Foco na austeridade é suicídio europeu, diz Felipe González

Por Assis Moreira | De MadriValor Econômico – 28/11/2012

Felipe González não esconde a inquietação com o aprofundamento da crise na Europa. Chefe do governo espanhol em quatro mandatos consecutivos (1982 a 1996), ele compara o persistente enfoque na austeridade e o equívoco de diagnóstico da crise na zona do euro a um “”suicídio voluntário””, aquele em que o suicida está plenamente consciente do que faz. Utiliza a Espanha como exemplo do que fracassou no modelo europeu. Critica seu próprio campo, a social-democracia, por estar perdendo uma grande oportunidade ao só ter propostas defensivas na crise. Reconhece a perda de influencia europeia em paralelo à ascensão de economias emergentes. Ao seu ver, nos próximos 25 anos os europeus vão se concentrar em pagar dívidas, e os emergentes a comprar o que quiserem.

González teve papel dominante na política da Espanha democrática e na sua integração à Europa comunitária. Foi protagonista, com o francês François Mitterrand e o alemão Helmut Kohl, do Tratado de Maastricht, em que se acertou a criação da moeda única europeia, o euro, e se mudou tratados fundamentais da União Europeia, que deram mais impulso político ao bloco. Em recente relatório do grupo formado pela UE conhecido como Comitê de Sábios, que ele presidiu, González propôs medidas radicais para uma refundação da Europa. Ele recebeu o Valor em seu apartamento, em Madri. Abaixo, os principais trechos da entrevista:

Valor: A Europa continua inoperante frente à crise. Como sair dessa situação?

Felipe González: Há duas falhas. Primeiro, a falha de estratégia frente à explosão do sistema financeiro internacional e sua consequência na Europa. Segundo, uma falha estrutural, do modelo de união monetária sem união econômica, fiscal e bancária. A Europa é fortemente influenciada pela Alemanha, o único país com equilíbrios macroeconômicos favoráveis e o único exportador de capital que resta no mundo ocidental, incluindo aí os Estados Unidos.

A Europa foca a luta contra a crise cometendo um gravíssimo erro que vem do pensamento equivocado de que a crise era, primeiro, americana, conjuntural, e seria superada rapidamente. O enfoque considera que a crise da dívida é uma crise de solvência, em lugar de crise de liquidez, de corte brutal de crédito. Isso está provocando uma dinâmica de insolvência de um ou outro país. Enfrenta-se o problema sob a base da austeridade em duas dimensões: cortar o gasto público para reduzir o déficit e a dívida, e aumentar as receitas pressionando os impostos, cortando crédito para a economia privada. Renuncia-se a qualquer impulso neokeynesiano para alimentar a demanda. É verdade que há países sem margem para fazer esse impulso, mas a Alemanha tem, o Banco Europeu de Investimentos (BEI) tem. O único instrumento que resta, e foi o que fizeram os EUA, é a política monetária. A Europa faz uma política monetária fundamentalmente pró-cíclica, não pela taxa de juro, que é reduzida, e sim pelo controle da liquidez. Como se produziu choque assimétrico [entre países da zona do euro] ao implodir o sistema financeiro, a situação de países que passaram de contas públicas sadias e contas privadas muito endividadas para contas públicas que galopam no déficit e da dívida é uma situação recessiva permanente. Não só não há política de gastos, como tampouco há política monetária que permita ao menos ao aparato produtivo manter a liquidez e que sua atividade não caia.

Valor: E isso aprofunda a crise…

González: Exato. Estamos num circulo vicioso recessivo acompanhado por políticas monetárias restritivas e proibição absoluta de políticas de gastos. Os EUA fazem o contrário. A única maneira de ter política de gasto é dispor de linhas de crédito para projetos de infra-estrutura etc. Agora a Comissão Europeia discute o orçamento europeu plurianual 2014/2020, que significa 1% do PIB europeu, e tem tudo para alimentar o ciclo restritivo. Não há nenhuma indicação anticíclica, nem para o drama do desemprego que vivem países como a Espanha. Confundem uma crise de dívida, que existe, com uma crise de solvência, que não existe, porque com US$ 35 mil per capita a solvência para recuperar a capacidade de pagamento não pode ou não deve ser questionada. Com renda per capita de US$ 10 mil, haveria algum problema, mas com US$ 35 mil, o que é isso? É um suicídio voluntário.

Valor: Mas parte dos males europeus não vem de longe?

González: Esse é o ponto dois. Eu fui um dos que assinaram o tratado de união econômica e monetária. Nunca concebemos uma união monetária sem união econômica. Em 1998, decidiu-se colocar em marcha a mudança das moedas para chegar à moeda única, em três anos de adaptação. Mas se decidiu então fazer união monetária sem união econômica e fiscal, e com um banco europeu que não é banco de último recurso, cujo único objetivo é controlar a inflação. Mas o BCE [Banco Central Europeu] também tem como objetivo a defesa da estabilidade do euro. No entanto, o euro de Berlim não é o euro de Alicante e já nem falo do euro de Atenas. É a mesma moeda, mas não significa o mesmo em todo lugar, porque não há uma política econômico-fiscal de convergência. Os choques assimétricos [entre países] estão destroçando a possibilidade de avançar na estabilidade do euro, inclusive questionando a moeda única, porque o modelo não é coerente. A Europa reage fazendo pouco e tarde.

Valor: E mais caro.

González: Exato. A Grécia talvez pudesse ter custado € 30 bilhões em março de 2010, agora com € 200 bilhões não resolve o seu problema. A Europa comete um erro ao lidar com a crise, em relação aos EUA, que a enfrentam de outra maneira. A Europa tem um problema estrutural que precisa resolver. Para isso tem que haver vontade política de união, mas o que vemos é crescente egoísmo nacional.

“Os social democratas estão perdendo uma grande oportunidade, em parte porque suas propostas são defensivas.”

Valor: Nesse contexto, todas as opções estão abertas para o euro?

González: Tenho sido um responsável político com consciência histórica. Não creio que o euro vai desaparecer. A catástrofe seria geral. Mas, se em dois anos desapareceu o império soviético e a Europa fez duas guerras mundiais no Século XX, tampouco posso excluir que o euro desapareça. Os instintos suicidas da política são coisa muito séria e se repetem historicamente. Se alguém é capaz de raciocinar o custo do não euro, primeiro para o país mais potente economicamente da Europa, que é a Alemanha, a resposta seria clara de que o euro deveria se manter e deveríamos corrigir os defeitos estruturais. Mas quem disse que a política tem a ver com racionalidade e com pragmatismo? Quantas vezes não vimos uma catástrofe por falha da compreensão da realidade…

Valor: Como a Espanha afundou tanto?

González: O caso da Espanha ilustra as falhas do modelo [europeu], porque cumprindo a condição necessária do pacto de estabilidade não se cumpria a condição suficiente da convergência das políticas econômica e fiscal. Ao mesmo tempo que tinha contas públicas fantásticas, a Espanha tinha déficit comercial de 10% da balança comercial e equivalente na balança de pagamentos. O país dependia para seu crescimento da poupança externa, que era dirigida ao consumo interno não produtivo. Isso era insustentável e nos fazia perder competitividade. Mas os bancos alemães e franceses viam uma oportunidade extraordinária de negócios. Todo mundo estava feliz com crescimento de quase 4% e sensação enorme de riqueza, embora isso fosse virtual e as dívidas que se acumulavam fossem bem reais, como estamos vendo agora. Os nórdicos fizeram reformas, os alemães frearam o crescimento dos salários e do consumo, ganharam competitividade e não perderam emprego na crise. Precisávamos de um BC que dissesse que deveríamos pagar juros mais altos para frear aquela loucura. Mas não havia política monetária para aquela divergência das políticas econômicas da zona do euro. E agora não há política monetária para as divergências de que estamos padecendo, porque se passa exatamente o mesmo, ao revés. A Alemanha paga taxa de juro negativo para se financiar, enquanto a Espanha, com inflação controlada e economia parada, está pagando 6%, o que é insustentável.

Valor: Até quando a Europa pode suportar essa situação?

González: A Europa tem três caminhos. O pior, que é retroceder, voltar às moedas nacionais. Aí ficamos como o Reino Unido, o que facilita o financiamento da dívida com taxa de juro negativo, mas os problemas estruturais não se resolvem. Esse retrocesso arrastaria o mercado interno sem fronteiras. Não se pode ter um espaço interno compartilhado de 17 ou 27 países sem fronteira, com livre circulação de capital, mercadorias, fazendo implodir a moeda única e causando desvalorizações. Quanto a Grécia teria de desvalorizar? Uns 80%. A Espanha, uns 30 a 40%. No momento em que se produzem desvalorizações inevitavelmente competitivas, deve-se impor barreiras internas. Na Europa, o retrocesso não é que cada um recupera a sua moeda, e sim que todo o espaço europeu comum ficará sem sinergia e potencialidades. As transações dentro da união são 70% das relações comerciais de cada país.

“[Na Europa] confundem uma crise de dívida, que existe, com uma crise de solvência, que não existe.”

Valor: E esse cenário o sr. exclui?

González: Sim. O caminho numero dois é aceitar que o modelo é incoerente e, preservando os avanços da construção europeia, aceitar dar um passo a mais para a federalização das políticas econômica, fiscal e bancária. A cúpula de chefes de Estado e de governo de junho deste ano tomou decisões na direção necessária, mas nenhuma delas não foi implementada e estão cada vez mais atrasadas. A mais fácil de todas seria a união bancária. Mas vai-se aplicá-la em janeiro de 2013? Não. Não vai acontecer nada pelo menos até que passe a eleição na Alemanha. E como há eleição em todos os países, sempre há isso. A terceira opção é arrastar-se pela lama e ficar uma década na crise.

Valor: Sobre a Espanha, o sr. parece especialmente enfadado em relação ao governo Rajoy, não?

González: O governo [de Mariano Rajoy] completa um ano fazendo o contrário do que tinha dito que faria. Quer nos fazer crer que ele foi obrigado a fazer isso. Não posso aceitá-lo, porque me parece fundamentalismo. Diz que é a única coisa que pode fazer…

Valor: Rajoy diz que não há varinha mágica.

González: Sei que não há varinha mágica. O que não aceito é que só haja uma política. Não é verdade. O governo [de José Luis Rodríguez] Zapatero, de meu partido, cometeu erros. E alguns foram sérios, como não prever os problemas estruturais da economia espanhola, que vinham do governo anterior, e não corrigi-los, e nem avaliar a crise na dimensão que tinha. O governo atual diz que não sabia a crise que enfrentava. É grave se não sabia mesmo ou se não diz a verdade. O certo é que, um ano após a saída do governo socialista, os indicadores estão piores. O problema não é em quanto cortam os gastos sociais, mas em quanto estão dispostos a romper o modelo. É a mudança do modelo que me preocupa.

Valor: Só na Espanha ou Portugal o modelo social se rompe?

González: A Europa chegou a uma conclusão equivocada, embora haja países que têm êxito, como os nórdicos, que aumentaram a competitividade e melhoraram, não pioraram, a coesão social. Melhorar não quer dizer aumentar gastos, e sim aumentar a responsabilidade dos cidadãos frente a essa política de coesão social. É o que se chama de eliminar abusos. Mas a ideologia dominante na Europa, entre aspas, é que se queremos recuperar a competitividade deve-se desmontar o modelo de bem-estar social. É o contrário das aspirações do Brasil e da China. Há um paradoxo para um social-democrata. A Europa do pós-guerra se identifica com um modelo de políticas keynesianas, com crescimento, pleno emprego, vantagens e construção das bases de bem-estar, como educação, aposentadoria, saúde. A partir dos anos 80, começa a crescer algo que não havia aflorado, porque ninguém tinha contestado o modelo, com [Margaret] Thatcher e [Ronald] Reagan adotando política alternativa neoliberal, de oferta, flexibilidade sem limite etc. E isso por dois fatores: a liquidação da política de blocos e o impacto da revolução tecnológica.

O mundo muda muito rapidamente. O modelo de globalização tem tendência inexorável de criar mais desigualdade na redistribuição da renda, compatível com menos pobreza, mas a distância da renda entre os que menos têm e os que mais têm é maior. O modelo neoliberal faz com que pessoas como [Bill] Clinton acreditem que a desigualdade criada pelo modelo da globalização pode ser compensada não por políticas sociais diretas, mas por crédito abundante, para que a gente tenha a sensação da riqueza. Essa filosofia da desregulação no funcionamento da mão invisível do mercado, onde se aplicou ao máximo o funcionamento do sistema financeiro global, foi criando uma imensa bolha financeira, supostamente autorregulada, que arrebentou entre 2007 e 2008. Isso poderia significar o fim da hegemonia neoconservadora na economia mundial, por seu próprio fracasso. Haveria, ao menos teoricamente, oportunidade para os que defendem políticas mais próximas da social-democracia. Mas não é assim.

Valor: Ou seja, a social-democracia fracassa na crise?.

González: Sim. A social-democracia está perdendo uma grande oportunidade, em parte porque suas propostas são defensivas. [François] Hollande ganhou [na França] porque disse que não estava disposto a desmontar o Estado de bem-estar. Mas não oferece um modelo produtivo competitivo, sustentável, para manter a coesão social. E as pessoas estão fartas [de promessas] que depois não podem se sustentar porque a economia não é competitiva. A resposta da social-democracia não é a resposta para a mudança que se produziu na economia mundial. A esperança de resposta ofensiva é a de Dilma [Rousseff], [Luiz Inácio] Lula [da Silva], dos países emergentes, com políticas econômicas que garantem geração de emprego e lutam contra a marginalização social, mas com manejo da política macroeconômica que não tem cor política, que é pragmático. Mas, atenção, que não caiam na tentação das utopias regressivas.

Valor: Aqui em Madri, Dilma Rousseff insistiu que todo governo tem de ser pragmático.

González: Na America Latina dos anos 80 e no sul da Europa, [observei que] um socialista pragmático era considerado um insulto, e no norte anglo-saxão era um elogio. Qual tem sido o grande problema da esquerda mais latina, à qual pertencemos? É que a esquerda tem um grande prazer histórico em inventar o futuro para que a direita governe o presente. Eu tomei a decisão de inventar o futuro governando o presente, e isso obriga a ser pragmático.

Valor: O que a social-democracia deveria propor?

González: Há alguns pecados mortais históricos que devem deixar de sê-los. A única maneira de ter crescente produtividade por hora de trabalho é ligar a retribuição em parte à produtividade. Se os social-democratas dizem com clareza que, para recuperarmos posição razoável na economia global, não temos espaço para competir com salários baratos e temos que competir com excelência, inovação e produtividade, temos que ligar a retribuição a isso. É a única alternativa de esquerda que vejo. A economia tem que agregar valor, crescer, gerar excedente para tirar a gente da pobreza.

Valor: Até que ponto a geopolítica continuará mudando?

González: O êxito do mundo ocidental desenvolvido foi pôr em marcha uma revolução tecnológica, sobretudo da informação. Discuti isso com [Mikhail ] Gorbatchov e isso foi em parte o que acelerou a destruição do império soviético. Tinha um complexo industrial-militar, chegou antes à Lua, mas, por ordem da gerontocracia, menosprezou a tecnologia da informação que começou a ser desenvolvida no Cern, na Suíça, e em laboratórios americanos. Isso marca a diferença que se vai produzir no mundo. A tecnologia da informação que se cria por meio da rede é horizontal e se universaliza, não é a propriedade exclusiva dos que tinham a manufatura e impunham o preço da manufatura e das matérias-primas e que exasperavam os países em desenvolvimento.

O curioso é que o mundo ocidental desenvolvido gera uma revolução tecnológica que muda a relação de poder e de força no mundo do ponto de vista econômico e político. Isso é irreversível. As matérias-primas vão depender muito menos da produção na Europa e nos EUA. O que se passa com a Europa? A população envelhece, não fazemos as reformas estruturais, a participação no PIB mundial é cada vez menor. O processo de perda de relevância é enorme. Quando digo isso, colegas europeus se irritam. Mas, se não reagimos a essa nova realidade, estamos mortos. Há uma transferência brutal de poder econômico. Nos últimos 25 anos, o mundo desenvolvido aumentou a dívida publica e privada que vai ter de pagar nos próximos 25 anos. E os países emergentes, em seu novo papel, vão poder comprar o que quiserem nos próximos 25 anos. O que vamos ter de vender para pagar…

Valor: É uma virada irreversível?

González: Sim. E há gravíssimos problemas de como reordenar essa nova ordem internacional. As variáveis estratégicas que vamos enfrentar no futuro são três: como repartir a energia, que será um bem relativamente escasso e muito disputado pelos que têm de crescer. Segundo, a revolução tecnológica para diversificar de verdade as economias que estão vivendo felizes pelo crescimento do preço das matérias-primas. E, terceiro, o agroalimentar, pela mesma razão. A China, com suas terras cultiváveis disponíveis na máxima pressão produtiva, alimentaria 40% de sua população. Quer dizer que 60% têm ser trazidos de fora. Dessas três variáveis depende o desenvolvimento, o equilíbrio da nova ordem internacional, incluindo as tensões e os conflitos.

Valor: Quando o Brasil será uma potência relevante?

González: O Brasil já é. Tem um aparato produtivo diversificado e, se apostar no capital humano de verdade, dentro de 20 anos será uma potência indiscutível. É relevante fora não só pela sua dimensão, como também pelo êxito interno. Não há política exterior quando há fracasso interno. A relevância da Espanha como interlocutor da America latina não é a mesma de 15 anos atrás. Se o Brasil retrocede, sua relevância retrocede. O Brasil tem um bônus demográfico enorme. Como incorporar capital humano e novas tecnologias é o que decidirá o futuro do Brasil, do México.

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