Passageiros andam ‘como sardinha em lata’ em trens de SP

Rede Brasil Atual acompanhou os usuários da Linha 12 – Safira, em horário de pico. Grávidas, crianças e idosos sofrem em trens superlotados
Por: Suzana Vier, Rede Brasil Atual

Passageiros andam 'como sardinha em lata' em trens de SP Trens trafegam superlotados (Foto: Suzana Vier/Rede Brasil Atual)

São Paulo – Sexta-feira, 6h54 da manhã, mais um trem chega à estação São Miguel Paulista, zona leste de São Paulo. Os bancos da plataforma estão cheios. Dentro dos vagões, a situação não é diferente. Pelas janelas da composição antiga, abertas até a metade, dá para ver os rostos nada animadores de quem está lá dentro. O motorista Vagner Palazolo nem se levanta. Apesar do horário, ele decide aguardar mais um pouco na esperança de um trem mais vazio – é o primeiro de três baldeações que precisa para chegar ao trabalho, na Barra Funda, zona oeste da capital paulista.

A situação da Linha 12-Safira é característica de passageiros que precisam pegar uma das sete linhas da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM), na Grande São Paulo. Apenas uma das linhas – a 10-Turquesa (Luz-Rio Grande da Serra) – apresenta menos do que seis pessoas transportadas por metro quadrado em horários de pico. As demais têm até 8,4 passageiros por metro quadrado.

A piora do serviço foi registrada nos últimos 12 meses, segundo a Secretaria dos Transportes Metropolitanos, em função da expansão das linhas. “Toda vez que a malha é ampliada ou o serviço apresenta melhoras, a demanda aumenta, atraindo novos usuários”, justifica a secretaria. Foram 232 mil pessoas a mais por dia nos trens municipais. O aumento na lotação indica que a capacidade de atendimento foi menor do que a demanda pelo serviço.

Aperto

Na plataforma, quem não tem mais tempo, arma sua estratégia para chegar à estação Brás, região central de São Paulo, onde há integração com o Metrô. “É hora de mirar um porta e torcer para conseguir entrar”, ensina Palazolo. “A gente mira uma porta e aposta nela”, aponta, com o dedo indicador voltado às pessoas que correm para acompanhar a composição que chega.

O trem para. Algumas portas abrem, outras não, mas todas estão lotadas. “O trem vem, mas como e que a gente embarca? Esse é o trem pequeno. Ele abre a porta, mas não tem como entrar e, se você entra, não tem como se mexer”, descreve o motorista. A briga certa, ou com a própria porta, ou com outros usuários. Alguns tentam dificultar a entrada de mais gente, por causa da lotação. “As pessoas estão estressadas, chega aqui e vê essa lotação. Dá briga mesmo”, admite. A composição parte. 

Em dez minutos, uma nova máquina se aproxima. Com a experiência de quem faz o mesmo itinerário há quase dez anos, o motorista decide continuar aguardando mais um trem, mas o horário já está ficando apertado. Mais uma composição chega. Palazolo decidi ir e some, em meio à correria por uma porta vazia. Lá vai o motorista com uma bolsa pequena de mão, onde carrega o uniforme da empresa, que ele torce para não amassar no transporte coletivo.

Homens e mulheres quase se jogam para dentro do trem, caibam ou não no vagão. É como se apostassem na “revogação” da lei da física de que dois corpos não ocupam o mesmo espaço ao mesmo tempo. Na última hora, um passageiro tenta embarcar. Um dos pés fica dentro e outro, fora, sobre uma base metálica que serve para reduzir o vão entre o trem e a plataforma. Ele puxa, força, mas não consegue. O tempo passa, e vem o aviso de fechamento das portas. Um segurança ajuda o homem a caber no trem e força a porta a fechar.

Em outro lado, uma mulher não teve a mesma sorte. “É comum ver bolsas ficarem para fora”, comenta a usuária Shirlei Bianca. Desta vez foi o corpo inteiro que ficou fora do vagão. Dois guardas correm, um segura as portas, para mantê-las abertas e outro empurra a mulher para dentro. Só depois que todas as portas estão fechadas, o trem segue, mais cheio do que chegou.

Como ‘sardinha em lata’

Uma jovem de cabelos longos que aguarda nota as pessoas em pé e respira fundo. Atendente de call-center, Adriana de Oliveira está grávida. Quando um novo trem chega à estação, a trabalhadora levanta e escolhe uma porta, mas logo desiste. Decide ir para o início da plataforma, na tentativa de encontrar algum espaço onde possa viajar com mais segurança. “É preciso respirar fundo para entrar nesse trem”, exclama.

Adriana diz que ainda será pior com o andamento da gravidez. “Aí, realmente não sei o que fazer, vou ter de enfrentar, tenho de trabalhar”, indaga. “A gente parece sardinha em lata nesses trens”, compara. Sua nova tentativa tem sucesso e apesar de embarcar em pé, tem algum espaço para se movimentar no vagão.

Sem tirar o pé do chão

Enquanto espera o trem, Cleidiane Silva Reis conta que estava dentro do Metrô que teve problemas na terça-feira (21), e mesmo diante da comoção que o problema causou em toda a cidade, o chefe não compreendeu seu atraso. “Nem todo mundo entende. Meu chefe acha que eu devia ter feito mais, me esforçado mais, para não me atrasar”, descreve.

Ela prevê entrar no próximo trem que chegar à estação São Miguel, porque afinal não pode chegar atrasada. “Lá dentro, a gente tem de aguentar aquele ar quente. Se você entrar com a mão abaixada, depois não consegue levantar, porque não dá para se mexer. É aquela história: se você tirar o pé do chão, não volta mais”, brinca.

Na estação Brás, onde ocorre a interligação com o Metrô, ela explica que é preciso ter mais uma dose de calma, porque vai enfrentar mais espera e dificuldades para embarcar. “São dez ou onze trens para eu entrar. Só indo lá dentro mesmo para ver”, indica a trabalhadora.

Por volta de 7h30, a lotação vai caindo e uma ou duas pessoas conseguem entrar por cada porta, embora os vagões permaneçam lotados. Além de permanecer em pé é preciso ter força nos braços para se segurar no trem.

De terno e viajando no limite entre vagões, Antonio Carlos de Oliveira viaja em pé e dorme, apesar do balanço dos vagões. “Eu aproveito o trem para descansar”, admite. Segundo ele, é preciso aproveitar as duas horas que passa no trem, em seu trajeto de Itaquera até a Mooca, onde trabalha. “É todo dia assim, não muda, então eu prefiro me desligar um pouco para enfrentar o dia”, afirma.

Mãe e filha

A assistente administrativo Rosivania da Silva viaja sentada com a filha Larissa, de 8 anos, deitada no ombro. Nem todo dia é assim. Conseguir um lugar nos trens que ligam a região metropolitana a São Paulo, em geral, depende muitas vezes de estratégias que demandam mais tempo ainda no transporte coletivo.

Rosivania, por exemplo, mora no município de Itaquaquecetuba e apesar de contar com uma estação de trem na cidade, onde ela poderia embarcar diretamente para a capital paulista, ela prefere embarcar no sentido contrário para, no ponto final, fazer a baldeação e seguir na direção necessária. “A gente pega o trem em Calmon Viana para voltar sentada, senão fica até perigoso para minha filha”, explica.

Na semana, Larissa já tinha sofrido dois acidentes, um empurrão e uma cotovelada de outros passageiros. “A lotação é tanta que chega a machucar a menina”, condena a mãe. No final da tarde, no retorno para casa, quando a menina não consegue lugar para sentar, “vai dormindo sentada no chão do trem”, revela Rosivania. Larissa acompanha a mãe para o trabalho desde os dois anos de idade. “Antes não tinha com quem deixar e agora ela estuda em São Paulo”, explica. 

Segundo a assistente administrativo, é comum o trem quebrar durante o percurso, o que obriga os usuários a saírem do transporte e caminharem na linha. “A condução é cara e quebra muito”. “O governo colocou trem novo, mas tirou os antigos, aí não adianta”, analisa a trabalhadora que passa cerca de três horas diárias dentro dos trens da CPTM.

Mais uma viagem terminada, Larissa desperta no Brás. Por sorte, conseguiram viajar sentadas. Rosivania passou a viagem ouvindo música e acariciando o rosto da filha em seu ombro. A estudante adormeceu e acordou várias vezes no vai e vem da máquina nos trilhos. Ainda não chegaram ao destino final. Para evitar a lotação na transferência para o Metrô no Brás, as duas embarcam em um novo trem para a Luz, onde ela trabalha e a filha estuda.

No último trem da manhã, não há lugares disponíveis. Larissa improvisa. Corre para um lugar vazio, mesmo longe da mãe e senta no chão, sorrindo para a mãe perceber onde está. “É triste ver a filha da gente dormindo no trem, mas ela até está acostumada, não reclama. A vida da gente é mesmo difícil”, reflete Rosivânia. Larissa já abaixou a cabeça e tenta mais uma soneca antes de chegar na Luz e o dia de trabalho e estudo começar para as duas. Quando chegam, torcem para que o resto do dia seja bom.

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