Para Cristovam, o PT ganha nova chance de eliminar o rorizismo

Luísa Medeiros

Publicação: 06/11/2010 08:00
 
Fonte: Correio Braziliense
 
O petista Agnelo Queiroz foi o vencedor na disputa ao Palácio do Buriti, mas o senador Cristovam Buarque, um dos principais cabos eleitorais do governador eleito, tomou para si boa parte da responsabilidade de fazer dar certo a nova gestão. O sabor da vitória contra o rival Joaquim Roriz, representado pela figura da mulher, Weslian, adoçou a amarga lembrança da derrota na eleição de 1998. A virada na história política da capital, dando ao PT mais uma chance de estar no poder, e consequentemente, a oportunidade de eliminar o rorizismo da cidade, injetou ânimo no primeiro representante da legenda a chefiar o Executivo local, na década de 90. 

Em entrevista exclusiva ao Correio, Cristovam Buarque, hoje no PDT, relembra a própria experiência para apontar possíveis erros que Agnelo deveria evitar. Eleito aos 66 anos para o segundo mandato e com o título de senador mais bem votado do DF (833.480 votos), o pernambucano de Recife, em tom patriarcal, aconselha o governador eleito a não lotear o GDF entre os 13 partidos que compuseram a coligação vitoriosa. Cristovam apela para o critério da competência como pré-requisito para a escolha do secretariado. Diz que, diferentemente do que fez em seu governo, Agnelo deveria priorizar os nomes dos administradores regionais, mais próximos da população do que os titulares das pastas. O recado dado pelo senador não traz nada de revolucionário, mas, na prática, é utilizado por poucos políticos. Segundo Cristovam, o importante não é falar em cargos e, sim, listar os princípios que deverão nortear a gestão do PT.

Com discurso pacificador, o ex-governador do DF defende antigos adversários, como o vice de Agnelo, Tadeu Filippelli (PMDB), mas reitera que os próximos quatro anos devem ser livres de escândalos de corrupção na capital do país. “Se esse governo der errado, não teremos moral para continuar na política.” O senador manifesta ainda o desejo de pagar sua dívida com os moradores da Estrutural — invasão que tentou remover durante o período em que esteve à frente do Palácio do Buriti. A operação de retirada dos moradores pela Polícia Militar resultou na morte de duas pessoas.

“Esse governo não pode ter um escândalo de corrupção”
O senhor não vai indicar algum nome ao governo de Agnelo Queiroz?

Não vou indicar nenhum nem acho que o PDT deve indicar nomes. O que vou fazer, pela responsabilidade que tenho com esse governo, é tentar construir nomes que acho que são bons, independentemente do partido.

Mas houve uma grande aliança para eleger esse governo. Obviamente, cada partido vai querer dar sua contribuição na composição do Executivo…
Nada impede que cada partido faça sua contribuição, basta indicar os melhores nomes. Quando o melhor for do partido, ótimo. Quando o melhor for de outro partido, acho que tem que se aceitar.

Que participação o PDT terá no novo governo?
 A participação do PDT é querer que todos os secretários sejam os melhores que essa cidade pode ter. Espero que, nesses melhores da cidade, possa haver nomes do PDT. Se tiver nome melhor para qualquer cargo de fora do PDT ou apartidário, eu apoiarei.

O senhor é conhecido como o senador da Educação. Não há interesse pessoal em acompanhar o desenvolvimento da área dentro da gestão do PT?
O que gostaria de acompanhar é a área da alfabetização. Lamento não ter erradicado o analfabetismo como governador. Outra área que quero estar acompanhar é como o governo vai tratar da Estrutural. Sinto que tenho uma dívida com as pessoas que moram lá.

Durante a campanha, o senhor não acompanhou Agnelo nos eventos na Estrutural. O ambiente se tornou hostil ao senhor?
Não acompanhei Agnelo em um dia, mas fui a almoços e reuniões. Sou bem-vindo pelas pessoas que lideravam naquela época. Aquilo foi uma manipulação. A história vai mostrar que não tive nada a ver com isso. Quem filmou aquilo tudo foi Durval (Barbosa). Por aí você vê que estava armado. Não sinto complexo algum. O que sinto é que a Estrutural não deveria ter sido erguida ali, mas não consegui que as pessoas saíssem, e hoje, não defendo mais que os moradores saiam.

Pela primeira vez, o ex-governador Joaquim Roriz, representado pela mulher, foi derrotado nas urnas. Qual é o peso disso para o grupo vencedor?
Esse não é um governo qualquer. Esse governo não tem o direito de ter um escândalo de corrupção, de não recuperar a saúde, de não colocar a educação nos eixos. Se essas três coisas não acontecerem, Brasília não terá a quem recorrer. Quem são os líderes dessa cidade? Roriz? Tá fora. Arruda? Tá fora. Os outros estão dentro desse governo. Se ele der errado, nós não teremos moral para continuar na política.

Com base na sua experiência como governador do DF, o que o senhor sugere a Agnelo fazer no início da gestão? Que tom devem ter as conversas no processo de transição?
A experiência que eu tinha não vale muito agora. Tive que enfrentar Roriz, Arruda e a cidade tinha alternativas. Se a gente fracassasse, essas alternativas voltariam. A responsabilidade é muito maior agora. Somos a última esperança da cidade. E foi por isso que Agnelo teve uma votação tão expressiva. Agnelo não ganhou apenas por ser o melhor do momento, mas porque o outro lado não tinha ninguém.

Mas o que Agnelo deveria fazer?
Reunir os partidos e dizer que tem que compor um secretariado que seja o melhor de todos. O governador eleito garantiu que vai criar creches para todo mundo, por exemplo. Se Agnelo não cumprir essa promessa, estaremos numa situação muito difícil.

Compor o secretariado com o critério de “melhor de todos” não pode deixar descontentes os partidos que esperam o cumprimento do compromisso de repartir o bolo?
Não houve comigo o compromisso de repartir o bolo. Agnelo nunca me prometeu dar um cargo ao PDT. Se ele prometeu a outros partidos, é outra coisa. Brasília não está mais à venda. A cidade não aceita mais ser vendida por propina nem por acordos partidários. Então, se amanhã não tiver ninguém do PDT, eu não tenho o que reclamar dele. Espero que os partidos entendam que o nosso compromisso é com a cidade e o futuro dela.

A ficha limpa deve valer para a transição e para a indicação dos cargos no governo?
Não podemos colocar um direitista ou um corrupto, por mais competente que seja. Mais do que ter ficha limpa, a pessoa tem que ser honesta, democrata e competente tecnicamente.

O senhor vai acompanhar de perto a transição?
Se o Agnelo me pedir, ou o encarregado da transição, estou disposto a colaborar. Eu sinto responsabilidade com esse governo como se eu fosse o governador. Minha carreira política depende do êxito do governo Agnelo porque eu avalizei o governo dele nas ruas.

O senhor afirma ter se empenhado porque acreditou que Agnelo era o melhor nome para o GDF. Mas também pela possibilidade de entrar indiretamente numa disputa contra Joaquim Roriz?
Sim, está na hora de a unidade contra o atraso se transformar numa unidade em prol do avanço. Numa reunião de partido, faltando 10, 11 dias para a eleição, eu falei: “Gente, até aqui quem nos uniu foi Roriz. E agora? Quem vai nos unir para governar? A simples figura de cada um de nós não une. Temos que ser objetivos. Acredito em cinco lemas e princípios que vão unir nosso governo.

Que lemas e princípios são esses?
Primeiro, um compromisso radical com a ética e a transparência. Segundo, um compromisso absoluto com a imagem de Brasília e com a autoestima da capital. Terceiro, a recuperação imediata da saúde pública. Quarto, a recuperação da educação, da segurança e do transporte público. Por fim, a escolha dos secretários mais pela competência que pelo partido.

Quais são os erros que o senhor cometeu como governador que Agnelo deve evitar?
Escolhi os secretários para depois escolher os administradores (regionais), mas a cara do governo está nos administradores. É preciso definir todos ao mesmo tempo. Acho que o governo pode abrir mão de um ótimo secretário para ele ser um administrador. Além disso, em minha gestão, ficamos presos ao secretários partidários. Acho que Agnelo tem que fazer uma negociação com o conjunto dos partidos.

Como o governador eleito deve se relacionar com os deputados distritais?
Não deve negociar com de-putado individualmente e deve tratar todos da mesma maneira, inclusive os da oposição.

O cenário está mais positivo para Agnelo do que para o senhor na época em que foi governador. Ele tem maioria na Câmara….
Na minha época, não havia o Fundo Constitucional do DF.
Eu tinha que pedir dinheiro (à União) todo mês. Lembro que eram R$ 1,9 bilhão. Hoje, a previsão para 2011 é de R$ 9 bilhões. E a destinação do recurso é obrigatória. Eu tinha oposição brutal. Era o mensalão ao contrário. A oposição comprava os depu-tados para ficarem contra mim. Agnelo não vai ter oposição e ele ainda vai aproveitar a experiência dos quadros. Já fomos governo. O PT chegou ao poder. E os sindicatos aprenderam a negociar, inclusive com a minha derrota.

E os remanescentes do rorizismo?
Eles não vão ter a força nem a liderança que tiveram contra mim, exercida por Luiz Estevão (senador cassado). O rorizismo saiu tão esfacelado em 2010 que não acredito em revanchismo, a não ser que a gente faça muita besteira.

O governador Rogério Rosso disse que entregará o governo sem dívidas a Agnelo. Mas neste ano foram aprovados dois pacotes de bondades para o funcionalismo. Quando o senhor governou o DF, várias categorias de servidores o pressionaram por benefícios, fizeram greve durante meses. Como Agnelo pode lidar com isso?
Relato minha experiência: faltando pouco para sair do governo, Roriz deu o vale-refeição para os professores. Quando assumi, me disseram que não era possível pagá-lo. Paguei durante oito meses e acabou o dinheiro. Até hoje sou conhecido como o governador que cortou o vale. Aconselho Agnelo a não começar nada que analistas financeiros digam não ser possível pagar.

E a bancada do DF no Senado? Como está a sintonia entre o senhor, Rodrigo Rollemberg (PSB, eleito em 2010) e Gim Argello (PTB)?
Eu e Rodrigo já estamos trabalhando e acredito que Gim venha para o nosso lado. É preciso definir os princípios que nos unem. Além disso, tenho a impressão de que é preciso fazer uma conformação das forças políticas brasileiras. O PDT está precisando ser refundado, assim como o PSB e o PV. Não vou ser um senador só do DF, quero ter um papel nacional. Vou ser um auxiliar do governo Agnelo, mas quero ser participante da política nacional, quero ser mais influente no Senado. No primeiro mandato como senador, fui um formulador de projetos de lei e fazedor de discurso.

Qual é o papel do vice Tadeu Filippelli nesse governo?
O papel dele será fundamental para o governo dar certo. Tenho esperança de que isso aconteça. Filippelli é político que percebeu que é desse lado que ele tem de estar. E, ao perceber isso, o comportamento dele vai mudar.

Mas o senhor não acha que a suspeição sempre rondará Filippelli por ele ter sido, por tanto tempo, aliado de Roriz?
Nos primeiros meses, sim. Mas à medida que ele for demonstrando que faz parte desse lado, começará a ser respeitado, reconhecido e aceito.

Filippelli foi um dos maiores opositores ao seu governo. No decorrer da campanha, o senhor começou a ver Filippelli com outros olhos?
Sim, acho que ele foi um dos grandes responsáveis pela eleição de Agnelo. Teríamos muito mais dificuldades se ele não estivesse do nosso lado. Além disso, Filippelli nunca falou sobre loteamento de cargos.

Como deve ser dado o tratamento a figuras do PMDB citadas na Operação Caixa de Pandora?
Filippelli já disse em conversas comigo, com Rodrigo e com Agnelo que pensa numa espécie de refundação do PMDB. Mas ele não detalhou isso.

http://buarque.org.br

Projeto que obriga políticos a matricularem seus filhos em Escola Pública

UMA CORRENTE DIFERENTE

Trata-se de um movimento de apoio à idéia do senador Cristovam Buarque, que foi candidato a presidente com a proposta da educação.
Ele apresentou um projeto de lei propondo que todo político eleito (vereador, prefeito, deputado, governador, presidente) seja obrigado a pôr os filhos
na escola pública.
As conseqüências seriam as melhores possíveis.. Quando os políticos se virem obrigados a pôr seus filhos na escola pública, a qualidade do ensino no país irá melhorar.
E todos sabem das implicações decorrentes do ensino público que temos atualmente no Brasil.

SE VOCÊ CONCORDA COM A IDÉIA DO SENADOR, DIVULGUE ESSA MENSAGEM no seu dia-a-dia e pela Internet (em cópia oculta e apague o endereço de quem
lhe enviou, para evitar SPAM).. E ajude a REALIZAR essa idéia. Ela pode, realmente, mudar a realidade do nosso país.

O projeto PASSARÁ, SE HOUVER A PRESSÃO DA OPINIÃO PÚBLICA.

http://www.senado. gov.br/sf/ atividade/ Materia/detalhes .asp?p_cod_ mate=82166

PROJETO DE LEI DO SENADO Nº 480 DE 2007

Determina a obrigatoriedade de os agentes públicos eleitos matricularem seus filhos e demais dependentes em escolas públicas até 2014.

O CONGRESSO NACIONAL decreta:

Art. 1º Os agentes públicos eleitos para os Poderes Executivo e Legislativo federais, estaduais, municipais e do Distrito Federal são obrigados a matricular seus filhos e demais dependentes em
escolas públicas de educação básica.

Art. 2º Esta Lei deverá estar em vigor em todo o Brasil até, no máximo, 1º de janeiro de 2014.

Parágrafo Único. As Câmaras de Vereadores e Assembléias Legislativas Estaduais poderão antecipar este prazo para suas unidades respectivas.

JUSTIFICAÇÃO

No Brasil, os filhos dos dirigentes políticos estudam a educação básica em escolas privadas. Isto mostra, em primeiro lugar, a má qualidade da escola pública brasileira, e, em segundo lugar, o
descaso dos dirigentes para com o ensino público.

Talvez não haja maior prova do desapreço para com a educação das crianças do povo, do que ter os filhos dos dirigentes brasileiros, salvo raras exceções, estudando em escolas privadas. Esta
é uma forma de corrupção discreta da elite dirigente que, em vez de resolver os problemas nacionais, busca proteger-se contra as tragédias do povo, criando privilégios.

Além de deixarem as escolas públicas abandonadas, ao se ampararem nas escolas privadas, as autoridades brasileiras criaram a possibilidade de se beneficiar de descontos no Imposto de Renda para
financiar os custos da educação privada de seus filhos.

Pode-se estimar que os 64.810 ocupantes de cargos eleitorais – vereadores, prefeitos e vice-prefeitos, deputados estaduais, federais, senadores e seus suplentes, governadores e vice-governadores, Presidente e Vice-Presidente da República – deduzam um valor total de mais de 150 milhões de reais nas suas respectivas declarações de imposto de renda, com o fim de financiar a escola
privada de seus filhos alcançando a dedução de R$ 2.373,84 inclusive no exterior. Considerando apenas um dependente por ocupante de cargo eleitoral.

O presente Projeto de Lei permitirá que se alcance, entre outros, os seguintes objetivos:

a) ético: comprometerá o representante do povo com a escola que atende ao povo;

b) político: certamente provocará um maior interesse das autoridades para com a educação pública com a conseqüente melhoria da qualidade dessas escolas.

c) financeiro: evitará a “evasão legal” de mais de 12 milhões de reais por mês, o que aumentaria a disponibilidade de recursos fiscais à disposição do setor público, inclusive para a educação;

d) estratégica: os governantes sentirão diretamente a urgência de, em sete anos, desenvolver a qualidade da educação pública no Brasil.

Se esta proposta tivesse sido adotada no momento da Proclamação da República, como um gesto republicano, a realidade social brasileira seria hoje completamente diferente. Entretanto, a tradição de 118 anos de uma República que separa as massas e a elite, uma sem direitos e a outra com privilégios, não permite a implementação imediata desta decisão. Ficou escolhido por isto o ano de 2014, quando a República estará completando 125 anos de sua proclamação. É um prazo muito longo desde 1889, mas suficiente para que as escolas públicas brasileiras tenham a qualidade que a elite
dirigente exige para a escola de seus filhos.

Seria injustificado, depois de tanto tempo, que o Brasil ainda tivesse duas educações – uma para os filhos de seus dirigentes e outra para os filhos do povo -, como nos mais antigos sistemas monárquicos, onde a educação era reservada para os nobres.

Diante do exposto, solicitamos o apoio dos ilustres colegas para a aprovação deste projeto.

Sala das Sessões,

Senador CRISTOVAM BUARQUE

Sandra Benedetti

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