Irmandade Muçulmana reivindica vitória eleitoral e existe possibilidade de nova revolução no Egito

 

Mohammed Morsi, candidato da Irmandade Muçulmana, teria vencido a presidencial de domingo 17 com 52% dos votos, segundo a equipe de sua campanha.

Manifestantes protestam na Praça Tahir contra conselho militar ©AFP / Patrick Baz

O ex-premier do ditador Hosni Mubarak e candidato Mohammed Morsi, candidato da Irmandade Muçulmana, teria vencido a presidencial de domingo 17 com 52% dos votos, segundo a equipe de sua campanha. Ahmad Shafiq, O ex-premier do ditador Hosni Mubarak e candidato preferido dos militares, contesta ter obtido apenas 48% dos votos. O debate, o enésimo nessa transição “democrática” de 16 meses sob o jugo de uma junta militar, continuará até quinta-feira 21, quando o Colégio Eleitoral divulgará o resultado oficial do escrutínio.

O mais provável é que o povo volte para a Praça Tahrir, no centro de Cairo, local onde começaram as manifestações de janeiro e fevereiro de 2011 e assim derrubaram Mubarak, então há 30 anos no poder. Observados pelos militares, militantes continuam acampados na praça, mesmo que, por ora, estes últimos se comportem de forma pacífica.

A própria eleição presidencial, no sábado e domingo, foi eclipsada pela decisão a Alta Corte Constitucional, na quinta-feira, de dissolver a Câmara dos Deputados, cuja maioria era composta de integrantes do Partido Liberdade e Justiça (PLJ), braço político da Irmandade Muçulmana, ou por salafitas (islâmicos radicais). O motivo? Segundo a Alta Corte, formada por relíquias da era Mubarak, houve vício jurídico no processo de votação nas legislativas realizadas em diversas etapas entre novembro de 2011 e janeiro deste ano. Aquelas, diga-se, foram as primeiras eleições livres no Egito.

Por que somente às vésperas da presidencial a Alta Corte Constitucional encontrou falhas no processo eleitoral culminado em janeiro?

No domingo, dia eleitoral, o Conselho Supremo das Forças Armadas (CSFA), liderado pelo marechal Hussein Tantawi, anunciou que o poder legislativo está, como o resto do país, nas mãos do Exército até as próximas legislativas. Tantawi avisou ainda que o novo processo eleitoral só ocorrerá após a adoção de uma Constituição por referendo.

 
Soldados acompanham votação no Egito ©AFP / Marwan Naamani

Desde o término da ditadura, vale recapitular, o país é governado pelo Conselho Supremo das Forças Armadas (CSFA). Tantawi é detestado, o que é compreensível, pelos militantes da Praça Tahrir.

A nova Carta será redigida por uma “comissão constitucional que represente todos os setores da sociedade”, estabeleceu o CSFA. Detalhe: o CSFA se concede o direito de vetar qualquer artigo que avalie “contrário aos interesses supremos do país”.

Em miúdos, os militares agora poderão inviabilizar a comissão constitucional eleita na semana passada pelo Parlamento – uma vez que a Câmara dos Deputados foi dissolvida. Por tabela, a comissão muito provavelmente não será representada por “todos os setores da sociedade”, como diz Tantawi.

O objetivo dos militares parece óbvio: manter longe da comissão os islâmicos, moderados ou radicais. E, claro, fundamental para os ex-integrantes do grupo de Mubarak é manter uma ditadura.

Esse bando de espertalhões fingiu ser favorável a uma transição rumo à democracia. Mas o CSFA (leia Exército) quer manter seus privilégios financeiros, econômicos, sociais e políticos.

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O CSFA é composto por autocratas com elos nos complexos industriais e agrícolas. Vivem em mansões e frequentam os mesmos clubes. E sejamos objetivos, como o CSFA pode validar como candidato Ahmad Shafiq, ex-chefe do Estado Maior e último premier de Mubarak? E como podem, os militares, dissolver um parlamento eleito pelo povo?

Há anos, o Partido Liberdade e Justiça (PLJ) tem se revelado uma legenda moderada. Além de ser pró-mercado, o PLJ, defende os direitos das mulheres e minorias.

Por sua vez, os liberais participaram das manifestações na Praça Tahrir. E depois vacilaram: votar em Shafiq, o candidato secular que promete estabilidade num contexto ditatorial, ou em Morsi, o islamita radical? Eis a questão.

Essa significativa fatia da população não soube entender que o PLJ mudou. Se tivessem votado em massa no PLJ, e se os atuais percentuais de votos na presidencial estão corretos, a vitória de Morsi sobre Shafiq teria sido esmagadora.

Agora os militares poderão colocar Shafiq na Presidência. E poderão redigir uma Constituição favorável ao Exército. Mais o Parlamento será, é provável, dominado pelos laicos a favor da ditadura militar.

Existe, porém, a possibilidade de uma nova revolução.

Com informações da AFP.

Leia mais em AFP Movel.

 

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