A Estranha Convergência entre Yoani Sánchez e o PSTU

A polêmica passagem da turnê mundial de Yoani Sánchez pelo Brasil tem suscitado inúmeros protestos por onde passa e também inúmeras críticas a estes mesmos protestos, a maior parte delas advindas da Direita e do oligopólio midiático, que cinicamente defendem liberdades democráticas em Cuba, quando sempre foram e ainda são defensores de ditaduras capitalistas no mundo inteiro, inclusive no Brasil. Porém, uma pequena parte da esquerda também resolveu somar-se às críticas aos protestos. É sobre estas últimas críticas que pretendo dialogar.

No artigo publicado no sítio do PSTU: “Quem tem medo de Yoani Sánchez?” (http://www.pstu.org.br/internacional_materia.asp?id=14941&ida=20) é defendido que as críticas feitas pela blogueira ao regime cubano são corretas e que os protestos contra ela são a expressão de uma esquerda estalinista que se utilizaria dos métodos de calúnia e difamação para abafar qualquer tipo de oposição às suas ideias.

Uma análise equivocada

Para o PSTU, Yoani Sánchez assume posições corretas ao colocar-se na oposição ao regime cubano. Para chegar a esta posição, o PSTU parte da análise de que o regime cubano é hoje uma ditadura capitalista que reprime os trabalhadores e todo tipo de oposição que se coloca contra ela. Neste sentido, o estabelecimento de um regime democrático-burguês em Cuba, como defende Yoani Sánchez, seria progressista, já que garantiria aos trabalhadores liberdades mínimas para se organizar e lutar. É neste ponto que as posições de Yoani Sánchez e de seus aliados imperialistas coincidem com as do PSTU. É isso o que está exposto no artigo quando coloca que Yoani está correta ao reivindicar democracia em seu país. No próprio artigo mais adiante é explicitado que esta democracia é a democracia burguesa.

O PSTU embasa suas posições sobre Cuba na análise de que os 3 pilares que caracterizariam um estado operário haveriam se rompido: o monopólio do comércio exterior; a propriedade estatal; e o planejamento econômico pelo Estado.

Esta análise desconsidera o fato de, apesar da flexibilização, a maior parte do comércio exterior continua sendo realizada pelo estado, desconsidera que apesar de haver propriedade privada, a propriedade estatal permanece hegemônica e que o planejamento estatal da economia segue em vários aspectos.

Para tentar comprovar esta análise, o PSTU defende que os males capitalistas teriam retornado à ilha, junto com a restauração do capitalismo. Não leva em consideração que a maior parte das conquistas sociais da revolução cubana permanecem intocáveis como: sistemas de Educação e Saúde universais, gratuitos e de qualidade; e acesso universal à cultura e esporte.O que o PSTU não consegue explicar é: como um país pobre, isolado economicamente do mundo consegue conciliar tamanhas conquistas sociais com a restauração do capitalismo? Talvez a “burguesia cubana” tenha descoberto a fórmula mágica que nem as principais potências capitalistas, em crise atualmente, estão conseguindo descobrir.

Cuba ainda é socialista?

É inegável que nos últimos anos foram feitas concessões capitalistas em Cuba, tais concessões ajudaram a dinamizar a economia cubana após ter chegado perto do colapso na década de 90. È inegável também que a existência de tais concessões representam em certo grau uma ameaça à revolução cubana. Mas daí a extrair a conclusão de que elas representam a prova da restauração do capitalismo cubano já é um salto imenso. È preciso ter em consideração que estamos falando de uma pequena ilha do Caribe, um país praticamente agrário, que sofre há décadas com o embargo econômico dos EUA.

È preciso lembrar também que na Rússia, com a aplicação da NEP(Nova Política Econômica), estima-se que a propriedade privada tenha ocupado cerca de 40% dos meios de produção. Apesar disso, ninguém ousa afirmar que a NEP tenha sido uma política de restauração capitalista, mas é vista pela esquerda mundial como concessões capitalistas necessárias para salvar o estado operário. E mesmo após a NEP, Trotsky, por exemplo, admite que a existência de elementos capitalistas não descaracterizaria a União Soviética enquanto estado operário e, portanto, sua defesa política era uma obrigação dos socialistas:

Devido ao nível ainda baixo das forças produtivas e ao entorno capitalista, as classes e as contradições de classe, mais ou menos agudas, continuarão existindo na URSS durante um lapso indefinido, pelo menos até a vitória total do proletariado nos países capitalistas importantes.” OEstado Operário, Termidor e Bonapartismo (1935).

Toda esta polêmica está centrada na análise do caráter de classe do estado cubano. O PSTU considera que o processo de restauração capitalista em Cuba se concluiu. Logo, o regime cubano seria uma ditadura capitalista e, por consequência, a troca deste regime por uma democracia burguesa, assim como defende Yoani Sánchez, seria um avanço.
No entanto, a preservação da maioria das conquistas sociais da revolução cubana, mesmo sob o permanente ataque econômico do imperialismo contra o país não deixam dúvidas que Cuba continua um país socialista.
Há uma polêmica sobre se as concessões capitalistas feitas em Cuba nos últimos anos seriam concessões transitórias e necessárias ou o início de um processo de restauração capitalista. Mas ainda que optemos pela segunda opinião, é necessário diferenciar um processo em curso de um processo acabado. Um país em processo de restauração do capitalismo é muito diferente de um país capitalista. O próprio Trotsky fazia muito bem essa diferenciação ao descrever a União Soviética, sob o governo de Stálin, como um estado operário degenerado, mas ainda assim um estado operário, cuja defesa política contra seus opositores capitalistas, fazia-se necessária.

Estranha solidariedade

Yoani Sánchez é a principal representante da pequena oposição de direita em Cuba, símbolo internacional da luta dos gusanos(cubanos exilados) pela recuperação de suas propriedades privadas. No entanto o PSTU a apresenta como uma simples blogueira crítica ao regime cubano e menospreza as relações dela com o imperialismo, ao classificar como “suposições” as acusações de que ela recebe financiamento de órgãos estrangeiros e suas relações com a CIA, demonstradas nos documentos vazados pelo Wikileaks. Toda esta condescendência com que trata Yoani beira a uma solidariedade dissimulada.

Esta mesma condescendência no entanto, não é demonstrada nas fortes críticas que faz ao regime cubano ou aos manifestantes brasileiros que se mobilizaram para repudiar a presença de Yoani no Brasil. O PSTU defende com veemência o direito dela expressar suas ideias, mas censura o direito de manifestação contra ela.

O artigo faz uma série de críticas ao regime cubano e aos seus apoiadores no Brasil e praticamente nada diz do bloqueio econômico contra Cuba ou da invasão permanente ao território cubano em Guantânamo. Apresenta Yoani como uma vítima da “ditadura castrista”, sem contextualizar que ela é utilizada(e se faz utilizar) como parte da estratégia imperialista de desestabilização do estado operário cubano.

E ao final coroa com “Já é hora de a esquerda identificada com o castrismo desfazer-se de seu arsenal de calúnias e acusações estalinistas”. Neste trecho, a solidariedade antes dissimulada torna-se explícita. Ora, quais são as calúnias apresentadas contra ela que o PSTU repudia?

É legítimo que o PSTU faça críticas ao regime cubano, legítimo que se coloque como oposição de esquerda a este regime. Inaceitável é, para um partido socialista, fazer isto contemporizando com o imperialismo e seus aliados, formando “frente única” com os mesmos.

Anderson Santos

Historiador e militante da Esquerda Popular Socialista – Tendência Interna do Partido dos Trabalhadores

Anúncios

Uma resposta

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: