O Silêncio Constrangedor

A recente publicação do livro “A Privataria Tucana” gerou imenso burburinho no meio político e entre aqueles que o acompanham. As graves acusações e montanhas de documentos levantadas pelo premiado jornalista Amaury Ribeiro Jr., vencedor de três Prêmios Esso e quatro Prêmios Vladimir Herzog, compõem uma caixa de munição praticamente inacabável de uma verdadeira metralhadora giratória apontada para a classe política brasileira.

A saraivada de denúncias atinge principalmente – mas não apenas – o consórcio demotucano, responsável pela chamada “Era das Privatizações” no governo Fernando Henrique Cardoso. Baseadas em documentos oficiais e em 12 anos de investigações, a tese principal do livro é a de que há uma estreita ligação entre as condições nebulosas das privatizações ocorreram em sintonia e os movimentos suspeitos de fortunas em paraísos fiscais, operados por eminentes tucanos ou pessoas próximas a eles e ao processo de privatização. Também logo na sua capa o livro também ataca o principal adversário dos tucanos. O jornalista denuncia uma guerra interna na campanha presidencial de Dilma Rousseff, entre Rui Falcão e Fernando Pimentel.

Não são, contudo, as acusações que são a parte mais importante na leitura da luta política e social: não é a denúncia ou o denuncismo, a insinuação ou a acusação de desvios que podem ter relevância nesse sentido. Embora o burburinho tenha aumentado – a conferir os resultados da ação do deputado Protógenes Queiroz (PCdoB-SP) em favor da CPI da Privataria – e o livro esgotado em 48h; ainda que sinais claros de irritação e preocupação tenham sido vistos entre o alto tucanato, inclusive vindos pessoalmente de José Serra, FHC e Aécio Neves; ainda que se observe o potencial que o debate suscitado pelo livro possa contribuir para a revisão das privatizações; mesmo assim, não é a denúncia a principal novidade na arena política.

Isso por que o principal método da luta política da oposição de direita tem sido o denuncismo. Como explicado por Luís Nassif no seu “Dossiê Veja”, existe uma metodologia de reverberação de denúncias que inicia-se por uma “reportagem investigativa” de uma revista; os ecos desta nos jornais; as denúncias feitas no Congresso Nacional com base nas reportagens; a cobertura televisiva do que, a essa altura, já é tratado como “crise”; e, finalmente, retornando às revistas que reproduzem novamente os efeitos de sua denúncia.

Esse método se mostrou insuficiente para derrotar a esquerda e o PT, embora tenha causado certos desgastes. É provável que, sem o apoio das grandes corporações da mídia – mas contando com blogueiros, tuiteiros, algumas revistas de menor circulação e sendo um grande sucesso de vendas – as denúncias de Amaury tenham resultado similar ou menor ainda na arena partidária.

Por outro lado, o fato da grande imprensa ter assumido um papel central na oposição aos governos petistas através das denúncias cria uma certa saia-justa quando se baixa uma “ordem de silêncio” quando a denúncia atinge a oposição demotucana. E é precisamente isso que ocorreu. Com uma impressionante disciplina, os jornalões, revistas e televisões da dezena de famílias que controla a mídia brasileira ignoraram solenemente o lançamento do livro e suas repercussões iniciais. Num segundo momento, atacaram seu autor, tentaram desmontar seu conteúdo e diminuir sua importância, mas tudo em nota de rodapé – nenhuma grande manchete ou grande notícia.

Por esses fatores que o campo da esquerda brasileira não deve usar esse livro para encurralar ou obter certa “vitória moral” sobre a direita oposicionista: os demotucanos não conseguiram vitórias por esse método; já se encontram suficientemente fragilizados pela suas seguidas derrotas eleitorais, pela desunião interna e pela inconsistência programática; e, por fim, não nos cabe defender a veracidade ou a procedência das insinuações feitas no livro. É em outro adversário que se deve focar, por outros motivos, com outros métodos e para outros fins.

São as famílias da mídia que ficam numa posição constrangedora com esse processo. Suas ligações entre si e com a direita partidária ficam cada vez mais nítidas e, também, fica cada vez mais óbvio do quanto a concentração da propriedade nas comunicações e o pensamento único propagado por essas corporações é incompatível e mesmo contraditória com a democracia – mesmo com a limitada democracia brasileira.

E é contra esse inimigo que a esquerda brasileira tem uma chance de desferir duro golpe. Não a uma corporação especifica ou aquelas que assumiram a tarefa de ser oposição; mas sim ao próprio modo como está organizada a comunicação no Brasil. Nesse momento de constrangimento às tradicionais famílias midiáticas, aliadas dos tucanos, é um bom momento para dar um passo adiante na disputa por uma das mais importantes reformas democráticas e populares, a democratização das comunicações.

Para isso, é fundamental que essa contradição seja apontada pelos partidos e parlamentares da esquerda e os movimentos sociais comprometidos com esse projeto, cada um do modo que lhe cabe. Não pela densidade das denúncias; mas pelo tratamento desigual e o pensamento único que permeia a grande mídia e limita o direito à comunicação. É esse exemplo que tem de ser usado, à exaustão, para demonstrar como a pluralidade de opiniões é fundamental para a construção de uma sociedade democrática. É preciso que se faça duros ataques, mas não direcionados a um veículo ou outro – isso seria prontamente rebatido como um ataque à liberdade de expressão – mas sim ao pensamento único e conservador do consórcio midiático que dirige quase todos os meios de comunicação de massas e “seleciona” denúncias segundo sua conveniência.

Se coloca como importante tarefa apontar que um determinado meio jornalístico tenha lado; mas que é fundamental que ele assuma esse lado e que, mais importante, que esse lado não seja o critério para concessões, subsídios, publicidade e privilégios. Que haja um modelo de comunicação democrático no Brasil, em oposição ao velho favorecimento às corporações-família da grande mídia.

É tarefa da esquerda brasileira compreender que o próximo período deve ser de ofensiva na construção e implementação de um projeto democrático e popular para a sociedade brasileira. E, nesse sentido, um dos fatores limitantes a ser superado para esse projeto é o monópolio da palavra; e essa é mais uma oportunidade cristalina de colocá-lo na defensiva. E nenhuma dessas chances deve ser desperdiçada.

Yuri Brito é estudante de Ciências Sociais da Universidade Federal da Bahia, militante do Coletivo Quilombo de estudantes e da Esquerda Popular e Socialista do PT (EPS/PT).

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Uma resposta

  1. Sou brasileiro e me orgulho de minha patria chamada ” Brasil ” (alguns em nóme do poder e do dinheiro se esqueçem) sou filiado ao PSB mas com todo respeito me da nojo e vontade de vomitar ao ver tanta impunidade, promessas e corporativismo resultado, ferro no coitado e manobrado o ” Póbre ” esses infelizes deveriam conheçer o Brasil e nosso povo,com toda modéstia como eu conheço, o Tocantins, Pará, Maranhão, mato Grosso, Piaui e assim essas praga em geral poderiam mudar Brasil e a politicagem barata e maldita q certamente e com a graça d Deus oslevará para o inférno o lugar de onde nunca deveriam ter saido, e ainda bem q vira e mexe tem uma praga retornando a sua origem (o Inférno) mas eu continuo sendo brasileiro.

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