Novo coordenador da Cads, Julian Rodrigues adianta o que deve ser feito em 2013 em SP

Julian assume a Cads em 2013

JULIAN

A partir do dia 1 de janeiro de 2013, a Coordenadoria de Assuntos da Diversidade Sexual da Prefeitura de São Paulo (Cads) terá um novo titular. Com a posse do petista Fernando Haddad como prefeito, entra para coordenar as atividades da Cads o militante Julian Rodrigues, 39 anos, figura conhecida da militância nacional e um dos principais nomes de articulação da causa LGBT dentro do PT.

Em entrevista exclusiva ao Mixbrasil, Julian se diz tranquilo com o novo desafio, mas consciente de que terá muito trabalho pela frente. Ele destaca que serão duas as prioridades de sua gestão para o começo de 2013, inseridas no chamado Plano de 100 Dias exigido por Haddad a todas às pastas municipais.

“Teremos duas prioridades: primeiro elaborar uma campanha municipal contra a homofobia, principalmente por conta desses ataques mais recentes na cidade. O tamanho da campanha ainda vai depender do orçamento que vamos ter, mas pretendemos fazer um ato de lançamento com a presença de ministros e o prefeito aproveitando o aniversário da cidade (25 de janeiro).”

A campanha pretende ser abrangente e deve contar com cartazes, folders, camisetas e presença nas redes sociais e boates alertando para a importância de denunciar ataques homofóbicos. “E se tiver dinheiro vamos para a televisão e o rádio também”, adianta Julian, que participou ativamente da campanha de Haddad ajudando a elaborar o Plano de Governo do petista – que inclui ações para a diversidade sexual em todas as regiões paulistanas.

A segunda prioridade, segundo o novo coordenador, é garantir até o mês de maio de 2013 todo o apoio à Parada do Orgulho LGBT de São Paulo, que todos os anos recebe da Cads ajuda em forma de infraestrutura para sua realização. “Vamos ver se é possível aumentar esse apoio”, garante Julian, afastando para longe os boatos de que a manifestação não contaria mais com apoio da administração municipal.

Nova casa

Com a extinção da Secretaria de Participação e Parceria, a Cads passa a partir do próximo ano a ser lotada na nova Secretaria de Direitos Humanos e Participação, onde o novo coordenador pretende realizar um trabalho no sentido de aumentar a estrutura da Coordenadoria e fazer melhorias como aumento no salário dos servidores e maior número de pessoas trabalhando no órgão.

Julian diz que “tudo vai se nortear pelo Programa de Governo que fizemos na campanha”, incluindo-se aí a chamada Cads Móvel, uma ideia que pretende levar os serviços da Coordenadoria à periferia paulistana e a outros bairros que muitas vezes nem sabem que a Cads existe. “O objetivo é facilitar o acesso da população aos serviços.”

O novo coordenador destaca ainda que dentre as metas para o próximo mandato estão as parcerias entre a Cads e universidades como a Unicamp e a USP, além de um diálogo aberto com todas as entidades da sociedade civil organizada na cidade – a quem ele promete receber pessoalmente, uma a uma, para conversar.

Sem ataques

De partidos políticos diferentes a partir de 2013, Prefeitura e Governo de São Paulo não devem brigar no campo da causa LGBT, pelo menos é o que promete Rodrigues. Segundo ele, diferenças partidárias serão colocadas de lado no próximo ano e o foco será uma parceria produtiva para garantia da cidadania LGBT.

Ele conta ao Mix que ainda vai conversar com a titular da Coordenação de Políticas para a Diversidade Sexual do Estado de São Paulo, Heloísa Gama Alves, “para ver o que a gente pode fazer juntos. Onde pudermos somar esforços nós iremos. A eleição já passou”.

Julian Rodrigues tem 39 anos e é formado em Letras, especialista em Economia do Trabalho e mestrando em Ciências Sociais na PUC de São Paulo.

Silas Malafaia anuncia processo a coordenador nacional LGBT do PT em programa na Band

Nesse momento, sábado, 14 de abril, por volta das 12h, durante transmissão do Programa Vitória em Cristo, do pastor obscurantista Silas Malafaia, o mesmo leu quase a nota do setorial LGBT do PT (abaixo).

Como é de praxe, o pastor homofóbico atacou duramente a militância LGBT e me chamou, entre outros mimos, de “palhaço” e “mau-caráter”, embora tenha evitado citar-me nominalmente.

Malafaia elogiou o companheiro Lindbergh Farias, senador (PT-RJ), elogiando sua “serenidade” e “independência”.

Malafaia também chantegeou publicamente o senador Walter Pinheiro, líder do PT no senado, pedindo que se manifeste, dizendo que o conhece há 15 anos já orou agradecendo pela eleição dele.

Malafaia disse que terei de provar na justiça que ele é “homofóbico”. Homofobia para eles é sinônimo de violência física. Não sabem que homofobia é toda discriminação e violência simbólica, discursiva, etc a todos que não se enquadram nas normas de gênero, do patriarcado, da heterossexualidade compulsória, da heteronormatividade.

Mais um round na “guerra santa”, promovida pelos evangélicos fundamentalistas contra os direitos LGBT.

Fiquem certos que não nos sufocarão com processos judiciais.

Conto com a solidariedade militante de centenas de ativistas dos direitos humanos e muitos amigos e companheiros advogados, que já se dispuseram a nos ajudar nessa batalha pela cidadania, agora nos tribunais.

abraços

Julian Rodrigues
coordenador nacional setorial LGBT do PT

Nota do setorial nacional LGBT do PT sobre posicionamento do senador Lindbergh Farias (PT-RJ)

Na última terça-feira, 3 de abril, o senador petista pelo Rio de Janeiro, companheiro LindberghFarias, fez um aparte ao pronunciamento do representante capixaba naquela Casa, o pastor fundamentalista e senador Magno Malta (PR).

Magno Malta é um dos maiores ícones do obscurantismo, tenaz opositor dos direitos humanos, sobretudo dos direitos da população LGBT (lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais).

Em seu pronunciamento, o homofóbico senador faz novamente ataques contra o movimento pelos direitos humanos das pessoas LGBT, propagando fantasias como a existência de um “império homossexual”. Magno Malta também faz a defesa de um dos principais inimigos da cidadania homossexual, o pastor Silas Malafaia, conhecido por incitar a homofobia e por se opor ao PLC 122, que criminaliza práticas discriminatórias contra LGBT.

Para a perplexidade da militância petista e de todo o movimento social LGBT brasileiro, assistimos ao senador Lindbergh Farias, do PT, possuidor de uma bela trajetória de esquerda, de defesa da juventude, da população negra, dos pobres, se somar a Magno Malta na defesa de Silas Malafaia.

Silas Malafaia está sendo processado pelo Ministério Público Federal por incitar o ódio e a violência contra os homossexuais. Em seu programa semanal, esse pastor obscurantista tem se destacado por sua pregação intolerante contra a população LGBT. É uma prática recorrente.

É preciso acrescentar que Malafaia ameaçou verbalmente e está processando o presidente da maior associação de defesa dos direitos LGBT do Brasil, Toni Reis, da ABGLT. Esse líder cristão fundamentalista é um cancro incrustado na democracia brasileira. A luta de diversos setores dos movimentos sociais é para impedir que Malafaia siga propagando seus conceitos discriminatórios em emissoras de televisão, que são concessões públicas.

A fala do companheiro Lindbergh se torna ainda mais grave por ignorar e desconsiderar o cerne do debate sobre o PLC 122, que é a interdição dos discursos que incitam a violência utilizando-se do pretexto da liberdade religiosa.

Esquece-se o senador Lindbergh que a liberdade de expressão e a liberdade religiosa não estão acima do princípio da igualdade, da dignidade e da não-discriminação. Mais ainda, discursos de ódio não estão sob a proteção da liberdade religiosa ou da liberdade de expressão. Tanto assim, que, no Brasil, o racismo e o anti-semitismo, por exemplo, são crimes.

O velho Marx nos ensinou que as ideias se tornam força material quando penetram nas massas. Discursos homofóbicos de pastores e padres, difundidos nos meios de comunicação de massa armam as mãos que, na sequência, vão agredir e matar milhares de homossexuais e pessoas trans em todo o Brasil, cotidianamente.

O Partido dos Trabalhadores tem resolução Congressual de apoio à criminalização da homofobia e ao casamento civil de homossexuais. A senadora Marta Suplicy (PT-SP), vice-presidente do Senado, é relatora do PLC 122, e convocou audiência pública para o próximo dia 15 de maio, justamente para tentar avançar, mais uma vez, na aprovação da criminalização da homofobia. Marta segue as diretrizes do PT. Lindbergh Farias, ao defender o homofóbico Silas Malafaia, se afasta enormemente das posições do nosso Partido.

Importante ressaltar que o Rio de Janeiro é vanguarda no debate e garantia dos direitos LGBT, pois é o estado com mais políticas públicas e maior orçamento para as ações de combate à homofobia. O governador Sérgio Cabral (PMDB) é um dos maiores aliados da cidadania LGBTno Brasil. O prefeito Eduardo Paes (PMDB) também executa políticas de promoção da cidadania dessa população.

Além disso, Jean Willys (PSOL), o primeiro parlamentar gay defensor da causa é também representante do Rio. Infelizmente, Malafaia, Garotinho e Bolsonaro também fazem carreira política nesse estado.

Esperamos, sinceramente, que o senador Lindbergh Farias não tenha resolvido se perfilar com o segundo grupo de políticos fluminenses, os inimigos dos direitos humanos e da cidadaniaLGBT. Não há cálculo político ou eleitoral que justifique essa ruptura com os princípios do PT e com a própria trajetória do senador.

Apelamos para que o companheiro Lindbergh Farias se debruce um pouco mais sobre as posições do Malafaia – incompatíveis com o Estado democrático de direito – e cesse a sua defesa desse senhor, inimigo dos direitos humanos e da população LGBT.

São Paulo, 4 de abril de 2012.

Julian Rodrigues

Coordenador nacional setorial LGBT do PT

Resultados do Encontro Estadual LGBT do PT – SP

Companheiras e companheiros,

Segue abaixo os resultados da votação para Coordenador/a e Coletivo do Setorial Estadual LGBT do PT de São Paulo, ocorrida em 24 de março de 2012.

Um total de 66 optantes pelo Setorial LGBT paulistas compareceram ao Encontro e se credenciaram como delegados com direito a voto. Cerca de 10 militantes também estiveram presentes, mas por não terem completado ainda um ano de filiação ao Partido dos Trabalhadores, não puderam votar.

No momento da votação em urna, um dos participantes precisou sair por motivos de saúde, permanecendo assim 65 filiadas/os com direito a voto. Portanto, o quórum qualificado que era de 40 foi atingido. E o Setorial LGBT de São Paulo teve direito a eleger 7 (sete) delegadas/os ao Encontro Nacional.

Resultado da eleição para Coordenador/a:

Brancos                       1 voto
Ricardo F. da Silva      25 votos (39%)
Phamela Godoy          39 votos  (61%)
Votos válidos              64
Total de votos             65

Assim sendo, foi eleita a companheira Phamela Godoy como Coordenadora do Setorial Estadual LGBT do PT-SP.

Resultado da eleição para o Coletivo LGBT Estadual e Delegadas/os ao Encontro Nacional

Chapa 1 = Renovação e Democracia no Setorial LGBT do PT
Chapa 2 = Aliança Petista contra a Homofobia
Chapa 3 = Na Luta contra a Homofobia

Nº de votos Coletivo Del. Nacional
Brancos

1

Chapa 1

19 (29,68%)

3 integrantes 2 delegadxs
Chapa 2

37 (57,81%)

6 integrantes 4 delegadxs
Chapa 3

08 (12,51%)

1 integrante 1 delegada
Votos válidos

64
(100%)

Total de Votos

65

10 integrantes 7 delegadxs

Para a composição do Coletivo, as chapas tem prazo até dia 30 para indicar as/os integrantes da mesma (mas necessariamente entre os nomes que foram apresentados como constituindo a chapa). As chapas 1 e 2 já definiram seus nomes. Falta apenas a Chapa 3. O mesmo ocorre com a Delegação para o Encontro Nacional.

Chapa 2 (vitoriosa e majoritária) – Aliança Petista contra a Homofobia

Titulares                                             Suplentes

Lucia Castro (F)                                  Eliane Vieira (F)
Wanderley Bressan (M)                    Lula Ramires (M)
Eunice Alves de Araujo (F)                 Fernanda Estima (F)
Marcelo Hailer (M)                           Felipe Martins (M)
Salete Campari (F)                             Sandra Daguano (F)
Odair José da Silva (M)                     Julian Rodrigues (M)

Chapa 1 (segunda colocada) – Renovação e Democracia no Setorial LGBT do PT

Walmir Siqueira (M)                         Viviane Trindade (F)
Givanilde J. Santos (F)                                   Oswaldo Mammana (M)
Marcos Freire (M)                             Iara M. Matos (F)

Chapa 3 – Na Luta contra a Homofobia

A definir (F).

Delegação ao Encontro Nacional LGBT

Chapa 2                                  Suplentes

Phamela Godoy (F)                Lucia Castro (F)

Julian Rodrigues (M)              Lula Ramires (M)

Fernanda Estima (F)               Eliane Vieira (F)
Wanderley Bressan (M)         Alessandro Melchior (M)

Chapa 1                                  Suplentes

Maria Isabel Sá (F)                 Viviane Trindade (F)

Marcos Freire (M)                 Ricardo F. Silva (M)

Chapa 3                                  Suplente

A definir (F).

As listas de credenciamento e votação bem como a ata de votação já foram entregues à Secretaria Estadual de Movimentos Populares que as encaminhará à SORG.

Viva a democracia interna do Partido dos Trabalhadores!

Parabéns às todas as pessoas que foram eleitas. E é com um sentimento de dever cumprido que encerro meu mandato como primeiro Coordenador oficial do Setorial e é com muito orgulho e alegria que passo o cargo para uma jovem lésbica feminista. Sucesso, Phamela!

Lula Ramires

Ex-coordenador do Setorial Estadual LGBT do PT-SP (2010-2012)

Governo Alckmin: é preciso mudar para que tudo continue como está

É essencial que a militância, os dirigentes e os parlamentares do PT estejamos atentos para cobrar incisivamente o cumprimento de compromissos de campanha e também daqueles assumidos nestes primeiros meses de governo.

Por Leonardo Fontes e Julian Rodrigues
Terça-feira, 19 de abril de 2011

Geraldo Alckmin acaba de completar os seus 100 primeiros dias como governador de São Paulo, mas já existem motivos de sobra para ficarmos atentos a diversos aspectos desse “novo” governo. Se, por um lado, velhos hábitos foram mantidos, também algumas novidades pairam no ar, principalmente no que se refere às disputas de poder e ao enfraquecimento de algumas velhas “marcas registradas” dos tucanos de São Paulo.

A campanha eleitoral para o governo paulista em 2010, além de pautar alguns pontos importantes para o nosso Estado, como a melhoria da educação, a redução das filas na saúde, a ampliação do transporte público e redução dos níveis de criminalidade, evidenciou alguns costumes largamente cultivados por nossos últimos governantes. O principal deles é a repetição de promessas recicladas e o uso extensivo do marketing político para mostrar São Paulo de uma maneira muito diferente da que vemos e sentimos nas ruas.

Neste sentido, é essencial que a militância, os dirigentes e os parlamentares do PT estejamos atentos para cobrar incisivamente o cumprimento de compromissos de campanha e também daqueles assumidos nestes primeiros meses de governo, além, é claro, de observarmos de perto as sinalizações indicativas dos prováveis rumos que o governador pretende dar para São Paulo nos próximos quatro anos.

De acordo, com o texto final de balanço e perspectiva, aprovado pelo Diretório Estadual, um dos eixos da ação do PT-SP para “desconstruir a hegemonia do PSDB” é “levar o acúmulo construído no Programa de Governo Mercadante para o conjunto do PT, pois “nosso programa nas eleições de 2010 deve ser a base para uma disputa permanente de concepções de políticas públicas, uma referência”.

De forma ainda mais consistente, a mesma resolução aponta para a necessidade de o Partido apostar na “constituição de um “Observatório Alckmin” [que] pode nos ajudar a preparar o programa para 2012, qualificando as críticas ao “modo tucano de governar”, bem como pode se constituir num processo de atualização permanente do nosso programa de governo e de construção do discurso e das bases para o enfrentamento de 2014”.
Para colaborar com esse objetivo, vários de nós que trabalhamos na equipe de elaboração do programa de governo do PT em 2010 – processo coordenado pela companheira Angélica Fernandes – estamos nos propondo a trabalhar de maneira organizada no acompanhamento crítico das políticas do PSDB frente ao governo de São Paulo.

Nosso objetivo é colaborar com o esforço de potencializar a oposição programática aos tucanos. Pretendemos produzir, com periodicidade, análises, cenários, artigos que tratem desse tema. Esse material – mais notícias importantes sobre o governo ficará disponibilizado em um blog (www.pautapoliticasp.org).

Nosso intuito neste primeiro texto será, então, dar um pontapé inicial nesse trabalho ao fazer um breve panorama das promessas e movimentações políticas iniciais do novo governo, com o intuito de apontarmos as áreas e temas que devem ser olhados com mais atenção.

Educação: calcanhar de Aquiles

O debate em torno da educação foi, sem dúvida, o mais marcante durante a última campanha eleitoral e há anos vem se mostrando como o “calcanhar de Aquiles” das administrações tucanas em São Paulo. Para resolver os inúmeros problemas da área, Alckmin se comprometeu durante a eleição a ampliar o diálogo com os professores, oferecendo capacitação continuada e melhora nos níveis salariais. Além disso, ele apostava grande parte de suas fichas – nos programas eleitorais – nas escolas de tempo integral e no programa escola da família, deixados de lado pela gestão Serra. Evitando se comprometer com metas mais concretas, o então candidato Alckmin defendia o aumento do reforço escolar, das aulas de informática, das atividades esportivas e do ensino de segunda língua para alunos das escolas públicas por meio de convênios com escolas particulares de idiomas.

Chegou a impressionar a veemência com que Alckmin defendia o “avanço” da educação em São Paulo e, pior ainda, o sistema de “aprovação automática”, que foi implantado no Estado a partir de uma degeneração da proposta progressista de progressão continuada. As primeiras medidas tomadas pelo governador foram impressionantes: além de trocar o Secretário, uma importante figura no meio tucano, anunciou uma reformulação no sistema de aprovação das escolas estaduais. Com isso, a nova gestão reconheceu problemas que já estavam mais do que evidentes para a população. O novo secretário procurou mostrar-se mais aberto ao diálogo com os professores, tentando superar um histórico problema de falta de abertura dos governos tucanos. Mas há que se ressaltar, também, que chama a atenção a nomeação do ex-prefeito de Taubaté José Bernardo Ortiz, condenado judicialmente por ato de improbidade administrativa, para controlar um orçamento de R$ 2,5 bilhões da Fundação para o Desenvolvimento da Educação (FDE).

Mobilidade urbana e colapso

O setor de transportes é outra área a que os tucanos têm feito muita propaganda, mas dedicado pouca prioridade real nos últimos anos. Alckmin evitou, durante a campanha, assumir compromissos claros e concretos nessa área, limitando-se a prometer a conclusão de linhas que já estavam em obras, ou planejadas, e ampliar o fluxo diário de passageiros, dos atuais 5,8 milhões para 10 milhões em quatro anos. Contudo, mesmo essas linhas já correm sério risco de não estarem prontas até 2014. A linha 5 – Lilás está com o processo de licitação parado, após provar-se que o resultado já era conhecido meses antes da abertura das propostas; a Linha 4 – Amarela, além dos acidentes, acumula uma série de atrasos e prorrogações no cronograma de inaugurações e as Linhas 6 – Laranja e 17 – ouro não têm nem previsão para o lançamento dos editais de licitação. Enquanto isso, as falhas técnicas no metrô e na CPTM são cada vez mais frequentes. O metrô está no limite de sua capacidade, com incidentes contínuos e superlotação em horários cada vez mais dilatados.

Além disso, é preciso lembrar outras promessas de Alckmin, aparentemente relegadas a segundo plano neste período inicial de governo, como é o caso do VLT da baixada santista – prometido por Alckmin desde 2001 –, a duplicação da rodovia dos Tamoios e a revisão da política de pedágios.

Ruídos na segurança

Na segurança o quadro não é diferente. Alckmin se comprometeu com o fortalecimento da estrutura disponível para investigação, disse que iria acabar com presos em cadeia (delegacias?), e aumentar o efetivo policial com a contratação de 6000 novos homens. Pouco foi efetivamente feito nesta área para além da transferência do DETRAN para a alçada da Secretaria de Gestão Pública e o aumento do incentivo ao “bico oficial” dos policiais militares, principalmente em parceria com a prefeitura da capital.

O PT e a oposição democrática precisa atentar para as disputas internas na atual Secretaria, que deve ter desdobramentos importantes na definição da política de segurança. O secretário, Antonio Ferreira Pinto, forçou sua permanência ao se colocar publicamente, na mídia, como inimigo dos policiais corruptos, o que desagradou o antigo titular da pasta Saulo de Castro Abreu Filho, designado para ser o homem-forte de Alckmin na área de Transportes e Logística. As primeiras faíscas já surgiram com as denúncias que envolviam a venda de dados estatísticos relativos à segurança pública – que atinge pessoas ligados a Saulo – e o vídeo que mostra o encontro do Secretário com o jornalista autor da denúncia.

A questão urbana

Na área de infraestrutura urbana, principalmente na região metropolitana, a situação é desalentadora. Falemos brevemente da questão das enchentes, que tocou a vida dos paulistas mais diretamente nestes últimos meses. Em 2005, Alckmin chegou a anunciar que não haveria mais enchentes no rio Tietê, o que foi prontamente desmentido pelos três transbordamentos do rio ocorridos só neste ano. A falta de manutenção, em termos de desassoreamento e limpeza dos rios que cortam a capital paulista e a lentidão na execução do plano de macrodrenagem da região metropolitana, juntamente com o descumprimento da meta de construção de piscinões – dos 134 previstos para toda a região metropolitana, apenas 44 saíram do papel -, são os pontos de maior preocupação para a vida da população paulista .

Ainda na área de gestão da região metropolitana, Alckmin criou a Secretaria de Gestão Metropolitana, mas, até agora, não está claro quais serão suas reais atribuições e instrumentos de ação.
Habitação e saneamento são outras áreas fundamentais quando o assunto é a questão urbana. Apesar de defender a gestão tucana a frente da CDHU, Alckmin prometeu criar o “BNDES da Habitação”, um programa que foi pouco explicado, mas que se assemelharia ao “Minha Casa Minha Vida” do governo federal. De qualquer modo, até o momento nada foi realizado a este respeito.

Conturbações no ninho

Finalmente, interessa ao PT acompanhar com atenção as movimentações políticas que Alckmin e os tucanos têm realizado e que apontam para suas intenções quanto às eleições de 2012 e 2014. Ao contrário de seu antecessor, o atual governador parece enxergar em certo fortalecimento de políticas sociais, na abertura de algum grau de diálogo com os setores organizados da sociedade e na aproximação com o governo Dilma uma possibilidade para angariar votos junto a um eleitoral tradicionalmente próximo do PT.

Além disso, Alckmin tem deixado claro sua intenção de aumentar os investimentos nas cidades da região metropolitana de São Paulo, atacando o chamado “cinturão vermelho”. Na capital, como resposta às recentes movimentações de Kassab, Alckmin acaba de emplacar, não sem rusgas fortes com os “kassabistas-serristas”, seu Secretário de Gestão Pública, Julio Semeghini, para a presidência do diretório municipal do PSDB, a fim de ter mais controle sobre o processo de escolha do candidato tucano à prefeitura em 2012.

Imediatamente, 5 dos 13 vereadores da bancada do PSDB paulistano anunciaram sua desfiliação. O quadro é de extremo atrito no campo conservador, sobretudo no ninho tucano, se considerarmos que toda essa movimentação provavelmente tem José Serra como seu mentor.

Alckmin é nacionalmente aliado de Aécio no movimento de afastar Serra do centro da política tucana. Fez sua parte aqui, operando um verdadeiro “limpa” dos quadros serristas do núcleo do governo. Aécio e Alckmin apóiam a recondução de Sergio Guerra à presidência do PSDB, contrariando o desejo de Serra de ocupar esse cargo.

Ao mesmo tempo, a forte movimentação de Kassab criando um novo partido, sem cara definida, que não é, segundo ele, “nem de direita, nem de esquerda, nem de centro”, que flerta com o governo Dilma, desidrata o DEM e tem uma relação ambígua, mas amistosa, com Serra são um fato novo no quadro político paulista e nacional. Não estão perfeitamente nítidos ainda o impacto real e a configuração definitiva dessa nova legenda articulada com Kassab. O PSD terá candidato próprio em São Paulo? Apoiarão um possível candidatura Serra? E afinal, Serra será mesmo candidato a prefeito da capital em 2012?

Encerrando essa primeira aproximação do novo Governo Alckmin, podemos verificar algumas tentativas nítidas de “mostrar serviço” de trazer novidades – sem, contudo, apontar em nada qualitativamente distinto do que foram as administrações tucanas desde 1996. É como se, ao flertar com a “mudança”, Alckmin atualize a velha máxima de Lampedusa, no romance O Leopardo : “é preciso que tudo mude para que as coisas permaneçam iguais”.

Leonardo Fontes, mestrando em ciência política pela USP , militante do PT-SP.

Julian Rodrigues, mestrando em ciências sociais pela PUC-SP, militante do PT-SP

Fonte: http://www.pt-sp.org.br

Heranças atávicas – por Julian Rodrigues.

 

 

Dilma foi um tsunami tão forte quanto Lula. E um tsunami que provocou a recuperação, parcial que seja, dos valores de uma sociedade patriarcal, misógina, homofóbica, autoritária e elitista. A parte da sociedade que assumiu esses valores de modo militante recusa conquistas já consagradas pelas sociedades democráticas avançadas. E o fez abraçando-se a religiões, pretendendo que o Estado brasileiro deixasse de ser laico, e se rendesse a princípios que contrariam os avanços da ciência e dos direitos à saúde, e atacando principalmente o direito das mulheres. O artigo é de Emiliano José.

Emiliano José

A contingência da passagem de ano sempre nos leva a algum tipo de balanço, e o ano de 2010 não será fácil de esquecer. Pelo fato simbólico da eleição de uma mulher para a presidência da República. E pela circunstância de que a assunção dessa mulher à condição de principal protagonista da cena política fez emergir preconceitos atávicos que muitos de nós, quem sabe ingenuamente, imaginávamos sepultados definitivamente.

As mudanças não são fáceis de serem aceitas. E uma mulher na presidência da República no Brasil se, num primeiro momento, poderia parecer um acontecimento quase banal, era um fato novo, muito novo, inédito, e representava quase um novo marco civilizatório. Tão forte que provocou reações que muitos de nós não imaginávamos possível. A eleição do presidente operário em 2002 provocou uma avalanche de preconceitos da elite brasileira, que foram solenemente ignorados pelo nosso povo. Lula termina seu mandato com um recorde de aprovação: 83%.

Dilma foi um tsunami tão forte quanto Lula. E um tsunami que provocou a recuperação, parcial que seja, dos valores de uma sociedade patriarcal, misógina, homofóbica, autoritária e elitista. A parte da sociedade que assumiu esses valores de modo militante recusa conquistas já consagradas pelas sociedades democráticas avançadas. E o fez abraçando-se a religiões, pretendendo que o Estado brasileiro deixasse de ser laico, e se rendesse a princípios que contrariam os avanços da ciência e dos direitos à saúde, e atacando principalmente o direito das mulheres.

Tudo por causa de uma mulher. Tudo contra uma mulher. Tudo tendo um significado político, evidentemente. Mas um significado político que se entrelaça com revelações culturais profundas, a evidenciar que o ovo da serpente do pensamento conservador ultradireitista não desapareceu da cena brasileira. E seria ilusório, creio, imaginar que tivesse desaparecido. Não foi ocasional que a campanha adversária tenha ressuscitado e valorizado até a famosa Tradição, Família e Propriedade (TFP) para afirmar suas posições. Ou que igrejas tenham retornado a posições de 1964.

A raiva contra a mulher ficou manifesta na discussão desonesta sobre o aborto. Como se a questão fosse ser apenas contra ou a favor do aborto, e não a discussão sobre o direito à saúde das mulheres, a assistência às mulheres vítimas de abortos clandestinos, normalmente mulheres pobres. Estima-se que morrem mais de 500 mulheres por ano no Brasil devido aos abortos clandestinos.

E as que não morrem, seriam o caso de colocá-las todas na cadeia?

Leia também: https://murilopohl.wordpress.com/2010/12/28/nao-da-para-obrigar-mulher-a-ter-filho-diz-nova-ministra/

Impossível. Ora, ora, tudo próprio de uma sociedade hipócrita, farisaica, que não olha para sua própria face. O próprio Serra, como ministro da Saúde, tinha posição mais humana. Mas, na campanha, preferiu abraçar as teses do medievo trevoso, só abrandadas quando foi revelado o aborto feito por sua própria mulher, revelação feita por algumas alunas de Mônica Serra.

As teses contra os homossexuais só perderam força quando perceberam o impacto eleitoral negativo. Mas, como conseqüência disso, temos assistido cenas freqüentes e deploráveis de ataques a homossexuais. A raiva contra os nordestinos, que revisitava o arianismo, surgiu com vigor logo que se revelou a vitória de Dilma. Para que não nos enganemos, o pensamento foi expresso especialmente por uma parcela da nossa juventude.

Não creio que devamos tratar esses acontecimentos como secundários. Nem com raiva. Com indignação, sim, sem dúvida. Mas, também, com a compreensão de que há ainda uma longa marcha para a mudança de mentalidade de nossa sociedade. Quem viveu bem mais de três séculos sob a escravidão não pode esperar que o espectro da Casa Grande tenha desaparecido. Esse espectro, aqui e ali, ressurge, e muitas vezes, com força.

E especialmente quando uma mulher resolve confrontar toda essa cultura, ao se pôr como principal mandatária do País. É verdade que a maioria da sociedade brasileira optou pela continuidade de um projeto transformador. No entanto, a luta por uma nova sociedade, livre de preconceitos, de discriminações, de racismos, continua mais que atual. Feliz 2011

Julian Rodrigues.

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