Estudante que tenta refundar a Arena publica estatuto no ‘Diário Oficial’

DE SÃO PAULO

A estudante de direito Cibele Bumbel Baginski, 23, publicou nesta terça-feira (13) no “Diário Oficial da União” o estatuto da Arena (Aliança Renovadora Nacional), partido que tenta fundar e que leva o mesmo nome da sigla que deu sustentação à ditadura militar (1964-1985).

A jovem assina o estatuto como presidente nacional do grupo.

Gabriel Lain/Folha de Caxias

A estudante Cibele Baginski, 23, que tenta refundar a ArenaA estudante Cibele Baginski, 23, que tenta refundar a Arena

A etapa é necessária para que o partido comece a coletar as cerca de 500 mil assinaturas exigidas para o registro na Justiça Eleitoral.

Com o registro, a legenda passa a poder disputar eleições e a ter direito a uma parcela do Fundo Partidário, mantido com recursos da União.

A parcela destinada a cada partido varia de acordo com sua votação para a Câmara dos Deputados na última eleição. Como exemplo, o PEN (Partido Ecológico Nacional) recebeu R$ 202 mil desde sua criação, em junho deste ano.

Questionada em agosto deste ano sobre a participação da Arena em crimes da ditadura, Baginski disse à Folha que também houve “coisas boas” naquela época. “O partido faz política, elege representantes. O que esses representantes fizeram é outra coisa”, afirmou.

Entre as bandeiras defendidas pelo partido estão ações como “abolição de quaisquer sistemas de cotas raciais, de gênero ou condições ‘especiais'”, a maioridade penal aos 16 anos e o retorno ao currículo escolar das disciplinas de Latim e Educação Moral e Cívica — ensino imposto em 1969 e tirado do currículo em 1993.

O partido seria controlado por um “Conselho Ideológico”, instância “suprema” composta por cinco membros permanentes e vitalícios e quatro indicados por membros.

O texto diz que o grupo possui como ideologia o “conservadorismo, nacionalismo e tecno-progressismo, tendo para todos os efeitos a posição de direita no espectro político”.

Dois de seus objetivos são lutar “contra a comunização da sociedade e dos meios de produção além de outras práticas insidiosas ao pleno desenvolvimento e qualidade da sociedade brasileira” e “resguardar a soberania nacional, o regime democrático e o pluralismo político de toda forma de uniformidade de pensamento ou hegemonia política.”

“Em respeito à convicções ideológicas de direita, não coligará com partidos que declaram em seu programa e estatuto a defesa do comunismo, bem como vertentes marxista.”

Os impasses do PSDB – 3

Enviado por luisnassif,

Por daniel diniz

Pode ser tudo isso, mas tenho pra mim que um relevante deflagrador da crise contemporânea do PSDB está lá atrás, no momento de seu máximo sucesso.

O PSDB chegou ao poder muito cedo, com apenas seis ou sete anos de existência. Ainda não havia governado nada, excetuando uma ou outra prefeitura (se não me engano), não havia passado por momentos de depuração partidária (como o PT nos anos 1980, como no caso da eleição de Tancredo, etc).

Ao lado disso, foi sendo sistematicamente abençoado por uma mídia simpática aos seus quadros e suas idéias. Ainda há de se escrever, historiográfica e corretamente, sobre o deslumbramento real da imprensa com FHC. Muito se fala que havia interesses, etc. Havia, claro. Mas havia um enorme otimismo em relação ao seu governo e sua figura. Mesmo no final do seu segundo governo, ainda se suspirava pela falta que aquela inteligência e fina estampa fariam. FHC encarnava muito fielmente o sonho cosmopolita daquela elite, inclusive na imprensa. Pois bem. Ao lado disso, havia o PSDB real, conchavado com o PFL, que cresceu, entre 1994 e 1998, de forma assustadora.

(…)

, atualmente, foi muito hábil na tendência ao inchaço que todo o partido tem quando chega ao governo. O PT cresceu sim, mas não inchou. Antes, fez inchar os coligados. O PT implodiu e reorganizou todos os seus coligados – do que o maior e mais completo exemplo é o próprio PL que lhe foi vice em 2002 e do qual nada sobrou em pé.

O PSDB, conquanto tenha também permitido o crescimento tangencial de seus coligados, inchou mais que todos eles. Não havia canto do país sem um prefeito do PSDB – que geralmente tinha origem na Arena, etc, etc. Completamente deslumbrado com o súbito crescimento, o partido tornou-se refém de um jogo em que, grau a grau, perdeu o controle. Uma coisa é FHC subir no palanque com ACM no interior da Bahia em 1994, para garantir uma vitória naquela eleição e impor sua agenda modernizante.

Outra, muito diferente, eram os inúmeros coronéis e assemelhados espalhados pelo Brasil profundo mantendo suas estruturas coronelistas aliados ao governo pretensamente modernizante. Ludibriado pela idéia de 20 anos no poder – que hoje o partido critica no PT mas que Sérgio Motta defendia para os tucanos – o PSDB aceitou lenientemente todo o tipo de quadro, qualquer tipo de crescimento.

Ao lado disso, e também daqueles tempos, determinada arrogância de FHC – inclusive aqui mesmo no Nassif tão bem diagnosticada – que não podia facilmente aceitar alguém a lhe fazer sombra.

É fato que o PT hoje, sobretudo após o mensalão, tem poucos quadros nacionais com capilaridade e viabilidade eleitoral; contudo, também é fato que Lula soube e, possivelmente, saberá, operar o milagre de forjar esse quadro do nada se preciso for (o que a eleição de Dilma parece confirmar). E, atente-se, aceitando e açulando a noção de que o outro poderia ser muito melhor que ele próprio.

O PSDB de FHC, inclusive por meio do que gostava de transparecer o próprio ex-presidente, parecia ter sido o melhor que os tucanos poderiam oferecer; o PT de Lula sempre buscou sublinhar, inclusive por meio da fala do próprio Lula, que iniciava-se em Lula uma fase especial que ainda prometia muito.

Inchado artificialmente em nível muito além do controlável e sem uma liderança internamente construída para fazer frente aquilo que partido, imprensa e classe média tradicional consideraram a fase de ouro do governo federal brasileiro, o PSDB, na medida em que afastou-se do poder (e sem pra ele conseguir retornar eleição após eleição) viu minarem os quadros que, originariamente para ele acorreram no calor do primeiro governo.

Já na última eleição presidencial tornava-se claro: sobraram apenas os fundadores, mais uma meia dúzia que chegou depois e que ajuntou-se a um dos lados para construir a face mais agressiva da campanha de 2010. Era natural portanto que, queimada toda a gordura acumulada em oito anos de governo nos oito de oposição, sobrasse ao PSDB real (o dos fundadores) se desarticular por completo pois já estava sem gordura e, o principal, sem um novo FHC.

A entrevista de Leôncio Martins parece clara: não se considera, fora de Minas, um Aécio lider. Nem Serra ou Alckimin de fato. Não há um novo FHC; talvez por isso o choro isolado do ex-presidente em artigos que ora exortam uma oposição ideologicamente morta ora lamuriam um governo que em nada se parece com o seu.

O PSDB acabou. Assim como o DEM. O que virá em seus lugares? O PSD? Kassab aprofundou uma política higienista em São Paulo; Kátia Abreu é a principal liderança contra a reforma agrária no país e os Borhausen, bem, dispensam comentários. Ou seja, quando se pensa que a coisa vai melhorar, é aí que piora tudo mesmo

….27 anos depois: o que podemos aprender com as Diretas?….

Transigir em princípios pode significar vitórias vazias; fugir do “povão” é um suicídio político; esquecer atrocidades é o primeiro passo para repeti-las

by Marcelo Semer.

Eu não tinha mais do que dezoito anos, mas vivi aquela experiência como se de alguma forma estivesse no comando do destino. Em jogo, nada menos do que o futuro do Brasil.

Faz vinte e sete anos que o país deixou para trás uma das mais interessantes experiências de cidadania: a campanha das Diretas-Já.

Estudantes, sindicalistas, profissionais liberais. Jovens e aposentados. Pais de família com seus filhos.

Não me lembro de outro momento em que tantas pessoas e tantos interesses distintos estivessem tão convergentes em um mesmo sentido.

E o resultado final não podia ter sido mais desastroso.

O regime militar se preparava para cair de maduro. Mesmo assim, e ainda que com o impacto de milhões de pessoas em passeatas pelas ruas brasileiras, sobreviveu se arrastando por mais um longo ano para nossa angústia.

Ao morrer, ainda nos cobrou um preço caro demais: um pacto com os diabos que abandonavam o barco mais cedo, em busca de oportunidades na nova era.

E não é que boa parte, ou quase todos, dos que deram suporte à ditadura, apoiando o golpe e depois dele, a censura, e depois dela as torturas, conseguiram passar quase despercebidos quando vieram a defender a democracia em altos brados?

Em abril de 1984, o país se mobilizava para uma solução muito menos drástica do que as valentes revoltas da primavera árabe. Os brasileiros queriam apenas mostrar ao Congresso que depois de vinte anos de ditadura tinham o direito de eleger seu presidente.

Ninguém saiu às ruas para derrubar o poder. Mas o poder tratou a questão como um verdadeiro desacato. E os amigos do poder também.

Enquanto as massas cobriam as avenidas com camisetas amarelas, a TV Globo minimizou o quanto pôde o movimento, com uma cobertura pra lá de discreta, encobrindo inúmeras manifestações. Não adiantou. Mesmo sem twitter e facebook, e fora do Jornal Nacional, a onda se alastrou pelo país.

O governo militar, daquele presidente que pediu para ser esquecido, se preparou com uma operação de guerra para enfrentar uma simples votação no Congresso.

Fechou aeroportos, decretou censura nas transmissões geradas em Brasília, proibiu marchas e manifestações, impediu gravação de imagens e sons do plenário e silenciou telefones de gabinetes dos parlamentares.

O fim da história é conhecido, mas ao mesmo tempo revelador. A emenda das diretas não passou. A eleição aconteceu no colégio eleitoral, onde foi gestada uma aliança que deu vitória a Tancredo Neves.

Ironia das ironias, de um destino injustamente cruel, a Nova República acabaria por levar ao poder ninguém menos do que José Sarney, presidente do partido de sustentação do governo militar, embaralhando todas as cartas de novo.

Quem desembarcou diretamente da ditadura para pouco mais de quinze dias de oposição, montou um partido novinho em folha, que veio a se chamar PFL, e logo estava de volta ao poder.

Quatro anos depois da derrota na campanha das Diretas, tivemos uma nova Constituição e apenas no ano seguinte, a eleição para presidente.

Mas a fratura que representou a derrota das diretas e a conciliação dos políticos pelo alto, desprezando os milhões que foram às ruas, jamais foi consertada.

A ideia de que as alianças são todas suportáveis, desde que permitam se atingir o poder, violentou o espírito dos partidos, que continuam a se reproduzir sem muita ideologia.

O silêncio sobre os bárbaros crimes da ditadura representaram um inaceitável tributo ao servilismo.

O afastamento das novas gerações da política foi uma herança direta do desprezo que os políticos tiveram para com o povo. Ficou a impressão de que estavam lutando para chegar ao poder e não nos levar com eles.

E uma democracia sem povo permite aprofundar vícios como o patrimonialismo, diante da autoproteção entre partidos e poderes. Exemplo típico das super-aposentadorias para governadores de diferentes siglas que vigeram por longo tempo sem qualquer contestação. E a manutenção indevida do foro privilegiado, que interessa a todos, menos aos eleitores.

De outra parte, o silêncio com as torturas do regime militar alimentam a ideia de que em certa medida e, sob determinadas circunstâncias, a violência de Estado pode ser admissível, mesmo fora da lei. O que não serve senão para diminuir o sentido da própria lei.

A esponja no passado infelizmente suja também o futuro, como se constata com a persistência da violência policial.

Não temos tempo nem espaço para uma nova campanha das Diretas.

É passado e só nos resta lembrar neste abril, como nos próximos que virão.

Quem sabe, pelo menos, não deixar de aprender com os erros: transigir em princípios pode significar vitórias vazias; fugir do “povão” é um suicídio político; esquecer atrocidades é o primeiro passo para repeti-las.

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