Nota da Esquerda Popular e Socialista (EPS/PT), referente à declaração do Ministro Paulo Bernardo.

Os equívocos do ministro Paulo BernardoLOGO EPS FINALISSIMA degradee

 

 

O ministro das comunicações, Paulo Bernardo, reagiu à nota do PT sobre a urgência da atualização do marco regulatório das comunicações em declarações à imprensa. Ele também criticou a posição do partido pela revisão das desonerações concedidas às empresas de telecomunicação, que devem chegar a R$ 6 bilhões de reais.

Segundo reportagem do jornal O Estado de S. Paulo, o ministro reconheceu que é preciso coibir a discriminação e ampliar o conteúdo regional mas afirmou que “não é fácil regular isso.”Também destacou que “não há e nunca vai haver” marco regulatório para jornais e revistas. Ainda de acordo com a publicação, ele teria classificado como “incompreensível” que militantes do PT misturem “a regulação da mídia com investimentos” e disparou: “É incompreensível que um partido que está há dez anos no governo seja contra a desoneração e critique o nosso esforço para baixar impostos”.

Em reunião do seu diretório no início de março, o PT aprovou resolução na qual conclama “o governo a reconsiderar a atitude do Ministério das Comunicações, dando início à reforma do marco regulatório das comunicações, bem como a abrir diálogo com os movimentos sociais e grupos da sociedade civil que lutam para democratizar as mídias no país”.

No documento, o partido defende que o governo reveja “o pacote de isenções concedido às empresas de telecomunicações, a reiniciar o processo de recuperação da Telebrás; e a manter a neutralidade da Internet (igualdade de acesso, ameaçada por grandes interesses comerciais)”.

MINISTRO_PAULO_BERNARDO

Primeiro equívoco: o novo marco regulatório

Nas declarações, o ministro Paulo Bernardo assume a defesa de uma linha dentro do governo que vai contra a promoção dessa agenda urgente de reforma da legislação das comunicações para combater o oligopólio no setor e promover a diversidade e a pluralidade de ideias, vozes, regiões e culturas.

O argumento de que “não é fácil regular” consolida uma postura conformista e coloca a culpa na “correlação de forças” como se o governo federal não fosse um agente central para movê-la. E como se as gestões de Lula e Dilma Rousseff não tenham comprado brigas mesmo quando havia grande resistência. Só para citar um exemplo na própria área das comunicações, a criação da Empresa Brasil de Comunicação em 2007 enfrentou enorme oposição, mas foi bem sucedida em razão da ação do governo federal.

Embora seja direito do ministro ter posições independentes das do PT, o tom da reação é preocupante e revela um desprendimento de Bernardo em relação ao debate feito dentro do partido e um certo desrespeito acerca do entendimento de seus dirigentes. Paulo Bernardo é um ministro, mas é do PT e, portanto, precisa considerar com mais seriedade a avaliação política de seu partido, mesmo que divirja dela.

É papel do governo federal comprar a briga pública por uma atualização democrática da legislação da mídia. Esse é um instrumento central não para “calar a imprensa”, como os conglomerados insistem em confundir propositalmente, mas para consolidar a democracia em nosso país. E quanto mais o governo adere à cantilena dos grandes grupos comerciais de mídia, mais ele reforça não apenas a posição econômica como o poderio político deles de influenciar o debate público.

Segundo equívoco: a política de expansão das telecomunicações

A irritação maior de Paulo Bernardo é quanto à crítica do PT ao pacote de desoneração das teles. Em 2010, houve uma disputa interna sobre como promover a expansão da banda larga. Um grupo no Palácio do Planalto propunha o fortalecimento da Telebrás, que promoveria a competição vendendo dados no atacado a pequenos provedores que ofereceriam o serviço no varejo. Já o Ministério das Comunicações, a época comandado por Hélio Costa, assumiu a proposta das empresas de que a expansão só viria com desonerações e investimento do governo, sem grande esforço por parte delas para ampliar a oferta e baixar preços. E usa como argumento a necessidade de assegurar infraestrutura para as cidades da Copa do Mundo.

Paulo Bernardo, homenageado como homem do ano pelos conglomerados de telecom, retomou a agenda desses grupos. Enfraqueceu a Telebrás e garantiu uma injeção de recursos recorde nas teles. Apenas este pacote de desonerações vai movimentar R$ 6 bilhões. E em troca? Apenas que as empresas façam a obrigação delas: ofereçam o serviço e façam investimentos para isso. Pior, ele opera fazer algo que nem Fernando Henrique Cardoso fez: entregar a infraestrutura espólio do Sistema Telebrás (agora explorada pelas concessionárias Oi, Telefônica e Embratel) avaliada em R$ 40 bilhões às empresas. Em troca: novamente apenas a obrigação de ofertar o serviço e investir para assegurar isso. Não é concessão, não é venda, é entrega.

Frente a este cenário dramático em que um ministro do PT se prepara para o maior assalto ao patrimônio público das telecomunicações (que apesar de estar sob exploração de empresas continua sendo do povo brasileiro), a nota do PT é fundamental. O partido alerta para uma política na qual o setor privado não se mexe se não for com recursos ou benesses do governo. No máximo algumas obrigações na exploração da internet móvel de atender algumas regiões.

Experiências de países como Reino Unido, Austrália, Coréia, Japão e Suécia mostram que a expansão da banda larga passa necessariamente por um papel ativo do Estado. Seja ao estabelecer uma regulação forte para promover a desagregação das redes e a competição na oferta do serviço de acesso à Internet, seja pelo investimento em infraestrutura. E aí, este investimento não pode ser simples transferência de recursos para a ampliação das redes das operadoras. O Estado deve constituir sua própria malha, projeto iniciado com a retomada da Telebrás, e cobrar altas contrapartidas de atendimento, qualidade e preço para aportar verba pública na melhoria das redes das empresas.

O ministro do PT precisa ouvir o PT. E atuar em benefício da população, do acesso a serviços e direitos em condições justas e razoáveis. E não ser um operador orgânico da agenda dos empresários. Pelo menos é o que deveria ser um governo que, mesmo de coalizão, é comandado pelo Partido dos Trabalhadores e que propaga como projeto a melhoria da qualidade de vida do povo.

 

Direção Nacional da Esquerda Popular e Socialista do PT

Nas fórmula da USP, etanol deveria estar a R$ 1,71. Agora, a Petrobras intervirá, Que dirá o “mercado”? (via blogdobrizolaneto)

Como é que os nossos “libertistas de mercado” vão reagir à notícia que o Governo vai fazer a Petrobras, através da BR Distribuidora, forçar o mercado de etanol a voltar para patamares de preço razoáveis? Será que vão ter a coragem, diante das classes médias – agora “turbinadas” pela imensa ascenção social do segundo governo Lula – de ir para a tevê e os jornais dizerem que estamos quebrando os do altar do capitalismo ao usar o Estado e suas empresas para intervir no mercado e…baixar preço?

Ora, a liberdade de mercado é um valor que está longe de ser absoluto, e faz muito tempo. A fixação de limites para isso  tem mais de um século, e nasceu com a primeira lei antitruste dos  EUA, o Sherman Act, que veio justamente para proteger o mercado contra o poder de uma petroleira, a Standart Oil.

O que está acontecendo é absolutamente natural e intríseco à lógica pura de mercado. A demanda por combustível é não é elástica ao ponto de fazer com que, com o alto preço, as pessoas deixem de comprar ou adiem a compra, forçando a baixa. Pode cair, sim, mas os tanques de estocagem estão vazios, pelo início de safra e, como admitem os próprios analistas desse mercado, como admitiu ontem, no Valor Econômico, a pesquisadora do Cepea-USP, Mirian Bacchi, que montora estes preços: “diversos grupos estão acelerando a moagem, especialmente aqueles que precisam de caixa depois da entressafra. Algumas unidades precisam de dinheiro para pagar tributos e salários” .

Mas como é que isso pode garantir preço em baixa num setor com crescente concentração empresarial, inclusive estrangeira, como é  o da cana-de-açúcar. É evidente que os grandes complexos produtores jogam com o trinômio preço – capacidade de estocar –  fluxo de caixa. Idem, idem as grandes distribuidoras o fazem, porque são poucas e dominam o setor. E os postos, claro, depois de experimentarem ganhos maiores por litro vendido, por conta de aplicarem um percentual sobre os preços, resistem em estreitar estas margens. Em vários deles, ela chegou a 30%, quando, no ano passado, pouco passava de 10-12%.

A mesma pesquisadora do Cepea, Mirian Bacchi, publicou em 2006, no site da Unica – União dos Produtores de Cana de Açúcar de São Paulo – um cálculo do preço de comercialização, quando o preço era, na usina, de R$ 0,70 o litro.

Dizia ela:

“Suponha que o preço sem impostos do álcool na usina seja de R$ 0,70/l e que a margem total absoluta seja de R$ 0,50/l – valores reais médios aproximados dos últimos cinco anos para o Estado de São Paulo. Nesse caso, o preço cheio no varejo seria de R$ 1,20/l. Suponha que da margem absoluta total, R$ 0,28/l corresponda ao componente fixo e R$ 0,22/l ao componente variável.  Nesse caso, a seguinte igualdade seria verdadeira:

1,20 = 0,70 + 0,28 + 0,22

Portanto, o preço de comercialização seria de R$ 1,20 o litro de etanol hidratado.

Façamos agora a conta dos preços, de acordo com a fórmula da Dra. Mirian, para o preço de R$ 1,02 (arredondei para cima o R$ 1,0175 de ontem)  fechado ontem para o litro de etanol hidratado, segundo o próprio Cepea-USP no poderosíssimo entreposto de Paulínia, em São Paulo.

Corrigindo o custo fixo pelo IGP-M de janeiro de 2006 para março de 2011, aqueles R$ 0,28  passam a R$ 0,39. Os custos variáveis – impostos – não tiveram suas alíquotas mudadas e, portanto, variam na mesma proporção do produto: de R$ 0,70 para R$ 1,02 são 30% de variação. Passariam, portanto, a R$ 0,30.

Logo, a soma seria:

1,02 + 0,39 +0,30 = 1, 71

Se o distinto amigo ou amiga achar um posto de combustível vendendo etanol a este preço, abasteça e fuja rápido, porque vai ser formar um tumulto assim que a notícia se espalhar e todos os automóveis da cidade correrem para ele.

Mas não se preocupe, isso não vai acontecer.Não porque não haja, dentro da própria lógica do mercado livre, um dono de posto capaz de colocar este preço, com uns dois centavos a mais, e lucrar muito vendendo centenas de milhares de litros. Mas porque as cadeias de produção e suprimento são oligopolizadas e visam, como é natural para elas, lucros máximos. E forma, no rastro disso, uma esteira de pequenas espertezas.

Mas não é isso o que é bom para o país, nem para a sociedade. Nem bom, nem justo.

E o Estado é o único poder que se pode contrapor a isso. Seus instrumentos podem ser punitivos – e aí você se sujeita a entrar numa cadeia de autoridade-abuso-corrupção -favoritismo ou, pior, inação, como estamos vendo acontecer na ANP – ou usa a intervenção via empresas estatais.

E o nome do Estado nos combustíveis é um só, o que faz a direita tremer: Petrobras

É o que vamos ver acontecer  agora.

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