Crescimento do PIB do Brasil empata com o dos EUA e fica em 2º lugar no ranking mundial PIB do Brasil e dos EUA cresceu 0,6%; Coreia do Sul e Japão lideram o ranking, com alta de 0,9%

O crescimento do PIB do Brasil no primeiro trimestre, de 0,6%, empatou com o visto nos EUA no mesmo período. A alta só foi menor que a verificada na Coreia do Sul e Japão, que empataram em primeiro lugar, com crescimento de 0,9%.

A Europa segue em baixa. Os PIBs da Holanda, França, Portugal, Espanha e Itália tiveram queda. Somente Alemanha e Reino Unido cresceram neste começo de ano.

Veja abaixo o crescimento dos países no primeiro trimestre:

Coreia do Sul: 0,9%

Japão: 0,9%

EUA: 0,6%

Brasil: 0,6%

México: 0,5%

Reino Unido: 0,3%

Alemanha: 0,1%

UE: -0,1%

Holanda: -0,1%

França: -0,2%

Portugal: -0,3%

Espanha: -0,5%

Itália: -0,5%

Publicado originalmente em Estadão

Economia cresce 1,05% no primeiro trimestre e surpreende mercado

Kelly Oliveira, Agência Brasil

via Antonio Ferreira Nogueira Jr

“A atividade econômica apresentou crescimento de 1,05%, no primeiro trimestre deste ano, na comparação com os últimos três meses de 2012. Os dados são do Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br) dessazonalizado (ajustado para o período), divulgado hoje (16).

Em março, o IBC-Br apresentou expansão de 0,72% na comparação com fevereiro (indicador ajustado para o período). O crescimento veio depois da queda de 0,36% registrada em fevereiro em relação a janeiro, segundo os dados revisados. Em janeiro comparado a dezembro, houve crescimento de 1,05%.

Na comparação com março de 2012, o crescimento do terceiro mês do ano ficou em 1,16% (sem ajustes).  No ano, o IBC-Br cresceu 1,79% e em 12 meses, 0,91% (sem ajustes).

O IBC-Br é uma forma de avaliar e antecipar a evolução da atividade econômica brasileira. O índice incorpora informações sobre o nível da atividade dos três setores da economia: indústria, comércio e serviços e agropecuária.

O acompanhamento do indicador é considerado importante pelo BC para que haja maior compreensão da atividade econômica. Essa avaliação  também contribui para as decisões do Comitê de Política Monetária (Copom), responsável por definir a taxa básica de juros, a Selic.”

Inflação para famílias de baixa renda cai e fica em 0,59% em abril

Vitor Abdala, Agência Brasil

“A inflação para famílias com renda até 2,5 salários mínimos, medida pelo Índice de Preços ao Consumidor – Classe 1 (IPC-C1) da Fundação Getulio Vargas (FGV), ficou em 0,59% em abril, taxa inferior ao 0,75% do mês anterior. O índice é superior, entretanto, ao 0,52% registrado em abril pelo Índice de Preços ao Consumidor Brasil (IPC-BR), que mede a inflação para todas as faixas de renda.

A queda do IPC-C1 de março para abril foi provocada pela redução da taxa de cinco das oito classes de despesa analisadas. A inflação dos alimentos, por exemplo, caiu de 1,28% para 0,98% no período, puxada principalmente pela deflação (queda de preços) de 2,08% dos preços das aves e dos ovos em abril.

Outra classe de despesa com inflação menor foi habitação, cuja alta de preços passou de 0,76% em março para 0,34% em abril. O comportamento foi puxado por itens como tarifa de eletricidade residencial, que teve deflação de 0,58% no mês.

Três grupos de despesa passaram de uma inflação em março para uma deflação no mês seguinte: transportes (de 0,21% para -0,06%), comunicação (de 0,31% para -0,78%) e educação, leitura e recreação (de 0,42% para -0,47%).

Por outro lado, três classes de despesa tiveram aumento da taxa em abril. O índice do grupo saúde e cuidados pessoais passou de 0,36% em março para 1,63% em abril, influenciado pela alta dos preços dos remédios, de 2,75% no mês.

A taxa de inflação de vestuário passou de 0,72% para 0,83%, enquanto o índice de despesas diversas subiu de 0,18% para 0,21%. O IPC-C1 acumula taxas de 2,51% no ano e de 7,16% nos últimos 12 meses.”

ECONOMIA IMPULSIONA DILMA

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“Acalmem-se”, disse a presidente Dilma Rousseff, num sorriso; faz sentido; aos que apostam no eclipse do crescimento, a resposta da economia real é ensolarada; vendas de aço, alumínio, eletro-eletrônicos, ônibus e tratores disparam neste início do ano; arrecadação de impostos sobe; dívida mobiliária federal recua; projeção aponta para inflação em queda e crescimento em alta; apostas no pessimismo começam a pagar menos

247 – Apostar no pessimismo, dentro de um cenário global de incertezas, sempre parece menos arriscado. Vai dar errado, dizem os céticos e derrubadores, cercados de conjecturas. O problema, como apontam os primeiros números da economia brasileira em 2013, é que, neste ano, jogar contra já está dando pinta de ser muito mais um torcida política do que uma análise fria e científica. Em lugar de eclipse, o que está surgindo no horizonte é um sol tipicamento tropical.

Nos últimos dias, uma série de dados econômicos confluem para um desempenho, em 2013, muito superior ao verificado no ano passado. Líderes empresariais de diferentes setores do meio da economia – aqueles que usam insumos da indústria de transformadora de matérias primas para aplicar em produtos finais ao consumidor – estão otimistas sobre mais produção e mais vendas este ano, com base nos primeiros resultados já alcançados.

É assim que os setores que compram aço, como as montadoras de veiculos e a construção civil, fizeram aquisições em janeiro nada menos que 18% acima do comprado em dezembro, segundo dados do Instituto Nacional das Distribuidoras de Aço (Inda). “O mercado está começando a crescer novamente”, disse o presidente Carlos Loureira ao jornal Valor Econômico. Com alta de 3,4% em vendas em janeiro em relação ao mesmo período do ano passado, o setor projeta um crescimento de 6% no mercado doméstico sobre o ano passado até dezembro.

No alumínio, outro elemento presente em ínumeros setores industriais, o melhor termômetro de crescimento é a venda de chapas, folhas e extrudados. Neste campo, as vendas em janeiro, de acordo com a Associação Brasileira de Alumínio (Abal), já foram 5,9% maiores do que no primeiro mês de ano passado. “Acreditamos num crescimento do setor de até 5 por centro para este ano”, diz o presidente da entidade, Luiz Carlos Loureiro Filho. “Estamos otimistas”.

Não é diferente entre uma das maiores fabricantes de ônibus e caminhões do País, a MAN Latin America. “Já temos pedidos que indicam vendas 20% maiores do que em 2012, em razão de a necessidade do mercado renovar a sua frota”, adianta Roberto Cortes, presidente da companhia. “Nossa atividade no primeiro bimestre está ótima em relação à que tivemos em 2012”.

No mesmo setor, a Agrale, tradicional fabricante de máquinas e tratores, registrou um crescimento de vendas simplesmente espetacular em janeiro com relação a dezembro: 126% mais. Os responsáveis pela companhia admitem que tratou-se de um ponto fora da curva, mas, a partir dele, eles projetam um crescimento da companhia, este ano, de mais de 16% sobre o realizado no ano passado. “O forte desempenho está ligado ao fim dos estoques das indústrias do nosso setor”, disse o diretor-presidente Hugo Zattera ao Valor.

Pesquisa entre associados feita pela  Abinee (Associação Brasileira da Indústria de Eletro-eletrônicos) constatou que 56% das empresas associadas relataram alta de encomendas em janeiro com relação a dezembro. Isso mostra um aquecimento no setor de ponta tecnológica da economia. “O otimismo aumentou, porque os sinais dados em janeiro, um mês que nunca é excepcionalmente forte em vendas, indicam um grande ano pela frente”, conta o presidente Humberto Barbato. Segundo ele, 79% dos associados da Abinee registraram em pesquisa que esperam melhores vendas em 2013 do que em 2012.

Mesmo onde janeiro apontou queda em relação a dezembro, de 3%, no setor de máquinas e equipamentos, o dado foi comemorado. “Esse recuo é sazonal, e sempre acontece nessa época, mas foi muito menor do que em anos anteriores”, relatou Marcos Bernardini, consultor econômico da Abimaq.

Nos grandes números macroeconômicos, o governo também já tem o que comemorar. O Boletim Focus, do Banco Cenral, que semanalmente capta os humores de agentes do mercado financeiro sobre dados como inflação e crescimento do PIB indica nesta segunda-feira 25 que a inflação esperada é menor do que na semana anterior – e o crescimento, maior, da ordem de 3% para o ano. Noutro dado, o estoque da dívida mobiliaria do Tesouro (tudo o que o governo deve ao mercado) declinou 4%, equanto a arrecadação de impostos bateu novo recorde.

A continuar nessa marcha, o melhor, para os pessimistas, vai ser iniciar logo um ajuste de discurso, sob pena de ficarem falando sozinhos – os empresários, afinal, de olho no chão de suas fábricas e em seus caixas, sabem que o certo é acreditar em resultados do que se guiar por palavras pré-fabricadas.

Para a presidente Dilma Rousseff, com a reeleição lançada e ainda sem um forte adversário definido, o sol do primeiro semestre traz consigo uma brisa capaz de impulsioná-la com menos atropelos do que muitos gostariam por 2013 em direção a 2014.

Em 2012, 296 empresas nacionais passaram para controle estrangeiro

 

Em 2011, foram desnacionalizadas 206 empresas

Escrito por: Carlos Lopes/Hora do Povo

 

Capital estrangeiro avança sobre a economia nacional

Capital estrangeiro avança sobre a economia nacional

Os dados divulgados pela empresa de consultoria KPMG no último dia 14 mostram que as desnacionalizações de empresas brasileiras atingiram um novo recorde em 2012. O notável é que elas já haviam atingido um recorde em 2011 – e também em 2010.

Em suma, a cada ano se aceleram as compras de empresas brasileiras por fundos ou empresas estrangeiras, a maioria com sede nos EUA (para que o leitor tenha uma ideia relativa: segundo o Censo de Capitais Estrangeiros do BC, as empresas dos EUA têm dentro do Brasil 3,4 vezes o que têm as empresas francesas, alemãs ou japonesas), com recordes batendo recordes anteriores.

Em 2012 foram 296 empresas nacionais que passaram para controle estrangeiro. Em 2011, haviam sido 208 empresas nacionais. Em 2010, 175 empresas.

Assim, o número de empresas desnacionalizadas aumentou, em relação ao ano anterior, sucessivamente: +92,3% (2010), +18,9% (2011), e, no ano passado, +42,3%.

Desde 2004, quando a KPMG passou a divulgar, em sua pesquisa, os dados das operações “cross border 1” (cb 1 = “empresa de capital majoritário estrangeiro adquirindo, de brasileiros, capital de empresa estabelecida no Brasil”), os resultados foram os seguintes:

2004 – 69 empresas desnacionalizadas;

2005 – 89 empresas desnacionalizadas;

2006 – 115 empresas desnacionalizadas;

2007 – 143 empresas desnacionalizadas;

2008 – 110 empresas desnacionalizadas;

2009 – 91 empresas desnacionalizadas;

2010 – 175 empresas desnacionalizadas;

2011 – 208 empresas desnacionalizadas;

2012 – 296 empresas desnacionalizadas.

Ao todo, desde 2004, foram 1.296 empresas nacionais que passaram para controle estrangeiro, com as conhecidas e inevitáveis consequências da desnacionalização:

1) Aumento brutal das remessas de lucros para fora do país: as remessas totais, cuja maior parte é constituída pelos ganhos, no Brasil, das filiais de multinacionais que são enviados às suas matrizes, passaram de US$ 25,198 bilhões (2004) para US$ 85,271 bilhões (2011), um aumento de 238,40% (o total de 2012 ainda não foi divulgado pelo Banco Central).

Se consideradas apenas as remessas para o exterior declaradas oficialmente como “lucros e dividendos”, o valor em dólares mais do que quintuplicou (foi multiplicado por 5,5) no mesmo período.

Ao todo, de 2004 a 2011, pari passu com a desnacionalização de 1.296 empresas brasileiras, esse aumento vertiginoso nas remessas para o exterior significou o envio para fora do Brasil do equivalente a 152,84% do saldo comercial que o país obteve no mesmo período. Exatamente, as remessas totais para o exterior montaram a US$ 404,878 bilhões, enquanto o saldo comercial atingiu US$ 264,911 bilhões.

2) Simultaneamente a essa hemorragia de remessas para o exterior, houve um aumento tão brutal, ou mais, das importações. De 2004 a 2011, as importações aumentaram, em valor, 260%: de US$ 62,835 bilhões (2004) para US$ 226,233 bilhões (2011).

As filiais de multinacionais são, sobretudo, empresas importadoras de bens intermediários – ou seja, de componentes para a montagem de produtos finais. Mas essa é a melhor das hipóteses: a outra, que está se tornando rotina, é quando elas passam a importar o próprio produto final, transformando a empresa desnacionalizada em mero balcão de vendas. O fato é que quanto maior a desnacionalização, maior o aumento das importações.

A consequência é a desindustrialização do país, com a indústria nacional atacada em seu maior setor – o de bens intermediários – pelas importações, o que se estende rapidamente às importações de bens de produção.

3)  Não menos importante, até mais, é a estagnação da economia que essa desnacionalização e desindustrialização, inevitavelmente, implica.

Em primeiro lugar, estagnação tecnológica. Não é paradoxal, mas apenas doentio ou prova de dubiedade de caráter (ou apenas exibição de estupidez) que os mesmos sujeitos que vivem falando que na economia brasileira faltam “inovações”, “competitividade”, “produtividade”, etc., sejam os mesmos a defender a entrega ao capital estrangeiro das empresas nacionais que são responsáveis pelas inovações e avanços tecnológicos.

Estamos, aqui, nos referindo às empresas privadas nacionais, embora o mesmo seja verdadeiro – e até mais – para as estatais. É verdade que, no momento, existe a originalidade de termos, na presidência da nossa maior e mais avançada estatal, uma senhora que parece achar que sua função é falar mal da empresa que preside. Mas isso, como diria o grande Dorival Caymmi numa metáfora petroquímica, é matéria plástica. Dura pouco.

Mas voltemos às empresas privadas nacionais, com um exemplo.

Em 2012, houve uma queima de empresas nacionais produtoras de programas de computador para os mais variados ramos da indústria. Certamente, não foi porque essas empresas nacionais eram atrasadas ou ineficientes que as multinacionais ou fundos especulativos se interessaram por elas – e por atacado.

A desnacionalização resultou em que o desenvolvimento tecnológico do país conquistado por essas empresas foi apropriado e monopolizado por empresas estrangeiras. Não porque estas fossem mais eficientes, mas porque tinham maior poder financeiro – e a política do governo foi, essencialmente, a de deixar as empresas nacionais ao léu, ou seja, à mercê do capital estrangeiro.

Em segundo lugar, e correlacionado com o anterior, a desnacionalização leva, inevitavelmente, à estagnação do crescimento econômico: as empresas multinacionais não se instalam em outro país para desenvolver a economia nacional – aliás, elas fazem parte de outra economia nacional. Portanto, as remessas de lucros, e também as suas importações, significam puxar o investimento para baixo no país onde estão as filiais de empresas estrangeiras.

Naturalmente, isso pode ser contrabalançado quando as filiais de multinacionais não são o principal setor da economia – na China, por exemplo, a taxa de investimento de 46% do PIB é atingida, sobretudo, devido ao impulso do investimento público.

Porém, quando não há outra força – a força da coletividade, através do Estado – se opondo, de forma geral, podemos dizer que quanto mais desnacionalizada é uma economia, mais forte é a tendência de queda do investimento e do crescimento. Nem precisamos lembrar a catástrofe da economia tailandesa ou as medidas rigorosas que a Malásia tomou para evitar catástrofe semelhante.

Basta olhar para o nosso próprio país.

De janeiro de 2004 a novembro de 2012, entraram no Brasil US$ 332,686 bilhões em “investimento direto estrangeiro” (IDE), ou seja, dinheiro para comprar empresas ou aumentar a participação estrangeira no capital de empresas, além de empréstimos da matriz à sua própria filial (cujo pagamento é uma das formas de remeter lucros sem declará-los oficialmente).

Essa entrada de US$ 332,686 bilhões em IDE provocou, segundo o Banco Central, um aumento no estoque de IDE (ou seja, na propriedade estrangeira sobre empresas) de US$ 132,818 bilhões (dezembro de 2003) para US$ 675,601 bilhões (setembro de 2012). Ou seja, a desnacionalização de empresas fez com que a propriedade estrangeira sobre empresas dentro do Brasil, em dólares, aumentasse cinco vezes (em termos percentuais, +408%).

Qual foi o resultado disso sobre o investimento na economia brasileira – em especial sobre a taxa de investimento, ou seja, o investimento (formação bruta de capital fixo – FBCF) em termos de PIB?

O resultado é que somente houve algum aumento do investimento quando houve aumento do investimento público. A desnacionalização, isto é, o “investimento direto estrangeiro” (IDE), pelo contrário, teve o efeito de segurar e  deprimir a taxa de investimento da economia.

O que, aliás, é perfeitamente lógico: filiais de multinacionais não têm como função gastar seus lucros em investimentos. Sua função é exatamente a oposta – a de investir o mínimo possível para enviar o máximo possível de seus ganhos para a matriz.

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A minhoca e a maçã. A esquerda nacionalista e o euro, 1ª parte

A saída do euro não representaria o fim da austeridade mas o seu aprofundamento.

Por João Valente Aguiar

 

Não costumo pegar em comentários para articular respostas em artigos. Mas por vezes os comentários são significativos e, consciente ou inconscientemente, dizem mais do que muitos textos. Pelo que dizem e pelo que não dizem. No caso em apreço, pelo que dizem.

A propósito da defesa da luta à escala europeia, o Miguel Serras Pereira e eu fomos interpelados por um comentador anónimo, assinando “RG”, que colocou a seguinte tese contrária na caixa de comentários do blog 5 dias (veja aqui).

«Isto seria assim, se a realidade não fosse, por exemplo, os trabalhadores do norte, pela acção da sua oligarquia dominante, serem beneficiários do empobrecimento dos trabalhadores dos países do sul. Só isto faz toda a diferença e por essa razão a luta dos trabalhadores é também a defesa no seu quadrado».

Da geometria aljubarroteira [1] da «defesa no seu quadrado» aos novos mecanismos económicos inventados sobre o facto de «os trabalhadores do norte, pela acção da sua oligarquia dominante, serem beneficiários do empobrecimento dos trabalhadores dos países do sul», RG presenteia-nos com um banquete de sabedoria. De acordo com RG, ficamos a saber que:

1) os trabalhadores do norte da Europa beneficiariam do empobrecimento ocorrido junto dos trabalhadores do sul «pela acção da sua oligarquia dominante». Portanto, de acordo com RG, os trabalhadores do norte não teriam propriamente uma clivagem de classe com as classes dominantes. Temos aqui a concepção de uma unidade nacional de trabalhadores e de patrões que, em conjunto, iriam oprimir outros povos. E assim se passa da luta de classes para a luta entre nações como foco político principal;

2) ainda sobre o facto de os trabalhadores do norte da Europa beneficiarem com o empobrecimento dos trabalhadores do sul. Se isso fosse verdade, então os trabalhadores portugueses de Lisboa beneficiariam com o empobrecimento dos trabalhadores portugueses do Alentejo ou de Trás-os-Montes. Se assim fosse, lá se ia ao ar a grande tese da unidade nacional dos portugueses honrados… Mas esta tese não é só absurda como é inexplicável do ponto de vista económico. Como seria possível trabalhadores explorarem outros trabalhadores? Como indivíduos com a mesma função social (a de produzir e de fazer circular mercadorias portadoras de mais-valia) poderiam explorar outros na mesma situação económica? Como é possível alguém de esquerda achar que há mais em comum entre um trabalhador e um patrão do mesmo país? Para a tese nacionalista, muitíssimo bem descrita por RG, isso está colocado no plano das nações exploradoras sobre as nações exploradas. E a linhagem fascista das nações proletárias contra as nações plutocráticas volta ao de cima pela mão da esquerda.

Por outro lado, se a justificação é a desigualdade/disparidade de rendimentos, basta recordar que isso é inerente não só dentro de cada plano nacional como à escala mundial. E se se continuar a desfiar, pode-se facilmente chegar às discrepâncias de rendimentos entre famílias de trabalhadores ou entre trabalhadores da mesma empresa com idênticas funções. Se esse é o critério, então a unidade dos trabalhadores seria praticamente impossível. A partilha da mesma função económica do trabalho é aqui atirada borda fora.

Em segundo lugar, essa tese do benefício dos trabalhadores do Norte à custa do empobrecimento dos do Sul é, mesmo dentro dessa lógica da disparidade de rendimentos, falsa. E é-o porque, se os salários nominais dos trabalhadores que vivem na Alemanha são superiores aos praticados em Portugal, a verdade é que, em resultado de uma produtividade muito superior na Alemanha, os trabalhadores aí residentes produzem muito mais mercadorias e muito mais valor económico (a mais-valia) do que ocorre em Portugal. Assim, se se fizer um rácio entre a massa salarial e o volume de excedente económico produzido (ou, se se preferir, a taxa de mais-valia), chega-se facilmente à conclusão de que os trabalhadores na Alemanha são mais explorados do que em Portugal. A não ser, claro está, que as pessoas que defendem as teses nacionalistas prefiram ver a exploração no plano moral ou do consumo. Mas aí já estamos a falar de outras coisas, porque do ponto de vista económico é mais explorado quem mais valor económico produz. Ou, para ser mais preciso, quando a taxa de crescimento da produção de mais-valia ultrapassa a taxa de crescimento dos salários.

E se as bases de funcionamento da economia capitalista descritas por Marx não são mais audíveis pela própria esquerda que se reivindica do marxismo, então ao menos que atente no facto de a evolução dos salários dos trabalhadores na Alemanha, em termos de custos unitários de trabalho, ter sido inferior à registada em Portugal. Partindo de uma base de 100 em 2005, verifica-se que os custos unitários na Alemanha em 2011 estavam em 105,3 e que nos anos de 2006, 2007 e 2008 chegaram mesmo a diminuir até aos 98,0, aos 97,2 e aos 99,4. Inversamente, em Portugal, para uma mesma base de 100 em 2005 verificou-se sempre uma subida até 2011. Neste último ano o nível atingido cifrou-se nos 106,6 e chegou mesmo aos 109,0 em 2009 (veja aqui).

Vivendo na santíssima trindade da gritaria sul versus norte, Portugal versus Alemanha e nação versus Europa, para a esquerda nacionalista os processos objectivos pouco parecem dizer.

I. Crítica da economia nacionalista

A minha abordagem introdutória serviu o propósito de tentar demonstrar como o discurso da maioria da esquerda portuguesa se tem dirigido para um plano nacionalista. De facto, o comentário que aqui critiquei é extremamente valioso acerca dos perigos de um nacionalismo que tem cavado fundo na esquerda, começando já a deixar de existir meias-tintas para os seus alvos políticos: de um lado, os trabalhadores alemães e a esquerda antinacionalista e, de outro lado, Merkel, a Alemanha, a União Europeia. Em suma, colocando no mesmo plano todos os que num imenso saco de gatos sejam vistos como contrários a um projecto nacionalista. Nesse sentido, a amálgama funciona como a arma política dos que não têm argumentos para discutir racionalmente o que se está a passar na actual conjuntura histórica. Têm sido vários os que me acusam de ser favorável ao euro, chegando um especialista na arte da tresleitura e do insulto a chamar-me de «fanático defensor do euro» (veja aqui). Tudo isto sem nunca provarem o que eu teria afirmado e sem nunca apresentarem um argumento económico que seja. Nada de novo, portanto. Registe-se apenas a forma como estes mestres da desconversa e da ofensa lidam com os seus opositores políticos.

A prática ausência de argumentos económicos que justifiquem minimamente uma saída do euro não deixa de ser intrigante para as forças políticas que defendem esta via. Quando não estão ausentes, resumem-se a pequenos textos que abordam muito parcialmente a questão. Por isso deixo aqui um apelo sincero aos leitores que se consideram indecisos sobre este problema: sendo unanimemente reconhecido que uma saída do euro terá grandes custos económicos, humanos e sociais, porque os defensores desta via quase nunca apresentam argumentos substantivos que justifiquem as suas posições? E quando apresentam argumentos, porque só o fazem esparsamente ou porque abordam apenas algumas das variáveis em jogo? Para um assunto sobremaneira importante, porque será que os defensores de uma saída nacional do euro raramente abordam o tema para além dos argumentos estritamente propagandísticos da soberania nacional?

Mas às organizações de esquerda defensoras de um capitalismo de Estado não lhes basta contar com uma legião de panfletários dedicados à estetização da política. Necessitam igualmente de quadros políticos tecnicamente preparados. É com estes últimos que me preocuparei fundamentalmente neste texto. Nesse sentido, vale a pena abordar um texto do economista Octávio Teixeira (OT), publicado no jornal Avante!, órgão oficial do Partido Comunista Português (PCP). Defensor inequívoco de uma saída do euro, OT defende que «uma desvalorização de 30% geraria uma inflação da ordem dos 8/9% (reflectindo o efeito do peso das importações na produção e no consumo), o que significaria, embora não necessariamente, idêntica quebra nos salários reais. Mas a redução real dos salários este ano e no próximo é já superior a esse custo» (veja aqui).

Ora, a verdade é que, segundo dados da Comissão Europeia citados pelo jornal Público, (veja aqui) a queda do salário médio em Portugal foi, entre 2010 e 2012, em torno dos 8,3% para o conjunto deste período (queda de 0,4% para 2010, de 3,6% para 2011 e de 4,5% para 2012). Portanto, querer comparar uma diminuição média real que andará actualmente em torno dos 8% para um período de três anos com uma diminuição que o próprio autor assume ser muito provável rondar os 30% (num único ano) só pode ser justificável com uma ocultação da actual situação, como a que o autor faz na última frase do trecho supracitado.

Por outro lado, OT aborda no mesmo trecho a existência de «uma inflação da ordem dos 8/9%». Seria interessante que OT e os defensores da saída do euro dissessem a todos os trabalhadores, que têm sofrido fortes rombos no seu poder de compra com as actuais políticas de austeridade, como iriam viver com uma redução salarial de 30% e com uma inflação de 8 a 9%. Portanto, à já de si enorme redução salarial por via da transição do euro para uma moeda nacional, somar-se-ia uma inflação entre 3 a 4 vezes superior à actual.

Estes dados apresentados por OT teriam «já descontado o efeito do aumento do preço dos inputs importados incorporados na produção nacional. E é evidente que o aumento da competitividade por esta via, quer a nível das exportações como da substituição de importações, é praticamente imediato com rápidos efeitos positivos no emprego. E é a partir daí que se pode avançar para a reindustrialização e para o aumento da produção. (Para que não haja dúvidas, todos estes cálculos se suportam nas matrizes input-output divulgadas pelo INE [Instituto Nacional de Estatística], não são meros palpites ou ilusões)». Por conseguinte, a aposta numa saída do euro permitiria um aumento da «competitividade pelos preços da produção nacional» em «cerca de 24%» (veja aqui). Por outras palavras, a saída do euro permitiria uma redução dos custos com os factores produtivos o que, por sua vez, permitiria um aumento da competitividade das exportações portuguesas.

Sobre este assunto já escrevi aqui contra este tipo de argumentos. Mas, mesmo assim, vale a pena abordar as teses de OT em torno de dois grandes parâmetros.

Em primeiro lugar, o modelo defendido por OT apostaria fortemente no incremento da mais-valia absoluta (queda dos salários e, portanto, um prolongamento da austeridade) e não da mais-valia relativa. Explicitando, para OT a saída de Portugal do euro utilizaria o embaratecimento dos factores produtivos para aumentar a competitividade da economia portuguesa. Neste ponto OT vê a questão por intermédio da ampliação do mercado interno substituindo importações e de um paralelo aumento das exportações. Isto seria conseguido, como se viu acima, através da desvalorização cambial. Acerca desta tese gostaria de lançar uma primeira interrogação: como se financiaria a economia e a reconversão/reconstrução do aparelho produtivo? Como seria possível financiar uma economia extraordinariamente frágil, mais ainda nas condições de baixíssima produtividade em que se encontra?

Sejamos claros, esta desvalorização cambial assentaria sobre a redução dos salários. Digo isto porque considero sintomática a ausência de qualquer referência no texto de OT a incrementos de produtividade. Não basta falar numa vaga política de avançar para a «reindustrialização e para o aumento da produção», sem escrever uma linha sobre as condições de produtividade em Portugal e na União Europeia, mola real de uma economia dinâmica moderna.

Vejamos este assunto mais de perto. Recorrendo a dados do Eurostat relativos à produtividade por hora de trabalho calculada em volume de euros, construí a tabela 1.

Tabela 1 – Produtividade por hora de trabalho calculada em euros

2000 2009 2010 2011 Δ% 2000-2011 Δ% 2009-2011
UE 27 28,0 30,7 31,4 31,8 13,57% 3,58%
Alemanha 37,3 40,9 41,7 42,3 13,40% 3,42%
Grécia 17,6 21,1 20,4 19,9 11,55% – 5,69%
Espanha 27,3 29,4 30,0 30,4 11,36% 3,40%
Itália 32,0 31,7 32,4 32,5 1,56% 2,52%
Portugal 14,9 16,1 16,4 16,5 10,74% 2,48%

Fonte – Eurostat

Os dados disponíveis permitem verificar que a produtividade portuguesa em 2000 era 39,94% da alemã e em 2011 era 39,01%. Portanto, dito de uma maneira muito simples, mesmo já a economia alemã estando a produzir no ano de 2000, em média, 37,3 euros por hora (algo de que nem em 2011 Portugal chega a metade), esta conseguiu incrementar mais 5 euros por hora na última década. Portanto, a um nível já elevado de produtividade, a economia alemã foi capaz de continuar a fazer crescer em termos absolutos a capacidade de extrair maior quantidade de bens e de serviços por cada hora de trabalho. Inversamente, Portugal, que só produzia 14,9 euros por cada hora de trabalho em 2000, chegou a 2011 com 16,5 euros por hora. Se, percentualmente, o diferencial de aumento da produtividade nem seria muito distinto (10,74% contra os 13,40% na Alemanha), na realidade a economia portuguesa, em 11 anos, incorporou por cada hora de trabalho apenas mais 1,6 euros. Ou seja, a taxa de crescimento unitário da produtividade foi de cerca de um terço da registada na Alemanha. Por conseguinte, e em jeito de resumo, Portugal tem uma produtividade cerca de 39% da alemã e teve, em onze anos, um aumento nos ganhos de produtividade do trabalho na ordem de um terço do registado na Alemanha.

Em vez de se colocar o plano da discussão nos mecanismos da mais-valia relativa, há quem prefira ignorá-los… Falar vagamente em «reindustrialização», sem mencionar como isso poderia ocorrer ao nível de um aumento da produtividade, demonstra claramente que a via de uma saída do euro apresentada pelos seus defensores seria sustentada numa ampliação dos mecanismos da mais-valia absoluta (redução nominal e real de salários, elevada inflação, necessidade de apertar o controlo da força de trabalho, etc.). Por isso, quando os nacionalistas de esquerda apresentam o argumento de que uma saída do euro permitiria aumentar a competitividade da economia, esta só seria possível por intermédio do aprofundamento das actuais e iníquas medidas de austeridade. E isto leva-me para o segundo ponto.

Em segundo lugar, verifica-se que o nacionalismo propugnado por economistas do PCP não se espelha apenas no plano político das soluções apresentadas mas também na própria análise. É inusitado o facto de OT recorrer a matrizes dinâmicas mas nada dizer sobre as novas relações económicas que Portugal estabeleceria numa situação de abandono da zona euro. E, sobretudo, acerca das condições reais de partida da actual estrutura económica de Portugal.

Nesse sentido, sabendo que:

a) Portugal importa anualmente mais de 50% de produtos com alta e média-alta intensidade tecnológica e que as suas exportações se focam fundamentalmente em produtos com baixa e média-baixa intensidade tecnológica (mais de 60%) (veja aqui);

b) as exportações intra-comunitárias estavam nos 74% em 2011, sendo este número ilustrativo da integração profunda da economia portuguesa na zona económica europeia. Se é verdade que, em 2011, estes 74% representavam uma diminuição dos 75,4% do total das exportações em 2009, não parece que tal pequeno recuo seja demonstrativo de uma ruptura com o padrão de integração de Portugal na economia europeia. No mesmo sentido devem ser vistos os aumentos relativos de exportações portuguesas para outros mercados não-europeus e que encheram as parangonas dos jornais. Por exemplo, se o aumento das exportações para a China cresceu 69,7%, importa ter em mente que o seu peso passou entre 2010 e 2011 de 0,6% para 0,9% do total das exportações. A Argélia também aumentou 66,8% num ano, mas o seu peso continua a ser pequeno: de 0,6% para 0,8% do total das exportações. O mesmo padrão foi conseguido relativamente ao Japão, com um aumento de 50% entre 2010 e 2011 e onde o peso no global de exportações passou de 0,3% para 0,5%. Assim, Alemanha, França e Espanha contribuem, respectivamente, com 13,6%, 12,0% e 24,8% do total de exportações portuguesas (em 2009 eram 13,0%, 12,4% e 27,2%). Portanto, só estes três mercados captaram 50,4% de todas as exportações portuguesas em 2011 (veja aqui, p. 173);

c) Portugal tinha um «passivo externo líquido em 2011 correspondente a 195,8 mil milhões [bilhões] de euros (109% do PIB [Produto Interno Bruto)» (veja aqui) e «entre o fim do 1.º trimestre de 1996 e o fim do 4.º trimestre de 2010 […] os défices acumulados da balança de bens» foram «de cerca de – €234 mil milhões e da balança de rendimentos de cerca de – €61 mil milhões», contrabalançados muito parcialmente pelos excedentes acumulados registados na balança de serviços e na balança de transferências correntes de cerca de €57 mil milhões e €43 mil milhões, respectivamente» (veja aqui);

d) a balança corrente [2] registou entre 2005 e 2011 uma perda acumulada de 55,67% do PIB. E estas perdas não decorrem apenas do facto de Portugal ter um défice persistente nos produtos energéticos (défice em todos os anos deste exercício e que oscilaram entre perdas de 2,9% do PIB em 2009 e 4,7% em 2008). De facto, o saldo acumulado de perdas da balança comercial portuguesa (a agregação da balança de bens com a balança de serviços) andou na casa dos 41% do PIB (um valor longe de ser despiciendo), o que só confirma a dependência externa da economia portuguesa. A balança de capital foi sempre positiva mas nunca superior em cada ano a 1,2% do PIB nacional, portanto incapaz de contrabalançar os défices persistentes da balança corrente. O mesmo se passou no caso das remessas de emigrantes/imigrantes, que, apesar de sempre positiva, nunca ultrapassou o 1,1% do PIB. O que significa que a economia portuguesa está a ser financiada por poupança externa.

e) a formação bruta de capital fixo tem vindo a diminuir significativamente ao longo dos últimos anos, acumulando uma queda de 20,56%. Em 2007: 2,6; em 2008: – 0,3; em 2009: – 8,6; em 2010: – 4,1; em 2011: – 11,4 (veja aqui).

Portanto, tomando em consideração os dados apresentados nos itens de a) a e), como seria possível reindustrializar o país numa base moderna a partir destas condições, que seriam ainda mais agravadas numa situação de isolamento económico?

A tese de que o aumento da competitividade por via da desvalorização cambial resultaria num aporte de excedente passível de ser aplicado numa reindustrialização do país é muito contraditória nos seus fundamentos. Neste ponto gostaria de pedir o máximo de atenção ao leitor. Por um lado, OT parece esquecer o ponto de partida de algumas das características da economia portuguesa, tal como enunciei nos itens a) a e). Ou seja, não basta dizer que Portugal iria tornar-se numa economia competitiva, como faz OT. É preciso tomar em linha de conta os débeis pontos de partida ao nível da produtividade, do investimento e do financiamento externo, que tornam a saída nacionalista uma via suicidária. Por outro lado, e é aqui que se reflecte o outro aspecto da contradição do argumento de OT, a referência que o autor faz às matrizes de input-output e os resultados a que chega partem do pressuposto de uma economia estática; ou seja, considera que as actuais necessidades do país continuariam a ser as mesmas nesse processo de reindustrialização. Temos assim um fenómeno contraditório, onde o débil ponto de partida da economia portuguesa não é equacionado (nem é sequer viável) para um futuro de industrialização nacional e onde, por outro lado, essa industrialização futura é tomada como uma decorrência das necessidades de financiamento da actualidade.

Entretanto, tomemos como hipótese teórica que seria possível industrializar a economia portuguesa fora do euro. Aliás, é essa a hipótese colocada por OT. Neste capítulo, parece-me que OT não toma em linha de conta que as necessidades de financiamento de uma política nacional(ista) de reindustrialização são muito superiores às já actualmente existentes. Ora, se, como OT diz, o país se teria de reindustrializar fora do euro, como isso seria possível aumentando ainda mais as necessidades em outputs provenientes do exterior? Ou seja, se o resultado da saída do euro seria uma subsequente industrialização, como a actual economia portuguesa poderia arrancar para uma onda de reindustrialização, se o ponto de partida se encontra sustentado num passivo externo líquido que ultrapassa os 100% do PIB e numa baixíssima produtividade? Repare-se que não se está aqui a discutir por parte de OT uma via de maior integração económica europeia e de, por exemplo, transferência de fundos para um reinvestimento produtivo na indústria instalada e a instalar em Portugal. Pelo contrário, o cenário equacionado por OT – a saber, uma reindustrialização num país acabado de sair de uma zona económica internacional – necessitaria de um volume de financiamento maciço e muitíssimo superior ao da actual situação.

Uma reindustrialização na base da mais-valia relativa seria impossível nestas condições, por duas grandes ordens de razões:

Por um lado, o financiamento externo em euros ou dólares para a compra de maquinaria de alta intensidade tecnológica, de matérias-primas e mesmo de alimentos e produtos de consumo corrente seria muito mais caro, fruto da desvalorização cambial do escudo. A isto somar-se-iam taxas de juro elevadíssimas nos mercados de dívida. Se a economia portuguesa na actual situação já tem pouca credibilidade internacional junto dos investidores, sem o euro como a segunda moeda de reserva mundial e sem o Banco Central Europeu como entidade de garantia de última instância, a situação seria ainda pior do que já é hoje. No entanto, a via preferida pela esquerda nacionalista não seria esta, mas a da emissão nacional e “soberana” de moeda nacional. Com efeito, a via da emissão de moeda para compensar essa ausência de crédito externo elevaria a já mencionada taxa de inflação de 8-9% a níveis estratosféricos, o que só contribuiria para desacelerar ainda mais a actividade económica. OT fala numa inflação de 8 a 9% no caso de uma saída do euro e tomando como base a emissão de moeda nacional para cobrir os actuais gastos do Estado e actuais necessidades de financiamento da economia. Na realidade, isto não bate certo com a sua proposta de reindustrialização fora do euro. Se o país se reindustrializasse fora do euro e sem acesso aos mercados de dívida pública, a verdade é que, por exemplo, a necessidade de incrementar a compra de maquinaria de alta e de média-alta intensidade tecnológica e a reestruturação do parque industrial português exigiriam somas imensas de emissão de moeda. O que, por seu turno, se reflectiria numa inflação muito superior aos tais 8 a 9% de que fala OT. Portanto, não só o acesso aos mercados financeiros seria inviável como a emissão maciça de moeda nacional não poderia corresponder a uma alternativa economicamente sustentável.

Como esta reindustrialização numa base de incremento da produtividade do trabalho se tornaria impossível, a saída só poderia ser uma: o aprofundamento do actual empobrecimento dos trabalhadores por via da redução da massa salarial e numa escala muito superior, pois só assim se elevaria o excedente económico passível de financiar uma política de reindustrialização. Por isso, a saída do euro não representaria o fim da austeridade mas o seu aprofundamento.

É evidente que não estou aqui a descartar as responsabilidades das políticas económicas seguidas nas últimas décadas (tanto ao nível nacional como europeu) e o seu impacto neste processo. O que me importa é interrogar os senhores que defendem uma saída unilateral do euro sabendo que é com estes dados que se cose a realidade económica portuguesa. Ou seja, se a economia portuguesa já tem dificuldades estruturais profundas ao nível do baixo investimento produtivo com alto valor económico agregado, com um enorme saldo negativo acumulado na balança corrente e na balança comercial, com um passivo externo líquido colossal e com uma concentração de ¾ das suas exportações na União Europeia, tendo tudo isto em conta, como seria possível enxergar um desenvolvimento autónomo e autocentrado?

Não se trata apenas de constatar que a estrutura económica portuguesa está configurada de modo totalmente contrário a uma saída do euro. Trata-se também de reafirmar as interrogações apontadas no início deste artigo e que venho fazendo há mais de meio ano: Por que os defensores de uma saída do euro quase nunca apresentam dados económicos? Por que os defensores de uma saída do euro omitem uma reflexão profunda e detalhada sobre as características da estrutura económica portuguesa? Por que os defensores de uma saída do euro propõem uma via económica totalmente contraproducente para as já de si deterioradas e precárias condições de vida dos trabalhadores portugueses? Por que nunca publicaram até hoje um estudo económico detalhado e sistemático em defesa das suas propostas? Para um assunto desta importância e com os impactos que iria ter, não deixa de ser bizarro o facto de que quem mais tem apresentado elementos para um debate objectivo e sério sobre o assunto sejam os que se opõem a uma deriva nacionalista. Ou, para ser mais exacto, se calhar até nem será bizarro de todo, se tomarmos em consideração que o nacionalismo vive no plano da ideologia e que os propósitos conscientes e inconscientes dos defensores desta via estão longe de se sustentar no plano da realidade.

Notas

[1] Nota para os leitores brasileiros: a batalha de Aljubarrota, travada em 1385, inseriu-se no contexto de uma guerra dinástica e de uma luta social e assegurou a independência de Portugal relativamente a Castela. Tornou-se depois uma das constantes do imaginário nacionalista português.
[2] A balança corrente agrega a balança de bens (exportações e importações) e de serviços (que inclui o turismo e os transportes), a balança de rendimentos (transacções que correspondem a rendimentos decorrentes de activos que residentes possuem no exterior e estrangeiros no território nacional) e a balança de transferências (incluindo as remessas de migrantes).

Leia a 2ª parte deste artigo.

(c) Copyleft: É livre a reprodução para fins não comerciais, desde que o autor e o site passapalavra.info sejam citados e esta nota seja incluída.

IBGE explica por que a elite odeia Lula

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Foi uma luta para encontrar dados que mostrassem a evolução do índice de Gini do Brasil entre 1995 e 2010. A mídia esconde esses dados porque mostram um fato que destrói a versão que vem sendo alardeada após a divulgação da maior queda de concentração de renda no Brasil durante os últimos 50 anos, de que ocorreu nos governos FHC e Lula.

Em primeiro lugar, o noticiário deixa claro um fato sobre o qual pouco se fala: a ditadura militar (1964-1985) foi implantada para concentrar renda, ou seja, para tornar os ricos mais ricos e os pobres, mais pobres. Em 1960, antes da ditadura, o índice de Gini era de 0,537 e, em 1995, estava em 0,600. A concentração de renda foi brutal, no período.

Mas o fato mais contemporâneo também é surpreendente e pode ser bem constatado no gráfico acima: durante o primeiro mandato de FHC, a desigualdade permaneceu praticamente intocada e só caiu um pouco a partir do segundo mandato. Já no governo Lula, a queda foi impressionante, fazendo o índice de Gini cair a 0,530 – quanto mais próxima de zero, menor é a concentração de renda.

O IBGE também explica por que os estratos superiores da pirâmide social odeiam tanto Lula. Entre os 20% mais ricos, que se concentram no Sul e no Sudeste, a escolaridade aumentou 8,1% e a renda cresceu 8,9%. No recorte dos 20% mais pobres, que ficam no Norte, no Nordeste e no Centro-Oeste, a escolaridade aumentou 55,6%, e foi acompanhada de um aumento de renda de 49,5%.

Por etnia, os negros também experimentaram aumento de renda muito maior do que os brancos, vale dizer. Sobretudo porque negros e descendentes de negros são muito mais numerosos no Norte e no Nordeste.

O governo FHC é tão defendido pelos ricos, que também são donos da mídia, porque foi o que puderam conseguir em termos de, se não aumentar a concentração de renda, ao menos retardar a sua queda. Lula virou as costas para a elite e promoveu a maior distribuição de renda da história deste país. Por isso a elite branca do Sul e do Sudeste o odeia com tanto fervor.

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