“Meu nome é Harvey Milk e eu quero recrutá-lo” ( via @cinematerapia)

Milk[1]

(Milk, 2008)

Por Eduardo J. S. Honorato, Denise Deschamps e Mateus Sant’Ana[2]

“Meu nome é Harvey Milk e eu quero recrutá-lo”

Sinopse

Trailer

Gostaríamos de esclarecer que não pretendemos esgotar os temas Homossexualidade e Preconceito em espaço tão curto, nem tão pouco abordar todas as possibilidades de leitura deste filme, mas sim, apresentar um ponto de reflexão que este pode gerar.

Primeiramente é preciso relembrar algo que, a primeira vista, parece simples, mas não é: a terminologia. A Organização Mundial de Saúde excluiu o “homossexualismo” da lista de “doenças” em 1° de janeiro de 1993 . Sim, Essa situação já fez festa de debutantes e tem profissional que ainda não percebeu isso.  Assim, houve uma mudança na nomeclatura. Você deve se lembrar das suas aulas de português no Colégio, onde aprendeu que sufixos “ismo” denotam doenças. Portanto, o termo homosexuaLISMO está equivocado, ultrapassado e pejorativo. O correto é HomossexuaLIDADE. Isto é bastante relevante, especialmente para profissionais e estudantes, pois temos obrigação ética de usar as terminologias corretas.

A Academia se rendeu a Sean Pean, lhe dando o Oscar de Melhor ator nesta película. Baseada em fatos reais, poderia ser apenas mais um filme sobre direitos humanos, igualdade, luta homossexuail. Mas Milk vai além de tudo isso: é uma lição sobre Perseverança, Compaixão e Força de Vontade.

Não há como não se emocionar, se sentir indignado com algumas posturas homofóbicas, não vibrar pelas vitórias e chorar. Sim…Assista ao filme e quando Harvey ganhar sua primeira eleição, aumente o volume da Tv, GRITE….com força e bem alto. Aproveite esse momento para comemorar algo seu, mesmo que não tenha relação com o filme. Use esse momento do filme para extravasar e limpar sua chaminé. Use o filme como catalizador para as suas buscas, as suas conquistas, os seus ideais.

Harvey foi um ativista diferente, que quebrou preconceitos com chistes e aos poucos foi conseguindo seu espaço. Infelizmente, como diz logo na abertura, foi vítima de um “mal resolvido”, ou, como já publicado na Revista Psiquê, “Em alguns casos, a homofobia internalizada poderá ganhar contornos de uma manifestação projetiva e apresentar-se ao mundo externo como perseguição ao objeto temido. Nesta situação o sujeito desenvolve toda uma estratégia de perseguição à homossexualidade. Isto é muito observado em grupos organizados, tais como os de cunho religioso ou mesmo militares”. Nada mais nítido do que o demonstrado por algumas personagens dessa jornada de Harvey.

Algumas cenas com formas de preconceito mais arcaicas, mais pejorativas, podem te despertar NOJO. Sim….nojo de pessoas que se dizem religiosas, caridosas ou que amam ao próximo, usando a religião e seu poder para disseminar seus conflitos e questões sexuais mal resolvidas,  usando um escudo “pelo bem da família”. Que conceito pode ser esse de família que segrega, exclui, odeia e persegue tudo que foge as suas estreitas regras?

Trinta anos depois do enredo deste filme, aqui no Brasil ainda apresentamos os mesmos “sintomas sociais” em nossas cidades. Harvey e seu namorado se beijam na rua, em frente a sua loja, em plena década de 70. Mas, a violência contra homossexuais surge em diferentes países ainda nos dias de hoje, onde ser diferente caracteriza um ato de violência, agressão e até mesmo morte, como poderíamos citar manchetes recentes: Espanha, Hungria, Bósnia, Gâmbia, Pernambuco, São Paulo (universidades)

Estamos falando de ambientes públicos –  Universidades –  que cumprem sua função de “garantir a conservação e o progresso nos diversos ramos do conhecimento, pelo ensino e pela pesquisa”(Aurélio, 2006).  Locais onde em épocas de ditadura militar os estudantes “revolucionários” arregaçavam  suas mangas e foram as ruas gritar liberdade e justiça, e hoje é  cenário de manifestações sintomatológicas como as de homofobia.

Enquanto profissionais de Psicologia, temos um compromisso etico na nossa atuação, respaldada por nosso código. O interessante é verificar que o mesmo artigo deste Código, que versa sobre as questões religiosas na atuação, também menciona as questões ligadas a sexualidade. Porém, essa breve menção não foi suficiente para convencer alguns profissionais de que uma postura de “cura” ou “tratamento” da homoafetividade é algo nada ético, e por isso, o CFP homologou a resolução 01-99 – Sim..há dez anos, afirmando que o tratamento de homossexuais por profissionais psicólogos não é permitido, uma vez que não é considerado uma doença. Se há algo que precisa ser “tratado”, é a homofobia, e não a homoafetividade Os Psicólogos Fabrício Vianna (autor de “O Armário”) e  João Brito são alguns dos profissionais que debatem e divulgam este tema, reforçando estas questões, seja online, seja em palestras, seja em livros.

Após assistir esse filme, se coloque no lugar destes personagens. Digamos que você tem uma crença religiosa, que você ama seu esposo ou esposa, é apaixonado por seus filhos ou animais de estimação. Supondo que voce tenha relações de afeto e carinho com pessoas da sua família. Como você se sentiria se fosse “proibido” ou “coibido” de demonstrar publicamente suas crenças religiosas, seu amor por sua esposa ou filho…..E se, um dia, você não puder mais expressar seus sentimentos – algo que nos torna mais e mais humanos – como você diria “eu te amo” em público e em voz  alta?

Se você tem o direito de não ser agredido quando abraça seu filho, eles também tem o direito de não o serem. Parece algo simples e objetivo, mas infelizmente não é. A intolerância sexual ainda está fortemente marcada em nossa sociedade.

Percebemos que a questão homoafativa faz parte da evolução da sociedade, e o direito tem o papel principal de acompanhar tais ajustes, como podemos citar o projeto de lei PLC 122/2006.

As criticas a este projeto não tem respaldo jurídico convincente , pois alegam que fere a liberdade de manifestação e de pensamento, mas esquece que a Constituição é clara no Art. 1º no que diz , constitui-se em Estado Democrático de Direito e tem como fundamentos: inciso II dignidade Humana. Ao assistir ao filme não podemos deixar de fazer uma comparação com o que aconteceu nos Estados Unidos nos anos setenta. Desculpas religiosas deturpando a política. Que grande coincidência!

Pensar na diversidade sexual como algo que faz parte da nossa humanidade é combater toda e qualquer prática da homofobia no meio social, prática essa muitas vezes exercida de forma velada, mas em algumas situações peculiares expressa com extrema violência e perseguição. Partimos do fato de que a homofobia é um mal que atinge tanto os heterossexuais quanto os homossexuais, que a exercerão contra seu próprio organismo, muitas vezes estabelecendo um quadro de profunda depressão que alimenta a alta taxa de suicídios existente dentro desse segmento da população.

Se você quer tornar a sociedade um local mais tranquilo de se viver, mais harmonioso para seus filhos, amigos e parentes, reflita sobre a sua contribuição no sofrimento psíquico destes milhões de brasileiros. Talvez, como suavemente aparece no filme, tocando ao fundo como trilha sonora de uma das passeatas, possamos ter “ Em algum lugar sobre o arco-íris…E os sonhos que você se atreve a sonhar
Realmente se realizam”

Se o filme tem essa função também de desconstruir velhos e arraigados pré-conceitos, é sempre porque traz em si a capacidade de nos fazer refletir sob outros pontos de vista e de uma forma emocionada, mas nada adianta se choramos e nos emocionamos e ao virarmos a esquina buscarmos a proteção das nossas velhas crenças. Se Harvey deixou-nos um recado, esse foi com certeza nessa direção, não adiantam crenças e respeito sem respectivas ações modificadoras. Tivemos ao longo da história muitos líderes que lutaram por causas das minorias, ou das parcelas oprimidas da sociedade, mas de nada adiantaria a luta deles se cada um que foi tocado por seus argumentos não se comprometesse em espalhá-los em palavras e atitudes.

Sean Pean se deixou tocar e transformou em ação quando aceitou esse papel. Houve um circular de notícias quanto ao fato de que aqui no Brasil, a pessoa que sempre dublou Sean Pean,teria se recusado a dublá-lo nesse filme, se isso for uma informação procedente nos remeterá exatamente aquilo pelo qual o personagem representado tão delicada e lindamente por Sean Pean, teria perdido mais um “round” dessa luta que ainda não está ganha, o combate a homofobia que segrega uma parcela considerável da população apenas por amar diferente de uma maioria heterossexual.

Por que um beijo incomoda tanto? O que há de afronta em duas pessoas apaixonadas que vivem isso, também, publicamente, dentro das reservas que são postas para relacionamentos sejam homo ou hetero afetivos? Não acreditamos, assim como Harvey, que possa haver uma resposta coerente para essa pergunta.

Em uma época de crescimento de perseguições a homossexuais aqui no Brasil e de correntes religiosas, que se utilizam de um discurso falaciosos para defender a continuidade dos comportamentos homofóbicos, legitimados por uma moral decadente e extemporânea, esse filme chega em muito boa hora. Que promova debates e novos pensamentos. Que via a emoção que provoca no espectador possa abrir brechas e tocar corações, como fizeram antes dele, os personagens de “Brokeback Mountain”. Que afinal o amor vença, que sigamos construindo um mundo menos bélico, menos intolerante, mais unido por ideais fraternos e respeito à diversidade que é o que nos torna mais humanos, seres da cultura, e não bárbaros movidos por instintos.

Em um dos seus mais belos discursos, Harvey diz: We have got to give them hope”.  Para o público brasileiro fica a esperança de que em breve teremos Leis que coibam atitudes homofóbicas. Leis e posturas que Harvey lutou há trinta anos nos Estados Unidos, e nós, ainda engatinhamos por aqui. Precisamos de mais “Harveys” na nossa política. Esta pode nao ser a “sua” luta, mas é a dos seus filhos, netos e gerações futuras, por uma sociedade mais igualitária e saudável. Abrace esta causa e se deixe recrutar por Harvey!


[1] Partes deste artigo foram publicadas originalmente em edições da Revista Psiquê Ciência e Vida, da Editora Escala.

[2] Acadêmico de Direito do CESUSC, que colaborou com este texto.

Post publicado originalmente em cinematerapia

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