Petistas divergem sobre privatização

Caio Junqueira | De Brasília
Valor Econômico – 07/02/2012

A concessão à iniciativa privada de três dos mais importantes e rentáveis aeroportos do país enfraquece um dos principais eixos do discurso petista contra os tucanos em eleições presidenciais. Além disso, acentua a divergência entre setores do partido que são contrários a esse modelo e os que são favoráveis.

“Isso é privatização. Se faz concessão ou leilão na Bolsa de Valores dá na mesma, é porque vai transferir para o setor privado. O partido e o governo terão que se explicar à sociedade porque era contra privatizações nos anos 90 e agora não é mais”, afirma Quintino Severo, secretário-geral da CUT, filiado ao PT e integrante da corrente interna Construindo Um Novo Brasil (CNB).

Ele diz que, diferentemente do partido, a central manteve a coerência e, assim como no governo Fernando Henrique Cardoso, se opôs ao leilão e fez manifestações em frente ao local em que ele foi realizado. “Isso fragiliza o Estado e a população, que vai pagar mais pelas tarifas. É, portanto, prejudicial à sociedade.”

Segundo ele, foram feitas reuniões dos sindicatos com os responsáveis pela aviação civil para tentar demover o governo da ideia, sem sucesso. Algo semelhante ocorreu no partido. Na última reunião do diretório nacional, o secretário de Mobilização, Jorge Coelho, da PT de Luta e de Massas, chegou a propor que o partido opinasse sobre o assunto, mas foi contestado. “Não fizemos debate com profundidade. Não está colocado como prioridade na pauta do partido. Não sei se é certo ou se não deu para discutir mesmo, mas agora já está feito”, disse.

A recusa da legenda em levantar esse debate às vésperas do leilão se deve, dizem integrantes da Executiva, ao fato de o tema ter sido explorado no Congresso do PT em setembro. Ali, houve a tentativa de grupos à esquerda incluírem a contestação do modelo na resolução. Em vão.

“Isso é objeto de debate permanente nas instâncias do partido”, afirma Valter Pomar, um dos expoentes da corrente Articulação de Esquerda, cujos integrantes tentaram incluir no Congresso um moção crítica às concessões. De acordo com ele, “havia e há outras soluções” para o problema dos aeroportos e que “o que está ocorrendo é um efeito colateral da gestão Jobim”, em alusão ao ex-ministro da Defesa Nelson Jobim.

Pomar, contudo, discorda que as privatizações nos aeroportos tendam a enfraquecer um dos pilares petistas nas disputas presidenciais. “O debate não é eleitoral. O modelo tucano é privatista. O nosso não é. E o contexto é pró-desenvolvimentista, não neoliberal. E concessão é diferente de transferir de graça patrimônio, como fizeram com a Vale (ao privatizá-la no governo FHC).”

Favorável às concessões, o secretário de comunicação do PT, deputado André Vargas (PR), confirma não ser consensual na legenda esses leilões, mas garante que a população “saberá diferenciar” petistas e tucanos quando o tema vier à tona. “A população sabe diferenciar a venda de um patrimônio público com a abertura de um processo de investimento para determinado setor. A privatização é uma estratégia neoliberal. Nossa visão é diferente. Isso não é o centro da nossa estratégia”, afirma.

Sob reserva, petistas alertam que as concessões de serviços públicos à iniciativa privada já estavam aos poucos sendo admitidas dentro do partido. Basta conferir nos três últimos programas de governo. Em 2002, quando Luiz Inácio Lula da Silva chegou ao poder após bater José Serra (PSDB), o termo “privatização” foi frequente nas páginas de seu programa. Na reeleição em 2006, a estratégia pegou de surpresa o desafiante Geraldo Alckmin (PSDB) no início da campanha do segundo turno, deixando-o sem indefeso. Não obstante tenha retomado o tema para atacar Serra em 2010, não há qualquer menção ou crítica à privatização no programa de governo de Dilma em 2010.

Ainda assim, a oposição já dava ontem sinais de que terá argumentos para contestar os petistas se o assunto ressurgir nas eleições de 2014. Para o líder do PSDB no Senado, Álvaro Dias (PR), Dilma “deveria pedir perdão ao povo por ter demonizado as privatizações”. “É surpreendente essa mudança de postura. A privatização foi a principal bandeira usada para atacar José Serra, e agora a presidente Dilma vai e as realiza”, disse o senador. “Ao fazer a privatização, o governo confessa a sua incapacidade de entregar as obras para a Copa.”

Até mesmo os próceres da privatização no governo FHC festejaram ontem. Elena Landau, então diretora de desestatização do BNDES, manifestou-se no twitter por diversas vezes: “Hoje me aposento e passo o bastão: Dilma é a nova musa das privatizações”. Em seguida, disparou: “Hoje é dia muito importante: o debate sobre privatizações se encerrou… e nós ganhamos”. (Colaborou André Borges).

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