DESABAFO DE “INTELECTUALÓIDE” ATEU

Publicado originalmente no Blog do Altino Machado

POR THIAGO FIAGO

O jornalista Altino Machado publicou em seu blog matéria revelando que o governador do Acre, Tião Viana (PT), pretende criar um Parque Gospel com verbas públicas, com ajuda do deputado federal Henrique Afonso (PV).

A matéria foi espalhada pelo Twitter, Facebook e a saraivada de críticas não demorou chegar.

Recomendando postagem da Maria Fro sobre o assunto, quero aqui analisar o muxoxo da Srª “advogada, evangélica e jornalista” Rachel Moreira no postDesabafo a uma sociedade hipócrita“:

1. Deixando de lado o apelo sentimentalista e pessoal das primeiras linhas (04 parágrafos!), ela afirma que nós, defensores das minorias, que levantamos a bandeira da igualdade (ahh, a generalização!) massacramos o governo de Tião Viana porque somos hipócritas: não nos posicionamos contrariamente à reforma da Catedral de Rio Branco, bancada com verbas públicas estaduais; o financiamento pelo Estado de todas as edições da Semana da Diversidade; os apoios financeiros ao Santo Daime e a reconstrução da Igreja Santa Inês (cujo estacionamento construído com verbas públicas é cobrado como se privado fosse).

Em primeiro lugar, é falácia de falsa analogia comparar a Semana da Diversidade (ou mesmo Paradas da Diversidade Sexual) ao Parque Gospel. O primeiro trata de políticas públicas como mecanismo de respeito e garantia de Direitos Humanos de LGBTs – o mesmo se dá com relação a eventos que discutam violência doméstica, criança e adolescente, idoso, raça etc.; já o segundo traz uma inconstitucional e promíscua aliança entre Estado e religião probida pelo texto constitucional.

Em segundo, o erro (se houve) do financiamento público dessas obras não explica tampouco justifica o erro do financiamento do Parque Gospel. O fato de ela não considerá-lo errado  também não o faz, magicamente, algo correto.

É verdade que “ações e políticas [estatais] devem atender aos interesses de todos os grupos sociais, étnicos, religiosos e políticos”, mas na exata medida dos limites que a Constituição impõe: no tocante às religiões, o Estado pode, no máximo, travar uma colaboração de interesse público (como a assistência religiosa em presídios, da qual discordo, mas não vem ao caso analisar).

Eu não sou acreano e desconhecia esses financiamentos. Terei prazer de mandar uma representação ao Ministério Público do Acre para tomar as medidas cabíveis.

2. A jornalista, bem como o líder do PT acreano, LeonardoBrito, alegam que está justificado o financiamento público do parque porque 50% dos habitantes do Acre são evangélicos, segundo uma pesquisa da Secretaria de Segurança Pública.

Desconheço qualquer outro estado em que uma Secretaria de Segurança Pública faça as vezes de instituto de pesquisa ou de IBGE para fazer esse tipo de levantamento. Tenho a leve impressão que talvez, apesar de a criminalidade ser equilibrada, o aumento de 187,3% na taxa de homicídios no estado não preocupe as autoridades acreanas.

Particularmente, prefiro confiar nos dados da Fundação Getúlio Vargas, que no seu “Novo mapa das religiões” (2011), com base na Pesquisa de Orçamentos Familiares (2008-2009) – IBGE, aponta que os evangélicos petencostais (24,18%) e mais os evangélicos de outras denominações (12,46%) somam apenas 36,64% da população. O Acre é o estado mais evangélico do Brasil, mas não chega a 50% da população – ou seria o milagre da multiplicação dos números não explicável pela matemática?

Ainda que assim fosse, o fato de a esmagadora maioria da população brasileira ser cristã não autoriza que o Estado deixe de lado o laicismo.

3. Quando alguém se refere a seus opositores como “intelectualóide”, a expressão diz mais de quem fala do que a quem se refere.

O  “lóide” lembra “debilóide”, “mongolóide”, que remete aos que têm síndrome de Down. Não é questão de ser politicamente correto, mas com certeza para quem tem síndrome de Down (ou ter um filho portador) não é nada prazeroso ouvir esse tipo de expressão infeliz e ofensiva. E isso vale para outras palavras que remetam a esse sentido, como é o caso de “intelectualóide”.

4. O apelo à divindade de Jesus ou qualquer coisa que o valha não é argumento racional para se colocar numa discussão pública, em que está em jogo dinheiro público (não só de evangélicos!), mas a jornalista desconhece os mais básicos princípios de um debate racional, tantas e tão sofríveis são as falácias, os argumentos.

O que merecia refutação era isto. O resto é tão descartável quanto o texto todo.

É de causar, no mínimo, indignação que num Estado onde certamente há muitos problemas a ser resolvidos (educação, segurança, saúde, habitação, saneamento básico etc.) o governo de um histórico petista (cadê os princípios do partido? Por que a vista grossa dos dirigentes petistas?) se proponha a encampar tal projeto.

As igrejas evangélicas são isentas de tributos (impostos, por exemplo) e arrecadam milhões e milhões de reais todo ano com essa isenção e com o dízimo, maliciosamente se aproveitando, em regra, do sofrimento, angústia e fé dos fieis, com direito a aulas de como extorqui-los. A arrecadação é tamanha que dá para fazer lavagem de dinheiro; a grana também viaja em jatinho em malas de bispos que também são parlamentares no Brasil e no exterior.

Desde a eleição de 2010, o fundamentalismo religioso (não compartilhado por todos os religiosos, deixo claro!) tem mostrado suas asinhas no Legislativo. Está na hora de abrir os olhos e agir contra essa investida que deseja tomar o poder e sacrificar qualquer um que não compartilhe de sua crença – uma talebanização do país. Como bem diz o pastorRicardo Gondim, “Deus nos livre de um Brasil evangélico”. 

Thiago Fiago é jurista e escreve no blog “Comendo o fruto proibido
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3 Respostas

  1. O que quero ressaltar é que, apesar de uma estrondosa expansão do mercado da fé e dos negócios evangélicos no Acre – pois é disso que se trata: negócios – a taxa de homicídios só fez aumentar assombrosamente. O que desfaz mais um mitop. O de que a religião afasta faz diminuir a violência. Olhando para todas as matanças realizadas em nome de alguma religião pelo mundo, vejo que a expansão comercial desse negócio não tem nada a ver com religião e sim, com a velha e manjada política. As igrejas, para não se expor em partidos políticos e como tal terem que prestar contas a sociedade, disputam o poder na sociedade como qualquer partido. Agora, o partido pode ser alvo de criticas e debates e as igrejas se protegem sob o escudo da “liberdade de culto”. É tudo uma questão de mercado e disputa de poder. Nada além disso. E o Tião Viana, apesar de ser do meu partido, o que está fazendo é oportunismo: mira os votos e o poder. Nem a tal advogada nem o Tião acreditam nessa conversa insana que os evangélicos pregam. Milagres, arrebatamentos, extases, etc, etc. Tudo alucinação coletiva e grandes negócios.

  2. Qual é o problema com o parque gospel? Sou teia mas adoro música gospel e iria com todo prazer a confraternizar nesse parque porque sou a favor da tolerancia.

    O que sim questiono é o governo proteger os membros da seita SANTO DAIME que administra drogas à crianças inclusive com poucos meses de vida. Isso sim é um crime!

    Agora, que mal há em um parque gospel? Por acaso será um parque segregacionista? Claro que não! Então parem com essa intolerancia religiosa! Os ateus tambem podem ir no parque assim como vão visitar igrejas durante suas viagens turísticas porque fazem parete do acervo cultural da humanidade.

  3. Ah, sou ateia e petista, mas não sou contra o parque gospel.

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