devem, irrelevantemente, convencer a si mesmos de que dizem a verdade. Hitler, por exemplo, pode ter acreditado que estava tomando partes da Tchecoslováquia para acabar com o conflito étnico e propiciar às pessoas os benefícios de uma civilização avançada. Ou de que invadiu a Polônia para acabar com o “terror selvagem” dos polacos. Os fascistas japoneses na China provavelmente acreditavam que estavam altruisticamente trabalhando para criar um “paraíso terrestre” e proteger as pessoas que sofriam com os “bandidos chineses”. Até mesmo Obama pode ter acreditado no que disse em seu discurso de 28 de março sobre os motivos humanitários para a intervenção na Líbia. O mesmo se passa com os comentaristas.

Entretanto, existe um teste simples para determinar se as declarações de intenção nobre podem ser levadas a sério. Os autores deste discurso convocam intervenções humanitárias para proteger as vítimas de seus próprios crimes – ou de seus clientes? Obama, por exemplo, pediu uma zona de exclusão aérea durante a invasão assassina e destrutiva de Israel – apoiada pelos EUA – no Líbano, em 2006? Ou ele se vangloriou orgulhosamente, durante sua campanha presidencial, de ter defendido uma resolução do Senado norte-americano apoiando a invasão, e pedindo condenação do Irã e da Síria por impedi-la? Assunto encerrado. Na realidade, quase toda a literatura, escrita e falada, de intervenção humanitária e direito de proteção desaparece com esse teste simples e apropriado.

Os motivos reais, porém, são raramente discutidos. Para desenterrá-los, é preciso observar registros documentais e históricos.

Afinal, quais são os motivos dos EUA? De uma maneira muito geral, as evidências parecem apontar que eles não mudaram muito desde os estudos de estratégia de alto nível realizados durante a Segunda Guerra Mundial. Os estrategistas tomaram como certo que os EUA emergiriam da guerra em uma posição extremamente dominante, e propuseram a criação de uma Grande Área, na qual os EUA manteriam um “poder inquestionável”, com “supremacia econômica e militar”, assegurando a “limitação de qualquer exercício de soberania” por Estados que poderiam interferir nos desígnios norte-americanos.

A Grande Área incluiria o hemisfério ocidental, o extremo oriente, o império britânico (que incluía as reservas energéticas do Oriente Médio), e tanto da Eurásia quanto possível – pelo menos, os centros industriais e comerciais da Europa Ocidental. Os registros documentais deixam muito claro que “o presidente Roosevelt visava a hegemonia estadunidense no pós guerra”, para citar a frase precisa do respeitado historiador britânico Geoffrey Warner. E, mais significante, os planos traçados cuidadosamente durante a guerra foram implementados com rapidez, como lemos nos documentos desclassificados dos anos seguintes, e observamos as ações. As circunstâncias mudaram, e as táticas foram adaptadas, mas os princípios básicos foram mantidos.

Considerando o Oriente Médio – a “região mais importante estrategicamente no mundo”, nas palavras de Eisenhower – a preocupação básica tem sido as incomparáveis reservas energéticas. O controle delas iria render “substancial controle do mundo”, como observado pelo influente assessor liberal, A. A. Berle. Essa preocupação raramente está distanciada do cenário das relações na região.

No Iraque, por exemplo, como as dimensões da derrota dos EUA não podiam mais ser escondidas, a retórica floreada foi trocada pelo anúncio honesto de metas políticas. Em novembro de 2007, a Casa Branca emitiu uma Declaração de Princípios, insistindo que o Iraque deveria conceder ao exército estadunidense acesso por tempo indeterminado, e deveria privilegiar investidores americanos. Dois meses depois, o presidente informou ao Congresso que iria ignorar a legislação que limitava o estabelecimento permanente das forças armadas norte-americanas – ou não seria possível estabelecer “o controle das reservas de petróleo do Iraque pelos EUA”. Assim como os objetivos anteriores, esta pretensão teria que ser abandonada logo em seguida, frente à resistência iraquiana.

Embora o controle sobre o petróleo não seja o único fator na política do Oriente Médio, ele oferece uma boa pista. Em um país rico em reservas petrolíficas, um ditador de confiança é mantido, virtualmente, com rédeas livres. Nas últimas semanas, por exemplo, não houve reação quando a ditadura saudita usou a força a fim de prevenir qualquer sinal de protesto. O mesmo se deu no Kuwait, quando pequenas manifestações foram instantaneamente esmagadas. E no Bahrain, quando forças lideradas pela Arábia Saudita intervieram para proteger a minoria sunita dos pedidos de reformas por parte da maioria xiita. As forças do governo não só destruíram as tendas levantadas na Praça da Pérola – a versão da praça Tahrir no Bahrain – mas também demoliram a estátua da pérola, um símbolo nacional que tinha sido tomado pelos manifestantes.

O Bahrein é particularmente sensível por acolher a Quinta Frota dos EUA (a força militar mais forte da região) e pelo fato de que a porção oriental da Arábia Saudita, do outro lado da ponte, também possui maioria xiita, e abriga a maior parte das reservas de petróleo do país. Por um curioso acidente geográfico e histórico, as maiores concentrações de hidrocarbonetos do mundo cercam o Golfo Pérsico em regiões majoritariamente xiitas. A possibilidade de uma aliança entre os xiitas tem sido, por muito tempo, um pesadelo para os estrategistas.

Em Estados sem maiores reservas de hidrocarbonetos, as táticas variam. Tipicamente, mantém-se um padrão de estratégia quando um ditador favorecido está com problemas: apoiá-lo tanto quanto possível; e, quando isso não pode mais ser feito, fazer declarações de amor à democracia e aos direitos humanos. Então, tentar manter ao máximo as características do regime anterior.

O cenário é aborrecidamente familiar: Marcos, Duvalier, Chun, Ceasescu, Mobutu, Suharto, e muitos outros. E atualmente, Tunísia e Egito. A Síria é osso duro de roer e não há alternativa clara para uma ditadura que apoiaria os objetivos dos EUA. O Iêmen é um pântano onde intervenção direta provavelmente causaria problemas ainda maiores para Washington. Então as violências do Estado provocam apenas declarações piedosas.

A Líbia é um caso diferente, O país é rico em petróleo, e apesar do apoio extraordinário dado pelo Reino Unido e pelos Estados Unidos, o ditador não é mais confiável. Eles prefeririam um cliente mais obediente. Além disso, o grande território líbio é praticamente inexplorado, e especialistas acreditam que podem haver reservas inexploradas, que um governo mais dependente pode abrir à exploração ocidental.

Assim que uma revolta não-violenta começou, Gaddafi esmagou-a brutalmente. Uma rebelião eclodiu e liberou Benghazi, a segunda maior cidade da Líbia. Parecia estar prestes a se mover para a fortaleza de Gaddafi no Oeste. As forças do ditador, no entanto, reverteram o curso do conflito e estavam às portas de Benghazi. Era provável que acontecesse uma chacina. Como o conselheiro de Obama para o Oriente Médio, Dennis Ross, apontou, “todos nos culpariam por isso”. Seria inaceitável, assim como uma vitória militar de Gaddafi que reforçasse seu poder e independência. Os Estados Unidos aderiram, então, à resolução 1973 do Conselho de Segurança da ONU, que estabeleceu uma zona de exclusão aérea, a ser implantada pela França, Reino Unido e EUA – sendo que os norte-americanos deveriam exercer apenas um papel de apoio.

Não houve esforços para que a ação se limitasse à instituição de uma zona de exclusão, ou mesmo para que se mantivesse nos limites mais amplos da Resolução 1973.

O triunvirato imediatamente interpretou a resolução como se autorizasse uma participação direta ao lado dos rebeldes. Um cessar-fogo foi imposto às forças de Gaddafi, mas não aos rebeldes. Pelo contrário, receberam apoio militar enquanto avançavam para oeste, assegurando logo os maiores recursos da produção de petróleo da Líbia.

A flagrante inobservância da Resolução 1973 da ONU, desde o começo, causou algumas dificuldades para a imprensa, pois tornou-se muito evidente para ser ignorado. No New York Times, por exemplo, Karim Fahim e David Kirkpatrick se perguntaram “como os aliados podem justificar ataques aéreos às forças do coronel Gaddafi ao redor de [seu centro tribal] Surt, se, como parece ser o caso, elas gozam de apoio generalizado na cidade e não representam ameaças aos civis”? Outra dificuldade técnica é que o Conselho de Segurança das Nações Unidas “pediu um embargo de armas que se aplica a todo o território da Líbia, o que significa que qualquer fornecimento de armas do exterior para a oposição teria que ser vetado”.

Alguns argumentam que o petróleo não pode ser um motivo, uma vez que as empresas ocidentais tinham acesso garantido ao prêmio, com Gaddafi. O argumento ignora as preocupações dos Estados Unidos. O mesmo poderia ser dito sobre o Iraque sob Saddam, ou Irã e Cuba por muitos anos, e até hoje. O que Washington busca é aquilo que Bush anunciou: controle, ou pelo menos clientes dependentes. Os documentos internacionais dos Estados Unidos e da Inglaterra enfatizam que “o vírus do nacionalismo” é seu maior medo – não apenas no Oriente Médio, mas em qualquer lugar. Regimes nacionalistas podem conduzir exercícios ilegítimos de soberania, violando os princípios da Grande Área. E eles podem buscar direcionar recursos para necessidades populares, como Nasser ameaçou algumas vezes.

Vale notar que os três impérios tradicionais – França, Reino Unido e Estados Unidos – estão tocando a operação quase isolados. Os dois maiores Estados na região – Turquia e Egito – provavelmente poderiam impor a zona de exclusão, mas no máximo oferecem um suporte sem grande entusiasmo à campanha militar do triunvirato. As ditaduras do Golfo ficariam felizes ao ver o ditador líbio desaparecer, mas apesar de carregadas de equipamento bélico avançado (fornecido pelos Estados Unidos e pelo Reino Unido, a fim de reciclar dólares do petróleo e assegurar obediência), eles não quiseram oferecer nada mais que uma participação simbólica (pelo Qatar).

Embora apoie a resolução 1973 do Conselho de Segurança, a África – com exceção de Ruanda, aliada dos Estados Unidos – se opõe, de modo geral, à interpretação adotada imediatamente pelo triunvirato. Em alguns casos, a oposição é firme. Para estudo das políticas dos Estados individuais, veja Charles Onyang-Obbo no jornal queniano The East African (allafrica.com).

Além da região, há pouco apoio. Como a Rússia e a China, o Brasil absteve-se na Resolução 1973, propondo como alternativa um cessar-fogo completo e diálogo. A Índia também se absteve, com o argumento de que as medidas propostas provavelmente “agravariam uma situação que já é muito complicada para o povo líbio”. Além disso, pediu medidas políticas em vez do uso da força. Até a Alemanha se absteve da resolução.

A Itália também estava relutante, presumivelmente em parte por causa da alta dependência dos contratos de petróleo com Gaddafi. Podemos nos lembrar, também, que o primeiro genocídio pós-I Guerra Mundial foi conduzido pela Itália, no leste da Líbia, agora liberado. Devem restar algumas memórias.

Um anti-intervencionista, que acredita na autodeterminação de nações e povos, pode legitimamente apoiar uma intervenção – seja pela ONU ou por países em particular?

Dois casos devem ser considerados: (1) intervenção da ONU e (2) intervenção sem autorização da ONU. A menos que acreditemos que os Estados são sacrossantos na forma que foram estabelecidos no mundo moderno (tipicamente por violência extrema), com direitos que ultrapassam todas as outras considerações imagináveis, então a resposta nos dois casos seria a mesma: sim, pelo menos em princípio. Eu não vejo razão em discutir essa crença, então vou desconsiderá-la.

Em relação ao primeiro caso, a Carta e as resoluções subsequentes outorgam ao Conselho de Segurança amplitude considerável de intervenção. Isso foi realizado, em relação à África do Sul, por exemplo. Isso não implica, é claro, que qualquer decisão do Conselho de Segurança deve ser aprovada por “um anti-intervencionista que acredita na autodeterminação”. Outras considerações dizem respeito a casos individuais, mas novamente, a não ser os Estados contemporâneos sejam vistos como entidades praticamente sagradas, o princípio é o mesmo.

Quanto ao segundo caso – que surge quando se observa a interpretação que o triunvirato deu à Resolução 1973, e a muitos outros exemplos – a resposta novamente é sim, pelo menos em princípio. A não ser que consideremos o sistema global como sacrossanto na forma estabelecida na Carta da ONU e em outros tratados.

Sempre existe, é claro, uma pesada carga de provas que deve ser satisfeita para justificar uma intervenção violenta, ou qualquer uso de força. A carga é particularmente alta no segundo caso, de intervenção sem apoio da ONU, pelo menos para Estados que declaram ser obedientes à lei. Devemos ter em mente, entretanto, que a hegemonia mundial rejeita essa postura, e ela é excluída das Cartas da ONU, da Organização de Estados Americanos (OEA) e de outros tratados internacionais. Ao aceitar a Corte Internacional de Justiça quando foi estabelecida (sob iniciativa dos Estados Unidos) em 1946, Washington declarou não aceitar acusações de violação de tratados internacionais. Mais tarde, ratificou a Convenção de Genocídios com ressalvas similares. Estas posições foram acolhidas pelos tribunais internacionais, visto que os processos exigem a aceitação da jurisdição. É comum que os Estados Unidos acrescentem ressalvas cruciais aos tratados internacionais que ratificam, para isentar-se, na prática, de cumpri-los.

O peso da prova pode ser cumprido? Há pouco sentido em uma discussão abstrata, mas existem alguns casos reais que cumprem os requisitos. No período após a II Guerra Mundial, houve dois casos (embora não se qualifiquem como intervenção humanitária) em que o recurso à força pode ser apoiadas legitimamente: a invasão do leste do Paquistão pela Índia, em 1971, e a invasão do Camboja pelo Vietnã, em dezembro de 1978. Ambas intervenções acabaram com atrocidades maciças.

Esses exemplos, contudo, não se enquadram na definição ocidental de “intervenção humanitária” porque tiveram agente errado: não foram praticados pelo Ocidente… Além disso, os Estados Unidos opuseram-se amargamente e puniram com dureza os países que interromperam o massacre na atual Bangladesh e derrotaram Pol Pot no Camboja, no momento em que suas atrocidades atingiram o ápice. O Vietnã foi não apenas condenado, mas também foi punido com uma invasão chinesa defendida pelos Estados Unidos, e pelo apoio diplomático aos ataques do Khmer Vermelho ao Camboja pós-Pol Pot, a partir da Tailândia.

Embora o ônus de prova tenha sido cumprido nesses casos, não é fácil pensar em outros. Na intervenção do triunvirato imperial que está violando a Resolução 1973 na Líbia, o ônus é particularmente pesado, dados os terríveis históricos. Contudo, seria exagerado dizer uma intervenção justificada é impossível – a não ser que, claro, consideremos santos os Estados em sua configuração atual. Prevenir um provável massacre em Benghazi não é uma questão pequena, qualquer que sejam os motivos.

Alguém preocupado em evitar o massacre dos dissidentes de um país pode opor-se legitimamente a uma intervenção voltada a evitar tal tragédia?

Não vejo como responder em tal nível de abstração: depende das circunstâncias. Pode-se opor à intervenção se, por exemplo, ela levará provavelmente a um massacre muito pior. Imagine que líderes dos Estados Unidos, genuína e honestamente, planejassem evitar o massacre da Hungria, em 1956, bombardeando Moscou. Ou que o Kremlin, genuína e honestamente, desejasse evitar o massacre de El Salvador, em 1980, bombardeando os Estados Unidos. Dadas as consequências previsíveis, nós concordaríamos que seria legítimo opor-se àquelas (inconcebíveis) ações.

Muitas pessoas veem uma analogia entre a intervenção de Kosovo, em 1999, e a atual intervenção da Líbia. Você pode explicar as similaridades importantes e as diferenças entre as duas?

Realmente, muitas pessoas veem essa analogia, uma sinal de força do incrível poder do sistema de propaganda ocidental. O contexto para a intervenção de Kosovo foi extraordinariamente bem documentado. Incluindo duas compilações do departamento de Estado detalhadas, extensos registros in loco feitas por monitores da Missão de Verificação do Kosovo, ricas fontes da OTAN e da ONU, um inquérito do parlamento britânico, e muito mais. Os registros e estudos correspondem muito estreitamente aos fatos.

Em resumo, não tinha havido mudança substancial no cenário nos meses anteriores ao bombardeio. Embora tanto as forças sérvias quanto o Exército de Libertação do Kosovo (que atuava a partir da Albânia) cometessem atrocidades, as principais foram praticadas por este último, pelo menos segundo as altas autoridades britânicas (a Inglaterra foi o membro mais belicoso da aliança). As maiores atrocidades em Kosovo não foram a causa do bombardeio da OTAN na Sérvia, mas sim sua consequência, e uma consequência fartamente antecipada. O comandante da OTAN, General Wesley Clark, informou a Casa Branca, semanas antes do ataque, que ele geraria uma resposta brutal pelas forças sérvias. Assim que o bombardeio começou, disse à imprensa que aquela resposta era “previsível”.

Os primeiros registros, pela ONU, da existência de refugiados fora de Kosovo foram feitos bem depois que o bombardeio começou. As acusações a Milosevic durante o bombardeio, fortemente baseadas nos serviços de inteligência britânico e estadunidense, limitavam-se a crimes cometidos após os bombardeios, com uma exceção, que sabemos que não poderia ser levada a sério pelos líderes americanos e britânicos, que, ao mesmo tempo, apoiavam ativamente crimes muito piores. Além disso, havia uma boa razão para acreditar que uma solução diplomática poderia ter sido alcançada: na realidade, a resolução da ONU após 78 dias de bombardeios foi muito mais um compromisso entre as posições da Sérvia e da OTAN.

Tudo isso, incluindo as impecáveis fontes ocidentais, é revisto em algum detalhe no meu livro Uma nova geração define o limite [No Brasil, lançado pela Editora Record; disponível em parte no Google Books]. Confirmações de informações vêm sendo feitas desde então. Assim, Diana Johnstone relata a carta enviada à chanceler alemã Angela Merkel, em 26 de outubro de 2007, por Dietmar Hartwing, que tinha sido líder da missão europeia em Kosovo antes de esta ser reformulada em 20 de março, quando o bombardeio foi anunciado, e estava posição muito boa para saber o que estava acontecendo. Ele escreveu:

“Nem um único relatório apresentado entre o final de novembro de 1998 e a evacuação na véspera da guerra mencionava que os sérvios tinham cometido crimes maiores ou sistemáticos contra os albaneses. Não havia um único caso que se referisse a um genocídio ou a incidentes ou crimes que sugerissem um genocídio. Exatamente o contrário: em meus relatórios, eu repetidamente informei que, considerando a crescente frequência dos ataques do Exército de Libertação do Kosovo contra sérvios, a aplicação das leis revelava contenção e disciplina notáveis. O objetivo clara e frequentemente citado pelo governo sérvio era observar o tratado entre Milosevic e Holbrooke [de outubro de 1998], para que oferecer qualquer pretexto à intervenção da comunidade internacional. (….) houve enormes ‘discrepâncias de percepção’ entre o que as missões em Kosovo estavam reportando aos respectivos governos e capitais e o que mais tarde foi liberado para a mídia e para o público. Essa discrepância só pode ser vista como acúmulo para uma preparação a longo prazo para guerra contra a Iugoslávia. Até o momento em que eu deixei Kosovo, nunca tinha acontecido o que a mídia, e também os políticos, estavam incansavelmente alegando. Consequentemente, até 20 de março de 1999, não havia razão para intervenção militar, o que torna ilegítimas as medidas empreendidas pela comunidade internacional. O comportamento coletivo dos membros da União Europeia, antes e depois que a guerra eclodiu, levanta sérias preocupações, porque a verdade foi morta, e a União Europeia perdeu credibilidade”.

História não é física quântica, e sempre há um grande espaço para dúvidas. Mas é raro que conclusões sejam tão firmemente apoiadas quanto nesse caso. De maneira muito reveladora, isso é totalmente irrelevante. Prevalece é doutrina de que a OTAN interveio para interromper uma limpeza étnica – ainda que adeptos do bombardeio ao menos enxergam as ricas evidências factuais defendam sua posição afirmando que os bombardeios eram necessários para interromper potenciais atrocidades. Deveríamos, portanto, provocar atrocidades em larga escala para impedir atrocidades que poderiam ocorrer se não houvesse bombardeios. E existem justificativas ainda mais chocantes.

As razões para essa virtual unanimidade e paixão são bastante claras. O bombardeio veio após uma orgia de autoglorificação e demonstração de poder que teria impressionado Kim il-Sung. Eu revi isso em outro lugar, e esse memorável momento da história intelectual não deve permanecer no esquecimento a que foi relegado. Após essa encenação, era simplesmene necessário um desfecho glorioso. A nobre intervenção de Kosovo forneceu isso, e a ficção deve ser zelosamente guardada.

Voltando à questão, existe uma analogia entre as teatralizações interesseiras no Kosovo e Líbia. Ambas intervenções foram animadas por uma intenção nobre em versões ficcionais. O inaceitável mundo real sugere analogias um tanto diferentes.

Muitas pessoas também veem uma analogia entre a intervenção em curso no Iraque e a atual intervenção na Líbia. Também nesse caso, você pode explicar as similaridades e as diferenças?

Eu também não vejo aqui uma analogia importante, exceto que dois Estados estão envolvidos em ambos. No caso do Iraque, os objetivos eram aqueles que foram finalmente admitidos. No caso da Líbia, é provável que o objetivo seja similar em pelo menos um aspecto: a esperança de que um regime confiável irá seguramente apoiar os objetivos ocidentais e permitir que investidores ocidentais tenham acesso ao rico petróleo da Líbia – o que, como observado, pode ir muito além do que é atualmente conhecido.

O que você espera que aconteça na Líbia nas próximas semanas? Quais deveriam ser os objetivos de um movimento anti-intervencionista e anti-guerra nos Estados Unidos?

É incerto, claro, mas as perspectivas prováves hoje [29 de março] são ou uma divisão da Líbia em duas regiões. Uma, rica em petróleo e altamente dependente das forças imperialistas ocidentais; outra, a oeste, empobrecida e sob o controle de um tirano brutal com capacidade declinante, ou a vitória das forças apoiadas pelo ocidente.

Em qualquer um dos casos, e provavelmente assim espera o triunvirato, um regime menos problemático e mais dependente assumirá. O resultado provável é descrito muito precisamente pelo jornal árabe com base em Londres alQuds al-Arabi (28 de março). Embora reconheça a incerteza da previsão, ele antecipa que a intervenção deve deixar a Líbia com “dois estados, um mantido pelos rebeldes e rico em petróleo no leste, e um indigente, liderado por Gaddafi no oeste… Dado que os poços de petróleo foram garantidos, podemos nos encontrar frente a um novo emirado líbio rico em petróleo, esparsamente habitado, protegido pelo Ocidente e muito similar aos outros emirados do Golfo”. Ou uma rebelião apoiada pelo ocidente pode ir até o fim e eliminar o ditador.

Aqueles que se preocupam com a paz, justiça, liberdade e democracia deveriam tentar encontrar maneiras de dar apoio e assistência aos líbios que procuram desenhar seu próprio futuro, livre de restrições impostas por poderes externos. Nós podemos ter esperança sobre as direções que eles devem buscar, mas o futuro deve ser deixado em suas mãos.

Esquerda de butique (via @esquerdopata)


Ontem ainda eu lia no Twitter uns desocupados, entre um toddynho e outro, chamando a posição do Brasil na votação da ONU sobre a Líbia de “covarde”. Gostaria que os panacas fosse à Líbia explicar o que queriam dizer com isso…

Leia mais em: EskerdoNews: Esquerda de butique
Under Creative Commons License: Attribution

Líbia: o controle russo do espaço aéreo. Por Stanley Burburinho.

Enviado por luisnassif, sex, 18/03/2011 – 22:09

Por Stanley Burburinho

A partir de informações do serviço secreto russo, o Pravda publicou matéria muito esclarecedora sobre a situação na Líbia. Por exemplo: a contratação de mercenários pelo Pentágono através da Halliburton e da Blackwater e que o serviço secreto da Rússia, que controla 100% do espaço aéreo da Líbia, garante que nenhum avião levantou vôo na Líbia desde o inicio das manifestações.Acho que essas informações nunca veremos publicadas na velha mídia do Brasil:

“O serviço secreto russo confirmou ontem através de Nicolai Patrushev, que na verdade o que está existindo é um verdadeiro bombardeio da mídia internacional contra Kadhafi, pois a Russia controla totalmente o espaço aéreo do norte da África e cem por cento da Líbia e que os aviões que supostamente levantaram vôo para executar os bombardeios contra o povo líbio não saíram do chão e portanto não executaram qualquer ação militar; que somado a isso, por não existirem imagens de qualquer vôo, configura uma armação do Pentágono. O Secretário de Defesa do EUA admitiu o erro das informações dizendo que podem ter sido outros aviões, mas setores independentes da mídia internacional já haviam colocado a entrevista dos russos no ar e assim desmoralizado a ação do Pentágono.”

“Outro escândalo que ronda Washington é a participação de mercenários contratados pelo Pentágono, através da Halliburton e da Blackwater para participarem das batalhas na região de Cerenaica, em especial Bengazhi e Trobuk ao lado dos opositores que começam a perder terreno para os simpatizantes de Khadafy. A missão dos mercenários que ficariam sob controle da CIA, Agência Central de Inteligência e até executariam ações secretas com a aliada Al-Qaeda de Bin Laden, contra Khadafi seria manter o controle dos poços de petróleo já sob controle da oposição na região de Bengazhi.”

“Ontem um dos principais líderes da oposição a Kadafi, Khaled Maassou, na região de Cerinaica, confirmou que estava desistindo da luta por não concordar com a participação de mercencários e militares norte americanos em território líbio contra Kadhafi, e que em nenhuma situação irá contribuir com a CIA, que agora começa a assumir com a Al Qaeda o comando da situação na região de Cirenaica.”

“Líbia: Terroristas anti-Gadafi massacraram civis

15.03.2011

KHATARINA GARCIA e PETER BLAIR

De WASHINGTON e BENGAZHI – REDE MUNDO \ MIDIA LATINA; 06.03.11.

Depois de quase um mês onde duas guerras se realizam na Libia, uma interna, entre khadafystas e opositores do líder revolucionário, e uma no ocidente através da mídia, com o controle total das noticias pela Casa Branca e somente indo ao ar ou tendo imagens liberadas após filtragem do Pentágono ou do Departamento de Estado, a situação começa a mudar no mais emblemático país do norte da África.

Após a exibição pela TV líbia e ainda a reprodução pela Telesur e da Internet de imagens do assassinato de 212 partidários do Coronel Muammar Khadafy, em Bengazhi, mortos a sangue frio, depois de terem sido presos e sem qualquer resistência por seus opositores, o mundo árabe e membros da oposição começam a desistir de lutar contra Khadafy, considerando que já existem grandes divisões no meio dos opositores pela aliança feita por alguns setores com os EUA, inimigo histórico dos povos árabes e que inclusive bombardearam o país matando milhares de líbios.

Outro escândalo que ronda Washington é a participação de mercenários contratados pelo Pentágono, através da Halliburton e da Blackwater para participarem das batalhas na região de Cerenaica, em especial Bengazhi e Trobuk ao lado dos opositores que começam a perder terreno para os simpatizantes de Khadafy. A missão dos mercenários que ficariam sob controle da CIA, Agência Central de Inteligência e até executariam ações secretas com a aliada Al-Qaeda de Bin Laden, contra Khadafi seria manter o controle dos poços de petróleo já sob controle da oposição na região de Bengazhi.

O serviço secreto russo confirmou ontem através de Nicolai Patrushev, que na verdade o que está existindo é um verdadeiro bombardeio da mídia internacional contra Kadhafi, pois a Russia controla totalmente o espaço aéreo do norte da África e cem por cento da Líbia e que os aviões que supostamente levantaram vôo para executar os bombardeios contra o povo líbio não saíram do chão e portanto não executaram qualquer ação militar; que somado a isso, por não existirem imagens de qualquer vôo, configura uma armação do Pentágono. O Secretário de Defesa do EUA admitiu o erro das informações dizendo que podem ter sido outros aviões, mas setores independentes da mídia internacional já haviam colocado a entrevista dos russos no ar e assim desmoralizado a ação do Pentágono.

O ministro das Relações Exteriores da Libia, Mussa Kosa, em nota distribuida à imprensa mundial, apoiou a proposta do Presidente da Venezuela Hugo Chavez, da formação de uma Comissão Internacional de Paz, afirmando ainda que o Coronel Muammar Khadafy sugeriu também que a Comissão de Direitos Humanos da ONU venha à Libia e faça a investigação que desejar e não que tome qualquer decisão com base em informações da mídia comprometida com o complexo industrial militar norte americano.

Ontem um dos principais líderes da oposição a Kadafi, Khaled Maassou, na região de Cerinaica, confirmou que estava desistindo da luta por não concordar com a participação de mercencários e militares norte americanos em território líbio contra Kadhafi, e que em nenhuma situação irá contribuir com a CIA, que agora começa a assumir com a Al Qaeda o comando da situação na região de Cirenaica.

Quanto a decisão da ONU de congelar os bens de Kadhafi e seus familiares no exterior, Maassou afirmou que é uma medida inócua pois Kadhafi não tem bens no exterior e que a ele interessa é o poder, e não o dinheiro. Que o problema de Khadafy não é corrupção, pois ele não é corrupto, o problema de Kadhafi é o autoritarismo e a necessidade de alternância de poder que ele não entende.

Ontem um grupo de palestinos simpatizantes de Kadhafi foi expulso da região de Bengazhi porque se recusavam a lutar contra o líder líbio.

Toda a região de Fezzan, que compreende as cidades que vão de Sabha a Al Kufrah e praticamente toda a Tripolandia, estão sob controle das forças leais a Kadhafi. Apenas parte da região de Cirenaica, no extremo norte, está sobre controle dos opositores.

FONTES – AGNOT3ºMUNDO – REDE MUNDO – INTERPRESS – MIDIA LATINA – 06.03.11.

PETER BLAIR, de Washington e KHATARINA GARCIA, de BENGAZHI\Libia.”

http://port.pravda.ru/mundo/15-03-2011/31379-libia_massacre-0/

Compartilhar

Celso Amorim afirma que EUA querem resolver tudo com atitude de caubói’

Ex-ministro afirma ser “muito velho” para se sentir frustrado com negativa dos Estados Unidos em torno do programa nuclear iraniano e lembra que Mubarak era modelo para Casa Branca

Por: João Peres, Rede Brasil Atual

Celso Amorim afirma que EUA querem resolver tudo com 'atitude de caubói'Para o ex-ministro das Relações Exteriores, mundo atual exige que se dialogue também com adversários e inimigos e não com o tipo de atitude empregada pelos EUA (Foto:Antonio Cruz/Agência Brasil)

São Paulo – O ex-ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, revela que acreditava que os Estados Unidos aceitariam o acordo costurado por Brasil e Turquia em relação ao programa nuclear do Irã. Ele confessa, no entanto, não ter sentido frustração quando a negociação foi rejeitada por Washington.

“Estou muito velho para poder ter um momento em que digo que não esperava de jeito nenhum”, afirmou o ex-chanceler durante conversa com a reportagem da Rede Brasil Atual, na quinta-feira (17), dois dias antes da chegada de Barack  Obama ao país. “Os pontos essenciais que o presidente Obama tinha posto em carta para nós estavam atendidos. Dava para sentar à mesa. Uma vez sentando à mesa começavam a resolver (os problemas).”

Em maio do ano passado, Amorim e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva conseguiram convencer o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, a aceitar as exigências apresentadas pelos Estados Unidos em relação ao programa nuclear. Uma carta enviada antes da reunião por Obama ao Brasil não deixa dúvidas de que os negociadores atenderam aos pontos fundamentais demandados pela Casa Branca, entre os quais figurava o enriquecimento de urânio promovido em território iraniano.

Quando o acordo com Ahmadinejad foi anunciado, Obama e a chefe do Departamento de Estado, Hillary Clinton, rejeitaram o resultado e trabalharam pela imposição de novas sanções contra os iranianos. A suspeita lançada no ar pelas nações mais ricas do mundo era se a nação asiática queria processar o minério para produzir energia ou para fabricar armas nucleares.

Um dia depois do sucesso brasileiro na conversa, uma proposta foi enviada ao Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) para atingir bancos e empresas da nação asiática. Dias depois, a ONU aprovou as medidas, o que levou Lula a afirmar que a decisão era uma “birra” de um pai que precisa distribuir palmadas a qualquer custo.

“A realidade do mundo não é uma realidade só. Você não se dá só com as pessoas que são iguais a você, tem que conviver e tem que tentar resolver. A gente precisa conversar com nossos adversários, conversar com nossos inimigos”, ressalta Amorim.

O ex-ministro considera comprovada a ideia de que a falta de diálogo nas relações internacionais só dá resultados ruins. “Os Estados Unidos têm historicamente como inimigo na região o Irã. Aí faz uma guerra no Iraque, que era um país mais distante do Irã. Hoje, o país com maior influência no Iraque não são os Estados Unidos, é o Irã. Porque os Estados Unidos acham que resolvem tudo numa atitude de caubói.”

Amorim acredita que o acordo costurado pelo Brasil não teria sido um favor para o Irã, mas para as nações ocidentais. “Para a liderança iraniana, ficar mais isolado legitima mais uma atitude radical”, afirmou. “Falando com o Irã não fizemos ameaças, mas advertimos, e advertimos não para o que iríamos fazer, mas para o que iria acontecer. E isso ajudou a aceitarem um acordo que não estavam aceitando.”

O ex-chanceler acredita que as mudanças na ordem mundial levam à formação de um quadro no qual a voz dos países emergentes não poderá ser ignorada. Ele pondera que o fato de Brasil, África do Sul e Índia não falarem “de cima para baixo” é um fator que facilita as negociações e defende que o Itamaraty tenha um papel importante na solução da crise nos países árabes.

“Hoje em dia, todos falam que (o líder egípcio Hosni) Mubarak era um ditador, mas para Israel e para Washington era um líder árabe moderado, era o modelo. Não vou discutir se era ou não era. O povo egípcio disse o que pensava sobre ele, e é isso o que interessa”, alfineta

Jobim não admite punição para torturadores (via vermelho)

portal vermelho

 

O ministro da Defesa, Nelson Jobim, afirmou hoje (15) que a decisão da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) de condenar o Brasil pelo desaparecimento de 62 pessoas na Guerrilha do Araguaia é meramente política e que não produz efeitos jurídicos no Brasil. Jobim disse também que não há possibilidade de punição para os militares que praticaram tortura no país.

Para Jobim, que já foi ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), a validade da Lei da Anistia não deve voltar a ser discutida na Corte. “O assunto não pode voltar ao Supremo, pois a Corte está sujeita a suas próprias decisões. As decisões de constitucionalidade têm efeito contra todos, inclusive eles [os ministros]”, disse Jobim.

Mais cedo, o secretário de Direitos Humanos, Paulo Vannuchi, disse que o STF poderia voltar a discutir a Lei de Anistia, julgada constitucional por 7 votos a 2 em abril deste ano. “Se você tem uma lei que anistiou, ela não pode ser revista hoje. É uma lei que se esgota em sua própria vigência”, afirmou Jobim, durante palestra na Secretaria de Assuntos Estratégicos.

O ministro disse que seu lema é “memória tudo, retroação zero”, e que não se constrói política no presente olhando para o passado. “Quando isso acontece, há um consumo brutal de energia no primeiro ano de governo, só retaliando o governo anterior”.

Segundo Jobim, o Estado já está cumprindo decisão da CIDH com o Grupo de Trabalho do Tocantins, que atua há dois anos e é formado por diversos especialistas que trabalham na localização dos corpos dos desaparecidos na guerrilha.

O ministro lembrou que a anistia foi negociada na transição entre o governo militar e o civil, assegurando uma ampla vigência para os dois lados.

“O processo de transição no Brasil é pacífico, com histórico de superação de regimes, não de conflito. Isso nem sempre acontece nos países da América espanhola, muitas vezes pautados por situações de degola e pelo lema lucha hasta la muerte [luta até a morte]”, disse Jobim, fazendo referência a um discurso do revolucionário Ernesto Guevara na Organização das Nações Unidas (ONU), em 1964, em defesa da Revolução Cubana.

Nosso comentário

Não sabemos se o ministro Jobim lavou a boca antes de mencionar o nome do herói latino-americano Ernesto Che Guevara, inspiração de todos os guerrilheiros que a ditadura torturou e matou. Nem vamos discutir história com ele. Mas fique o registro: No Brasil houve degola, esquartejamento, tortura, assassinatos a sangue frio, praticados em diferentes momentos na colônia, no império e na república por esbirros a serviço das classes dominantes e das metrópoles às quais rendiam vassalagem.

E sempre houve, sempre haverá, autoridades que como ele, prestimosas em servir os inimigos do povo, repetem a cantilena surrada do “processo histórico sem conflitos”. A ditadura militar foi um desses momentos de longa duração na história do Brasil em que mais houve conflito e imposição da força bruta aos opositores políticos. Em nome de combater o inimigo externo, no quadro da aliança dos militares com o imperialismo norte-americano, os generais golpistas fizeram guerra ao povo. Isto pertence à história. A luta e a resistência, pacífica e armada, também é história.

No presente, cabe à imensa maioria dos brasileiros que querem construir uma nação democrática e soberana, disposição para a qual já deram inúmeras demonstrações inclusive através do exercício do voto, e às forças políticas para as quais a democracia, os direitos humanos, a memória, a justiça, a verdade não são conceitos vagos nem bandeiras pragmáticas, aplicar o indispensável corretivo , para que nunca mais se repitam os crimes que obliqua e anacronicamente o ministro na prática se empenha em defender. Isto não é revanchismo, mas um sinal construtivo de que seremos uma nação digna da grandeza do povo. Uma pátria-mãe, não uma madrasta algoz. Tortura, nunca mais!

Da redação, com informações da Agência Brasil

Brasil reconhece Estado Palestino.

O Brasil reconheceu Estado Palestiniano com fronteiras anterior à Guerra dos Seis Dias. Governo israelita diz que a decisão do governo brasileiro é uma violação aos acordos assinados entre Israel e a Autoridade Palestiniana.

Artigo | 5 Dezembro, 2010 – 01:43

Celso Amorim, actual Ministro das Relações Exteriores do Brasil - Foto wikimedia

Celso Amorim, actual Ministro das Relações Exteriores do Brasil – Foto wikimedia

O Brasil anunciou, nesta sexta feira através de uma nota do Ministério das Relações Exteriores, o reconhecimento de um Estado palestiniano nas fronteiras anteriores à Guerra dos Seis Dias, em 1967. A nota diz que a decisão foi tomada como resposta a um pedido feito em Novembro passado pelo presidente da Autoridade Palestiniana, Mahmoud Abbas.

Celso Amorim, ministro das Relações Exteriores do Brasil, afirmou, à chegada a Mar del Plata na Argentina, para participar na Cimeira Ibero-Americana, que “o reconhecimento do Estado da Palestina é a melhor maneira de contribuir neste momento para o processo de paz, que está em estancamento”.

Para Celso Amorim, “a decisão não implica abandonar a convicção de que são imprescindíveis negociações entre israelitas e palestinianos, a fim de que se alcancem concessões mútuas sobre questões centrais do conflito”.

Em reação ao reconhecimento brasileiro de um Estado palestiniano, um comunicado do Ministério dos Negócios Estrangeiros de Israel refere que “Israel lamenta e expressa a sua decepção depois da decisão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva adotada um mês antes de passar o poder para a presidente eleita Dilma Rousseff”.

O ministro israelita dos Negócios Estrangeiros disse ainda que a decisão “constitui uma violação dos acordos interinos assinados entre Israel e a Autoridade palestiniana e que estipulam que o tema do futuro da Cisjordânia e da Faixa de Gaza será discutido e definido mediante negociações”.

Nos EUA, a decisão foi criticada pela líder dos republicanos na comissão de Negócios Estrangeiros da Câmara de Representantes, Ileana Ros-Lehtinen, e pelo congressista democrata Eliot Engel.

Para Ileana Ros-Lehtinen, a decisão do governo do Brasil “é lamentável e só vai prejudicar um pouco mais a paz e a segurança no Médio Oriente”.

Eliot Engel disse que o Brasil tomou uma decisão “extremamente imprudente”, considerando que ela significa “o último suspiro de uma política externa (brasileira) que se isolou muito sob o governo de Lula”.

Engel acrescentou ainda: “Só podemos esperar que a nova liderança que vem para o Brasil mude o curso e entenda que este não é o caminho para ganhar a preferência como uma potência emergente, ou para se tornar um membro permanente do Conselho de Segurança das Nações Unidas”.

Fonte: esquerda.net

Rachaduras na selva de espelhos[1] (via @jornalpagina13)

Por Pepe Escobar, Asia Times OnlineA tentação de ver WikiLeaks como um paraíso artificial neo-Baudelaireano – casamento de anarquismo libertista e ciber-conhecimento – não poderia ser maior ou mais sedutora. Agora, não mais de 40 pessoas auxiliam o fundador Julian Assange, mais 800 que trabalham por fora.

Tudo isso, um orçamento anual de 200 mil euros (264 mil dólares) – e uma base nômade. O porta-voz Kristinn Hrafnsson insiste que WikiLeaks continua a ser um “portal de vazadores”, que não identifica suas fontes as quais, muitas vezes, são desconhecidas. Lá se encontra vazador que mostre que o imperador está nu – assim como qualquer um, Osama bin Laden ou outro, conseguiu inaugurar a verdadeira “nova ordem mundial” dia 11/9 com 500 mil dólares.

Para Daniel Ellsberg, que divulgou os “Documentos do Pentágono” em 1971, Assange é um herói. Para vastas porções do establishment nos EUA, ele é hoje o inimigo público n. 1 – como improvável eco de bin Laden. Talvez esteja hoje no sudeste da Inglaterra, acessível à Scotland Yard, e podendo ser preso a qualquer momento por cortesia da Interpol, que expediu mandato de prisão contra Assange por ser procurado na Suécia. O professor canadense Marshall McLuhan deve estar dando pulos na tumba; se o meio é a mensagem e ninguém consegue eliminar a mensagem, de que adiantaria eliminar o meio?

El libro de arena [2]

Examinemos o crime de Assange. Eis o que diz o próprio Assange em “State and Terrorist Conspiracies” [Estado e conspirações terroristas][3]:
 
Para mudar radicalmente o comportamento do regime, temos de pensar com clareza e firmeza, porque, se aprendemos alguma coisa, é que nenhum regime deseja ser modificado. Temos de pensar além dos que vieram antes de nós, e encontrar mudanças tecnológicas que nos equipem com meios para agir, com os quais os que vieram antes de nós não contaram. Em primeiro lugar, temos de entender qual o aspecto do governo ou do comportamento neocorporativo que desejamos ou mudar ou extinguir. Em segundo lugar, temos de desenvolver um modo de pensar sobre aquele comportamento, suficientemente potente para nos permitir avançar no labirinto da linguagem politicamente enviesada, até uma posição em que possamos ver com clareza. Por fim, devemos usar esses insights de modo que inspirem, em nós e em outros, um curso de ação mais nobre e mais efetivo.

Portanto, Assange vê WikiLeaks como um antivírus que nos deve guiar na navegação através das distorções da linguagem política. Se a linguagem for um vírus que nos chegou do espaço sideral, como escreveu William (Naked Lunch) Burroughs[4], quantos mais segredos se revelem hoje, menos segredos se produzirão no futuro, até zero-segredos, WikiLeaks pode ser o antídoto. Basicamente, Assange crê que a revelação cumulativa de quantidades enormes de segredos levará ao fim dos segredos, no futuro. É uma visão romântico-anarco-utopista.

É vital lembrar que, como Assange os vê, os EUA são essencialmente uma gigantesca conspiração autoritária. Outro ativista político norte-americano, Noam Chomsky, diz exatamente a mesma coisa (e ninguém expediu mandato de prisão contra ele). A diferença é que Assange emprega estratégia de combate: trabalha para minar a capacidade do sistema para continuar conspirando. É onde entra a metáfora da rede de computadores. Assange quer combater o poder do sistema, tratando-o como se fosse um computador sufocado nas areias do deserto. Se estivesse vivo, que grande conto o argentino Jorge Luis Borges escreveria sobre isso.

Além de escrever seu próprio “Livro de Areia”, Assange também está contra-atacando a doutrina de contraguerrilha do Pentágono. Não trabalha no modo “rastrear-os-Talibã-e-desentocá-los”. Isso é detalhe. Se a conspiração está na rede eletrônica – digamos a Matrix (da política exterior) –, o que Assange quer é feri-la na capacidade cognitiva; para isso, detona a qualidade da informação.

Nesse ponto, há outro elemento crucial. A capacidade da conspiração, que engana todos todo o tempo mediante quantidades massivas de propaganda, é equivalente à tendência de a conspiração ser enganada também, ela mesma, pela própria propaganda.

Assim chegamos à estratégia de Assange, de deixar vazar quantidades tsunâmicas de informações, como fator-vetor-chave da paisagem informacional. Daí se chega a outro ponto crucial: não importa que os vazamentos sejam informação nova, pura fofoca ou opinião desejante (desde que sejam autenticados pela fonte). A ideia-mãe – muito ambiciosa – é minar todo o sistema de informação e, assim, “levar os computadores à pane”, quando a conspiração for obrigada a voltar-se contra ela mesma, em movimento de autodefesa. Para WikiLeaks, a única via pela qual se pode destruir uma conspiração é obrigando-a a entrar em modo paranoico-alucinatório focado sobre ela mesma.

Assim vamos entrando em território cada vez mais crucialmente decisivo. Praticamente ninguém – em todo o tsunami de material jornalístico e ‘entrevistas’ e opiniões de ‘especialistas’ inspirados pelo “cablegate” que circulou em todo o planeta – viu o que havia para ver, de importante.

Mais uma vez, não faz diferença que a maioria dos telegramas não passem de fofocas – material de jornalismo de tabloide sujo. O que interessa é ver aí o modo pelo qual Assange está expondo o sistema operacional da conspiração. Assange não está interessado em furos jornalísticos (como talvez seus parceiros no Guardian e no Der Spiegel); seu único desejo é estrangular os nós que tornam possível a conspiração – calar o sistema, deixá-lo cada vez mais gaguejante, mais zonzo, mais mudo.

Não há dúvidas de que os telegramas mostram o quanto o Departamento de Estado já vive em território “cada vez mais gaguejante, mais zonzo, mais mudo” – sem criatividade sequer para distribuir suas próprias versões de ‘telegramas fake’, ‘telegramas piratas’. Só até aí, já estamos ante uma extraordinária vitória de organização diferente de tudo que o mundo conhece até hoje, que faz o que fazem – ou deveriam fazer, mas não fazem – os jornalistas, e muito mais. Porque há muito mais por aparecer, segredos de um grande banco (provavelmente do Bank of America), segredos da China, segredos da Rússia.

“Espelho, espelho meu, existe rede mais rede do que eu?”

O governo dos EUA e praticamente toda a imprensa-empresa, como seria de esperar, acionaram seus mecanismos de autodefesa, e passaram a repetir que “não há qualquer notícia nova nos telegramas”. Muitos talvez já suspeitassem que a secretária de Estado Hillary Clinton ordenara que diplomatas dos EUA espionassem seus colegas na ONU. Mas telegrama diplomático que confirme isso é notícia absolutamente nova. Se o Secretário-geral da ONU não fosse tão bobão, teria armado um monumental escarcéu diplomático global.

E então, ao mesmo tempo, o governo dos EUA e virtualmente todo o establishment – dos neoconservadores aos militantes do obamistas light – estão dispostos a fazer o que for preciso para deletar WikiLeaks ou acabar com a raça de Assange, como George W Bush queria fazer com bin Laden [e o ex-senador Bornhausen conosco (NTs)].

Sarah  – Ursus arctos horribilis & idiota perfeita[5] – Palin diz que Assange é pior que a al-Qaeda. A mesma histeria generalizada levou uma emissora de rádio de Atlanta a fazer uma enquete entre os ouvintes, sobre se Assange deveria ser executado ou preso (só duas opções; a execução venceu). O pastor Batista fundamentalista Mike Huckabee, que poderia ter sido candidato dos Republicanos à presidência em 2008 e hoje comanda um programa de televisão, também pregou a execução de Assange.

Em quem acreditar? Nesses doidos varridos, ou em dois frustradíssimos investigadores federais dos EUA que, em entrevista ao Los Angeles Times, disseram que, se WikiLeaks já estivesse trabalhando em 2001, teria sido possível evitar o ataque do 11/9?

Filósofos franceses, ocupados em salvar-se da própria irrelevância, fomentam teorias de conspiração, lamentando que WikiLeaks daria mais poderes à imprensa do que jamais tivera antes; outros culpam o ogro Internet por desmoralizar jornalistas. É a matéria-prima de todas as conspirações. Aí está a beleza dos vazamentos.

Nesse quadro, pode ser altamente esclarecedor ouvir o que tenha a dizer o eminente Guerreiro da Guerra Fria Zbigniew Brzezinski. Pois disse em entrevista à rede pública dos EUA [US Public Broadcasting Service] que no “cablegate” há “informação surpreendentemente orientada” que teria sido “plantada” nos arquivos; e que “plantar informações naqueles arquivos” é tarefa simplíssima.

Por exemplo: os telegramas que dizem que os chineses estão inclinados a cooperar com os EUA com vistas a uma possível unificação da Korea sob a soberania da Coreia do Sul (já desmontei essa hipótese em artigo anterior, “O imperador está nu”, Asia Times Online 1/12/2010, traduzido em http://redecastorphoto.blogspot.com/2010/12/o-imperador-esta-nu.html).

O Dr. Zbig diz que a organização WikiLeaks pode ter sido infiltrada por serviços de inteligência com “objetivos muito específicos”; poderiam ser, como ele sugere, elementos internos nos EUA, interessados em criar dificuldades para o governo Barack Obama. Mas ele também suspeita de “elementos estrangeiros”. Nesse caso, primeiro lugar da lista, ninguém menos que o Estado de Israel.

Nos termos das teorias da conspiração de sempre, essa é a bomba. WikiLeaks poderia ser a cabeça visível de uma “serpente” invisível – uma massiva campanha de desinformação orientada pelos israelenses? Se fosse, apareceriam telegramas altamente comprometedores que abalariam as relações EUA-Turquia; e telegramas que se somariam uns aos outros, para pintar a imagem de amplo consenso entre os sunitas árabes a favor de imediato ataque militar ao Irã; e não haveria sequer um telegrama para dizer ao mundo o quanto e como Israel sempre cria ameaças aos interesses dos EUA no Oriente Médio, sempre e sempre, inúmeras vezes.

Em entrevista a Larry King, da televisão dos EUA, o primeiro-ministro russo Vladimir Putin disse que, sim, os telegramas foram manipulados; são parte de um complô para desacreditar a Rússia (mas isso foi antes de a Rússia ter abocanhado o direito de sediar a Copa do Mundo de 2018; agora, o pessoal lá já está afogado em cataratas de Stoli[chnaya; vodca] e ninguém está dando a mínima bola para telegramas e complôs). O presidente Mahmud Ahmadinejad disse exatamente a mesma coisa, sobre complô, no seu caso, contra o Irã.

E há também a conspiração que não aconteceu: como é possível que o Pentágono, com tantos recursos hiper-mega-ultra-super high-tech ou não quis ou não tentou ou não pôde, até agora, derrubar completamente WikiLeaks?

Há muita conversa em todo o mundo sobre os “motivos” pelos quais WikiLeaks divulgou aqueles telegramas. É preciso reler o pensamento de Assange para entender que não há “motivos”. O vazio intelectual e o autismo político dos diplomatas dos EUA é autoevidente. Eles só entendem o mundo em termos de ‘bons’ e ‘maus; os EUA versus qualquer ‘outro’.

O grande diretor franco-suíço Jean-Luc Godard faz 80 anos hoje, 6ª.-feira, 3/12. Seria ótimo que filmasse um remake de Made in USA, para mostrar a perplexidade do sistema que, agora, contempla a própria cara num espelho digital gigante.

[1] Orig. Wilderness of Mirrors. A expressão aparece no título de livro de David Martin Wilderness of Mirrors: Intrigue, Deception, and the Secrets that Destroyed Two of the Cold War’s Most Important Agents [Selva de espelhos: intriga, mentiras e os segredos que destruíram dois dos mais importantes agentes da Guerra Fria], de 1981, sobre, dentre outros espiões norte-americanos, James Jesus Angleton, chefe do setor de contrainteligência da CIA no auge da Guerra Fria, quando a Agência trabalhava quase exclusivamente para identificar agentes soviéticos ou orientais infiltrados nos serviços secretos norte-americanos [NTs, com informações de http://en.wikipedia.org/wiki/James_Jesus_Angleton].
[2] Orig. The Book of Sand. É o título, em inglês, de livro original de 1975, de Jorge Luis Borges, El libro de arena. Em português, O livro de areia, 2009, São Paulo: Companhia das Letras.
[3] Em http://web.archive.org/web/20071020051936/http://iq.org/ e em http://cryptome.org/0002/ja-conspiracies.pdf leem-se vários ensaios de Julian Assange (em inglês) [NTs].

[4] Naked Lunch é título de um romance de William Burroughs de 1959, que tem longa e complexa história editorial e foi adaptado para o cinema em 1991, com o mesmo título, filme dirigido por David Cronenberg, exibido domingo passado pela TV Cultura, em “Mostra Internacional de Cinema na Cultura”. Detalhes sobre o romance em http://en.wikipedia.org/wiki/Naked_Lunch e sobre o filme em http://en.wikipedia.org/wiki/Naked_Lunch_(film).

[5] No original “Grizzly nutjob Sarah Palin”. É expressão intraduzível. Cada leitor pode escrever aí os adjetivos que lhe ocorram sobre Sarah Palin; para melhor tradução, os adjetivos devem guardar traços semânticos  (malígnos) de “grande urso pardo” e de “idiota perfeita” (NTs).

%d blogueiros gostam disto: