Os impasses do PSDB – 3

Enviado por luisnassif,

Por daniel diniz

Pode ser tudo isso, mas tenho pra mim que um relevante deflagrador da crise contemporânea do PSDB está lá atrás, no momento de seu máximo sucesso.

O PSDB chegou ao poder muito cedo, com apenas seis ou sete anos de existência. Ainda não havia governado nada, excetuando uma ou outra prefeitura (se não me engano), não havia passado por momentos de depuração partidária (como o PT nos anos 1980, como no caso da eleição de Tancredo, etc).

Ao lado disso, foi sendo sistematicamente abençoado por uma mídia simpática aos seus quadros e suas idéias. Ainda há de se escrever, historiográfica e corretamente, sobre o deslumbramento real da imprensa com FHC. Muito se fala que havia interesses, etc. Havia, claro. Mas havia um enorme otimismo em relação ao seu governo e sua figura. Mesmo no final do seu segundo governo, ainda se suspirava pela falta que aquela inteligência e fina estampa fariam. FHC encarnava muito fielmente o sonho cosmopolita daquela elite, inclusive na imprensa. Pois bem. Ao lado disso, havia o PSDB real, conchavado com o PFL, que cresceu, entre 1994 e 1998, de forma assustadora.

(…)

, atualmente, foi muito hábil na tendência ao inchaço que todo o partido tem quando chega ao governo. O PT cresceu sim, mas não inchou. Antes, fez inchar os coligados. O PT implodiu e reorganizou todos os seus coligados – do que o maior e mais completo exemplo é o próprio PL que lhe foi vice em 2002 e do qual nada sobrou em pé.

O PSDB, conquanto tenha também permitido o crescimento tangencial de seus coligados, inchou mais que todos eles. Não havia canto do país sem um prefeito do PSDB – que geralmente tinha origem na Arena, etc, etc. Completamente deslumbrado com o súbito crescimento, o partido tornou-se refém de um jogo em que, grau a grau, perdeu o controle. Uma coisa é FHC subir no palanque com ACM no interior da Bahia em 1994, para garantir uma vitória naquela eleição e impor sua agenda modernizante.

Outra, muito diferente, eram os inúmeros coronéis e assemelhados espalhados pelo Brasil profundo mantendo suas estruturas coronelistas aliados ao governo pretensamente modernizante. Ludibriado pela idéia de 20 anos no poder – que hoje o partido critica no PT mas que Sérgio Motta defendia para os tucanos – o PSDB aceitou lenientemente todo o tipo de quadro, qualquer tipo de crescimento.

Ao lado disso, e também daqueles tempos, determinada arrogância de FHC – inclusive aqui mesmo no Nassif tão bem diagnosticada – que não podia facilmente aceitar alguém a lhe fazer sombra.

É fato que o PT hoje, sobretudo após o mensalão, tem poucos quadros nacionais com capilaridade e viabilidade eleitoral; contudo, também é fato que Lula soube e, possivelmente, saberá, operar o milagre de forjar esse quadro do nada se preciso for (o que a eleição de Dilma parece confirmar). E, atente-se, aceitando e açulando a noção de que o outro poderia ser muito melhor que ele próprio.

O PSDB de FHC, inclusive por meio do que gostava de transparecer o próprio ex-presidente, parecia ter sido o melhor que os tucanos poderiam oferecer; o PT de Lula sempre buscou sublinhar, inclusive por meio da fala do próprio Lula, que iniciava-se em Lula uma fase especial que ainda prometia muito.

Inchado artificialmente em nível muito além do controlável e sem uma liderança internamente construída para fazer frente aquilo que partido, imprensa e classe média tradicional consideraram a fase de ouro do governo federal brasileiro, o PSDB, na medida em que afastou-se do poder (e sem pra ele conseguir retornar eleição após eleição) viu minarem os quadros que, originariamente para ele acorreram no calor do primeiro governo.

Já na última eleição presidencial tornava-se claro: sobraram apenas os fundadores, mais uma meia dúzia que chegou depois e que ajuntou-se a um dos lados para construir a face mais agressiva da campanha de 2010. Era natural portanto que, queimada toda a gordura acumulada em oito anos de governo nos oito de oposição, sobrasse ao PSDB real (o dos fundadores) se desarticular por completo pois já estava sem gordura e, o principal, sem um novo FHC.

A entrevista de Leôncio Martins parece clara: não se considera, fora de Minas, um Aécio lider. Nem Serra ou Alckimin de fato. Não há um novo FHC; talvez por isso o choro isolado do ex-presidente em artigos que ora exortam uma oposição ideologicamente morta ora lamuriam um governo que em nada se parece com o seu.

O PSDB acabou. Assim como o DEM. O que virá em seus lugares? O PSD? Kassab aprofundou uma política higienista em São Paulo; Kátia Abreu é a principal liderança contra a reforma agrária no país e os Borhausen, bem, dispensam comentários. Ou seja, quando se pensa que a coisa vai melhorar, é aí que piora tudo mesmo

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