A terceira e última morte de um comandante

Hoje em dia, pouca gente sabe, na nossa América, o que foi a Revolução Sandinista. Pois foi a última vez que senti que faltava pouco, quase nada, para que tocássemos o céu com as mãos. E naquele tempo, em que sonho e a realidade quase se tocavam, Tomás Borge era o mais querido dos comandantes revolucionários. Quando me dói constatar que quase ninguém lembra do que foi a Revolução Sandinista, me chega a notícia de que chegou sua terceira – e derradeira – morte. O artigo é de Eric Nepomuceno.

Eric Nepomuceno

Agora, não lembro se foi em outubro ou novembro de 1979. Mas lembro, com certeza e claridade, como foi apertar pela primeira vez a sua mão.

Foi no aeroporto de Manágua. Lá estavam os comandantes sandinistas – todos guerrilheiros – e, entre eles o escritor Sergio Ramírez, o único civil e o único que eu conhecia. Entre os guerrilheiros, havia o último sobrevivente dos fundadores da Frente Sandinista de Libertação Nacional, em 1965: o comandante Tomás Borge.

Lembro do que aconteceu no dia seguinte: foi identificado, entre dezenas de torturadores presos, aquele que tinha sido seu carrasco, que havia destroçado Tomás na tortura, que tinha matado sua companheira.

Vitoriosa a revolução, Tomás era o ministro de Interior. Era quem controlava e comandava os serviços policiais, os serviços de inteligência e contrainteligência, os comitês de defesa. Era o homem que tinha o poder que quisesse ter.

Pois assim que soube que haviam identificado, entre os presos, o seu algoz, o homem que o havia reduzido a um feixe de ossos e pele de 43 quilos de peso e olhar embaçado, o que havia massacrado sua companheira, pois assim que soube que entre os presos esse fulano havia sido identificado, Tomás largou tudo e correu para o quartel onde ele estava preso. Chegando lá, se apressou a dizer o seguinte: ‘Ninguém toca nele. Ninguém faz nada com ele. Ele vai ter o que me negou: um julgamento justo, com direito a defesa. Ele vai ter a vida inteira para se arrepender’.

Isso, ninguém me contou: eu vi. Eu estava lá.

Anos mais tarde, soube como Tomás havia sido massacrado. E entendi que naqueles anos de prisão, ele havia superado sua primeira morte.

Levou algum tempo, é verdade, para que nos fizéssemos amigos. Tomás, além do mais popular, era o mais propício, entre os líderes guerrilheiros, a abrir espaço para opiniões de fora. Lembro que frequentavam sua casa muitas figuras de proa das artes e da cultura de nossos países. Lembro do afeto sincero, sem tréguas e sem fronteiras, que Julio Cortázar dedicava a ele.

Era o dirigente sandinista mais amado pelos nicaraguenses, e por sua casa passavam sonhadores incondicionais, como Cortázar, como eu. E também os céticos incondicionais, como Mario Vargas Llosa. Pela sua casa passavam todos, passava de tudo.

Agora que penso nisso, agora que lembro disso, me dou conta que, hoje em dia, pouca gente sabe, na nossa América, o que foi a Revolução Sandinista. Pois foi a última vez que senti que faltava pouco, quase nada, para que tocássemos o céu com as mãos.

E naquele tempo, em que sonho e a realidade quase se tocavam, Tomás era o mais querido dos comandantes revolucionários. Ele vinha do breu. Havia sobrevivido à sua primeira morte. Era um claro sobrevivente.

E aí veio a derrocada. Em 1990, a Nicarágua – depois de anos de guerra civil, do acosso inclemente dos Estados Unidos, de sabotagens de todo e qualquer tipo – realizou eleições. Os sandinistas perderam.

Apeados do poder, os sandinistas repartiram, entre si, os bens que a revolução havia expropriado. Aconteceu a ‘piñata’.

A ‘piñata’ costuma acontecer em aniversários de crianças: um pote de barro, recheado de guloseimas, é posto a balançar numa corda, e as crianças dão no pote com um pedaço de pau. Quando o pote arrebenta, é um cada um por si: todos saem agarrando o que conseguirem.

A Revolução Sandinista acabou assim. Derrotados nas urnas, seus protagonistas trataram de agarrar o máximo que puderam .

Alguns – penso em meu amigo, o escritor Sérgio Ramírez, penso em meu amigo, o padre e poeta Ernesto Cardenal – saíram sem nada. Outros, saíram com um montão.

Tomás Borge saiu com um montão. Meu amigo, meu hospedeiro, o homem para quem cumpri missões complicadas e delicadas, mudou muito, depois da derrocada dos sandinistas, em 1990. Passou a ser outro. Foi sua segunda morte.

Havia escapado da primeira, do massacre na prisão. Escapou da segunda – a morte moral. Depois da ‘piñata’ nos vimos poucas vezes. Não havia muito de que falar.

Ele sabia, e eu sabia que ele sabia que eu sabia, que havia uma história por trás de tudo que víamos e vivíamos. Ele sabia, e eu sabia que ele sabia, que eu tinha ficado com aquele outro Tomás – o de antes, o do sonho, o da busca incansável do possível dentro do impossível.

Agora, quando me dói constatar que quase ninguém lembra do que foi a Revolução Sandinista, que quase ninguém tem ideia do que foi tudo aquilo, me chega a notícia de que chegou sua terceira – e derradeira – morte.

Ele foi o mais popular dos comandantes – e não por ser o mais sonhador: por ser o sobrevivente do sonho. É assim que quero, dele, a memória.

Penso na Nicarágua que podia ter sido e que não foi. Penso num país de miséria, de miseráveis e de sonhos.

Penso no país com mais vulcões em atividade no mundo. Em cada vulcão, um sonho de justiça. Penso que, no panteão dos heróis, há que abrigar Tomás Borge.

O Tomás que foi o mais popular dos homens de uma revolução que foi popular até a medula. E que depois, acabou.

Virou uma caricatura de si mesma, uma caricatura de todos nós.

Pobre Tomás.

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