O contexto africano nas relações internacionais

Correio Caros Amigos

Por Rafael Balseiro Zin

Em artigo recente sobre o continente africano e as relações internacionais, Sebastien Kiwonghi, um renomado especialista, argumentou que as consequências da descolonização na África são muitas, considerando em primeiro lugar a questão das fronteiras classificadas de “artificiais” por separar, às vezes, povos da mesma língua e da mesma cultura. Além disso, do ponto de vista econômico, os novos Estados são fracos e precisam ainda das metrópoles para sua sobrevivência, bem como na área securitária. Mais adiante, propõe que as outras consequências se referem aos conflitos territoriais oriundos da busca de hegemonia de alguns países com a pretensão de anexar alguns territórios ricos em recursos naturais. Contudo, esses argumentos todos evidenciam um cenário complexo em um continente que desperta a curiosidade de estudantes e pesquisadores e que evidencia, antes, um grande desconhecimento por parte da população em geral sobre as novas possibilidades de atuação da África no contexto político mundial, que se anunciam nesse início do século XXI.

Novas perspectivas

O continente africano vive hoje novas perspectivas com relação às possibilidades de inserção nas relações internacionais. No entanto, os países que compõem o bloco possuem uma série de dilemas e conflitos que dificultam sua atuação quando o assunto é política externa. E esse fenômeno se comprova por inúmeras razões. Ao mesmo tempo em que ocorre um avanço gradual nos processos de democratização dos regimes políticos – mesmo sabendo que partidos políticos são raros e que a autorrepresentação prevalece – há uma concentração de conflitos armados internos. Mesmo vivendo hoje um forte crescimento decorrente das políticas macroeconômicas, a África ainda é palco de uma dicotomia latente entre uma elite fortemente abastada e uma população um tanto empobrecida. Isso tudo, consequentemente, evidencia uma série de contradições intrínsecas ao continente africano. Em outras palavras, é possível dizer que, mesmo com grandes avanços, a África ainda é refém de questões internas e que são empecilhos que podem e precisam ser solucionados para uma maior e melhor atuação no contexto internacional.

Comparações

Nos países que compõem o continente africano persiste, ainda hoje, uma ideia concreta de que nunca serão bons o suficiente. Isso, pois, existe uma constante comparação com o mundo ocidental – em parte reflexo do complexo colonial bastante presente no continente. Não obstante, a enormidade de matrizes etno-religiosas é um agravante que impinge as marcas da oralidade e da pluralidade na cultura africana. Além disso, em sua grande maioria, são países que funcionam com redes pessoais e de lealdade. Outro fator complicador é a maneira como os países se apresentam nas grandes questões internacionais. Mesmo tendo alguma representatividade na ONU, acabam por não exercer forte influência nas decisões internacionais, com o objetivo de não entrar em conflito direto com os demais países que, porventura, possam se tornar futuros parceiros políticos e econômicos. Em linhas gerais, todas as características aqui elencadas mostram os atuais e principais dilemas que atravancam a inserção internacional africana.

Potência africana

No Brasil, especificamente, existem dois eixos centrais que permeiam o relacionamento com o continente Africano e que devem ser observados. Por um lado, temos a interpretação dominante dos meios de comunicação de massa, de uma parcela de empresários duvidosos e de alguns setores do universo acadêmico que falseiam uma imagem constantemente trágica e inelutável e que subjulga a potência africana. Por outro, no âmbito de Estado e das relações internacionais, temos uma crescente relação comercial em setores como o de energia, tecnológico-científico e agrícola. De qualquer maneira, no Brasil ainda se mantém uma errônea ideia a respeito do futuro do continente africano com base em argumentos enviesados e que se repetem com certa regularidade. Os meios de comunicação de massa, por exemplo, insistem em criar a imagem de uma África ditatorial e inerte aos problemas sociais de seus países. O setor empresarial brasileiro, mesmo acumulando ganhos comerciais nas relações entre Brasil e África, ainda duvidam das possibilidades comerciais com o continente de forma mais duradoura. Isso se torna um problema, ao mesmo tempo em que é parte de um processo crescente de parceria e cooperação internacional. E essa contrapartida pode ser observada na atual conjuntura entre os dois países. O Brasil foi um dos primeiros países do mundo a ter embaixadas na África. Além disso, a Embrapa, por exemplo, tem realizado um importante trabalho de auxilio na implantação de novas tecnologias agrícolas, o que permite maior autonomia na produção interna e fortalecimento do continente frente ao contexto global. De modo geral, é possível afirmar que o grande problema brasileiro com relação aos países africanos é que as tragédias e genocídios ainda são mais evidenciados do que as experiências de estabilização e crescimento econômico possibilitadas, inclusive, pela cooperação do Brasil com o continente africano.

Autoconfiança

Atualmente, no contexto das relações internacionais, a África caminha mais autoconfiante – fato este que traz novas possibilidades de atuação política externa. Mesmo tendo, ainda, baixa representatividade mundial e mesmo mantendo certa dependência direta dos países europeus (e agora da China), apesar do grande número de países que compõem o continente, as recentes iniciativas políticas internas e culturais chamam a atenção da comunidade estrangeira para o renascimento africano. Até porque, a África em números não é pouca coisa. Estamos falando de aproximadamente um quarto da superfície do planeta, com um território de 30 milhões de quilômetros quadrados e cerca de 10% da população global e que deverá dobrar até 2050. Dessa maneira, a África vem sendo escolhida como parte das prioridades para novas áreas e carteiras de empréstimos do Banco Mundial. Não obstante, agentes internacionais econômicos e estratégicos querem dividir cada vez mais seus balanços e projeções, a fim de alcançar novos mercados para a expansão da economia mundial. Essa conjuntura, portanto, mostra que existem razões para o otimismo em todas as regiões da continente, o que revela a existência de uma África em crescente internacionalização e nada marginal.

Rafael Balseiro Zin cursa Sociologia e Política na Escola de Sociologia e Política de São Paulo

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